Esta semana tive que buscar uma grande amiga no fórum. Ela está tentando se separar, mas não consegue. O marido não concorda com a separação, não que ele a ame, ainda, mas porque sua religião não permite que um casamento seja desfeito. “O que deu uniu, nenhum homem pode separar!” é a lei de deus, segundo sua interpretação e do pastor de sua Igreja. A história deles é um pouco absurda e por isto resolvi contar.
Raquel, minha amiga, tem vinte e cinco anos de idade e dois filhos com Clemente, seu relutante marido. Estão casados a quase sete anos. Se conheceram em uma Escola Pública onde ambos estudavam, fizeram o primário e o secundário juntos. Namoraram! Noivaram! Casaram! Tudo muito rápido e muito cedo. Aos vinte e três, Raquel já estava com sua família completa. Dois filhos. Duas cesárias.
Até o nascimento do segundo filho, o mundo era lindo e perfeito para o casal. Mas no hospital, uma médica veio conversar com ela antes do parto. Falou sobre a ligadura das trompas e do casal ser muito jovem e pobre para ter mais filhos. Ela era uma mulher fértil e bem saudável, com certeza teriam mais filhos e isto poderia ser um grande problema na vida deles. Raquel pensou um pouco e tomou a melhor decisão possível: aceitou fazer!
Ao retornar para casa, tudo corria às mil maravilhas. A criança era saudável e era um macho, como o marido queria. A mais velha era uma bela e arteira menina. Depois de alguns dias e de rapidamente se recuperar, Raquel contou ao marido que havia feito e pediu desculpas por não tê-lo consultado, mas sabia que ele a apoiaria. Este a encarou longamente e irado, gritou: ‘Como pôde cometer um pecado destes?’ Raquel ficou atônita. ‘Deus fez o homem para reproduzir sua espécie e povoar este planeta de meu Deus. Criar seus filhos. O sexo só tem significado para cumprirmos esta sagrada tarefa!’ Uma versão um pouco distorcida do: “Crescei e multiplicai-vos!” ele saiu da cozinha sem dizer nada mais e nem escutou o pedido da esposa.
Raquel acreditou que a raiva seria passageira e depois de alguns dias, tudo voltaria ao normal. Porém, à noite percebeu o preço que pagaria pelo seu sensato ato. O marido deitou ao seu lado na cama e não a tocou. Não a beijou e nem desejou-lhe uma boa noite de sono. Nos dias seguintes, ele iniciou um frenético trabalho, limpando um quarto menor da casa. Tirou todas as tranqueiras guardadas lá e o pintou. Chegou em casa com alguns móveis novos, inclusive uma cama de solteiro. ‘Para quê tudo isto?’ perguntou Raquel. ‘Já temos um quarto para as crianças, não é preciso outro!’ Ele parou na entrada do novo quarto e falou solenemente: ‘Não é para as crianças... é para mim!’ Como se a esposa não estivesse ali ao seu lado, continuou com seu sacro trabalho. Daquele dia em diante, marido e mulher passaram dormir em quartos separados. Ele nunca mais tocou nela.
Raquel não quis acreditar naquilo tudo. Fielmente, pôs fé que ele acabaria recuperando a razão! Não recuperou. Viviam na mesma casa, mas agiam como estranhos. Não havia conversas, não havia intimidade entre eles. Os únicos assuntos discutidos entre ambos, eram os filhos e coisas da casa. Raquel pensou em voltar para a casa de sua mãe, mas pelo bem de seus filhos, resolveu dar uma segunda chance a Clemente. Uma noite foi até o quarto dele e deitou ao lado dele na cama. Foi sumariamente expulsa, aos gritos de ‘Pecadora!’
Ao fim de sua licença maternidade, retomou o convívio social com outras pessoas no trabalho. Aquilo aliviou um pouco a pressão que sentia. Mas a cada casal que via na rua se beijando... abraçando... demonstrando seu afeto um ao outro... uma dor aguda a acometia. A indiferença de seu marido, passou a fazê-la uma mulher bem mais sensível. O menor sinal de admiração de um homem por ela, era um motivo de alegria. Seus filhos eram a única e verdadeira felicidade que sentia no seu dia-a-dia.
A falta de carinho, de um toque humano em seu corpo e a demonstração mais simples de afeto, deixavam-na amarga. Raquel acabou trilhando um caminho inusitado para ela. No trabalho, acabou conhecendo alguém disposto a suprir estas faltas. O caso mostrou a ela que não poderia viver para sempre naquela forma fria e distante de relacionamento com seu marido. Tomou uma nova decisão em sua vida: Separação.
Uma tarde tranqüila de outono, com as folhas das árvores caindo solidárias nas ruas, reuniu a família e saíram para um passeio no Jardim Botânico. Lá, contou tudo a ele, despejou tudo que estava engasgado na sua garganta e sua irredutível decisão. Esperava uma explosão da parte dele, mas pelo contrário, a granada não detonou! ‘Pecadora!’ foi a simples acusação que fez. Discursou alguns minutos das obrigações dos filhos de Deus e o sublime prazer de viver sob suas leis. Levantou do banco, pegou os filhos e voltaram para a casa. Raquel ao chegar, arrumou suas coisas e das crianças, sem a interferência dele, e foi para a casa de sua mãe.
Escolheu um advogado, amigo da família, e pediu que este fosse conversar com seu marido. Raquel não queria nada, apenas a guarda das crianças. ‘Nunca iremos nos separar! Esta não é a vontade de Deus. Ela é uma pecadora, mas nós somos casados sob os olhos de nosso Senhor Jesus Cristo.’ Foi a resposta dele ao advogado. Perplexo, ele voltou até Raquel e aconselhou: Separação Litigiosa.
Durante todo o processo, Clemente foi todos os dias à casa da mãe de Raquel para levá-la e os filhos para casa. Eram uma família, não podiam ser separados. ‘Conversei com o pastor e ele me disse que tínhamos a obrigação de manter nosso casamento, para sermos absolvidos de nossos pecados aos olhos de Deus.’ Tentou de todas as formas possíveis traze-la de volta, até o pastor da igreja dele foi conversar com ela e com seus pais. Raquel amoleceu e resolveu dar uma chance a mais para o marido. Clemente fez um jantar para ela e a tratou com uma rainha. Era o paraíso!
Porém, na cama, Clemente a recusou novamente. ‘Não podemos!’ É pecado! É contra a lei de Deus!’ Raquel explodiu aos gritos, no dia seguinte estava na casa de seus pais novamente.
Hoje foi a última parte do processo de separação. O juiz os declarou divorciados, mas Clemente não aceitou e agrediu o juiz. ‘A ira de Deus se abaterá sobre ti! O que Deus uniu o homem não pode separar!’ Acabou preso por desacato, mas o pastor o tirou de lá na mesma noite. O que me perturbou foi: Raquel chorou e indagou a si mesmo se devia fazer aquilo mesmo, não seria melhor manter o casamento. Será esta palavra tão sagrada assim?