26 maio 2007

Poesia - Suavidade

Hoje não farei a abertura natural dos poemas de meu amigo e sócio Maurício, vou pedir desculpas a todos, pois não terei um conto para disponibilizar para todos, pois tive problemas ontem com o computador e perdi todos os meus textos, terei de refazê-los, mesmo sabendo que muitos nunca mais serão escritos da mesma forma, para compensar temos mais uma poesia de nosso excelente poeta.

SUAVIDADE

QUERIA A MADRUGADA, LOURA E TENRA,
A DERRAMAR SUA LUZ
SOBRE MINHA ÁVIDA ÂNSIA.

QUERIA A MADRUGADA DE FORMA ETERNA
A CRUZAR, EM FUNÇÃO CONTÍNUA,
OS TORTUOSOS LABIRINTOS
DO MEU IMPRECISO PENSAMENTO.

QUERIA A MADRUGADA TOMANDO
O ESPAÇO DO AR
E, SOBERANA, TRANSPASSANDO
MINHA PERMEÁVEL PELE,
ATÉ ALIMENTAR-ME COM SUA
INSPIRADORA LINFA.

QUERIA NA MADRUGADA
DESCARREGAR O PESO DAS MINHAS MÁSCARAS
E, COMO UM ATOR APÓS O ÚLTIMO ATO,
DESCANÇAR DA REPRESENTAÇÃO DO DIA
E REVELAR-ME GENUÍNO,
NA SOLIDÃO REPARADORA,DO OUTRO LADO DO PANO.

Maurício Granzinolli

18 maio 2007

Poesia - Negro

Mudanças exigem decisões, ações e comportamentos. Momentos difíceis exigem mais! suportar e avançar sobre eles... é um grande desafio. Nosso poeta fala sobre o assunto em seu belo texto abaixo.


NEGRO

OLHO PARA O CÉU À PROCURA DE ALGO
PARA PROCURAR.
VEJO APENAS NUVENS UNINDO-SE
EM PERIGOSA COR NEGRA,
RESPONDENDO EM NEGRO À MINHA PROCURA.

É A TEMPORADA DE GRANDES PERDAS,
DE FRUTOS APODRECIDOS,
DE AÇUDES ESTOURADOS,
DE CAMPOS INUNDADOS
E DE COLHEITA PERDIDA.

É ESTE O TEMPO DA GRANDE FOME,
DA DÚVIDA ENTRE COMER A SEMENTE
OU ATIRÁ-LA AO SOLO,
NUM ESPERANÇOSO PLANTIO.

ÁGUAS BARRENTAS PREVALECEM,
POIS ESTE TAMBÉM É O TEMPO DA SEDE.
SIM,
ESTE É O TEMPO DA HUMILHAÇÃO.

DE TORNAR-SE SERVO DE INJUSTAS ORDENS,
CURVAR JOELHOS AOS PÉS DE FALSOS ÍDOLOS,
MANTER BAIXO OS OLHOS
E A BOCA A PROFERIR APENAS A CONCORDÂNCIA.

É TEMPO DOS CATACLISMOS,
DE VER OS MUROS DE ARRIMO,
QUE ERGUESTE PARA O TEU DESCANÇO,
DEITAREM TODOS SOB A AÇÃO
DE FORÇAS ATÉ ENTÃO DESCONHECIDAS.

É O TEMPO DAS TREVAS,
ONDE A CONFUSA CABEÇA GUIADA
PELA LUZ DE OLHOS SEM LUZ,
PLANEJA EM CONSONÂNCIA
COM O CORRESPONDENTE AMBIENTE.

É POR FIM O TEMPO DE ESPERA,
TEMPO DE RESPIRAÇÃO CURTA,
TEMPO DE PRESERVAR,
SE NÃO A VIDA,
AO MENOS O SÊMEMPLANTADO EM VIDA

Maurício Granzinolli

Boogie Woogie - Ticket de Fuga

Objetivo de vida é algo tão particular e difícil de entender, que acredito que a própria pessoa não consegue saber o porquê de tomar tal atitude em detrimento a outra. Ver de fora, parece lógico, mas como compreender os fatos incompreensíveis para quem não os vive. Esta é uma história que depende muito do ponto de vista de cada um.

