27 abril 2007

Mulheres que Amo - Abstinência

Sexo é tão vital na vida das pessoas ou temos fantasias reprimidas demais. Na questão religiosa o sexo é vital, definindo uma linha divisõria de como deve ser a vida de uma pessoa ligada a religião. Mas como isto afeta as pessoas que o cercam?

Esta semana tive que buscar uma grande amiga no fórum. Ela está tentando se separar, mas não consegue. O marido não concorda com a separação, não que ele a ame, ainda, mas porque sua religião não permite que um casamento seja desfeito. “O que deu uniu, nenhum homem pode separar!” é a lei de deus, segundo sua interpretação e do pastor de sua Igreja. A história deles é um pouco absurda e por isto resolvi contar.
Raquel, minha amiga, tem vinte e cinco anos de idade e dois filhos com Clemente, seu relutante marido. Estão casados a quase sete anos. Se conheceram em uma Escola Pública onde ambos estudavam, fizeram o primário e o secundário juntos. Namoraram! Noivaram! Casaram! Tudo muito rápido e muito cedo. Aos vinte e três, Raquel já estava com sua família completa. Dois filhos. Duas cesárias.
Até o nascimento do segundo filho, o mundo era lindo e perfeito para o casal. Mas no hospital, uma médica veio conversar com ela antes do parto. Falou sobre a ligadura das trompas e do casal ser muito jovem e pobre para ter mais filhos. Ela era uma mulher fértil e bem saudável, com certeza teriam mais filhos e isto poderia ser um grande problema na vida deles. Raquel pensou um pouco e tomou a melhor decisão possível: aceitou fazer!

