30 junho 2007

Poesia - Portas

Nosso parceiro continua suas desventuras pela vida e o destino em seus versos cotidianos, como agora apresentamos.

PORTAS

BATI EM MUITAS PORTAS,
TANTAS QUANTAS EXIBIAM
ANÚNCIO DE AJUDA,
TODAS AS QUE ALARDEAVAM
BRAÇOS ABERTOS,
MESMO AQUELAS QUE
PROCLAMAVAM O PERDÃO.

DOR MAIOR ADVEIO DA INFRUTÍFERA BUSCA,
AGORA COM O FERMENTO DA DECEPÇÃO.
TODAS ESTAVAM TRANCADAS,
DE NENHUMA CONSEGUI A CHAVE,
NÃO DECOREI A PALAVRA MÁGICA.

FURTO-ME O ABRIGO AO TEMPO,
PERMANECI NO DESAMPARO
DO TEMPO,
SEM BARREIRAS À VISÃO,
PUDE VER O TEMPO QUE ME LEVOU
PELA MÃO.

VEIO COMO ALIADO,
COM A HUMILDADE DO SILÊNCIO.

COBRANDO-ME APENAS SABEDORIA,
ESPELHO DA PACIÊNCIA.

SEM ALARDE E SEM ANÚNCIO,
MOSTROU-SE FORTE COMPANHEIRO,
IMUNE À JUSTIÇA DOS HOMENS,
INDIFERENTE À IRA DOS DEUSES.

E, ASSIM, COM O CORPO E A ALMA
ENTREGUES AO LEGÍTIMO TRANSFORMADOR,
RETOMO MEU LUGAR AO MUNDO,
ASSUMO MINHA NATURAL INSIGNIFICÂNCIA.

E, COMO UMA FOLHA SECA, POUSO MINHA VIDA
SOBRE ÁGUAS EM CORRENTEZA
E APENAS ESPERO DO TEMPO SUA VONTADE
EM CONDUZIR-ME A UM DESTINO
QUE, A SEU MODO, SERÁ OUTRO.

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br


Boogie Woogie - Verdade ou Mito

Vamos falar de um tempo em que o terror nas favelas era bem mais imaterial que os dias de hoje. Uma pequena estória de fantasia, completamente distanciada dos turbulentos dias de hoje.

