23 fevereiro 2007
Poesia - Correira
CORRERIA
CORRE EM BUSCA DA LIBERDADE QUE PENSAS
CONQUISTAR,
AO CHEGAR AO NADA QUE EM VÃO PROCURAS.
CORRE, LEVADO PELA CORRENTEZA
DOS QUE TAMBÉM CORREM,
CORRE NA ESPERANÇA DE ACELERAR O TEMPO,
PARA CATALIZAR TRANSFORMAÇÕES
QUE, MESMO SEM PORQUÊ,
CONSIDERAS INDISPENSÁVEIS.
CORRE PARA ALCANÇAR A FELICIDADE,
QUE PARADOXALMENTE SE MOSTRA COMO
AREIA MOVEDIÇA
POR ENTRE OS DEDOS DOS QUE MAIS CORREM,
CORRE TODOS OS DIAS SEM FALTA,
E FALTA CONSIGO MESMO,
PARA NÃO DEIXAR DE CORRER.
MAURÍCIO GRANZINOLLI
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Boogie Woogie - Olhar do Crime - Parte III: Colateral
Apesar de tudo, se considera uma mulher feliz. Seu casamento dura mais de 25 anos. Dois filhos que a amam e um marido que nunca trouxe seus problemas para dentro de seu lar. O que mais uma mãe pode querer? Sua filha já está chegando no tempo de casar e transformou-se em uma bela mulher. Ela já viu os olhares que ela troca com o Carlinhos, filho do padeiro. Espera, sinceramente, que ela ouça todos os conselhos que lhe deu sobre a vida a dois, para não cometer os erros da maioria das meninas de sua idade, que acabam engravidando e jogando suas vidas fora. Graças a Deus, que ela tem o irmão! Este não vai deixar ninguém abusar de sua irmã querida.
Seu filho é fonte de orgulho. Não gostava de estudar, mas acabou descobrindo sua paixão: a mecânica. Fez o curso e começou a trabalhar em uma oficina no Dendê. Não ganha muito, mas já é um bom começo. Pior seria, se estivesse metido com estes garotos vagabundos do tráfico ou roubando por aí. Como o Cleber, filho da Dona Nalva, aquele sim um grande encrenqueiro e mau caráter.
Ela vai até o banheiro, limpa a sujeira acumulada do dia, coloca sua camisola de dormir, apesar do calor imenso que faz. Apanha o ventilador no canto do quarto e o liga na tomada, pensando que o seu marido podia, pelo menos fazer isto. Vai até o pequeno santuário que mantêm e começa a rezar para Nossa Senhora de Lourdes, sua santa protetora. Pede por seus filhos e por sua família, agradecendo tudo que lhe foi concedido de bom em toda a sua vida. O ritual se repete todas as noites, nunca falhando um único dia. Dona Maria de Lurdes é católica e fiel a Deus e a seu filho Jesus Cristo, sabendo sempre que o milagre da vida concedido a mortais como ela, seu marido e seus filhos só é possível graças a Ele.
Vai para a cama, seu marido já ronca a plenos pulmões. Anos atrás, diria ser impossível dormir com um barulho como aquele, mas acostumou-se e hoje, simplesmente, não atrapalha mais seu sono. Apaga as luzes de seu quarto e dorme.
Horas mais tarde, um barulho no quintal a desperta. Sempre teve sono leve e o som mais baixo a acorda. Fica atenta para tentar ouvir mais algum som, antes de acordar seu marido, que não ficará nada feliz com isto. Parece ouvir passos em seu quintal, tanto na frente da casa, como nos fundos. Será algum cachorro do vizinho e que pulou para seu quintal novamente ou um destes moleques a aprontar alguma das suas. Balança o corpo de seu marido, para acordá-lo. Resmungando, ele pergunta o que foi, mas não tem tempo de ouvir nenhuma resposta de sua esposa. O quarto é invadido por homens mascarados, Dona Maria grita, mas alguém coloca a mão sobre sua boca. Dois outros homens seguram seu marido pelos braços e fazem um sinal para ficarem quietos.
Os tiram da cama e os levam até a sala, Sheila é jogado a seu lado chorando por um outro mascarado. Armas surgem nas mãos deles e Dona Maria começa a ficar desesperada. Onde está seu filho? A resposta surge violentamente. O corpo dele é jogado sangrando sobre o chão da sala todo amarrado. O que estão fazendo estes homens? Dona Maria tenta erguer-se do sofá e ir até ele, mas um homem a segura e a joga no chão, ameaçando-a se tentar aquilo de novo. O marido ajoelha-se a seu lado e um dos mascarados a ajuda sentar no sofá, novamente.
