30 junho 2007

Boogie Woogie - Verdade ou Mito

Vamos falar de um tempo em que o terror nas favelas era bem mais imaterial que os dias de hoje. Uma pequena estória de fantasia, completamente distanciada dos turbulentos dias de hoje.

Você acredita em fantasmas? Eu, sinceramente, não tenho certeza! Principalmente, depois do que aconteceu comigo quando era adolescente. Era tarde da noite e estava em casa, apenas minha mãe por companhia. Era sexta-feira sem lua e assistia ao Globo Repórter. Um som seco de batida no portão me chamou a atenção. A batida era no portão da casa vizinha, bem grudado ao nosso muro. A batida era fraca e pausada, como de uma pessoa cansada ou de idade avançada. O mais estranho era o “Black”, o cachorro do vizinho, não estar latindo, pois o menor som no portão deles era o motivo de uma algazarra sem fim por parte dele. Latia desbragadamente e acordava até os mortos. Imaginei ser alguma pessoa conhecida dele, só assim ele não faria barulho nenhum.
Fui até o nosso muro e coloquei a escada para olhar quem estava no portão. Não vi ninguém e o som da batida parou assim que subi no muro. Minha mãe ouvindo o barulho da escada veio ver o que eu estava fazendo. Deu-me uma bronca e foi até o nosso portão para ver se havia alguém lá. Não havia ninguém! Mandou descer do muro e colocou-me para dentro. Fui assistir televisão e ela foi para a cozinha terminar de limpara as panelas.
Assim que deitei no sofá, as batidas voltaram, na mesma intensidade e ritmo. Gritei um sonoro palavrão e minha mãe ficou irritada, tanto com minha falta de educação como a de quem estava batendo no portão àquela hora da noite, já que a família de seu Antônio, nosso vizinho, havia viajado para a Paraíba. Ela foi novamente até nosso portão e olhou para o do vizinho: nada lá. Abriu nosso portão e seguiu pela vila até o portão principal. Estava fechado e ninguém estava por perto, todas as casas com as portas fechadas e algumas luzes apagadas. Ficou por lá alguns minutos e checou o movimento nas portas das casas que compunham a vila. Não havia movimento de espécie alguma! Resolveu abrir o portão principal e sair e ver se havia alguém na rua. Lá foi até o bar do Manú, que ainda estava aberto e perguntou para ele e dois clientes se tinham visto alguém entrar na vila. Ninguém, responderam.
Minha mãe retornou, eu estava no portão esperando por ela. Foi até o portão dos vizinhos e olhou por cima para haver se havia alguém escondido no quintal deles. Nada! Apesar das inúmeras plantas, não havia como se esconder ali. Olhou em torno e entramos. Desta vez, não chegamos nem a fechar a porta para a batida recomeçar... mesmo ritmo... mesma intensidade. Minha mãe ficou ‘fula’ de raiva. Começou a gritar para quem estava batendo no portão, fazendo aquela brincadeira de mau gosto. Saímos para o portão e olhamos juntos: nada. Minha mãe desceu correndo pelo corredor principal da vila até o portão principal, comigo em seus ‘calcanhares’, que não era ‘besta’ de ficar ali sozinho. Nada! A vila era ótima para esconder alguém rápido, pois a vila fora construída com uma curva bem no meio dela e tinha algumas casas em um corredor lateral à esquerda de quem descia. Nossa casa e do vizinho eram as últimas. Assim, era fácil para alguém descer correndo e ficar escondido depois da curva. Mesmo assim, teria de entrar em alguma casa, isto faria barulho e nós poderíamos ouvir. Mas não havia o menor som, nem ao menos das televisões ligadas até àquela hora.
Fomos até o portão principal e saímos. Novamente, ela foi até o bar do Manú e indagou a ele se ninguém havia saído correndo da vila ou se haviam pulado o portão. Manú não viu e nem ouviu nada. Minha mãe contou a ele o que estava acontecendo e este indagou: “Não será o fantasma da Dona Castorina?” Minha mãe riu e mandou ele parar de falar bobagens. Fantasmas não existem! São mera superstição... crendice popular. “Morreu... tá morto!” Eram crianças fazendo uma brincadeira, somente isso. Manú deu de ombros e voltou a seus afazeres. Minha mãe ficou olhando cada canto da entrada da vila, olhando a Rua Central toda, da Assembléia de Deus na parte baixa até a subida para o Campinho. Nenhum movimento suspeito. Olhou para as lajes das casas próximas... também, não havia nada lá.
Voltamos lentamente para casa, subindo o corredor sinuoso. Parávamos de vez em quando para tentar escutar algum barulho que indicasse a origem dos safados a fazerem aquilo. Não havia nenhum sinal suspeito ou indicativo de alguém por perto. Entramos em nossa varanda e nem bem chegamos na porta de casa, o som recomeçou. Mesmo ritmo... mesma intensidade. Irritada, minha mãe, mandou subir na laje e ficar de olho no corredor da vila, enquanto ela correu para o portão. Não vi nada de sobre a laje, muito menos minha mãe. Neste momento, vi o que mais me assustou naquela estranha noite. O ‘Black’ estava dependurado no muro da laje dos vizinhos, olhando fixamente para o portão, com a boca aberta e a respiração suspensa. Parecia congelado no tempo e no espaço. Nunca o vi assim antes. Aquilo era único. Gritei para chamar sua atenção, mas não moveu um músculo sequer.
Sem mais nem menos, ele olhou para mim. Latiu e saiu finalmente do torpor em que se encontrava. Sumiu na escuridão da laje. O som parou em definitivo. Ficamos esperando mais algum tempo, para descobrir se o som retornaria, mas nada mais aconteceu naquela noite. Fomos dormir. No dia seguinte, fui até o portão do vizinho e gritei chamando o primo deles que estava na casa. Perguntei-lhe se não ouvira o barulho de ontem à noite. Ele não ouviu e nem viu nada, os outros vizinhos da vila, só ouviram os nossos passos e nossas vozes pelo corredor da vila. Nada mais! Até hoje me pergunto o que realmente aconteceu naquele portão. Será que realmente o fantasma da velha Dona Castorina nos fez uma visita? Quem sabe? Espero, sinceramente, que sim.


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