Você acredita em fantasmas? Eu, sinceramente, não tenho certeza! Principalmente, depois do que aconteceu comigo quando era adolescente. Era tarde da noite e estava em casa, apenas minha mãe por companhia. Era sexta-feira sem lua e assistia ao Globo Repórter. Um som seco de batida no portão me chamou a atenção. A batida era no portão da casa vizinha, bem grudado ao nosso muro. A batida era fraca e pausada, como de uma pessoa cansada ou de idade avançada. O mais estranho era o “Black”, o cachorro do vizinho, não estar latindo, pois o menor som no portão deles era o motivo de uma algazarra sem fim por parte dele. Latia desbragadamente e acordava até os mortos. Imaginei ser alguma pessoa conhecida dele, só assim ele não faria barulho nenhum.
Fui até o nosso muro e coloquei a escada para olhar quem estava no portão. Não vi ninguém e o som da batida parou assim que subi no muro. Minha mãe ouvindo o barulho da escada veio ver o que eu estava fazendo. Deu-me uma bronca e foi até o nosso portão para ver se havia alguém lá. Não havia ninguém! Mandou descer do muro e colocou-me para dentro. Fui assistir televisão e ela foi para a cozinha terminar de limpara as panelas.
Assim que deitei no sofá, as batidas voltaram, na mesma intensidade e ritmo. Gritei um sonoro palavrão e minha mãe ficou irritada, tanto com minha falta de educação como a de quem estava batendo no portão àquela hora da noite, já que a família de seu Antônio, nosso vizinho, havia viajado para a Paraíba. Ela foi novamente até nosso portão e olhou para o do vizinho: nada lá. Abriu nosso portão e seguiu pela vila até o portão principal. Estava fechado e ninguém estava por perto, todas as casas com as portas fechadas e algumas luzes apagadas. Ficou por lá alguns minutos e checou o movimento nas portas das casas que compunham a vila. Não havia movimento de espécie alguma! Resolveu abrir o portão principal e sair e ver se havia alguém na rua. Lá foi até o bar do Manú, que ainda estava aberto e perguntou para ele e dois clientes se tinham visto alguém entrar na vila. Ninguém, responderam.
Minha mãe retornou, eu estava no portão esperando por ela. Foi até o portão dos vizinhos e olhou por cima para haver se havia alguém escondido no quintal deles. Nada! Apesar das inúmeras plantas, não havia como se esconder ali. Olhou em torno e entramos. Desta vez, não chegamos nem a fechar a porta para a batida recomeçar... mesmo ritmo... mesma intensidade. Minha mãe ficou ‘fula’ de raiva. Começou a gritar para quem estava batendo no portão, fazendo aquela brincadeira de mau gosto. Saímos para o portão e olhamos juntos: nada. Minha mãe desceu correndo pelo corredor principal da vila até o portão principal, comigo em seus ‘calcanhares’, que não era ‘besta’ de ficar ali sozinho. Nada! A vila era ótima para esconder alguém rápido, pois a vila fora construída com uma curva bem no meio dela e tinha algumas casas em um corredor lateral à esquerda de quem descia. Nossa casa e do vizinho eram as últimas. Assim, era fácil para alguém descer correndo e ficar escondido depois da curva. Mesmo assim, teria de entrar em alguma casa, isto faria barulho e nós poderíamos ouvir. Mas não havia o menor som, nem ao menos das televisões ligadas até àquela hora.
Fomos até o portão principal e saímos. Novamente, ela foi até o bar do Manú e indagou a ele se ninguém havia saído correndo da vila ou se haviam pulado o portão. Manú não viu e nem ouviu nada. Minha mãe contou a ele o que estava acontecendo e este indagou: “Não será o fantasma da Dona Castorina?” Minha mãe riu e mandou ele parar de falar bobagens. Fantasmas não existem! São mera superstição... crendice popular. “Morreu... tá morto!” Eram crianças fazendo uma brincadeira, somente isso. Manú deu de ombros e voltou a seus afazeres. Minha mãe ficou olhando cada canto da entrada da vila, olhando a Rua Central toda, da Assembléia de Deus na parte baixa até a subida para o Campinho. Nenhum movimento suspeito. Olhou para as lajes das casas próximas... também, não havia nada lá.
Voltamos lentamente para casa, subindo o corredor sinuoso. Parávamos de vez em quando para tentar escutar algum barulho que indicasse a origem dos safados a fazerem aquilo. Não havia nenhum sinal suspeito ou indicativo de alguém por perto. Entramos em nossa varanda e nem bem chegamos na porta de casa, o som recomeçou. Mesmo ritmo... mesma intensidade. Irritada, minha mãe, mandou subir na laje e ficar de olho no corredor da vila, enquanto ela correu para o portão. Não vi nada de sobre a laje, muito menos minha mãe. Neste momento, vi o que mais me assustou naquela estranha noite. O ‘Black’ estava dependurado no muro da laje dos vizinhos, olhando fixamente para o portão, com a boca aberta e a respiração suspensa. Parecia congelado no tempo e no espaço. Nunca o vi assim antes. Aquilo era único. Gritei para chamar sua atenção, mas não moveu um músculo sequer.
Sem mais nem menos, ele olhou para mim. Latiu e saiu finalmente do torpor em que se encontrava. Sumiu na escuridão da laje. O som parou em definitivo. Ficamos esperando mais algum tempo, para descobrir se o som retornaria, mas nada mais aconteceu naquela noite. Fomos dormir. No dia seguinte, fui até o portão do vizinho e gritei chamando o primo deles que estava na casa. Perguntei-lhe se não ouvira o barulho de ontem à noite. Ele não ouviu e nem viu nada, os outros vizinhos da vila, só ouviram os nossos passos e nossas vozes pelo corredor da vila. Nada mais! Até hoje me pergunto o que realmente aconteceu naquele portão. Será que realmente o fantasma da velha Dona Castorina nos fez uma visita? Quem sabe? Espero, sinceramente, que sim.


22 junho 2007

Poesia - Cotidiano

Doce retorno. Voltar a fazer o que gostamos sempre é um imenso prazer, mesmo quando é obrigatório e constante, como nosso blog. Depois da volta da prosa, é a vez da poesia.

COTIDIANO


PÁLIDA LEMBRANÇA TENS DA VIDA,
QUE ESCAPA PERENE
PELOS TEUS POROS
E TORNA MAIS PROFUNDA A CADA DIA
TUA ESVERDEADA ANEMIA.

VÊS CONTORNOS MAL DEFINIDOS
A CONFUNDIR TUA MENTE,
E DESBOTADAS CORES,
QUE A LUZ DE TEUS OLHOS,
JÁ NÃO FILTRAM NEM REFLETEM.

AO TEU REDOR, UM MUNDO CAÓTICO
A CONTAR-TE ESTÓRIAS MODERNAS,
QUE PENSAS JÁ TÊ-LAS OUVIDO.
VAGA POR RUAS ONDE DESDE MENINO VIVESTE
E, IMERSO NUM TURBILHÃO HUMANO,
NÃO SABES ONDE ESTÁS.

PISAS CAMBALEANTE NUM CHÃO
QUE TE É TRAIÇOEIRO,
FINGES ACREDITAR QUE TUAS PERNAS
VENCERÃO A DISPUTA
CONTRA OS ESQUIVOS PARALELEPÍPEDOS
.

TENTAS MANTER A CABEÇA
SOBRE UM AMOLECIDO PESCOÇO,
PARA MOSTRAR-TE APTO
AOS INDIFERENTES TRANSEUNTES.

PRECISAS, MAIS QUE TUDO,
MANTER TEU CORPO INTACTO,
VOLTAR PARA CASA VIVO,
SEM MANCHAS NEM ARRANHÕES,
SEM PRESSÃO ALTA
E SEM ATRASO
PARA, ASSIM, GARANTIR À ILUSÃO,
A MENTIRA DO PRÓXIMO DIA.

