Vida de criança, será sempre igual? O que fazem... como fazem... de alguma importância. Estas são lembranças vivas da minha infância, características da época, bem diferentes dos dias atuais. Será que estas diferenças tem algo a ver com o futuro que vivemos? Leia e pense.
As ruas do morro eram livres de trânsito. Curtas e estreitas, dificultavam o máximo a entrada de veículos. Caminhões nem pensar! As empresas paravam na Visconde Delamare e de lá os carregadores levavam os móveis até a casa do comprador. As geladeiras eram um verdadeiro instrumento de tortura! Além disso, o povo da favela não tinha dinheiro para adquirir um carro, naquele tempo.
Então as ruas se transformavam no paraíso das crianças! Conhecendo bandidos apenas pela televisão, nos filmes de bangue-bangue ou nas brincadeiras com imaginárias armas de madeira, as crianças podiam ter liberdade quase plena. Os pais as deixavam nas ruas, a brincar o tempo todo, sem preocupação, no máximo, alguma briga entre elas, que no dia seguinte já estava esquecida. Estas brincadeiras soeram interrompidas pela hora da Escola. A manhã toda ou a tarde toda.
A maioria estudava em um mesmo colégio e no mesmo horário. Iam a escola juntos, os maiores carregando os menores, sempre em grupos coesos e farristas. O retorno era ainda mais feliz, paravam para jogar bola em qualquer terreno baldio, pescavam no cais do Zumbi ou ficavam na rua Central a brincar de pique bandeira com as meninas ou, então, de taco, só os meninos.
O incrível é que havia brincadeiras para toda a hora do dia. De manhã, sonolentos ainda, era hora de bola de gude e soltar pipa, jogando muita mentira fora. De tarde, imperava o movimento e a energia: futebol era sempre um sucesso, o pique bandeira dominava quando as meninas estavam presentes, o taco era uma opção secundária antes dos pais começarem a voltar para a casa, pois as ruas deviam estar calmas e desimpedidas quando eles chegassem, assim não colocavam ninguém para dentro antes da hora. De noite, as brincadeiras mistas faziam a festa: Pêra-Uva-Maçã-Salada Mista e Pique Esconde eram os favoritos da moçada. No pique esconde, era ficar a agarradinho com a parceira em um local escuro para sentir o calor de seu corpo e o odor de seu perfume. E, ‘aí do idiota que estava com o pique de interromper aquele momento.” Todos diziam, inclusive as meninas. Demorava estes piques, pois sempre tinha um boçal que ficava sendo feito de bobo, para os outros curtirem o máximo. O Pêra-Uva-Maçã era a preparação para o supremo desejo: A Salada Mista, o beijo! Quantas crianças deram seu primeiro selinho brincando disto.
As brincadeiras eram uma parte vital da felicidade da comunidade, quase todos os adultos fiavam contentes com a legria vivenciada todos os dias por seus filhos, já que estes passavam mais tempo na rua brincando do que criando confusão dentro de casa. Cansados, mas felizes, entravam em casa reclamando: ‘Pô, o dia devia ter umas 30 horas!’ A fome era o primeiro bom sinal e o cansaço outro, quase não assistiam televisão, estudavam pouco, era certo, mas estavam felizes e deixavam seus pais felizes. Muitas brigas familiares foram evitadas por este expediente! Era um alívio para o fardo pesado carregado pelas mães e uma grande paz para os pais que passavam o dia inteiro fora ganhando o sustento da família.
Quantas destas brincadeiras eu sinto saudade. Quantas horas, eu e meus irmãos, deixamos de encher o saco de nossa mãe e de meu pai. Arranhões e ferimentos leves eram normais, para falar a verdade, eram a regra do dia. Ninguém reclamava, os carregavam como um troféu. As aventuras e as vitórias eram contadas com enorme exagero antes de dormir. Revividas... uma... duas... três vezes, antes que nossa mãe conseguisse conter nosso excitamento e nos por para dormir.
É uma pena! Este mundo lúdico e feliz... desapareceu. Exatamente, quando as pessoas da favela começaram a conquistar o que mais desejavam: dinheiro. Carros foram comprados e as ruas ocupadas por eles, jogar taco não era mais permitido, nem havia espaço. Futebol, muito menos, era só começar uma partida e os donos dos carros vinham atrás de nós para tomar a bola e ir xingar nossos pais, por não saberem criar seus filhos. É uma pena! As crianças passaram, também, a ansiar por bens materiais e por status social, que os pais mostravam a eles que eram coisas importantes. Mas como nós crianças podemos alcançar isto, o tráfico e as quadrilhas de roubo forneceram a oportunidade. As casas ficaram grandes... altas demais... feias demais... frias demais... acabou a imaginação e a criatividade. A televisão passou a ser uma amiga e companheira das horas solitárias do dia. Pois, só assim, era possível suportar o cárcere privado imposto pelas novas conquistas das famílias. A infelicidade passou a ser a norma na busca insensata da felicidade. É uma pena!
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