28 outubro 2007

Poesia - Invencível Fragilidade

Nosso poeta nos traz a força do detalhe e a fraqueza da vida em mais um de seus belos poemas.

INVENCÍVEL FRAGILIDADE


VIGOROSO ESPAÇO QUE SEPARA
A VAGA PLENITUDE,
DA INOCENTE VONTADE DE TÊ-LA.

DESFIGURADO CORPO, QUE PENDE NO ESPAÇO,
ATÉ QUE FAMINTOS ABUTRES
O DEVORE,

E O ESQUELETO, SEJA ENTÃO LIMPO,
EM PUTREFAÇÃO,
POR INVISÍVEIS EXÉRCITOS
DE CARNÍVORAS BACTÉRIAS.

CORREM AS ÁGUAS SOBRE O SEU LEITO DE TERRA
POR ELAS MESMAS CAVADOS,
SEGUINDO A INEXORÁVEL FORÇA
DA ENERGIA POTENCIAL,
ATÉ POR FIM SEREM ENGOLIDAS
PELA GIGANTESCA INÉRCIA
DO NIVELAMENTO DO MAR.

PARA ONDE CORREM AS ÁGUAS DO MAR?
SENÃO APENAS SE REVOLTAREM
CONTRA A PRISÃO IMPOSTA
POR SEU ETERNO DESTINO,

E SE ATIRAREM COMO QUE SUÍCIDAS
CONTRA OS ROCHEDOS
QUE AS POLICIAM NOITE E DIA,
E RENASCEM A CADA INSTANTE
OXIGENADAS PELA BRANCA ESPUMA.

NASCE UM FILHOTE DE BEIJA-FLOR,
NA ÁRVORE DE MAUS FRUTOS,
QUE ANTES SERIA AO FOGO LANÇADA,
MAS A FRAGILIDADE E O ESPLENDOR DO NINHO,
PROTEGE A VIDA DA GROTESCA ÁRVORE.

SEUS ESPINHOS FURAM MEUS OLHOS.
É O PARADOXO DA VIDA,
ORA SE FORTALECENDO COM O TEMPO,
ORA PELO TEMPO SE DEIXANDO VENCIDA

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Mulheres que Amo - Mais Mulher

Há mudanças de comportamento que são inexplicáveis, a competição entre adolescentes é uma delas. Os valores mudam com uma velocidade fantástica, transformando a vida de todas à sua volta. A pior delas é a gravidez na adolescência, por motivo banal, como veremos a seguir:

