Você acredita em fantasmas? Eu, sinceramente, não tenho certeza! Principalmente, depois do que aconteceu comigo quando era adolescente. Era tarde da noite e estava em casa, apenas minha mãe por companhia. Era sexta-feira sem lua e assistia ao Globo Repórter. Um som seco de batida no portão me chamou a atenção. A batida era no portão da casa vizinha, bem grudado ao nosso muro. A batida era fraca e pausada, como de uma pessoa cansada ou de idade avançada. O mais estranho era o “Black”, o cachorro do vizinho, não estar latindo, pois o menor som no portão deles era o motivo de uma algazarra sem fim por parte dele. Latia desbragadamente e acordava até os mortos. Imaginei ser alguma pessoa conhecida dele, só assim ele não faria barulho nenhum.
Fui até o nosso muro e coloquei a escada para olhar quem estava no portão. Não vi ninguém e o som da batida parou assim que subi no muro. Minha mãe ouvindo o barulho da escada veio ver o que eu estava fazendo. Deu-me uma bronca e foi até o nosso portão para ver se havia alguém lá. Não havia ninguém! Mandou descer do muro e colocou-me para dentro. Fui assistir televisão e ela foi para a cozinha terminar de limpara as panelas.
Assim que deitei no sofá, as batidas voltaram, na mesma intensidade e ritmo. Gritei um sonoro palavrão e minha mãe ficou irritada, tanto com minha falta de educação como a de quem estava batendo no portão àquela hora da noite, já que a família de seu Antônio, nosso vizinho, havia viajado para a Paraíba. Ela foi novamente até nosso portão e olhou para o do vizinho: nada lá. Abriu nosso portão e seguiu pela vila até o portão principal. Estava fechado e ninguém estava por perto, todas as casas com as portas fechadas e algumas luzes apagadas. Ficou por lá alguns minutos e checou o movimento nas portas das casas que compunham a vila. Não havia movimento de espécie alguma! Resolveu abrir o portão principal e sair e ver se havia alguém na rua. Lá foi até o bar do Manú, que ainda estava aberto e perguntou para ele e dois clientes se tinham visto alguém entrar na vila. Ninguém, responderam.
Minha mãe retornou, eu estava no portão esperando por ela. Foi até o portão dos vizinhos e olhou por cima para haver se havia alguém escondido no quintal deles. Nada! Apesar das inúmeras plantas, não havia como se esconder ali. Olhou em torno e entramos. Desta vez, não chegamos nem a fechar a porta para a batida recomeçar... mesmo ritmo... mesma intensidade. Minha mãe ficou ‘fula’ de raiva. Começou a gritar para quem estava batendo no portão, fazendo aquela brincadeira de mau gosto. Saímos para o portão e olhamos juntos: nada. Minha mãe desceu correndo pelo corredor principal da vila até o portão principal, comigo em seus ‘calcanhares’, que não era ‘besta’ de ficar ali sozinho. Nada! A vila era ótima para esconder alguém rápido, pois a vila fora construída com uma curva bem no meio dela e tinha algumas casas em um corredor lateral à esquerda de quem descia. Nossa casa e do vizinho eram as últimas. Assim, era fácil para alguém descer correndo e ficar escondido depois da curva. Mesmo assim, teria de entrar em alguma casa, isto faria barulho e nós poderíamos ouvir. Mas não havia o menor som, nem ao menos das televisões ligadas até àquela hora.
Fomos até o portão principal e saímos. Novamente, ela foi até o bar do Manú e indagou a ele se ninguém havia saído correndo da vila ou se haviam pulado o portão. Manú não viu e nem ouviu nada. Minha mãe contou a ele o que estava acontecendo e este indagou: “Não será o fantasma da Dona Castorina?” Minha mãe riu e mandou ele parar de falar bobagens. Fantasmas não existem! São mera superstição... crendice popular. “Morreu... tá morto!” Eram crianças fazendo uma brincadeira, somente isso. Manú deu de ombros e voltou a seus afazeres. Minha mãe ficou olhando cada canto da entrada da vila, olhando a Rua Central toda, da Assembléia de Deus na parte baixa até a subida para o Campinho. Nenhum movimento suspeito. Olhou para as lajes das casas próximas... também, não havia nada lá.
Voltamos lentamente para casa, subindo o corredor sinuoso. Parávamos de vez em quando para tentar escutar algum barulho que indicasse a origem dos safados a fazerem aquilo. Não havia nenhum sinal suspeito ou indicativo de alguém por perto. Entramos em nossa varanda e nem bem chegamos na porta de casa, o som recomeçou. Mesmo ritmo... mesma intensidade. Irritada, minha mãe, mandou subir na laje e ficar de olho no corredor da vila, enquanto ela correu para o portão. Não vi nada de sobre a laje, muito menos minha mãe. Neste momento, vi o que mais me assustou naquela estranha noite. O ‘Black’ estava dependurado no muro da laje dos vizinhos, olhando fixamente para o portão, com a boca aberta e a respiração suspensa. Parecia congelado no tempo e no espaço. Nunca o vi assim antes. Aquilo era único. Gritei para chamar sua atenção, mas não moveu um músculo sequer.
Sem mais nem menos, ele olhou para mim. Latiu e saiu finalmente do torpor em que se encontrava. Sumiu na escuridão da laje. O som parou em definitivo. Ficamos esperando mais algum tempo, para descobrir se o som retornaria, mas nada mais aconteceu naquela noite. Fomos dormir. No dia seguinte, fui até o portão do vizinho e gritei chamando o primo deles que estava na casa. Perguntei-lhe se não ouvira o barulho de ontem à noite. Ele não ouviu e nem viu nada, os outros vizinhos da vila, só ouviram os nossos passos e nossas vozes pelo corredor da vila. Nada mais! Até hoje me pergunto o que realmente aconteceu naquele portão. Será que realmente o fantasma da velha Dona Castorina nos fez uma visita? Quem sabe? Espero, sinceramente, que sim.
30 junho 2007
Boogie Woogie - Verdade ou Mito
Vamos falar de um tempo em que o terror nas favelas era bem mais imaterial que os dias de hoje. Uma pequena estória de fantasia, completamente distanciada dos turbulentos dias de hoje.
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