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Mulheres que Amo - Ser Especial

Voltamos. Graças a Deus! Depois do apagão de meu computador, mudança de residência e mudança de emprego, tudo em um único pacote, estamos voltando a nossa regular coluna das madrugadas de sábado. Peço desculpas a todos que lêem este blog, mas os motivos foram de força bem maior que pude suportar. Espero que tão cedo não acontece este tsunami novamente. Seguimos com o primeiro conto desta nova leva. Espero que gostem.

A Universidade é o momento da vida único para todos. A recém liberdade conquistada pelos adolescentes que iniciam sua primeira aventura fora da casa dos pais. As primeiras decisões que afetam seu destino. As primeiras experiências que marcaram sua caminhada por toda a vida, experiências solitárias. A Universidade deixa profundas impressões em todos que a vivem e sentem. Laura foi uma delas.
Era o primeiro período universitário de nossas vidas. Estranhos encontrando e descobrindo a si mesmos e outros fora de seu círculo de amizade até então. Vindos de localidades as mais diferentes possíveis, classes sociais diversas e idades ainda mais díspares. Assim conheci a Laura!
Era uma menina, apesar de não assumir sua vida como tal. Achava ser uma mulher. Uma mulher especial... diferente de todas as outras. Sua afirmação pessoal dependia daquele fato insólito e ilusório: ser diferente... ser especial. Seu modo de vestir, andar e falar, tudo denotava esta insegurança pessoal. Esta necessidade! Uma adolescente acostumada a ser o centro das atenções do colégio, a menina linda e doce desejada por todos. Mas na Universidade não era suficiente para ser diferente.
Então, Laura se envolveu com um professor. Era o mais carismático e interessante de todos, bem mais do que a matéria que lecionava. Começou com uma carona para casa, depois um jantar e finalmente estavam namorando. Todas as meninas da Universidade a invejaram por isto. Voltou a ser a menina popular dos tempos do colégio. Não andavam juntos na faculdade, mas todos conheciam bem o envolvimento de ambos. Davam muita ‘bandeira’ na aula, nos corredores e, até mesmo, na secretaria da faculdade. Laura não se importava, pelo contrário, fazia questão de todos saberem de seu romance. O burburinho era grande e isto a fazia ainda mais feliz de seu relacionamento.
Um fato, porém começou a fazer o ‘castelo’ desmoronar. Em uma festa da faculdade, o professor surgiu com uma mulher da idade dele. Era a sua esposa! Ela não sabia de nada. Ficou toda a festa a encarar o casal, que por muito pouco a esposa dele não percebeu. Ele interviu e colocou-a em seu lugar. Tinha dois filhos e não poderia ter o ‘luxo’ de sua esposa descobrir seu envolvimento com uma menina como Laura. Laura saiu chorando e sofrendo. Não era tão especial assim, como pensara.
Os dias passaram, mas o envolvimento entre ambos continuou. Todos a indagavam do porquê, mas ela dizia que ele a amava. Deixaria a esposa por ela. Uma menina ‘veterana’ lhe disse que fora a ‘Laura’ do ano passado e que os romances dele duravam exatamente o período de um ano. Nova turma, nova ‘garota favorita’... um novo amor. Laura lhe disse: “Não!” Com ela seria diferente. Ela era especial! Ela não era como todas as outras e provaria isto.
Parecia estar certa! O romance continuou com demonstrações explícitas de amor entre ambos. Agora não mais escondiam. Beijavam-se em sala de aula. Andavam agarrados no corredor. Ele dava presentes na frente de todos. Laura estava orgulhosa e feliz, pois provara a todos que era realmente especial... diferente de todas as anteriores... era melhor! Todos passaram a acreditar que ela estava certa.
Nas férias, viajaram juntos para o interior. Ele deu uma desculpa para a esposa e ficaram juntos toda uma semana. Na volta, Laura contou em detalhes sua aventura e como constituiriam vida juntos. Era uma questão de tempo! Tempo suficiente para ele poder se separar da esposa e ficar com a guarda dos filhos, pois ele amava muito os filhos e não conseguiria ficar longe deles. É claro, que esta afirmação tinha algo de muito errado, mas ninguém questionou. Muito menos ela!
No retorno às aulas, já não mais na mesma sala de aula. O romance começou a esfriar. Ela o procurava, mas este não mais mantinha o desejo ‘caliente’ de antes. Ficara avesso as demonstrações explícitas de afeto e pouco se viam. Como somos cruéis, começamos a cobrá-la: E a vida juntos que constituiriam? Atônita, passou a seguí-lo e descobriu a verdade ‘nua e crua’. Estava saindo com uma nova menina! Era da turma de calouros. Era a nova ‘Laura’. Confrontou-o, novamente, e disse que tinham algo especial... diferente. A resposta foi simples e direta: “Você não é especial e nem diferente de todas as outras que já tive!”.


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