Objetivo de vida é algo tão particular e difícil de entender, que acredito que a própria pessoa não consegue saber o porquê de tomar tal atitude em detrimento a outra. Ver de fora, parece lógico, mas como compreender os fatos incompreensíveis para quem não os vive. Esta é uma história que depende muito do ponto de vista de cada um.
Amor, dinheiro ou segurança? Qual é a principal motivação de uma mulher ao decidir os rumos de sua vida? Sacrificar tudo por amor? O amor vale a pena? Construir uma carreira profissional de sucesso e viver orgulhosa de si mesma? Casar com alguém que possa suprir os seus mais íntimos desejos?
As jovens mulheres das favelas cariocas têm um objetivo a alcançar desde a infância... “quando se entendem por gente”, como diria minha mãe. Sair da favela! Seja por meio de casamento, carreira ou sorte, qualquer meio é válido. Principalmente, distanciar sua imagem da favela. Sentir orgulho do lugar onde morou e viveu, não está entre suas principais opções.
Fernanda era uma destas muitas jovens mulheres a perseguir este objetivo! Quando a conheci, estudava em um colégio particular de renome em nosso bairro. Era de inspiração militar, a Aeronáutica, para ser mais exato. Era uma grande vitória, tanto pessoal quanto da família. Era duro e difícil, tanto no aspecto financeiro quanto no aspecto pessoal. Esconder quem era e o lugar de onde vinha, não é tarefa fácil. Nunca poder convidar os amigos para estudar em sua casa, sempre ter de ir para lugares de onde a conhecem e viver inventando desculpas para não organizar alguma atividade em seu lar. Não é simplesmente vergonha, tem haver com segurança pessoal e de terceiros. Tem haver com respeito próprio e o medo do preconceito natural das pessoas. A cada notícia sobre algum evento violento nas favelas, o medo e o distanciamento entre os mundos crescem. É um abismo profundo demais para não ter medo.
Fernanda tinha “pontos a seu favor”, era excepcionalmente bonita e charmosa, era inteligente e dedicada... em suam, era muito popular entre garotos e garotas. Sua beleza negra desabrochou na adolescência, muito cedo. Venceu, inclusive um concurso interno de beleza e participou de várias atividades sociais, como convidada. Era ‘pedra de toque “de todos os alunos, tanto as meninas quanto os garotos queriam estar perto dela e realizar seus desejos. Era um Xica da Silva moderna!”.
A conheci em uma festa da empresa, onde seu pai trabalhava como mestre de cabotagem. Fiquei enfeitiçado! Mas ela era uma adolescente, eu pelo contrário já caminhava para os trinta e tantos, então concentrei os esforços em novas possibilidades, mas não tão novas assim. Mas algum tempo depois, a encontrei em uma Kombi que fazia uma linha para o morro. Sentou bem ao meu lado, estava deslumbrante e emanava um perfume inebriante de seu corpo perfeito. Usava uma roupa toda branca, como uma médica ou enfermeira, o que realçava ainda mais suas curvas voluptuosas via o contraste com tom de sua pele. Visão estonteante! Conversamos, pois ela lembrava de mim da festa. Ficamos amigos.
Na viagem, contou-me sobre o seu namoro com um “cara” da minha rua, que eu conhecia de relance. Estavam apaixonados. Achei um desperdício, mas nada disse! Até então, nunca tinha reparado nos dois, agora os via em todos os lugares por onde passava no morro. Eram onipresentes! Acho que estava com inveja dele, pois com certeza, ela era a mulher mais bonita do morro e ele, apesar de viver ali dentro, era seu namorado. Todas as meninas bonitas do morro, que conhecia, ou namoravam alguém de fora ou com algum traficante com dinheiro. Aquilo durou um período muito curto, pois alguns dias depois a vi no Cacuia. A chamei para subirmos juntos, mas não me escutou. Peguei a Kombi e subi o morro. Quando chego lá, a vejo. Era estranho, como ela poderia ter chegado ali tão rápido? A resposta veio em um “flash”, um rapaz “baixinho” a segurava pela cintura e a encostava em um carro, estacionada na entrada da Central. Deu um beijo singelo e olhou para ela apaixonadamente. Bem vestido, com roupas caras e usando bermudas àquela hora, não poderia ser do morro. Não era! Após as despedidas, entrou no carro que ambos estavam encostados. Era um zero quilometro, caro para os padrões normais, imagine para os padrões do morro. Não dei importância, ela estava certa!
Dias depois, estava no inicio da Central no bar do pezinho bebendo. A via novamente, estava agora com... o namorado antigo. Em beijos apaixonados, os dois tão grudados que nem um fio de cabelo passaria entre eles. Beijos, abraços, mãos e muito amor pra dar! Não entendi porra nenhuma! Ela parecia uma menina legal. Brincar assim era perigoso. Seria investimento a longo prazo o que pretendia? Era difícil dizer. A situação perdurou por um bom tempo, me esbarrava ora com um casal ora com outro. Um casal frio e outro bem quente. Bar, boate, praia... não importava o lugar, o rodízio era constante. A minha curiosidade tinha ficado tão grande, que minha namorada notou. Logo, deu seu parecer: ‘Ela gosta do durão e o usa para que o “playboizinho” faça o que ela quer.Um era amor, o outro era... “business”. Não sabia se a admirava ou detestava por estar fazendo aquele joguinho.
Jogos são difíceis de esconder, como ela descobriu rapidamente. O “playboizinho” a confrontou no meio da rua, aos gritos e com muita ofensa pessoal de ambas as partes. Ela lançou de todas as armas femininas possíveis: chorou, gritou, pareceu frágil, e finalmente deu sua cartada. Falou em casamento em alto e bom som. Era o que pretendia, sair dali através do mais velho dos truques: o casamento. Cobrou dele, apresentá-la aos seus sogros e levá-la para seio de sua família fora do morro. Cobrou dele, o preconceito de sair com uma mulher do morro e sua vergonha de apresentá-la aos amigos e pessoal do trabalho. Cobrou dele, que não era uma destas muitas que iriam para cama com ele para satisfazer seu ego de “garotinho mimado”.
Sumiram de meu radar por um tempo. O garoto do morro ganhou a preferência neste tempo vago. Falei para minha namorada, que virara uma espectadora do triângulo amoroso tanto quanto eu, que o “playboizinho” havia perdido a parada. As mulheres percebem coisas que os idiotas dos homens não conseguem enxergar, principalmente, no que diz respeito a relacionamentos amoroso, que não são os seus. Ela deu um sorrisinho e não disse mais nada.
Estava certa! Dias depois, encontramos com ela em um supermercado, onde fez questão de mostrar um anel de noivado. Estava radiante, pois iria casar dentro de dois meses. Quase perguntei com quem, mas me abstive de falar bobagens. Decisão sábia, o nome do “playboizinho” foi pronunciado completo por aqueles lábios maravilhosos. Minha namorada, nem esperou que ela fosse embora para começar a rir copiosamente. Dei o “braço a torcer”, mulher entende bem mais disso que nós... os panacas.
Convidados para a suntuosa festa, em um clube privativo no Jardim Guanabara, conhecemos o dito cujo e toda a sua família, que não estava lá muito feliz com a mistura dos dois mundos, mas tinha que aceitar. O filho fora fisgado de forma irremediável e deixara que o orgulho da competição o conduzisse, exatamente, onde ela queria. Um apartamento e um belo carro foram os presentes de casamento. Presentes estes que seriam, no final das contas, dela. Pois, o casamento durou, exatos dois anos. Um preço justo!
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