Ao retornar para casa, tudo corria às mil maravilhas. A criança era saudável e era um macho, como o marido queria. A mais velha era uma bela e arteira menina. Depois de alguns dias e de rapidamente se recuperar, Raquel contou ao marido que havia feito e pediu desculpas por não tê-lo consultado, mas sabia que ele a apoiaria. Este a encarou longamente e irado, gritou: ‘Como pôde cometer um pecado destes?’ Raquel ficou atônita. ‘Deus fez o homem para reproduzir sua espécie e povoar este planeta de meu Deus. Criar seus filhos. O sexo só tem significado para cumprirmos esta sagrada tarefa!’ Uma versão um pouco distorcida do: “Crescei e multiplicai-vos!” ele saiu da cozinha sem dizer nada mais e nem escutou o pedido da esposa.
Raquel acreditou que a raiva seria passageira e depois de alguns dias, tudo voltaria ao normal. Porém, à noite percebeu o preço que pagaria pelo seu sensato ato. O marido deitou ao seu lado na cama e não a tocou. Não a beijou e nem desejou-lhe uma boa noite de sono. Nos dias seguintes, ele iniciou um frenético trabalho, limpando um quarto menor da casa. Tirou todas as tranqueiras guardadas lá e o pintou. Chegou em casa com alguns móveis novos, inclusive uma cama de solteiro. ‘Para quê tudo isto?’ perguntou Raquel. ‘Já temos um quarto para as crianças, não é preciso outro!’ Ele parou na entrada do novo quarto e falou solenemente: ‘Não é para as crianças... é para mim!’ Como se a esposa não estivesse ali ao seu lado, continuou com seu sacro trabalho. Daquele dia em diante, marido e mulher passaram dormir em quartos separados. Ele nunca mais tocou nela.
Raquel não quis acreditar naquilo tudo. Fielmente, pôs fé que ele acabaria recuperando a razão! Não recuperou. Viviam na mesma casa, mas agiam como estranhos. Não havia conversas, não havia intimidade entre eles. Os únicos assuntos discutidos entre ambos, eram os filhos e coisas da casa. Raquel pensou em voltar para a casa de sua mãe, mas pelo bem de seus filhos, resolveu dar uma segunda chance a Clemente. Uma noite foi até o quarto dele e deitou ao lado dele na cama. Foi sumariamente expulsa, aos gritos de ‘Pecadora!’
Ao fim de sua licença maternidade, retomou o convívio social com outras pessoas no trabalho. Aquilo aliviou um pouco a pressão que sentia. Mas a cada casal que via na rua se beijando... abraçando... demonstrando seu afeto um ao outro... uma dor aguda a acometia. A indiferença de seu marido, passou a fazê-la uma mulher bem mais sensível. O menor sinal de admiração de um homem por ela, era um motivo de alegria. Seus filhos eram a única e verdadeira felicidade que sentia no seu dia-a-dia.
A falta de carinho, de um toque humano em seu corpo e a demonstração mais simples de afeto, deixavam-na amarga. Raquel acabou trilhando um caminho inusitado para ela. No trabalho, acabou conhecendo alguém disposto a suprir estas faltas. O caso mostrou a ela que não poderia viver para sempre naquela forma fria e distante de relacionamento com seu marido. Tomou uma nova decisão em sua vida: Separação.
Uma tarde tranqüila de outono, com as folhas das árvores caindo solidárias nas ruas, reuniu a família e saíram para um passeio no Jardim Botânico. Lá, contou tudo a ele, despejou tudo que estava engasgado na sua garganta e sua irredutível decisão. Esperava uma explosão da parte dele, mas pelo contrário, a granada não detonou! ‘Pecadora!’ foi a simples acusação que fez. Discursou alguns minutos das obrigações dos filhos de Deus e o sublime prazer de viver sob suas leis. Levantou do banco, pegou os filhos e voltaram para a casa. Raquel ao chegar, arrumou suas coisas e das crianças, sem a interferência dele, e foi para a casa de sua mãe.
Escolheu um advogado, amigo da família, e pediu que este fosse conversar com seu marido. Raquel não queria nada, apenas a guarda das crianças. ‘Nunca iremos nos separar! Esta não é a vontade de Deus. Ela é uma pecadora, mas nós somos casados sob os olhos de nosso Senhor Jesus Cristo.’ Foi a resposta dele ao advogado. Perplexo, ele voltou até Raquel e aconselhou: Separação Litigiosa.
Durante todo o processo, Clemente foi todos os dias à casa da mãe de Raquel para levá-la e os filhos para casa. Eram uma família, não podiam ser separados. ‘Conversei com o pastor e ele me disse que tínhamos a obrigação de manter nosso casamento, para sermos absolvidos de nossos pecados aos olhos de Deus.’ Tentou de todas as formas possíveis traze-la de volta, até o pastor da igreja dele foi conversar com ela e com seus pais. Raquel amoleceu e resolveu dar uma chance a mais para o marido. Clemente fez um jantar para ela e a tratou com uma rainha. Era o paraíso!
Porém, na cama, Clemente a recusou novamente. ‘Não podemos!’ É pecado! É contra a lei de Deus!’ Raquel explodiu aos gritos, no dia seguinte estava na casa de seus pais novamente.
Hoje foi a última parte do processo de separação. O juiz os declarou divorciados, mas Clemente não aceitou e agrediu o juiz. ‘A ira de Deus se abaterá sobre ti! O que Deus uniu o homem não pode separar!’ Acabou preso por desacato, mas o pastor o tirou de lá na mesma noite. O que me perturbou foi: Raquel chorou e indagou a si mesmo se devia fazer aquilo mesmo, não seria melhor manter o casamento. Será esta palavra tão sagrada assim?

20 abril 2007

Poesia - Herói

Os versos a seguir mostram uma direção diferente do que acostumamos a ler no trabalho de nosso sócio. Espero que gostem da aventura.

HERÓI

ACORDO SEMPRE ANTES QUE O DESPERTADOR.
TRABALHE.
NA VERDADE, NUNCA LHE DOU TRABALHO.
LEVANTO-ME, ABRO PARTE DA JANELA,
FAÇO UMA RÁPIDA E INEXATA PREVISÃO DO TEMPO,
UM ATO MECÂNICO SEM OBJETIVO,
POIS A FECHO SEM SEQUER SABER SE CHOVE OU NÃO.

RECOBRO PARTE DA CONSCIÊNCIA ADORMECIDA
PELA NOITE MAL DORMIDA,
SINTO, POR FORÇA DO HÁBITO, O PESO DO DIA
QUE, PRECOCEMENTE, APONTA-ME
AO DESÂNIMO.

CONSULTO O ESPELHO À PROCURA
DE UM CÚMPLICE
PARA TESTEMUNHAR A MINHA VIDA.
AS RUGAS, OS BRILHANTES E PRÓSPEROS
CABELOS BRANCOS
APONTAM-ME UM SENTIDO INVERSO.

