A vida não é simples, tem todos os problemas normais e os caminhos que seguimos nunca são aqueles que imaginamos. Esta é a história de alguém que seguiu um caminho que ele não esperava e ficou amarrado a este destino, sem poder se livrar dele.
Já conhecia o Lourenço a muito tempo, mas nunca tinha parado para bater um papo com ele. Sabia que tinha um envolvimento com o tráfico, mas não era um avião e nem soldado, fazia a contabilidade, tinha até o apelido de intocável, pois não importava a facção ou o chefe da boca, que sempre iam busca-lo em casa para fazer o serviço. Meu irmão me disse, certa vez, que ele já fazia isto a mais de quinze anos.
Hoje, ele parou para comprar um maço de Derby, seu vício mais comum. Mas não era o único. Adorava uma branquinha, como todo bom descendente de nordestino e também pegava umas carreirinhas de vez em quando. Nada exagerado, mas era contumaz. Quando entrou, nem olhei para ele, mas por algum capricho do destino, parou do meu lado e me viu tomando minha cerveja, decidiu beber, pediu um copo pro Caveirinha e já ia pedir uma cerveja, quando lhe ofereci da minha. Política da boa vizinhança era muito útil para quem vivia no morro como eu. Ele aceitou alegre e comentou: “Pensei que você não fosse com a minha cara?” estranhei o comentário e perguntei: “Mas, por quê?” Deu de ombros, colocou a cerveja no copo, fazendo colarinho, como era costume dos bebedores inveterados de outrora e completou: “Simples, quando eu chegava em qualquer lugar em que você estava, você levantava e ia embora!” Dei uma risada e expliquei: “Ora, fácil né, sempre fui saco de pancada de todo mundo que era ou foi do movimento, quando chega alguém do movimento, meu medo me manda sair dali rapidinho. Acho que é um movimento involuntário.” Ele riu e sorveu o primeiro gole bebendo o conteúdo de seu copo até a metade. Hábito antigo e enraizado, por aqueles que realmente apreciam uma loirinha. Fizemos um brinde e, então, ele começou a contar sua história.
Sabe, fui contador de verdade. Tenho diploma! Me formei na Escola Técnica, lá Centro da cidade. Trabalhei um tempão lá no Cupello. Te vi algumas vezes levando material do Doutor Luciano, aquele safado. Pena ter morrido, não é?
Não respondi, mas fiquei impressionado dele lembrar que tinha trabalhado com o Doutor Luciano e que resolvia muitos assuntos no escritório do Cupello. Não lembro de te-lo visto por lá nenhuma vez sequer. Mas não deveria ser de espantar, pois toda vez que chegava só ficava olhando para as meninas do Cupello. Era um colírio, quem teria olhos para um barbado, hein.
Riu e continuou. Sabe, bebo pra cacete. Sempre bebi. Minha mulher foi esperta e caiu fora no primeiro ano de casamento. Não servia para ela, coisa e tal. Mas foi bom, hoje vejo que não sirvo para casamento. Prefiro ter uma mulherzinha de vez em quando que não povoe a minha casa. Sou intratável quase o dia inteiro, só melhoro a noite, minha melhor hora. Mas, continuando, assim como perdi minha esposa, também, perdi o emprego. As meninas escondiam meu vício do filho do Cupello, que gerenciava o escritório, na época. Mas nem todo dia é dia de santo. Um dia ele me pegou com uma garrafa de vodca no banheiro. Ela já tava pela metade. Foi justa causa no ato! Eu merecia.
Depois disto, não conseguia arrumar mais nada que prestasse. Fiquei um tempão sem emprego vivendo do fundo e da rescisão. Mas sacumé? Dinheiro não dura pra sempre, principalmente, pra quem tem um vício como eu. O pior foi ter começado a cheirar. Me desnorteou, já era meio descompensado, mesmo. Fui fundo e sem dinheiro, acabei mais encrencado que nunca. Tava devendo os olhos da cara para a boca. Sabia que se não fizesse algo rapidinho, iam meter uns buracos novos na minha cara, que eu não iria gostar nem um pouco.
Se lembra do Kiko, aquele moleque que mataram no CIEP a paulada?
Balancei a cabeça afirmativamente e pedi uma cerveja e uma porção de calabresa para nós, a conversa ia ser demorada pelo jeito.