Amor, dinheiro ou segurança? Qual é a principal motivação de uma mulher ao decidir os rumos de sua vida? Sacrificar tudo por amor? O amor vale a pena? Construir uma carreira profissional de sucesso e viver orgulhosa de si mesma? Casar com alguém que possa suprir os seus mais íntimos desejos?
As jovens mulheres das favelas cariocas têm um objetivo a alcançar desde a infância... “quando se entendem por gente”, como diria minha mãe. Sair da favela! Seja por meio de casamento, carreira ou sorte, qualquer meio é válido. Principalmente, distanciar sua imagem da favela. Sentir orgulho do lugar onde morou e viveu, não está entre suas principais opções.
Fernanda era uma destas muitas jovens mulheres a perseguir este objetivo! Quando a conheci, estudava em um colégio particular de renome em nosso bairro. Era de inspiração militar, a Aeronáutica, para ser mais exato. Era uma grande vitória, tanto pessoal quanto da família. Era duro e difícil, tanto no aspecto financeiro quanto no aspecto pessoal. Esconder quem era e o lugar de onde vinha, não é tarefa fácil. Nunca poder convidar os amigos para estudar em sua casa, sempre ter de ir para lugares de onde a conhecem e viver inventando desculpas para não organizar alguma atividade em seu lar. Não é simplesmente vergonha, tem haver com segurança pessoal e de terceiros. Tem haver com respeito próprio e o medo do preconceito natural das pessoas. A cada notícia sobre algum evento violento nas favelas, o medo e o distanciamento entre os mundos crescem. É um abismo profundo demais para não ter medo.
Fernanda tinha “pontos a seu favor”, era excepcionalmente bonita e charmosa, era inteligente e dedicada... em suam, era muito popular entre garotos e garotas. Sua beleza negra desabrochou na adolescência, muito cedo. Venceu, inclusive um concurso interno de beleza e participou de várias atividades sociais, como convidada. Era ‘pedra de toque “de todos os alunos, tanto as meninas quanto os garotos queriam estar perto dela e realizar seus desejos. Era um Xica da Silva moderna!”.
A conheci em uma festa da empresa, onde seu pai trabalhava como mestre de cabotagem. Fiquei enfeitiçado! Mas ela era uma adolescente, eu pelo contrário já caminhava para os trinta e tantos, então concentrei os esforços em novas possibilidades, mas não tão novas assim. Mas algum tempo depois, a encontrei em uma Kombi que fazia uma linha para o morro. Sentou bem ao meu lado, estava deslumbrante e emanava um perfume inebriante de seu corpo perfeito. Usava uma roupa toda branca, como uma médica ou enfermeira, o que realçava ainda mais suas curvas voluptuosas via o contraste com tom de sua pele. Visão estonteante! Conversamos, pois ela lembrava de mim da festa. Ficamos amigos.
Na viagem, contou-me sobre o seu namoro com um “cara” da minha rua, que eu conhecia de relance. Estavam apaixonados. Achei um desperdício, mas nada disse! Até então, nunca tinha reparado nos dois, agora os via em todos os lugares por onde passava no morro. Eram onipresentes! Acho que estava com inveja dele, pois com certeza, ela era a mulher mais bonita do morro e ele, apesar de viver ali dentro, era seu namorado. Todas as meninas bonitas do morro, que conhecia, ou namoravam alguém de fora ou com algum traficante com dinheiro. Aquilo durou um período muito curto, pois alguns dias depois a vi no Cacuia. A chamei para subirmos juntos, mas não me escutou. Peguei a Kombi e subi o morro. Quando chego lá, a vejo. Era estranho, como ela poderia ter chegado ali tão rápido? A resposta veio em um “flash”, um rapaz “baixinho” a segurava pela cintura e a encostava em um carro, estacionada na entrada da Central. Deu um beijo singelo e olhou para ela apaixonadamente. Bem vestido, com roupas caras e usando bermudas àquela hora, não poderia ser do morro. Não era! Após as despedidas, entrou no carro que ambos estavam encostados. Era um zero quilometro, caro para os padrões normais, imagine para os padrões do morro. Não dei importância, ela estava certa!