Estão batendo em seu filho, jogado no chão. Sua filha tenta correr até a porta, mas é detida por alguém. Colocam-na no sofá e também fazem ameaças, apontando um revólver para ela. Dona Maria começa a implorar a eles que não façam aquilo com seu menino. Mas eles ficam enraivecidos e começam a falar coisas sem nexo sobre roubos de moto, assassinato de um menino... uma criança, dizem eles. Tudo culpa do seu menino. Impossível, quer gritar! Sua filha desata a chorar e seu marido a consola. Dona Maria começa a perceber o que irá acontecer. As armas, as máscaras, seu filho amarrado e jogado no chão da sala. Eles vão mata-lo! Não meu menino, não, por favor! Grita em desespero. O homem que parece chefiar os outros, grita com ela.
Enquanto isso, os chutes e pontapés começam a sacudir o corpo de seu filho no chão. Uma poça de sangue se forma. Uma poça de sangue... sangue de seu filho. Seu filho está morrendo na sua frente e ela nada pode fazer. Meu Deus, não permita! O choro vem a sua boca, a bílis sobe por sua garganta e seu coração dispara a bater em descontrole. Sua testa começa a suar... e então. Uma arma surge na mãos dos carrascos. Ele aponta para ele e dispara em sua cabeça, explodindo tudo em vermelho.
Dona Maria não chora mais! Sua visão vai do vermelho ao preto. Desmaia e acudida por um dos mascarados e seu marido. Os outros começam a gritar para irem embora dali o mais rápido possível. Arrastam o mascarado que ajudava Dona Maria, enquanto o marido a segura em seus braços. Xinga os mascarados, grita alucinadamente contra eles. Vocês destruíram a minha família! Mas nenhum deles olha para trás. A marca de sua presença é o vermelho sobre o piso branco. O corpo de um jovem, não mais identificável ali. Dona Maria, não mais entre os vivos deste mundo também.
Assim chego ao fim desta tragédia em três visões. Este foi um fato real, aqui romanceado, pois não fui testemunha ocular do evento. O fato mais triste de toda a história, que a mãe dele, como relatado no conto, realmente morreu. Não na mesma noite, mas três semanas após o fato, em consequência de um derrame causado no dia. Será esta a solução que tantos pedem? Será que ela tinha culpa dos erros do filho? Cada um de nós terá uma resposta diferente, mas qual será a verdadeira? Será que existe uma verdadeira? Só peço que pensem... obrigado.
16 fevereiro 2007
Poesia - Transparente
TRANSPARENTE
SINTO-ME TRANSPARENTE AOS OLHOS DO MUNDO
QUE, EM MARCHA CADENCIADA PELO TEMPO,
ATRAVESSA MEU CORPO
COMO SE UM VÁCUO ALI EXISTISSE.
VEJO, PORÉM, O MUNDO COM UMA
PROGRESSIVA NITIDEZ,
CONTORNADO POR LINHAS CADA VEZ
MAIS GROSSEIRAS,
DE TEXTURA TAL, QUE FLORESCE
A ASPEREZA.
AS CORES FORTES COM AS QUAIS SE PINTA
COBREM COM DESPOTISMO
A SERENIDADE DOS TONS PASTÉIS
QUE, ANACRÔNICOS, JÁ NÃO RESPIRAM.
VEJO A MANADA EM SEU GALOPE.
DA MARGEM ACOMPANHO ESTÁTICO
SEU TRAJETO.
ALI PERMANEÇO COM POUCOS,
FICO QUASE SOZINHO
ESQUECIDO PELA POEIRA.
MAURÍCIO GRANZINOLLI
Mulheres que Amo - O Princípe que virou sapo
Você já sofreu de paixonite aguda? Eu já! Por anos, na verdade... Dá para imaginar algo assim? Torturar a si mesmo por algo que você nem ao menos está certo de querer. O nome dela Patrícia. Estudamos juntos no início do Segundo Grau. Ela era linda! Deslumbrante, mesmo! Por onde passava deixava todos com torcicolo, incluindo a mim.
Ela, por algum motivo inescrutável, escolheu fazer parte da mesma turma que eu. Nós éramos apelidados de: Os Rejeitados. Mas ela destoava da paisagem. Era uma princesa no vivendo no meio da plebe. O convívio conosco e uma certa adoração de todos por ela, alterou um pouco seu juízo ou seu senso de realidade. Pois ficou obcecada que encontraria seu Cavaleiro de Armadura Brilhante ainda na adolescência. Seria seu Príncipe Encantado, a Alma Gêmea com quem partilharia todos os dias de sua vida, sendo eternamente feliz.