O moleque era bicho solto. Gostava de puxar o gatilho. Não pensava duas vezes! Fui bater um papo com ele, um camarada meu era chegado dele e fez a ponte. Fui até a boca com a conversa mais fiada do mundo, tentando vender um peixe que não tinha e não valia nada. Já tava começando a gaguejar e ficar mais enrolado ainda. Ele ficava me olhando nos olhos o tempo todo, mal conseguia sustentar o meu. Pensei que ia morrer ali e agora. Foi quando ele levantou, segurou o revolver que tinha na cintura e balançou na minha frente e me perguntou: “Você é contador, não é?” Falei que sim, mas tão baixo que nem eu ouvi direito. “Vamo faze uma troca... Ta na cara que você não vai me pagar nunca mesmo, vou ter que meter uns pipocos na tua cabeça de merda e botar mais uma cruz nas ruas.” Fiquei suando frio. Não sei por quê, mas agradeci a Deus por não ter tido filhos. “Mas sabe duma coisa? Não to muito afim, não. Prefiro que você me pague trabalhando para mim.” O espanto foi tão grande quanto um estampido que ouvi lá fora, parecia não ser nada, soldados brincando com arma nova. “Mas... não sei usar armas... pra falar a verdade, tenho um pavor desgraçado destas merdas. Trabalhar de avião, acho que daria muito na pinta, não?” Ele balançou o revolver na minha cara de novo e disse: “Não quero que você faça esta merda, não! Quero que você faça a contabilidade da boca pra mim. Vejo o dinheiro entrando e acabo não ficando com nada. Porra, como é que pode? To nessa pra ganhar e não para pagar. Que filho da puta vadio sou eu, que não consigo ganhar porra nenhuma nesta boca fudida. Quero saber o que ta acontecendo. Se tão me roubando ou... caralho. Não quero saber, quero meu dinheiro, porra. E você vai me ajudar nisto... porque senão...” Olhou bem pra mim com aqueles olhos pretos infernais e completou: “... acho que não preciso explicar seu destino, não é mesmo?” Balancei a cabeça nervosamente.
Foi assim que entrei pro movimento. No início, continuei trabalhando em bicos lá embaixo. Fui ajudante de pedreiro, carregador de caixas na feira, trabalhei no Mundial, lá no depósito, fui até monitor de escola, no Bahiense. Mas eu sempre cagava tudo! Perdia um emprego atrás do outro, e olha só, tudo sem carteira assinada, porque, quando viam minha carteira, logo queriam desistir de me contratar, por causa da justa causa, mas aí eu me humilhava e contava uma história triste que metia cinco filhos no meio, nem sei como acreditavam naquilo. Mas sempre conseguia alguma coisa. Sempre merda.
De noite, ficava na boca. Anotava tudo e contabilizava tudo. Acabei até descobrindo porquê aquela merda não dava grana. Era bem simples. Uma porrada de moleques irresponsáveis, recebendo por semana merreca. Mas merreca mais merreca, dá uma grande porra, não é. Armas em profusão, muitas sem necessidade, toda semana sumia uma. Munição era gasta que nem água. Ele pagava enterro dos soldados e dos aviões mortos, dava cesta básica para os moradores mais próximos da boca e, principalmente, pagava os polícia. A venda era uma merrequinha, que não cobria as despesas. Depois do segundo mês, tinha que contar tudo pro patrão. Mas, se sabe né, a moda de matar o mensageiro de péssimas notícias é um hábito arraigado na humanidade a milênios. E o mensageiro era eu. Minha pele tava no braseiro de novo!
Antes mesmo que eu fosse até ele contar as boas novas, ele me chamou na casa dele. Deu um monte de gritos e reclamou pra cacete pelo trabalho porco que eu tava fazendo, pois ele continuava sem ver a cor do dinheiro. Acho que gaguejei um montão, antes que ele conseguisse entender o que eu tava dizendo. Mas no final, percebeu o que tava acontecendo. Em um ótimo trabalho de corte de custos, ele decidiu atacar sua maior despesa. A grana da PM. Parou de pagar, aquele moleque maluco. Achou que podia viver sem eles. Tava enganado, né! Acho que durou uns seis meses. Assim mesmo, porque era um sortudo de marca maior. Você não deve lembrar... mas na festa junina daquele ano, lá no campo da Vila, deram uns tiros nele. Foi a PM. Mas os caras eram uns merdas tão grandes que descarregaram os revolver nele e só conseguiram acertar cinco tiros em lugares que não matavam. Acertaram na perna, no braço e até no ombro. Mas o moleque fodido, conseguiu correr e fugir. Como? Sei lá! O capetinha era ruim pro diabo, que devia ter um pacto com o coisa ruim. Só pode!
Mas sorte não dura pra sempre. Ele voltou alguns dias depois e reassumiu o movimento. Deixaram ele em paz por um tempo. Quando ele se descuidou pegaram ele na casa da namorada fora do morro e levaram-no para o CIEP, passaram dois dias torturando o moleque, só o mataram no Domingo e deixaram ele amarado lá, pras crianças que chegassem no dia seguinte o encontrassem lá. Um aviso, pro substituto.Voltei para a vida de desempregado na segunda mesmo. Abri um jornal e comecei a marcar uns empregos para ver. Com o moleque morto, acreditei que minha dívida tava paga e que ninguém iria me encher de novo. Fiz até promessa de que iria largar o vício e nunca mais botar uma branquinha no nariz. Doce ilusão. Fiquei desempregado uma semana. Foram me buscar lá em casa. “O chefe te mandou voltar pro trabalho na boca.” Falou um dos moleques que foram me buscar.Nem sabia quem era o novo big boss, mas aprendi rápido que não era tão fácil largar daquela vida bandida.
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