Competição feminina é feroz! Leva as mulheres as últimas consequências de seus atos, independentemente da idade. Sabe, tenho duas belas sobrinhas com a mesma idade problemática: 15 anos. Para todas as pessoas... é a idade da estupidez. Infelizmente, quem a vive... não pensa assim. Então, "bate mais cabeça" do que seria necessário. Poderiam ouvir um pouco mais os mais velhos, mas... são velhos, como podem saber alguma coisa. Pelo menos, é o que eles pensam. Assim, minhas sobrinhas acabaram seguindo o caminho da total e completa burrice.
A lógica diria, como mulheres... da mesma família... com a mesma idade... e estudando no mesmo colégio... deveriam ser amigas. Mas o que lógica tem a ver com isto? Nada. Por este motivo, ambas eram adversárias ferozes no colégio. Disputavam do cara a coroa até o namorado. Faziam contagem de tudo: dos vestidos que usavam, das amigas que tinham e até mesmo das notas que tiravam. A competição poderia ter se tornado algo saudável, mas não. Tudo descambou para a mais completa besteira. A disputa por quem era a mais "mulher". Nem ao menos tinham uma idéia do que aquilo significava.
O primeiro critério para saber quem era a mais"mulher", foi a do bom gosto nas roupas. Escolheram algumas meninas para julgar de ambos os lados e a cada dia da semana vinham com uma produção totalmente diferente. Vestidos, sapatos, saias, bustiês e tudo mais que pudesse chamar a atenção de todos. O resultado foi um empate.
O segundo critério foi saber quem era a mais madura das duas. Neste critério, não precisava ter competição, pois nenhuma das duas tinham um pingo de maturidade, como todas as mulheres adolescentes do mundo, este é um critério "sine qua non" para ser adolescente: não ter maturidade. Deveria acrescentar: não ter cérebro, também. Incrível, já fui adolescente um dia e me achei o máximo. Meu Deus, que absurdo! As atitudes tomadas durante uma semana foram julgadas pelas mesmas amigas para saber quem era a mulher mais madura das duas. O resultado foi idêntico: empate, novamente.
O terceiro critério só poderia ser o pior deles: quem era a mais bonita das duas. Primeiro, avaliaram a opinião das amigas sobre a beleza e a sensualidade de ambas. Depois avaliaram o charme e o carisma de cada uma. Uma venceu em beleza e sensualidade e a outra venceu em charme e carisma. Ficou faltando a última hipótese: quem os garotos achariam a melhor. Foi feito um censo entre os meninos para quem era a melhor "mulher" das duas. Não souberam responder. Alteraram a pergunta, então, para quem eles desejavam mais como mulher. O resultado ficou em empate novamente e sem nenhuma indicação clara para que lado pendiam.
A disputa esfriou entre as amigas, que desistiram daquele jogo imbecil. Apesar das primas, não. A disputa começou em silêncio. Uma disputa entre quem era a melhor com relação aos namorados que conseguiam. A primeira que "ganhasse" o melhor namorado venceria a disputa, mas não era nada explícito. Era implícito no olhar e nas conversas entre as amigas comuns delas. Deixavam sempre transparecer que faziam tudo, uma em função da outra. Se uma delas se apaixonasse por um "carinha", a outra ia lá e dava em cima dele. Se uma olhasse para um garoto, a outra ia lá e dava toda a "bola" possível, até o cara se mancar. Chegavam mesmo a se jogar no colo dos garotos que interessavam uma a outra. A disputa era insensata, pois não havia um pingo de sentimento envolvido naquilo. Os garotos iam e vinham sem nenhum sentido e sem nenhum remorso.
A disputa chamou a atenção dos pais que conversaram com as filhas individualmente. Negaram tudo! Não estava acontecendo nada disto, as duas se amavam. Nunca fariam algo assim. É impensável. Impensável, com certeza! As duas mal se falavam. A disputa avançou para o "roubo" de namorados. Uma conseguia um namorado. A outra ia lá e dava em cima até conseguir tirá-lo da prima. As duas chegaram as vias de fato na saída do colégio e chegaram com as roupas rasgadas em casa. Deram uma desculpada tão esfarrapada quanto suas roupas. A disputa chegou ao seu auge das hostilidades. Era o princípio de uma guerra. Foi quando uma delas, arrumou um namorado que ela realmente gostava.
Esqueceu a prima e passou a vivenciar aquela nova sensação. Sentiu seu mundo modificar e ficar melhor, achava tudo maravilhoso e perfeito. Infelizmente, a guerra já havia sido deflagrada. A outra prima continuou a sua cruzada. O alvo de seu bombardeio era fácil e previsível: o novo namorado. Iniciou um processo de sedução pesado para cima do garoto, que não entendia o porquê de repente ter ficado tão interessante. Quando a primeira descobriu o que a outra estava fazendo, foi confrontar e pedir que aquilo tudo terminasse, pois estava mesmo apaixonada pelo garoto e não estava mais interessada em nenhuma disputa tola. Difícil de acreditar, não? Tanto tempo perdido em escaramuças e táticas diversionistas, você não pode esperar que o outro lado aceite o armistício sem desconfiar. A provocação continuou, até que a primeira disse com "todas as letras", para a prima: "Eu sou bem mais mulher que você! Ele nunca vai me trocar por você!" Isto na frente de todos no colégio. O ódio subiu a cabeça das duas, a outra virou de costas e foi embora sem dizer nada.
Dois meses depois, o namorado da primeira chegou na casa dela e disse que teria de terminar tudo, pois a prima dela estava grávida dele e ele teria de assumir a criança. O desespero tomou conta dela, que saiu correndo e foi até a casa da prima. Quando chegou lá, entrou entempestivamente no quarto da prima, que estava olhando umas peças de enxoval para criança. "O que você fêz?!?" repetia sem parar, gritando com a prima. "Provei que sou mais mulher que você!".

20 outubro 2007

Poesia - Sem Neblina

Há tanto que nos atrapalha a vida. Há tanto que nubla nosso caminho. Qual a perspectiva de superar tudo isto e ter um futuro brilhante pela frente? é isto que pede o nosso poeta para sua vida.