LEMBRO-ME DOS MICRÓBIOS E DOS INSETOS:
DOIS INIMIGOS EXTERNOS
QUE DISPUTAM COM OS HUMANOS
A SUPREMACIA DO PLANETA.
NUMA TENTATIVA DE CONTROLAR
OS AGENTES INVISÍVEIS,
ESCOVO COM FORÇA REDOBRADA OS DENTES,
TENTANDO ESMAGÁ-LOS,
PROLONGANDO ASSIM A SOBREVIVÊNCIA
DOS HUMANOS.

COM AS DÚVIDAS APAZIGUADAS
E, SENTINDO-ME ÚTIL, DIRIJO-ME À COZINHA,
ONDE UM BATALHÃO DE FORMIGAS,
COMANDADO POR DUAS OU TRÊS BARATAS,
AGUARDA-ME PARA UM ATAQUE.
TENHO IMPULSOS DE FUGIR,
ARREPIOS, PERNAS BAMBAS,
MAS TENHO QUE HONRAR A TESTOSTERONA.

ENTREGO MINHA SORTE A UM SONHO QUE TIVE
E LOGO PERCEBO QUE O ARROGANTE
E INVASOR EXÉRCITO, NUM ATO COVARDE,
BATE EM RETIRADA, SEM LUTAR.
AQUELES QUE SE ATREVERAM A FAZÊ-LO,
FORAM MORTOS E SEUS CADÁVERES
ATIRADOS PARA RECICLAGEM

LAVO AS MÃOS,
SINTO-ME FORTE,
RESPIRO FUNDO,
OLHO PARA O ALTO E PENSO:
HOJE SALVEI MINHA VIDA,
HOJE SALVEI A HUMANIDADE.
Maurício Granzinolli

Boogie Woogie - Bola de meia, bola de gude

Vida de criança, será sempre igual? O que fazem... como fazem... de alguma importância. Estas são lembranças vivas da minha infância, características da época, bem diferentes dos dias atuais. Será que estas diferenças tem algo a ver com o futuro que vivemos? Leia e pense.