Dias depois, estava no inicio da Central no bar do pezinho bebendo. A via novamente, estava agora com... o namorado antigo. Em beijos apaixonados, os dois tão grudados que nem um fio de cabelo passaria entre eles. Beijos, abraços, mãos e muito amor pra dar! Não entendi porra nenhuma! Ela parecia uma menina legal. Brincar assim era perigoso. Seria investimento a longo prazo o que pretendia? Era difícil dizer. A situação perdurou por um bom tempo, me esbarrava ora com um casal ora com outro. Um casal frio e outro bem quente. Bar, boate, praia... não importava o lugar, o rodízio era constante. A minha curiosidade tinha ficado tão grande, que minha namorada notou. Logo, deu seu parecer: ‘Ela gosta do durão e o usa para que o “playboizinho” faça o que ela quer.Um era amor, o outro era... “business”. Não sabia se a admirava ou detestava por estar fazendo aquele joguinho.
Jogos são difíceis de esconder, como ela descobriu rapidamente. O “playboizinho” a confrontou no meio da rua, aos gritos e com muita ofensa pessoal de ambas as partes. Ela lançou de todas as armas femininas possíveis: chorou, gritou, pareceu frágil, e finalmente deu sua cartada. Falou em casamento em alto e bom som. Era o que pretendia, sair dali através do mais velho dos truques: o casamento. Cobrou dele, apresentá-la aos seus sogros e levá-la para seio de sua família fora do morro. Cobrou dele, o preconceito de sair com uma mulher do morro e sua vergonha de apresentá-la aos amigos e pessoal do trabalho. Cobrou dele, que não era uma destas muitas que iriam para cama com ele para satisfazer seu ego de “garotinho mimado”.
Sumiram de meu radar por um tempo. O garoto do morro ganhou a preferência neste tempo vago. Falei para minha namorada, que virara uma espectadora do triângulo amoroso tanto quanto eu, que o “playboizinho” havia perdido a parada. As mulheres percebem coisas que os idiotas dos homens não conseguem enxergar, principalmente, no que diz respeito a relacionamentos amoroso, que não são os seus. Ela deu um sorrisinho e não disse mais nada.
Estava certa! Dias depois, encontramos com ela em um supermercado, onde fez questão de mostrar um anel de noivado. Estava radiante, pois iria casar dentro de dois meses. Quase perguntei com quem, mas me abstive de falar bobagens. Decisão sábia, o nome do “playboizinho” foi pronunciado completo por aqueles lábios maravilhosos. Minha namorada, nem esperou que ela fosse embora para começar a rir copiosamente. Dei o “braço a torcer”, mulher entende bem mais disso que nós... os panacas.
Convidados para a suntuosa festa, em um clube privativo no Jardim Guanabara, conhecemos o dito cujo e toda a sua família, que não estava lá muito feliz com a mistura dos dois mundos, mas tinha que aceitar. O filho fora fisgado de forma irremediável e deixara que o orgulho da competição o conduzisse, exatamente, onde ela queria. Um apartamento e um belo carro foram os presentes de casamento. Presentes estes que seriam, no final das contas, dela. Pois, o casamento durou, exatos dois anos. Um preço justo!