SEM NEBLINA

NÃO QUERO MONTES NEM ÁRVORES,
NEM EDIFÍCIOS, NEM POSTES,
A SE INTERPOREM
ENTRE O MEU OLHAR
E O INFINITO HORIZONTE.

NÃO QUERO BARREIRAS
A INTERROMPEREM DOS MEUS OLHOS,
A LUZ QUE UM DIA QUERO FAZER VOLTAR.

INVERTENDO O SENTIDO DOS VETORES,
QUERO SIM,
QUE OS RAIOS DE LUZ
PARTAM DOS MEUS OLHOS,

NÃO PARA ATINGIREM AS NUVENS
MAS PARA ULTRAPASSAREM AS ESTRELAS,
E TOCAREM O CÉU,

NÃO PARA ATRAVESSAREM O OCEANO,
MAS PARA RASTrEAREM AS SAVANAS DA ÁFRICA,

NÃO PARA CLAREAREM A NOITE,
MAS PARA OFUSCAREM O SOL;

NÃO PARA APENAS ILUMINAR O CAMINHO,
MAS PARA DISSOLVER AS TREVAS
E RECRIAR A VIDA

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Boogie Woogie - Porta de Saída

Futebol é muito mais que um esporte no Brasil. É, também, uma forma de pessoas de baixa renda e pouca esperança, alcançarem sua cidadania.

Futebol, paixão nacional! Motivo de orgulho para todo um país, também, é uma porta de saída para milhares de jovens que buscam uma vida melhor nas favelas brasileiras. O futebol proporciona a milhares de garotos a oportunidade de crescerem e tornarem-se cidadãos com esperança. No morro, isto aconteceu algumas vezes, mas a oportunidade mais bem sucedida foi a história de Alberto.
Ele era um garoto franzino e sem muita expectativa até chegar aos doze anos. Descobriu a bola e foi descoberta por ela. Levado por seu irmão mais velho para uma pelada em um campinho de barro, próximo no morro. Entrou para completar o time e mostrou que sabia o que fazer com ela e ela gostava demais de sua parceria. Dali em diante, foi uma ascensão meteórica. Entrou para um time do morro e jogou uma partida de apresentação contra o time da Portuguesa, que disputava a segunda divisão do Campeonato Carioca. Fez dois gols e deu passes para mais alguns. O treinador da Portuguesa o convidou para jogar no time de de juniores local, mas o irmão mais velho percebeu que seu irmão poderia alçar vôos maiores. O levou para o Flamengo, time do coração de toda a família, mas alguns dirigentes não ficaram impressionados e mandaram os garotos voltarem quando houvesse uma "peneira". O irmão de Alberto não ficou satisfeito, procurou um amigo que conhecia alguns treinadores de futebol e colocou seu irmão no Olaria, que disputava na época a Primeira Divisão do Carioca. Lá, o garoto alcançou grande destaque rapidamente. Foi preparado fisica e mentalmente para jogar futebol. Passou a ter uma alimentação apropriada e seu corpo explodiu, bem como suas possibilidades de vida.
Depois de dois anos de destaque no Olaria, Alberto foi convidado para fazer um treino no Fluminense, no Centro de Treinamento, recém inaugurado, em Xérem, Baixada Fluminense. O técnico adorou o garoto e o incorporou ao time de juniores. A equipe, então, passou a dar uma bolsa de custeio para o garoto poder continuar a ir treinar e viver melhor. Ajudou aos pais e acabou sendo destaque no vice-campeonato de Sub-17 que o Fluminense conquistaria naquele ano. O que rendeu a Alberto sua primeira namorada.
Era Cláudia, uma menina do morro, que sempre vivera saindo apenas com "playboizinhos" do Jardim Guanabara, mas percebera a oportunidade de futuro do promissor garoto. Todos passaram a vê-los a desfilar pelas ruas da favela de mãos dadas. O garoto sentia-se como um balão inflado. Jogando em time grande e desfilando de braços dados com a mais bela menina do morro, o destacavam na multidão. Todos passaram a admirá-lo e respeitá-lo. Quanto melhor sua carreira era conduzida, mais respeito o garoto adquiria entre seus pares.
Veio então o primeiro contrato aos dezessete anos. Junto, veio primeiro empresário. Também, começou a pressão da família e da namorada para deixarem o morro. O problema estava em que Alberto não queria sair de lá. Respeito e admiração entre os garotos com quem convivera sua vida inteira, era um grande estímulo para ele. Decidiu permanecer, mesmo o irmão e o empresário tentarem convencê-lo do contrário. Continuou a jogar as peladas no mesmo campinho de barro onde tudo começara. Ainda ia a praia para jogar vôlei e namorar, correndo como a criança que era pelas areias sujas das praias da Ilha do Governador. Não conseguia ver os limites curtos de seu mundo infantil.
Entrou em um clássico carioca e foi destaque. Ganhou as manchetes dos jornais e das redes de televisão. Mostraram sua vida simples e seu amor pelo morro. Também, mostraram a opulência que vinha alcançando com suas vitórias. Mostraram, também, a "grana" que passaria a ganhar. Incentivaram a cobiça e a inveja alheia. Seu irmão acabou sendo assaltado e espancado por moradores do morro que ele, tanto, amava. Na visita a seu irmão no hospital, era a própria máscara da decepção. Não conseguia se conformar com que havia acontecido. Não conseguia acreditar em tudo aquilo. No próximo jogo, seu prêmio serviu para dar entrada em um apartamento, para onde toda a família morava. A namorada quis acompanhar, mas a família foi contra: "Vocês ainda não são casados", diziam todos. Ele continuou indo ao morro, mas fica no "pé", não subia. Esperava a namorada lá embaixo.
Sucesso, dinheiro, longe de suas raízes e afastado muito tempo de sua família e amigos verdadeiros. Alberto despencou. Perdeu dinheiro, perdeu respeito, perdeu sua vaga na equipe. Acabou sendo encostado na equipe e passou um ano sem atuar. Sem direção e perspectiva, acabou retornando para o modesto Olaria, onde teve de recomeçar toda a sua carreira. Mas agora, não mais na companhia de Cláudia, que havia optado por alguém com melhores "perspectivas".
Conheceu uma enfermeira no novo clube, se afastou da família e trocou de empresário. Sua vida novamente deslanchou! Sem ouvir a mais ninguém que dizia o "amar", foi em frente e acabou conseguindo uma transferência para um país asiático onde receberia o suficiente para não mais ter preocupações com questões financeiras.
No dia de sua partida, encontrei-o no pé do morro olhando fixamente para seu topo. Perguntei se havia algo errado e a única coisa que ele foi capaz de dizer: "Devo tudo que tenho a este lugar. Sem ele não seria nada, mas com ele não serei nada." Olhou triste para mim e foi embora para nunca mais retornar.