As ruas do morro eram livres de trânsito. Curtas e estreitas, dificultavam o máximo a entrada de veículos. Caminhões nem pensar! As empresas paravam na Visconde Delamare e de lá os carregadores levavam os móveis até a casa do comprador. As geladeiras eram um verdadeiro instrumento de tortura! Além disso, o povo da favela não tinha dinheiro para adquirir um carro, naquele tempo.
Então as ruas se transformavam no paraíso das crianças! Conhecendo bandidos apenas pela televisão, nos filmes de bangue-bangue ou nas brincadeiras com imaginárias armas de madeira, as crianças podiam ter liberdade quase plena. Os pais as deixavam nas ruas, a brincar o tempo todo, sem preocupação, no máximo, alguma briga entre elas, que no dia seguinte já estava esquecida. Estas brincadeiras soeram interrompidas pela hora da Escola. A manhã toda ou a tarde toda.
A maioria estudava em um mesmo colégio e no mesmo horário. Iam a escola juntos, os maiores carregando os menores, sempre em grupos coesos e farristas. O retorno era ainda mais feliz, paravam para jogar bola em qualquer terreno baldio, pescavam no cais do Zumbi ou ficavam na rua Central a brincar de pique bandeira com as meninas ou, então, de taco, só os meninos.
O incrível é que havia brincadeiras para toda a hora do dia. De manhã, sonolentos ainda, era hora de bola de gude e soltar pipa, jogando muita mentira fora. De tarde, imperava o movimento e a energia: futebol era sempre um sucesso, o pique bandeira dominava quando as meninas estavam presentes, o taco era uma opção secundária antes dos pais começarem a voltar para a casa, pois as ruas deviam estar calmas e desimpedidas quando eles chegassem, assim não colocavam ninguém para dentro antes da hora. De noite, as brincadeiras mistas faziam a festa: Pêra-Uva-Maçã-Salada Mista e Pique Esconde eram os favoritos da moçada. No pique esconde, era ficar a agarradinho com a parceira em um local escuro para sentir o calor de seu corpo e o odor de seu perfume. E, ‘aí do idiota que estava com o pique de interromper aquele momento.” Todos diziam, inclusive as meninas. Demorava estes piques, pois sempre tinha um boçal que ficava sendo feito de bobo, para os outros curtirem o máximo. O Pêra-Uva-Maçã era a preparação para o supremo desejo: A Salada Mista, o beijo! Quantas crianças deram seu primeiro selinho brincando disto.
As brincadeiras eram uma parte vital da felicidade da comunidade, quase todos os adultos fiavam contentes com a legria vivenciada todos os dias por seus filhos, já que estes passavam mais tempo na rua brincando do que criando confusão dentro de casa. Cansados, mas felizes, entravam em casa reclamando: ‘Pô, o dia devia ter umas 30 horas!’ A fome era o primeiro bom sinal e o cansaço outro, quase não assistiam televisão, estudavam pouco, era certo, mas estavam felizes e deixavam seus pais felizes. Muitas brigas familiares foram evitadas por este expediente! Era um alívio para o fardo pesado carregado pelas mães e uma grande paz para os pais que passavam o dia inteiro fora ganhando o sustento da família.
Quantas destas brincadeiras eu sinto saudade. Quantas horas, eu e meus irmãos, deixamos de encher o saco de nossa mãe e de meu pai. Arranhões e ferimentos leves eram normais, para falar a verdade, eram a regra do dia. Ninguém reclamava, os carregavam como um troféu. As aventuras e as vitórias eram contadas com enorme exagero antes de dormir. Revividas... uma... duas... três vezes, antes que nossa mãe conseguisse conter nosso excitamento e nos por para dormir.
É uma pena! Este mundo lúdico e feliz... desapareceu. Exatamente, quando as pessoas da favela começaram a conquistar o que mais desejavam: dinheiro. Carros foram comprados e as ruas ocupadas por eles, jogar taco não era mais permitido, nem havia espaço. Futebol, muito menos, era só começar uma partida e os donos dos carros vinham atrás de nós para tomar a bola e ir xingar nossos pais, por não saberem criar seus filhos. É uma pena! As crianças passaram, também, a ansiar por bens materiais e por status social, que os pais mostravam a eles que eram coisas importantes. Mas como nós crianças podemos alcançar isto, o tráfico e as quadrilhas de roubo forneceram a oportunidade. As casas ficaram grandes... altas demais... feias demais... frias demais... acabou a imaginação e a criatividade. A televisão passou a ser uma amiga e companheira das horas solitárias do dia. Pois, só assim, era possível suportar o cárcere privado imposto pelas novas conquistas das famílias. A infelicidade passou a ser a norma na busca insensata da felicidade. É uma pena!

13 abril 2007

Poesia - Putrefação

O texto de nosso sócio toca em assuntos delicados e íntimos para todos nós, reflete a vida olhando a morte, espero que gostem.

Putrefação

PENSO QUE NÃO VIVEREI JAMAIS.
PARA A MORTE QUE ESCOLHI
NÃO HÁ VIDA.
CONTINUO VIVO SEPULTADO
NO MUNDO DOS VIVOS,
ASPIRANDO PELAS NARINAS A MORTE
E EXPIRANDO VIDA QUE ALIMENTA
OS QUE ME MATAM.

ABRO PEQUENAS PORTAS
E, DIANTE DELAS, NÃO HÁ CAMINHOS.
TENTO AS JANELAS,
E A PAISAGEM É NENHUMA;
FECHO OS OLHOS EM ETERNA BUSCA,
PERMANEÇO DENTRO DE MIM.

VERMES CARNÍVOROS
JÁ INICIARAM SEU TRABALHO
E, PERVERSOS, DEVORAM MENOS
A MATÉRIA QUE A ALMA
MACIA E PALATÁVEL,
ENQUANTO O CARCOMIDO CORPO
INSISTE EM SUA INDELÉVEL MARCHA
EM DIREÇÃO AO ETERNO SEPULCRO.

Maurício Granzinolli

Mulheres que Amo - Sexo Frágil?

Esta é uma homenagem a mulheres que admiro muito, mesmo sem compreendê-las totalmente.