12 maio 2007

Poesia - Aviso Inútil

Futuro é incerto. Passado é um manancial de lições. O que fazer para que nos levem a sério quando falamos das lições aprendidas e damos conselhos. Quem os ouve? Quem os quer ouvir? Nosso poeta toca no tema, pensem com ele.

AVISO INÚTIL

QUERIA PODER DIZER-TE AO OUVIDO,
TRANSFORMAR EM CERTEZAS
AS DÚVIDAS QUE TE ESPREITAM,
PASSAR-LHE ROTAS QUE JÁ CRUZEI,
DAR-TE A INDICAÇÃO DE PERIGO.

QUERIA MOSTRAR-LHE TEU FUTURO,
UM PASSADO QUE JÁ VIVI
E SINALIZAR NAS ESTRADAS,
OS PRECIPÍCIOS NOS QUAIS CAÍ.

QUERIA QUE MANTIVESSE TUA LIBERDADE,
RENUNCIANDO O FATÍDICO SIM
E FIZESTE RESISTIR AO TEMPO,
O LACÔNICO E DESCOMPROMETIDO NÃO.

MAS NÃO PODE EXIMIR-SE DOS ESPINHOS,
DAS TEMPESTADES,
NEM DA BOCA AMARGA,
DA MENTE CONFUSA
E DO ENCHARCAR DOS OLHOS.

IMPOSSÍVEL FAZÊ-LO DESISTIR DAQUELA VIAGEM,
IMPEDI-LO DE EMBARCAR NAQUELE AVIÃO.
IMPROVÁVEL QUE PERCEBA O TRUQUE DO MÁGICO
E QUE ENXERGUE POR TRAZ DO CENÁRIO.

TODOS QUEREM LIVRAR-SE DOS SEUS PROBLEMAS,
TODOS OS COBREM DE MEL,
TODOS DIRIGEM PARA ELES O FOCO DA LUZ
AO VESTI-LOS DE PURPURINA.
TODOS ENGANAM,
TODOS MENTEM
E HOJE EU SEI.

Maurício Granzinolli

Mulheres que Amo - Filha Pródiga

As relações pessoais é um assunto difícil de tratar. Todos temos opiniões e nenhuma delas pode alcançar a verdade. Entre mulheres, este assunto é bem mais difícil de tratar, pois temos uma inversão no comportamento entre elas de 360º graus. É do que trata o conto de hoje.