13 outubro 2007

Poesia - Cavaleiro do Apocalipse

O Apocalipse é uma figura religiosa que reprensenta o fim dos tempos. Mas há muito tempo até alcançarmos este fim. Nosso poeta continua sua jornada em atravessar esta difícil passagem para a eternidade.

CAVALEIRO DO APOCALIPSE


ENQUANTO TIVERES VIDA,
ESTARÁS TU A SALVO
DAS VERDADES QUE SÃO COMO CRUZ
PARA OS DEMÔNIOS
QUE EM TI HABITAM.

PROTEGE-TE COM MENTIRAS
QUE O TRANSPORTA PARA UM MUNDO SURREAL,
ENQUANTO PISOTEIA NO NASCEDOURO,
TUDO O QUE DE REAL SE MOSTRA.

A POTENTE INSEGURANÇA QUE RONDA
TUA PENOSA EXISTÊNCIA,
RETARDA TALVEZ ATÉ AO INFINITO
A ABERTURA DOS TEUS OLHOS,
E TRAÇOEIRAMENTE LHE RETIRA VIDA,
AINDA QUE O CORPO PERMANEÇA.

LANÇA-TE ENTÃO, NA IMPLACÁVEL ARMADILHA DO TEMPO,
ESTÁS AGORA PROTEGIDO
DAS AMEAÇADORAS VERDADES,
E PARA ISTO, CRIASTE CASULOS TÃO FORTES,
QUE COMO O OUTRO GUME DA LÂMINA,
O IMPEDE DE CRESCER_A MENTIRA NÃO RESISTE AO TEMPO.

ANIQUILA-TE A CADA DIA,
ABSTENDO-SE DO ALIMENTO DA VERDADE.
MARGEIA A CADA INSTANTE
O CONFRONTO COM O INCONSCIENTE.