Quem é o sexo frágil? Esta semana este pensamento não saiu de minha cabeça. Tudo devido a uma reunião, um assunto sem importância: divisão do pecúlio de meu avô, morto a mais de 25 anos. Mas o que me impressionou na reunião, não foi à discussão pelo dinheiro ou pouco apego que aquelas mulheres tinham em relação aquele pequeno montante. Mas o fato principal era que todos os ‘cabeças’ da família eram mulheres. Não havia um único patriarca no grupo ali presente. Percebi pela primeira vez que meu pai, meus tios e alguns primos estavam todos mortos, enquanto nenhuma das mulheres daquela família havia acompanhado seus esposos e mesmo filhos neste triste fim.
Minha mãe é a matriarca atual da família, tem 75 anos de idade e apesar de alguns problemas de saúde, ainda mantém um vigor espantoso para a idade que tem. Meu pai morreu aos 54 anos de idade. Minha mãe teve sete filhos, que apenas três ‘vingaram’, sendo que meu irmão mais novo nasceu quando ela tinha mais de quarenta. Foi operada por três vezes e teve de retirar o útero por causa de cistos e mesmo assim, acorda as seis da manhã, prepara comida para nós, arruma a casa e lava roupa. Alguns dias atrás, a peguei carregando a máquina de lavar por uns cinco metros para poder limpar. Meu pai nunca ficara doente de forma séria, detestava médico e parecia ter uma saúde de ferro. Trabalhava todos os dias da semana e não conseguia ficar em casa sossegado, sempre mexendo em algo... sempre em movimento. Quando teve uma complicação mais séria no estomago, três meses depois estava morto. Nunca chegou a aposentadoria e nunca usufruiu seu trabalho.
A mais nova de todas é minha tia Altina, uma ninfomaníaca. Teve doze filhos que ‘vingaram’ e perdi a conta de quantos morreram no parto. Está com 65 anos e meu tio, seu esposo, morreu aos 62 de infarto do miocárdio. Deve ter aberto a barriga tantas vezes em cesarianas que os médicos não precisavam nem pensar onde fazer o corte. O caminho já estava tão bem marcado. Nunca ficou doente de forma séria, teve gripes e resfriados, mas nada que a incomodasse, também, com tantas ‘bocas’ para criar... mas passou fome, meu tio não era um homem preparado para ser pai e nem enfrentar uma vida dura de criar tantos filhos. A amou muito, nunca brigaram e nem lembro de vê-lo com outra mulher, mas não cumpria sua obrigação de por comida no prato das crianças. Algumas delas foram parar em minha casa e viveram comigo e meus irmãos por um bom tempo. Mesmo assim, é uma sobrevivente... continua com uma saúde de dar inveja a qualquer mulher de sua idade e conseguiu manter a família unida e feliz, apesar de ter de enfrentar uma das piores mágoas para uma mãe, a morte de seu primogênito.
Tia Dinah foi a que teve a vida mais fácil entre elas, meu tio teve bons empregos e pode dar uma qualidade de vida melhor para sua família e seus filhos. Nada faltava a família e nós tínhamos uma ponta de inveja deles, quando pequenos. Apesar disto, minha tia teve de conviver com a traição. Meu tio era um ‘garanhão’ e teve mais mulheres do que posso lembrar, muitas delas faziam questão de mostrar seu relacionamento a ela, sem ela nada poder fazer a respeito. Engolia em seco! Mas meu tio acabou se envolvendo em um caso de corrupção dentro da empresa onde trabalhava e levou a pior. O padrão de vida caiu e a família desmoronou. Os filhos mais velhos desapareceram no mundo e nunca mais deram notícias, meu tio começou a beber e acabou morrendo aos 63 anos de cirrose hepática. Além disso, a filha mais velha teve um filho com problemas mentais que largou para ela criar e desapareceu novamente, sem pensão ou dinheiro para sobreviver, aos 55 anos de idade teve de trabalhar para se sustentar, mesmo assim conseguiu se manter forte e firme, chegando aos 72 anos de idade.
Sexo frágil? Duvido que qualquer mulher goste desta expressão. Nenhuma destas mulheres podem ser chamadas desta forma. Os homens desabam por força de decepções e doenças, não resistindo. As mulheres caem e dão a volta por cima, crescendo no duro caminho de volta. Sobrevivem... crescem... melhoram. Respeito é pouco para elas, estes não são os únicos exemplos que tenho, vários outros se espalham por toda a nossa sociedade... é só saber olhar.