Nelma e sua mão, Otília, eram extremamente unidas. Estavam juntas em todas as ocasiões: compras, decoração, viagens, exposições e em tudo que ocorria na vida de uma ou da outra. Eram o apoio e o suporte, a confidente e a melhor amiga... sempre. Tudo era feito em comum acordo entre elas, o pai ficava com ciúmes, pois tomavam as decisões da casa sem sua aquiescência. A casa em que viviam, eram um trabalho a quatro mãos.
Seu Antenor, o pai, sentia um enorme da filha mais velha e de sua ligação completa com a mãe, o entendimento entre ambas e a harmonia que propiciavam a todos que moravam ali. Era amostra mais contundente do amor regendo a vida de uma família.
Nelma conheceu o Tenente Jarbas em um baile de cadetes do Exército. Ficaram apaixonadas na primeira noite. Jarbas não demorou a ir na casa dos pais dela para pedir permissão para o namoro já iniciado. Os pais ficaram orgulhosos, sua filha estava crescendo e se tornando uma mulher. Rapaz correto, boa família, emprego garantido, boa renda, as família eram bem relacionadas e o amor impregnava aquela relação. Ficaram, rapidamente, noivos.
Nada pode ser perfeito, somos humanos, portanto o noivado acabou ficando cada vez mais extenso. Quase quatro anos antes que os noivos pudessem comprar um pequeno apartamento e mais alguns anos para terminarem com o enxoval da nova casa. Houveram atritos, mas nada que não pudessem superar juntos e o amor triunfar.
Chegou o grande dia... o dia do casamento! Antenor fez dívidas para proporcionar a filha uma festa inesquecível. Fotos, filmes, bufê, vestido branco e arroz de festa. Tudo que ela merecia e muito mais. Foi uma festa ‘regada’ e ‘varou’ a noite inteira. Música, muita comida, muita bebida e toda a vizinhança comparecendo. A família feliz e a vida... maravilhosa. É claro, que nada é perfeito, houveram vários convidados a fazerem alguns comentários maldosos e bem ácidos, mas nada que comprometesse o brilho da belíssima festa de casamento de Nelma. À meia-noite, os noivos se despediram e seguiram para a merecida lua-de-mel.
Semanas depois, ainda a festa sendo o alvo de todo tipo de comentário, Nelma surgiu na porta de casa de ‘mala e cuia’. A única coisa que disse foi: “Meu casamento acabou!” A família inteira ficou atônita! A menos de duas semanas atrás ela ligava par fazer elogios ao noivo e a lua-de-mel, agora entrava intempestivamente porta adentro e depositava tudo no seu antigo quarto, que o pai nem teve tempo de preparar para ser um novo escritório para ele. Nelma não deu nenhuma explicação nos seus primeiros dias de retorno ao antigo lar. Foi abrindo-se aos poucos. O pai foi compreensivo e a apoiou, mas a mãe não teve o mesmo comportamento. Mal se falavam e a mãe parecia suspeitar que era culpa da filha o fim de um casamento tão lindo. Pior, como algo poderia acabar se havia apenas começado!
Harmonia de antes foi substituída por brigas e discussões por qualquer bobagem. Um pano de prato molhado em cima da pia era motivo suficiente para torturarem Antenor com as brigas, já que não dirigiam a palavra uma à outra. Ele era o mensageiro das ‘boas novas’. Sobrava ‘bala perdida’ para todos, inclusive vizinhos e visitas. Era uma guerra declarada.
Cobrança era a palavra que Antenor passou a ouvir com freqüência cada vez maior em seu lar. Hora era a filha que o cobrava de uma atitude em relação ao comportamento da mãe para com ela. Em outro momento, era a mãe que o cobrava de uma atitude firme para com a filha... procurar um emprego... dar um rumo em sua vida... principalmente, se mudar dali. A mãe sugeriu que ele fosse ter uma ‘conversinha’ com o relutante genro e descobrir os verdadeiros motivos daquele falso casamento.
Antenor e todo mundo não conseguiam compreender o motivo daquele repentino ódio entre elas. Qual a atitude a ser tomada? Não falavam uma com a outra e não aceitavam nenhum tipo de argumentação lógica para as brigas. Eram apenas gritos e imprecações diversas. Encontra-las juntas... era uma raridade! Até o dia do casamento, ambas viviam uma mor alucinante e excludente em relação a todos. Agora, tinham um ódio ‘mortal’ e eram ‘includentes’ em relação as suas batalhas.
A solução surgiu com Nelma, ficou mais independente... arrumou um emprego... e começou a ficar o mínimo de tempo necessário dentro de casa. No final de semana sempre tinha algo para fazer e algum lugar para ir. Não voltou para o ex-marido. Deu entrada no pedido de separação legal e realizou tudo sozinha sem pedir ajuda de ninguém. Assim, o relacionamento de mãe e filha foi melhorando, apesar de Nelma agora não ter mais ‘voz ativa’ dentro de seu antigo lar. Ela morava lá, mas não vivia!Para felicidade geral da nação, Nelma arrumou um novo namorado. Desta vez, o casamento não demorou nem seis meses. Sem festa e sem badalação! Poucos convidados e uma cerimônia civil bem simples e rápida. No dia do casamento, mãe e filha estavam novamente iguais aos dias de ouro da família. Organizaram tudo juntas e decidiram tudo em conjunto. Conversaram intensamente, como a compensar o período de brigas e discussões. O pai entendia cada vez menos, mas voltou a ser feliz. Olhou a filha a sair pela porta da frente novamente, e sinceramente, desejou que desta vez fosse para sempre.

05 maio 2007

Poesia - Juntos

Trabalhar... criar... são atos complexos e difíceis de realizar, por mais simples que pareça, existe todo um mecanismo por trás, a suportar aquele ato. Nosso poeta dá uma pequena visão do seu ato de criação e de sua inspiração para nós.