TENS, PORÉM VIDA LONGA,
E COMO UM CAVALO AÇOITADO PELAS TREVAS,
MUITA LUZ FARÁ APAGAR,
ENEGRECENDO UM CAMINHO
QUE LHE FORA ENTREGUE TODO ILUMINADO.

Mulheres que Amo - Jornada Amorosa

Enquanto os homens tem suas aventuras concretizadas em desafios, as mulheres tem suas aventuras concretizadas em grandes amores. A incompreensão masculina a este fato é exemplificado no texto abaixo:

A busca do amor é uma jornada espiritual essencialmente feminina. É um ato impulsivo e compulsivo, incompreensível para o gênero masculino. Um ato transformador da superfície física de seu hospedeiro, que não permite uma introspecção maior de seu empreendedor. Para tentar deixar tudo mais claro, vamos examinar a jornada pessoal de Cecília, uma menina que estudou comigo no ginásio.
Ela era uma menina comum, sem muito brilho e que não chamava muito a atenção de ninguém. Não era a Senhora Popular, mas também não era nenhuma songa-monga. Mas com treze, já começaram a falar do sonho de consumo feminino: o casamento. Pintaram um quadro de um homem perfeito, em que a única qualidade necessária: é estar disposto a se casar. Este era o Mário! Um “carinha” perfeito para os planos de quem não queria arriscar muito: tranqüilo e sem ambições. Já estava muito agradecido por ter uma namorada e seguia para todos os lados com a cabeça inflada de orgulho por ter alguém segurando o seu braço.
Infelizmente para o Mário, existe uma coisinha chamada tempo. Junto com ela... a maturidade. A feminina chega mais rápido do que a masculina, por isso, Cecília evoluiu bem mais rápido que o pobre do Mário. Descobriu que poderia ser um bela mulher. Mudou o visual, atualizou seu ‘look’ e passou a ter uma atitude mais sexy. Rapidamente, descobriu novas amizades e novos objetivos, em que o Mário não se encaixa. A ‘pedra de cal’ derradeira, veio dos comentários das novas amigas ao conhece-lo: “Ele não serve para você! Você é muito melhor que ele!” O ‘pé na bunda’ foi só a conseqüência natural do ato de evoluir. A seqüência do ‘pé na bunda’ foi à substituição da imagem do ‘homem ideal’. Agora, era o homem másculo, latino e bronzeado... o “Ricky Martin”. Uma figura inatingível e extraterrestre, que algumas mulheres deliram de tê-lo avistado pelos lados de Varginha.
Esta mítica figura, materializou-se em carne e osso para Cecília, que o conheceu em um café no Centro. Apaixonaram-se loucamente, e tiveram um tórrido romance de duas semanas ‘calientes’. A brasa do fogo queimou tão rápido quanto acendeu e as coisas foram esfriando... esfriando... esfriando... até que o toque chegou a congelar. Mas, imagem é tudo! Cecília não poderia abrir mão de seu Adonis, por um pequeno detalhe como felicidade. Então seguiu com o romance, mesmo que muitas vezes gostaria de estar em qualquer outro lugar do que do lado daquela estátua grega bronzeada.
Por sorte ou por azar, não sei bem, o “Adonis” deixou a natureza comandar seus instintos e cometer o ato mais comum possível: trair. Arrumou uma bela loira de seios fartos e pouco cérebro, assim como ele, e deixou a ‘pobre’ Cecília ‘na pista’. Para sua (in)felicidade e cobrança de amigos e familiares. Todos a culpando por não saber: “Segurar o seu homem”.Ela não se importou e decidiu seguir em frente com sua vida e sua busca espiritual por um grande amor na forma quase humana de um homem.
Deixou a segurança e a paixão de lado e investiu na praticidade. Escolheu um homem mais velho, com sabedoria em forma de uma carteira recheada e vida estável. Desta feita, não deixou o tempo escorrer por seus dedos e colocou logo um anel em sua mão. Marcou a cerimônia, cheia de pompa & circunstância, como convêm a qualquer noiva, não importando a opinião do noivo. Cerimônia religiosa em uma Igreja centenária, mesmo que os dois só colocaram os pés em uma Igreja, anteriormente, quando ainda eram crianças com fraldas. E no mínimo 200 testemunhas de sua grande vitória, que deveriam venerar a sua passagem sobre pétalas de rosas brancas. Foi tudo perfeito!
Infelizmente, eu deveria acabar meu conto de fadas com... e eles foram felizes para sempre, mas, a vida sempre tem um mas, não é? Veio a Crise dos Três anos, depois a dos cinco anos, depois dos sete anos e depois... as crises eram tão constantes que nem dava para nomeá-las. Os problemas só amainaram, quando ficou grávida e teve seu quarto modelo de perfeição masculina, seu último objeto de amor em sua busca espiritual: seu filho. O nascimento de seu filho marcou o fim de seu casamento e o início de sua dedicação exclusiva para o rebento. Era uma dedicação total... uma entrega absoluta... finalmente, Cecília acreditou ter encontrado o verdadeiro amor. Ledo engano, ao seguir os passos de seu filho pelas fases de crescimento – dos primeiros passos pelo carpete da sala até a ‘pagação de mico’ da adolescência – Cecília, também, o perdeu. Agora, para uma ruiva sardenta de uns 16 anos de idade. Foi sua última decepção amorosa! Foi seu último ato de Dom Quixote! Foi seu último Moinho de Vento! Uma vida inteira de busca... uma vida inteira infrutífera. Será?