06 abril 2007

Poesia - Ilusão

Nosso colaborador, Maurício, segue nos brindando com seu ótimo texto poético. Hoje teremos: ilusão. Divirtam-se.

ILUSÃO

PROMISSORA ESPERANÇA QUE DESLIZA,
CONTINUA EM CADA SONHO,
MANTÉM A VIDA VIVA
SUPORTADA PELA ILUSÃO.
RIQUEZA DE PROJETOS
QUE DOURAM O CAMINHAR
E TRAZ AO ALCANCE DO POSSÍVEL
O PANO DE FUNDO DO INFINITO.

CERCA-SE DE VITÓRIAS EM UM MUNDO
QUE NÃO DÁ CHANCE AO FRACASSO;
EMBARCA EM CALMARIA
RUMO A UM MAR
QUE ACREDITA SEMPRE SERENO.
TOMA CORPO ESTA VIAGEM,
DEIXANDO AO LONGE
A CERTEZA DA PRAIA.

ILÍCITA ESPERANÇA
QUE A SI PRÓPRIA NÃO MANTÉM
E, COMO UMA BRISA FALSA,
SOPRA AOS OUVIDOS
PROMESSAS DE UM VÔO
QUE NÃO PODE SUSTENTAR.

DÉBIL ESPERANÇA SUBJULGADA
À VONTADE DO TEMPO.
ESTE SIM, PODE ORDENAR,
AO SEU MODO,
O INÍCIO, O FIM,
O PROCESSO,
O DESTINO.
Maurício Granzinolli

Boogie Woogie - Tabus & Segredos

Favelas tem um problema comum a todos os estratos da sociedade: como criar seus filhos em uma época de alta competitividade e pouco tempo para família. O conto abaixo toca levemente neste assunto, fiquem com: Tabus & Segredos.