JUNTOS

CINDINDO COM SEU REMO
AS CALMAS ÁGUAS,
SEGUE O BARQUEIRO,
PEQUENO PONTO NA INFINIDADE
DO MAR.

ESCREVE COM O MOVIMENTO
DE SEU BARCO
PLÁCIDOS VERSOS
QUE AS PEQUENAS VAGAS
LOGO DEVORAM.

VEJO A TI BARQUEIRO,
E, EM ESPÍRITO,
INTEGRO-ME À SUA PAISAGEM.

TENHO O PAPEL COMO MAR,
A PENA COMO REMO,
E A MIM MESMO,
UM POETA IGUAL A TI,
A VÓS UNIDO
PELA MAIS PLENA SOLIDÃO.

Maurício Granzinolli

Boogie Woogie - O Contador

A vida não é simples, tem todos os problemas normais e os caminhos que seguimos nunca são aqueles que imaginamos. Esta é a história de alguém que seguiu um caminho que ele não esperava e ficou amarrado a este destino, sem poder se livrar dele.

Já conhecia o Lourenço a muito tempo, mas nunca tinha parado para bater um papo com ele. Sabia que tinha um envolvimento com o tráfico, mas não era um avião e nem soldado, fazia a contabilidade, tinha até o apelido de intocável, pois não importava a facção ou o chefe da boca, que sempre iam busca-lo em casa para fazer o serviço. Meu irmão me disse, certa vez, que ele já fazia isto a mais de quinze anos.
Hoje, ele parou para comprar um maço de Derby, seu vício mais comum. Mas não era o único. Adorava uma branquinha, como todo bom descendente de nordestino e também pegava umas carreirinhas de vez em quando. Nada exagerado, mas era contumaz. Quando entrou, nem olhei para ele, mas por algum capricho do destino, parou do meu lado e me viu tomando minha cerveja, decidiu beber, pediu um copo pro Caveirinha e já ia pedir uma cerveja, quando lhe ofereci da minha. Política da boa vizinhança era muito útil para quem vivia no morro como eu. Ele aceitou alegre e comentou: “Pensei que você não fosse com a minha cara?” estranhei o comentário e perguntei: “Mas, por quê?” Deu de ombros, colocou a cerveja no copo, fazendo colarinho, como era costume dos bebedores inveterados de outrora e completou: “Simples, quando eu chegava em qualquer lugar em que você estava, você levantava e ia embora!” Dei uma risada e expliquei: “Ora, fácil né, sempre fui saco de pancada de todo mundo que era ou foi do movimento, quando chega alguém do movimento, meu medo me manda sair dali rapidinho. Acho que é um movimento involuntário.” Ele riu e sorveu o primeiro gole bebendo o conteúdo de seu copo até a metade. Hábito antigo e enraizado, por aqueles que realmente apreciam uma loirinha. Fizemos um brinde e, então, ele começou a contar sua história.
Sabe, fui contador de verdade. Tenho diploma! Me formei na Escola Técnica, lá Centro da cidade. Trabalhei um tempão lá no Cupello. Te vi algumas vezes levando material do Doutor Luciano, aquele safado. Pena ter morrido, não é?
Não respondi, mas fiquei impressionado dele lembrar que tinha trabalhado com o Doutor Luciano e que resolvia muitos assuntos no escritório do Cupello. Não lembro de te-lo visto por lá nenhuma vez sequer. Mas não deveria ser de espantar, pois toda vez que chegava só ficava olhando para as meninas do Cupello. Era um colírio, quem teria olhos para um barbado, hein.
Riu e continuou. Sabe, bebo pra cacete. Sempre bebi. Minha mulher foi esperta e caiu fora no primeiro ano de casamento. Não servia para ela, coisa e tal. Mas foi bom, hoje vejo que não sirvo para casamento. Prefiro ter uma mulherzinha de vez em quando que não povoe a minha casa. Sou intratável quase o dia inteiro, só melhoro a noite, minha melhor hora. Mas, continuando, assim como perdi minha esposa, também, perdi o emprego. As meninas escondiam meu vício do filho do Cupello, que gerenciava o escritório, na época. Mas nem todo dia é dia de santo. Um dia ele me pegou com uma garrafa de vodca no banheiro. Ela já tava pela metade. Foi justa causa no ato! Eu merecia.
