Adolescentes são um perigo! Para as pessoas a sua volta, tanto para si mesmas. Esta é uma história da irresponsabilidade adolescente colocando à própria vida em risco por absolutamente nada de valor e as consequências para quem o ama.
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Renata viveu sua vida inteira no morro. Nasceu no Hospital Municipal Paulino Werneck e foi criada livre nas ruas do morro do Boogie Woogie. Lá encontrou seu primeiro namorado, perdeu sua virgindade e teve seu primeiro filho, o Renato. O pai, como é muito comum, desapareceu no mundo quando soube que seria mais um pai adolescente.
Renata criou seu filho enfrentando inúmeras dificuldades, sendo a principal morar na casa de seus pais junto com suas outras quatro irmãs. Apenas o irmão mais velho, Fábio, foi morar sozinho após servir no Exército. A casa era pequena e os atritos comuns. Piorando a cada filho que uma de suas irmãs acabavam tendo, escapando apenas a Heloísa, que muitos diziam ser 'Sapata'.
Dificuldade após dificuldade, Renata conseguiu superar os problemas e conseguiu criar seu filho sozinha, pois decidiu não mais casar, apesar de continuar tendo um ou outro namorado de vez em quando. Renato acabou sendo criado sem pai e sem uma figura forte ao seu lado, por este motivo, aparentemente, acabou sendo um 'desgarrado'. Uma espécie de rebelde sem causa, que gostava de viver livremente nas ruas do morro aprontando coisas de criança. Ficou irresponsável e não conseguia entender o significado da palavra: Conseqüência.
Quando fez quinze anos, este seu comportamento o colocou em problemas sérios. Tomou todas em uma festa na rua e começou a gritar que era do TC (Terceiro Comando), a facção que dominava o tráfico no morro naquela época. Ele gritava 'alto e em bom som' para todos ouvirem suas palavras. 'Tirava onda' com as meninas e chegou mesmo a 'passar a mão' em algumas delas, aproveitando a impunidade do medo de todos que não sabiam a verdade. A verdade... ele era apenas uma criança tola e estúpida, como todos os adolescentes são, querendo aparecer para o mundo sem ter nada de especial. Ele via a participação nesta facção criminosa como algo importante e digno de nota. Sua mãe ao saber do que fizera, o repreendeu, mas ele disse para ela 'não esquentar'. “Quem vai relar a mão em mim... um cara do Terceiro!” Vangloriou-se ao cair na cama e curar a ressaca do 'porre' que tomara.
Sorte não anda ao lado dos inconseqüentes! Uma semana depois o morro foi invadido e uma facção rival assumiu o controle do morro. Todos os membros do TC fugiram logo após os primeiros disparos. O morro estava sob nova direção. Um dos invasores bateu na porta de Renata e deu um ultimato para seu filho: “Some com ele daqui, senão vai dormir com as formigas!” Bateu o desespero, Renata e suas irmãs juntaram até o último trocado, tentaram encontrar o pai delas para pedir ajuda, mas este estava em outra cidade trabalhando de pedreiro. Procuraram o novo 'dono do morro', mas este foi irredutível e ainda ameaçou fazer algo com cada uma das 'bonitinhas' ali se o encontrasse na casa delas à noite.
O inconseqüente, ao saber do que acontecera, resolveu que iria enfrentar a 'parada' e não iria 'arregar' pra ninguém. Renata chorou e implorou para que ele fosse embora, mas ele não fez nada disso. Sumiu pelas ruas do morro e escondeu nas lajes que ele conhecia bem de 'soltar pipa'. Os novos proprietários do Boogie Woogie bateram na porta de Renata, que lhes implorou de joelhos que não fizessem nada com seu 'menino'. “É só um garoto tonto, não sabe o que diz!” Você daria atenção a estes pedidos? Muito menos eles! Seguiram em frente e bateram em portas, até que alguém 'dedurou' onde ele estava escondido. Foi bala para todo o lado. 'Sentaram o dedo' para cima dele, que percebendo a seriedade da sua estupidez, correu mais do que o 'Papaléguas'. Os cara do tráfico disseram que nunca viram alguém correr tanto e ainda se desviar das balas como ele. Penso eu, que foi apenas a falta de pontaria daqueles idiotas que se acham os 'reis da cocada preta', mas isto é tema para outra conversa.
Renato chegou até o Jardim e dormiu na praia embaixo de alguns barcos de pesca velhos. No dia seguinte, conseguiu falar para sua mãe onde estava e aceitou fugir. A mãe mandou ele para a casa de um antigo namorado que fora morar em Itaperuna. Foram quase seis anos sem ver o filho.
O morro passou por diversas mãos e até esteve livre do tráfico por um longo período, mas Renata nunca chamou o filho de volta. Lá em Itaperuna, ele terminou os estudos e até arranjou trabalho. Acertou a vida e estava se transformando em um homem. Renata nunca teve coragem de visitá-lo, pois temia que fosse seguida e acabasse levando seu filho à morte.
Após os seis anos, Renato decidiu por si que já não havia mais perigo. Achou que todos os que ouviram ele falar aquelas tolices impulsionadas pela 'cachaça' já não estariam no morro ou teriam morrido. Voltou, primeiro para a casa de uma tia e depois apareceu no morro para ver a mãe, as tias e as avós. Tudo correu bem nesse dia, ele ficou toda a tarde lá e só voltou para a casa da tia durante à noite. No domingo havia uma partida de futebol no Campinho da Vila Panamericana. Renato não falou nada para sua mãe e resolveu vir para o jogo e depois almoçar com ela.
Estava bebendo próximo ao campo, quando um dos garotos da facção rival, que estava passando, o viu. Era um daqueles que o perseguira. Não pensou duas vezes, resolvendo ganhar algum prestígio, foi até sua casa e apanhou uma pistola. Seguiu tranquilamente até o Campo da Vila e quando viu Renato conversando à beira do gramado, se aproximou, encostou o cano da pistola na cabeça dele, puxou o cão e atirou à queima roupa. Renato já chegou no chão morto e sem parte de sua cabeça, completamente deformado pela violência do disparo. Todos correram e o assassino saiu dali tranquilamente e feliz por ter 'ganho' algum respeito com seus camaradas. Renata foi avisada e nem pode ir ver o filho estirado no campo de várzea, coberto de lama e sangue. Desmaiou e teve de ser levada para o hospital. Ela nem ao menos pôde se despedir de seu único filho, perdido para a inconsequência adolescente.