05 outubro 2007

Poesia - Ansioso

Nosso poeta hoje, nos traz uma lição. ser mais rápidos que a vida, apenas nos trará a morte. Viver a vida é mais importante que qualquer expectativa. Viva e deixa a vida seguir seu passo.

ANSIOSO

Piso nas mesmas pedras todos os dias,
Afino a sola dos meus sapatos,
Mantendo o olhar exatamente no nada.

Piso firme,
Não sei se com raiva das pedras,
Ou dos sapatos,
Que dos meus pés não se largam.

Mantenho a ilusão de acelerar
A velocidade dos ponteiros
Do relógio que não uso,
Acelerando o ritmo das minhas pernas,
Postas em marcha.

Trilho assim, um caminho suícida.
O mesmo tempo que quero rápido,
A conduzir-me à materialização
De oníricas imagens.

É o mesmo tempo
Que continuará conduizindo em seu dorso,
Os reais cavaleiros
Do meu apocalipse diário.

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Boogie Wogie - Cizânia

O Século XX foi marcado pela força do sincretismo religioso negro no Brasil. Umbanda e Candomblé ganharam força e respeito. O crescimento rápido e avassalador das seitas cristãs pentecoastais mudou radicalmente a importância das religiões negras no Brasil. Destruindo núcleos culturais e religiosos de origem africana no Brasil. Este é um pequeno exemplo disto.

