Futebol é muito mais que um esporte no Brasil. É, também, uma forma de pessoas de baixa renda e pouca esperança, alcançarem sua cidadania.
Futebol, paixão nacional! Motivo de orgulho para todo um país, também, é uma porta de saída para milhares de jovens que buscam uma vida melhor nas favelas brasileiras. O futebol proporciona a milhares de garotos a oportunidade de crescerem e tornarem-se cidadãos com esperança. No morro, isto aconteceu algumas vezes, mas a oportunidade mais bem sucedida foi a história de Alberto.
Ele era um garoto franzino e sem muita expectativa até chegar aos doze anos. Descobriu a bola e foi descoberta por ela. Levado por seu irmão mais velho para uma pelada em um campinho de barro, próximo no morro. Entrou para completar o time e mostrou que sabia o que fazer com ela e ela gostava demais de sua parceria. Dali em diante, foi uma ascensão meteórica. Entrou para um time do morro e jogou uma partida de apresentação contra o time da Portuguesa, que disputava a segunda divisão do Campeonato Carioca. Fez dois gols e deu passes para mais alguns. O treinador da Portuguesa o convidou para jogar no time de de juniores local, mas o irmão mais velho percebeu que seu irmão poderia alçar vôos maiores. O levou para o Flamengo, time do coração de toda a família, mas alguns dirigentes não ficaram impressionados e mandaram os garotos voltarem quando houvesse uma "peneira". O irmão de Alberto não ficou satisfeito, procurou um amigo que conhecia alguns treinadores de futebol e colocou seu irmão no Olaria, que disputava na época a Primeira Divisão do Carioca. Lá, o garoto alcançou grande destaque rapidamente. Foi preparado fisica e mentalmente para jogar futebol. Passou a ter uma alimentação apropriada e seu corpo explodiu, bem como suas possibilidades de vida.
Depois de dois anos de destaque no Olaria, Alberto foi convidado para fazer um treino no Fluminense, no Centro de Treinamento, recém inaugurado, em Xérem, Baixada Fluminense. O técnico adorou o garoto e o incorporou ao time de juniores. A equipe, então, passou a dar uma bolsa de custeio para o garoto poder continuar a ir treinar e viver melhor. Ajudou aos pais e acabou sendo destaque no vice-campeonato de Sub-17 que o Fluminense conquistaria naquele ano. O que rendeu a Alberto sua primeira namorada.
Era Cláudia, uma menina do morro, que sempre vivera saindo apenas com "playboizinhos" do Jardim Guanabara, mas percebera a oportunidade de futuro do promissor garoto. Todos passaram a vê-los a desfilar pelas ruas da favela de mãos dadas. O garoto sentia-se como um balão inflado. Jogando em time grande e desfilando de braços dados com a mais bela menina do morro, o destacavam na multidão. Todos passaram a admirá-lo e respeitá-lo. Quanto melhor sua carreira era conduzida, mais respeito o garoto adquiria entre seus pares.
Veio então o primeiro contrato aos dezessete anos. Junto, veio primeiro empresário. Também, começou a pressão da família e da namorada para deixarem o morro. O problema estava em que Alberto não queria sair de lá. Respeito e admiração entre os garotos com quem convivera sua vida inteira, era um grande estímulo para ele. Decidiu permanecer, mesmo o irmão e o empresário tentarem convencê-lo do contrário. Continuou a jogar as peladas no mesmo campinho de barro onde tudo começara. Ainda ia a praia para jogar vôlei e namorar, correndo como a criança que era pelas areias sujas das praias da Ilha do Governador. Não conseguia ver os limites curtos de seu mundo infantil.
Entrou em um clássico carioca e foi destaque. Ganhou as manchetes dos jornais e das redes de televisão. Mostraram sua vida simples e seu amor pelo morro. Também, mostraram a opulência que vinha alcançando com suas vitórias. Mostraram, também, a "grana" que passaria a ganhar. Incentivaram a cobiça e a inveja alheia. Seu irmão acabou sendo assaltado e espancado por moradores do morro que ele, tanto, amava. Na visita a seu irmão no hospital, era a própria máscara da decepção. Não conseguia se conformar com que havia acontecido. Não conseguia acreditar em tudo aquilo. No próximo jogo, seu prêmio serviu para dar entrada em um apartamento, para onde toda a família morava. A namorada quis acompanhar, mas a família foi contra: "Vocês ainda não são casados", diziam todos. Ele continuou indo ao morro, mas fica no "pé", não subia. Esperava a namorada lá embaixo.
Sucesso, dinheiro, longe de suas raízes e afastado muito tempo de sua família e amigos verdadeiros. Alberto despencou. Perdeu dinheiro, perdeu respeito, perdeu sua vaga na equipe. Acabou sendo encostado na equipe e passou um ano sem atuar. Sem direção e perspectiva, acabou retornando para o modesto Olaria, onde teve de recomeçar toda a sua carreira. Mas agora, não mais na companhia de Cláudia, que havia optado por alguém com melhores "perspectivas".
Conheceu uma enfermeira no novo clube, se afastou da família e trocou de empresário. Sua vida novamente deslanchou! Sem ouvir a mais ninguém que dizia o "amar", foi em frente e acabou conseguindo uma transferência para um país asiático onde receberia o suficiente para não mais ter preocupações com questões financeiras.
No dia de sua partida, encontrei-o no pé do morro olhando fixamente para seu topo. Perguntei se havia algo errado e a única coisa que ele foi capaz de dizer: "Devo tudo que tenho a este lugar. Sem ele não seria nada, mas com ele não serei nada." Olhou triste para mim e foi embora para nunca mais retornar.