Besteira! Eu dizia, melhor... discutia. Tentava colocar, naquela linda cabecinha loura, um pouco da realidade da vida, seja lá o que isso signifique. Mas não tinha jeito, estava decidida e não havia maneira de mudar sua opinião. Quando seus argumentos racionais terminavam, dizia, simplesmente, que eu era um insensível e sem uma gota de romantismo no meu ser. Eu não era insensível e nem um anti-romântico, se isto existe, mas sim um ciumento. Queria que ela me escolhesse e não ficasse procurando um Deus em forma de homem.
O incrível era, ela já tinha definido tudo o que o Cavaleiro era e devia ser. Descrevia-o nos mínimos detalhes, como se estivesse vendo o passar em sua frente no exato instante de sua detalhada definição. Eu, sinceramente, tinha a certeza absoluta de não ser possível sua existência e, não seria nesta vida ou em qualquer outra, ela o encontraria. Era um mito feminino!
Mas, um belo dia, ela surgiu em sala de aula com um sorriso radiante. Algo havia acontecido. Ardi em curiosidade em sabe-lo. Esperei até o intervalo e quando a encontrei, disse apenas: “Achei!” Sabia de antemão o significado daquela singular palavra. Achara o Cavaleiro Andante. Fiz mil perguntas e questionei-a de todas as maneiras, mas inabalável respondia a tudo sem pestanejar, com uma segurança nunca vista antes. Eu não podia acreditar! Aquele alien existia de verdade... seria possível? Devia ser só imaginação dela, ou então encontrou alguém em que ela acredita ser sua encarnação. Ao conhece-lo, derrubaria o mito.
Bem, foi o que pensei, mas à distância entre o real e o desejado é enorme! Conheci-o e, para falar a verdade, o cara era tudo o que ela descrevia. Parecia um personagem dos Contos dos Irmãos Grimm. Hans Cristian Andersen ficaria orgulhoso. Minhas esperanças foram por terra. A perdi. Só não sei como podemos perder algo que nunca tivemos.
Os dias... os meses... os anos passaram. O romance deu certo! A vida deles juntos parecia perfeita. Nas reuniões feitas pelo grupo após o Segundo Grau, todos admiravam os dois juntos. Alegria e a felicidade estampada em seus rostos. A enorme integração existente entre ambos, não dá nem para citar todos os detalhes. Eles eram um lindo casal perfeito. Feitos um para o outro. Dei a mão à palmatória: o Príncipe Encantado existe.
Depois disto, passei a freqüentar bem menos as reuniões, pois meu principal motivo não mais existia. Conseqüência natural, veio o convite para o casamento. Era a concretização de seu doce sonho de juventude.
Fui a Igreja e a festa, tudo estava de acordo com as descrições que ela fazia para todos nós. Foi a festa de casamento mais bonita e perfeita em que eu estive presente. Se alguém tivesse alguma dúvida, era olhar para seu sorriso solar estampado em sua face de felicidade, para ter certeza.
Logo após o casamento, houve uma nova reunião do pessoal. Resolvi ir. Queria ouvir todas as fofocas do casamento e saber mais sobre a nova vida dela. Eu ainda era obcecado, minha paixonite não estava curada. Ao chegar lá, tive uma grande surpresa. Ela estava lá, cercada por todas as meninas querendo saber todos os detalhes, até os mais picantes. Ela desfiou o rosário completo das maravilhas do casamento com o homem de seus sonhos. Os suspiros femininos se espalhavam, dava para sentir uma ponta de inveja em algumas delas. Os homens ficaram um pouco enfadados daquilo tudo.
Não quero ser espírito de poço, mas já sendo, o que uma mulher, com um casamento tão perfeito estava fazendo ali sem o marido? Perguntei. Era pura inveja, mas eu não era perfeito. Ela justificou de diversas maneiras, nenhuma convincente. Mas acabei sendo bombardeado por todas, sendo, novamente, tachado de insensível. Eu acreditava, firmemente, nisto. Já fora repetido tantas vezes que devia ser verdade. Fiquei quieto.
Meses depois, lá estávamos reunidos de novo. Não lembro o motivo, festa de comemoração para alguém do grupo... sei lá. Novamente, ela estava lá. A experiência do último encontro, me fez escolher um lugar do grupo que a cercava. Acabei me dando muito bem, o pessoal era muito animado e divertido, nunca dera uma oportunidade para conhece-los antes, dá para perceber o porquê. Conheci uma mulata linda: Luana, era seu nome. Estava ótima, em todos os sentidos e me perguntei como nunca havia reparado nela antes. Mas sabia bem a resposta. A conversa ficava cada vez mais animada, quando Lola, que estava sentada a mesa de Patrícia, veio se juntar a nós. Sentou, olhou para mim e disse: “Ela só fala do mesmo assunto, para o bem ou para o mal, daquele marido dela. Um porre!” Não fiz nenhum comentário, mas pensei: “Pelo menos houve uma evolução: agora ela fala mal dele.” Seriam os primeiros sinais de ferrugem na armadura do Cavaleiro?”