Depois disto, não conseguia arrumar mais nada que prestasse. Fiquei um tempão sem emprego vivendo do fundo e da rescisão. Mas sacumé? Dinheiro não dura pra sempre, principalmente, pra quem tem um vício como eu. O pior foi ter começado a cheirar. Me desnorteou, já era meio descompensado, mesmo. Fui fundo e sem dinheiro, acabei mais encrencado que nunca. Tava devendo os olhos da cara para a boca. Sabia que se não fizesse algo rapidinho, iam meter uns buracos novos na minha cara, que eu não iria gostar nem um pouco.
Se lembra do Kiko, aquele moleque que mataram no CIEP a paulada?
Balancei a cabeça afirmativamente e pedi uma cerveja e uma porção de calabresa para nós, a conversa ia ser demorada pelo jeito.
O moleque era bicho solto. Gostava de puxar o gatilho. Não pensava duas vezes! Fui bater um papo com ele, um camarada meu era chegado dele e fez a ponte. Fui até a boca com a conversa mais fiada do mundo, tentando vender um peixe que não tinha e não valia nada. Já tava começando a gaguejar e ficar mais enrolado ainda. Ele ficava me olhando nos olhos o tempo todo, mal conseguia sustentar o meu. Pensei que ia morrer ali e agora. Foi quando ele levantou, segurou o revolver que tinha na cintura e balançou na minha frente e me perguntou: “Você é contador, não é?” Falei que sim, mas tão baixo que nem eu ouvi direito. “Vamo faze uma troca... Ta na cara que você não vai me pagar nunca mesmo, vou ter que meter uns pipocos na tua cabeça de merda e botar mais uma cruz nas ruas.” Fiquei suando frio. Não sei por quê, mas agradeci a Deus por não ter tido filhos. “Mas sabe duma coisa? Não to muito afim, não. Prefiro que você me pague trabalhando para mim.” O espanto foi tão grande quanto um estampido que ouvi lá fora, parecia não ser nada, soldados brincando com arma nova. “Mas... não sei usar armas... pra falar a verdade, tenho um pavor desgraçado destas merdas. Trabalhar de avião, acho que daria muito na pinta, não?” Ele balançou o revolver na minha cara de novo e disse: “Não quero que você faça esta merda, não! Quero que você faça a contabilidade da boca pra mim. Vejo o dinheiro entrando e acabo não ficando com nada. Porra, como é que pode? To nessa pra ganhar e não para pagar. Que filho da puta vadio sou eu, que não consigo ganhar porra nenhuma nesta boca fudida. Quero saber o que ta acontecendo. Se tão me roubando ou... caralho. Não quero saber, quero meu dinheiro, porra. E você vai me ajudar nisto... porque senão...” Olhou bem pra mim com aqueles olhos pretos infernais e completou: “... acho que não preciso explicar seu destino, não é mesmo?” Balancei a cabeça nervosamente.
Foi assim que entrei pro movimento. No início, continuei trabalhando em bicos lá embaixo. Fui ajudante de pedreiro, carregador de caixas na feira, trabalhei no Mundial, lá no depósito, fui até monitor de escola, no Bahiense. Mas eu sempre cagava tudo! Perdia um emprego atrás do outro, e olha só, tudo sem carteira assinada, porque, quando viam minha carteira, logo queriam desistir de me contratar, por causa da justa causa, mas aí eu me humilhava e contava uma história triste que metia cinco filhos no meio, nem sei como acreditavam naquilo. Mas sempre conseguia alguma coisa. Sempre merda.