Carlinhos foi o pivô de uma transição. Uma transição espiritual! Dentro do morro, a Igreja Católica, Paróquia de Nossa Senhora das Graças, sempre reinou absoluta sobre as almas dos moradores. Todos rendiam suas homenagens e respeitos a Mãe Igreja, mas respeitavam, também, um outro guardião espiritual: a umbanda. O terreiro de Dona Castorina sempre foi um dos mais importantes de toda a Ilha do Governador. Sua dona e líder era uma das mulheres mais conceituadas e consultadas do bairro. Tinha uma história rica e próspera. Infelizmente, sua dinastia não seguiria seus passos.
Dona Castorina teve um casa, uma menina e um menino. A filha se afastou o máximo possível de tudo que estivesse ligado a umbanda ou qualquer coisa ligada ao mundo espiritual, poderíamos dizer até que ela era uma pessoa sem fé. O filho, apesar de manter sua ligação próxima com Dona Castorina, nunca demonstrou o menor interesse em seguir os passos da mãe. Não tinha talento e nem capacidade para agir como um líder, de que tipo fosse. A esperança de Dona Castorina, sempre, esteve nas mãos do neto, Carlinhos. Além do imenso interesse pela umbanda, demonstrava uma enorme aptidão religiosa e uma força de liderança para o culto, que todos respeitavam. Isto desde muito pequeno. O único porém, era que sua mãe era evangélica e buscava resgatar o filho da fé pagã da avó. A queda de braço pela alma do menino faria grandes estragos em um futuro próximo.
A mãe de Carlinhos adoeceu e o problema era muito sério. Foi a vários médicos, mas não conseguia uma palavra de esperança. Dentro da própria fé, não conseguia a ajuda que imaginava. Estava fadada a morrer jovem. Foi quando o filho convenceu a mãe a procurar a avó e ir até o terreiro de umbanda. Carlinhos estava acostumado a ver inúmeras curas "milagrosas" sendo realizadas no terreiro, durante as sessões. tinha certeza absoluta que sua avó poderia curar a sua mãe. Insistiu com ambas até convencê-las. A reunião foi dura e cheia de mágoas, pois Dona Castorina nunca apoiou o casamento do filho e nem a nora aceitava os afazeres da sogra. "Ela é filha de Satã!" sempre afirmava. O pai de Carlinhos nunca se importou, até porque dependia da mãe para quase tudo. Passava muito tempo desempregado e vivia em um terreno cedido pelo terreiro de sua mãe. A proximidade sempre fora uma tortura para a esposa, que fazia tudo para irem morar bem longe dali. Agora, as duas mulheres, de mundos distintos, teriam de ficar unidas pelo bem do ente mais querido de ambas.
A mãe de Carlinhos começou a ir no terreiro de Dona Castorina. Parou de frequentar sua igreja, foi repreendida pelo pastor, que a amaldiçoou pelo que estava fazendo. A tristeza de trair sua própria fé pelo filho que amava, a fez adoecer ainda mais. A cada ida ao terreiro de umbanda, ela parecia piorar ainda mais. Carlinhos começou a cobrar da avó, a piora da mãe. Não entendendo o porque de tantos que se curavam no terreiro, sua mãe, pelo contrário, só fazia piorar. Quando ela caiu de cama, Carlinhos foi até o terreiro e brigou feio com a avó, forçando-a ir até a casa deles para fazer algo. Dona Castorina concordou, mas o problema só fez aumentar ainda mais. Ao chegar na casa, a mãe de Carlinhos começou a delirar e a gritar: "Vade retro, Satanás!" Não aceitou de forma nenhuma que Dona Castorina entrasse no quarto e gritou desesperadamente que tudo era culpa do maldito terreiro, antro do demônio que conspurcara a sua alma e a sua família. O pastor incentivou ainda mais a contenda entre as duas mulheres e o garoto ficou dividido entre o respeito pela avó e o amor por sua mãe.
A morte de sua mãe, deteriorou de vez suas relações com a avó. Obrigou o pai a vender a casa e saírem do terreno que pertencia ao "demônio", sua avó. Entrou de cabeça na religião de sua mãe e com a força que era característica de sua pessoa. Começou a,liderar um movimento contra o terreiro. Faziam passeatas na frente do terreiro, rezavam aos altos brados e jogavam pedras no terreiro. Ficou impossível realizar as sessões de umbanda lá.
Um dia, Dona Castorina resolveu sair para conversar com o neto e tentar convencê-lo que não tinha culpa no que acontecera com a sua mãe, pois ela não tinha fé suficiente para se curar. Aquilo irritou ainda mais o garoto, que agrediu a sua avó e liderou o grupo a invadir e depredar o terreiro vazio. Após a destruição do interior, o neto não satisfeito pôs fogo no terreiro, sob os olhos desesperados de uma avó desconsolada e infeliz. A vida estava indo embora de seu corpo. Ela desfaleceu e foi levada urgentemente para o pronto-socorro. Ela nunca mais seria a mesma.
A filha de Dona Castorina foi para casa da mãe para cuidar dela, após a alta no hospital, mas pouco conseguia fazer quanto ao desgosto que aquela senhora tão pequena e tão forte carregava em seu peito. Toda a sua vida fora levada dela nas chamas daquela noite. Uma noite, em que seu neto fora tomado por qualquer força espiritual, menos o amor de Cristo. Apesar de tudo que acontecera, Carlinhos não parou de fustigar a sua avó. Continuava o movimento contra a líder da umbanda do morro. O objetivo agora era a sua expulsão. Brigou com a tia, brigou com o pai e com toda a família, apesar de ninguém ter dado queixa do vandalismo e da agressão que ele cometeu com a avó.
Carlinhos somente ficou satisfeito com a morte de sua avó. Não foi ao enterro e nem deu condolência a nenhum membro da família. Se afastou de todos e criou sua própria igreja, na mesma rua onde existira o terreiro de sua avó. No centro da igreja colocou uma imagem de sua mãe entronizada e iniciou a sua pregação do amor divino.