O videocassete foi popularizado no início da década de 80, mas começou a chegar no morro na segunda metade daquela década. Era uma maravilha para os olhos e para os hábitos. Ele acabou gerando inúmeras mudanças de comportamento nas pessoas. Tanto para o bem, quanto para o mal.
Um exemplo de mudança para o mal acabou ocorrendo com duas meninas em que sua família vinha conseguindo ascender financeiramente, seus nomes eram: Cirlene e Creuza. Eram primas e moravam em casas vizinhas, construídas no mesmo terreno. Cirlene vivia com a mãe e o padrasto, pois seu pai desaparecera há muito tempo atrás, um pouco depois de seu nascimento. Creuza vivia com seus pais, mas sua mãe já começava a mostrar sinais de distúrbio mental, que acabavam por inquietar a menina que chegava aos 11 anos de idade e não podia entender o comportamento errático de sua mãe. Cirlene sofria com os problemas com as acusações que faziam a sua mãe, devido ao seu comportamento liberal em relação a seus parceiros, que não foram poucos até parar a fila no atual padrasto.
Este padrasto, que era o responsável pelas melhorias na renda familiar, foi quem comprou o videocassete. Com ele, vieram fitas de filmes de sucesso, desenhos animados e até alguns documentários, logo devolvidos para a locadora, devido a algum engano do atendente. Até aí, nada demais! O problema foi quando começaram a sair as fitas a respeito de sexo. No início eram apenas de filmes sensuais, bem parecidas com as nossas pornochanchadas. Logo depois, começaram a sair no mercado as fitas vindas de países escandinavos e europeus, que radicalizavam bastante o conceito. Elas chamaram a atenção aos pais de Cirlene, os tornando consumidores assíduos das mesmas. Toda semana, o padrasto dela alugava pelo menos duas fitas par assistir no quarto com sua esposa... e treinar para serem novos astros das telas do cinema... é claro, na privacidade de sua cama.
Em um primeiro momento, ambos tinham um cuidado até psicótico para as meninas não as verem e nem saberem de sua existência. O passar do tempo os deixou descuidados. Convidaram alguns casais amigos para assistir e realizavam reuniões para ‘curtirem’ em grupo a novidade. O movimento aumentou dentro da asa nos finais de semana e chamou a atenção de todos: da filha e dos vizinhos ‘abelhudos’. Os comentários rodavam solto por toda a Rua Central e a pergunta principal era: o que aquela gente toda fazia lá dentro nos finais de semana à noite? Ninguém tinha uma resposta positiva, mas as especulações eram as mais alucinadas possíveis. De seita satânica a orgias, o que chegava próximo do intento deles.
Se os adultos já especulavam, pense o que a imaginação infantil poderia fazer. As histórias entre as crianças eram muito mais criativas e interessantes. Até de Ets chegaram a acusar os visitantes. É claro, que Cirlene e Creuza passaram a ser o centro das atenções, pois moravam dentro da casa e poderiam descobrir o que acontecia de verdade lá. As duas forma seguidamente interrogadas por todas as crianças da vizinhança a respeito das reuniões de seus pais, mas nada sabiam, pois sempre eram mandadas para cama quando os visitantes chegavam.
Criaram estratagemas para burlar a segurança restritiva dos pais de Cirlene para descobrirem os atos praticados naquelas estranhas reuniões de fim de semana. Mas tudo que foi tentado não deu em nada. Foram semanas de tentativa e especulação, onde a fantasia viajou por todos os caminhos sonhados por uma criança. Era a brincadeira predileta de todas elas: descobrir a verdade por trás dos encontros na casa de Cirlene.
Então, por puro acaso, Creuza voltou do colégio mais cedo em uma segunda feira e encontrou uma fita de vídeo escondida ao lado da televisão. Pegou a fita e abriu sua caixa. Na etiqueta o título era: penetrações Profundas. Ela nunca ouvira falar daquele filme. Esperou Cirlene chegar e ambas, curiosas, assistiram a fita, pouco entendendo do que se tratava. Quem matou a charada foi Cirlene: era um filme sobre sexo. As duas assistiram ao filme diversas vezes e esconderam a fita para assistir depois.
Quando foram para a rua, contaram aos outros o que tinham assistido. Acabaram todos indo à casa de Cirlene e assistiram à fita, sem entender bem o que ocorria na tela da televisão. Os meninos arrotavam sua sabedoria, dizendo já terem feito e até de forma melhor do que aqueles atores. Alguns ficaram excitados e a sessão foi repetida várias vezes na semana, até a mãe de Cirlene encontrar a fita e devolve-la para a locadora.
Era o primeiro passo, a madeira havia sido jogada nas chamas e começara a arder. Eles agora sabiam o que os casais vinham fazer na casa: sexo. Algum espertinho sugeriu, já que nossos pais o fazem, por quê não podemos fazer? Os garotos todos gritaram que deviam, mas Cirlene e Creuza eram as únicas meninas do grupo e não gostaram muito da idéia, até porquê muito daquelas mulheres gritavam na tela e só podia ser porquê aquilo doía. Os garotos argumentaram até que as duas concordaram. O grupo foi formado, um local escolhido e o dia combinado.
As reuniões infantis começaram! Copiavam as ações dos filmes, suas poses e suas palavras como cópias xerox, na maioria das vezes... não funcionava. Os garotos não sabiam o que fazer e nem como realizar o ato, as meninas acabaram dominando as ações e davam as ordens, pois foram elas que assistiram mais vezes as fitas. Elas se punham em posição e mandavam o garoto fazer da maneira que tinham visto na televisão. Aquilo perdurou por semanas, até que o local foi descoberto e todos foram apanhados em pleno ato. Os pais ficaram horrorizados com tudo aquilo, mas ficou pior quando as meninas contaram como tudo começara. Havia uma mistura de vergonha e culpa. As reuniões dos amigos de fim de semana... terminaram. Infelizmente, os pais de Cirlene e Creuza, ao invés de tentar ajudar as meninas a compreender o que acontecera, simplesmente, fizeram tudo para jogar a história para debaixo do tapete. Nada mais fora dito sobre aquele infeliz acontecimento. As meninas acabaram carregando um estigma para sua vida adulta, que atrapalhou todo seu desenvolvimento pessoal. Superaram o tabu da pior forma possível, como nada sabiam, tentaram em vão buscar a informação nas fontes disponíveis. Amigas que sabiam menos que elas, garotos que desejavam uma boa penetração e pessoas que ao ouvir falar na palavra sexo ficavam horrorizadas e fugiam do assunto. Tiveram inúmeros parceiros e nunca conseguiram se sentir felizes com sua sexualidade.