De noite, ficava na boca. Anotava tudo e contabilizava tudo. Acabei até descobrindo porquê aquela merda não dava grana. Era bem simples. Uma porrada de moleques irresponsáveis, recebendo por semana merreca. Mas merreca mais merreca, dá uma grande porra, não é. Armas em profusão, muitas sem necessidade, toda semana sumia uma. Munição era gasta que nem água. Ele pagava enterro dos soldados e dos aviões mortos, dava cesta básica para os moradores mais próximos da boca e, principalmente, pagava os polícia. A venda era uma merrequinha, que não cobria as despesas. Depois do segundo mês, tinha que contar tudo pro patrão. Mas, se sabe né, a moda de matar o mensageiro de péssimas notícias é um hábito arraigado na humanidade a milênios. E o mensageiro era eu. Minha pele tava no braseiro de novo!
Antes mesmo que eu fosse até ele contar as boas novas, ele me chamou na casa dele. Deu um monte de gritos e reclamou pra cacete pelo trabalho porco que eu tava fazendo, pois ele continuava sem ver a cor do dinheiro. Acho que gaguejei um montão, antes que ele conseguisse entender o que eu tava dizendo. Mas no final, percebeu o que tava acontecendo. Em um ótimo trabalho de corte de custos, ele decidiu atacar sua maior despesa. A grana da PM. Parou de pagar, aquele moleque maluco. Achou que podia viver sem eles. Tava enganado, né! Acho que durou uns seis meses. Assim mesmo, porque era um sortudo de marca maior. Você não deve lembrar... mas na festa junina daquele ano, lá no campo da Vila, deram uns tiros nele. Foi a PM. Mas os caras eram uns merdas tão grandes que descarregaram os revolver nele e só conseguiram acertar cinco tiros em lugares que não matavam. Acertaram na perna, no braço e até no ombro. Mas o moleque fodido, conseguiu correr e fugir. Como? Sei lá! O capetinha era ruim pro diabo, que devia ter um pacto com o coisa ruim. Só pode!
Mas sorte não dura pra sempre. Ele voltou alguns dias depois e reassumiu o movimento. Deixaram ele em paz por um tempo. Quando ele se descuidou pegaram ele na casa da namorada fora do morro e levaram-no para o CIEP, passaram dois dias torturando o moleque, só o mataram no Domingo e deixaram ele amarado lá, pras crianças que chegassem no dia seguinte o encontrassem lá. Um aviso, pro substituto.Voltei para a vida de desempregado na segunda mesmo. Abri um jornal e comecei a marcar uns empregos para ver. Com o moleque morto, acreditei que minha dívida tava paga e que ninguém iria me encher de novo. Fiz até promessa de que iria largar o vício e nunca mais botar uma branquinha no nariz. Doce ilusão. Fiquei desempregado uma semana. Foram me buscar lá em casa. “O chefe te mandou voltar pro trabalho na boca.” Falou um dos moleques que foram me buscar.Nem sabia quem era o novo big boss, mas aprendi rápido que não era tão fácil largar daquela vida bandida.

02 maio 2007

Poesia - Olhar

Desejo é uma marca humana indeleável. Marca a todos nós de forma concreta e muitas vezes influencia nossas vidas e os rumos que seguimos. Mas como sentimos este desejo?
OLHAR

GRANDE É O APELO DO OUTRO LADO
DA RUA.
ONDE MEUS OLHOS VÊEM,
MAS MEU CORPO NÃO PODE IR.

DE ONDE ME CHEGA O PERFUME,
MAS NÃO O PALADAR;
ONDE DESFILA MEU DESEJO,
E SÓ NO DESEJO POSSO FICAR;
DE ONDE BROTAM AS MIRAGENS
QUE DE REAL EM MIM NÃO HÁ.

PALCO ENCHARCADO DE LUZ;
AS SOMBRAS SÃO PARA CÁ.
VEJO O FLUXO DE VEÍCULOS:
UM RIO SEM TERMINAR.
E UMA ETERNA LUZ EM VERMELHO,
COMO BRASAS A ME LEMBRAR
QUE O TERRITÓRIO DOS MEUS SONHOS,
SEMPRE NA OUTRA MARGEM ESTAR.

Maurício Granzinolli