Comecei um namoro com Luana e evitei em ir a novas reuniões por muito tempo. Mas Lola e Luana ficaram muito amigas e bem próximas. Sentia ciúme de Patrícia, como se ela fosse um fantasma entre nós. Sempre perguntava a Lola notícias dela e por tabela, acabava sabendo também. O tom das conversas entre elas subia. A temperatura do paraíso já não era a mesma. A serpente plantara sua semente e o relacionamento vinha deteriorando. Lola dizia que ela passava o tempo todo reclamando dele: deixava a toalha molhada sobre a cama, a tampa do vaso levantada, não tinha disposição para programas de fim de semana, a largava para jogar pelada na sexta-feira com os amigos e até mesmo os olhares para outras mulheres a incomodava. Quase perguntei se isto era possível, mas não quis atrito.
Lola conheceu um cara do trabalho e logo se casou. Na festa, a vi. Sozinha num canto, sem o brilho radiante que admirava tanto. Havia murchado, não era a idade, mas sim algo em seu olhar e jeito. Eu me aproximei e a cumprimentei. Sabia o que houvera, antes mesmo dela tocar no assunto: ele a havia deixado. O Cavaleiro deixara a Donzela no meio da estrada de lama. Conversamos um bom tempo e antes dela ir embora, me disse: “Você estava certo! Príncipe Encantado não existe!” Esperei muito por isto, mas não me trouxe a satisfação que pensava.
Nos encontramos outras vezes, Luana me deu um belo chute no traseiro e comecei um relacionamento com ela. Mas não era nada do que havia imaginado, durou muito pouco. Na realidade, acabou sendo um alívio tanto para mim como para ela. Graças a Deus, que ela decidiu me colocar para escanteio. Justificou dizendo que éramos grandes amigos, mas não servíamos como amante um para outro. Concordei por fora, mas a verdade era que não tínhamos absolutamente nada em comum. Eu havia desejado a imagem dela na adolescência e não a mulher que ela era. Foi apenas uma obsessão juvenil. Decidi nunca mais ir naquelas malditas reuniões.
Anos depois, trabalhava como Corretor Imobiliário, quando ela entrou em meu escritório e estava acompanhada do seu novo marido. Ficou feliz em me ver, apresentando-me como um grande amigo do passado. Continuava belíssima e tinha recuperado seu brilho. Estava casada a 4 anos e planejavam um filho no próximo. O encontro foi agradável. Apenas fiquei curioso, o novo marido era uma antítese do primeiro. Devia ser algum tipo de trauma.
Consegui uma ótima casa para o casal e acabamos nos tornando grandes amigos novamente. Nos encontrávamos periodicamente e foi o período em que nos tornamos mais próximos. Para minha surpresa, reclamava do marido pelos mesmos motivos que reclamava do primeiro. Reclamava das toalhas deixadas molhadas na cama, a tampa do vaso sanitário deixada levantada, a falta de vontade de ir nas festas nos finais de semana, do encontro para as peladas de sábado e sentia ciúmes de todas as mulheres para quem ele olhava. Não agüentei e perguntei qual era a diferença deles para ela não larga-lo, assim como o primeiro. Ela me deu um monte de justificativas, explicações e só faltou criar uma fórmula matemática para demonstrar a diferença entre os dois. Na realidade, a única diferença era visível: estava na aparência, pois até a personalidade de ambos era parecida. Continuei sem entender, pois para mim parecia que o Príncipe havia se tornado o sapo e o sapo transformado em príncipe.
09 fevereiro 2007
Poesia - Ciclo
CICLO
ENCOBRE O ROSTO PÁLIDO.
ESTÚPIDA TENDÊNCIA À VIDA
QUE JORRA COMO CASCATA
RUBRA EM SANGUE.
GERMINA MASSA FERMENTADA
ONDE A FERTILIDADE É MANTIDA POR MICRÓBIOS.
O VASTO RIO NO QUAL NAVEGAS,
ENTREGA CONTINUAMENTE SUAS ÁGUAS AO SUICÍDIO,
PARADOXAL ABERRAÇÃO QUE LHE GARANTE VIDA ETERNA.
A INFINITA FLORESTA VERDE TEVE UM DIA O SÊMEM
DE SUA VIDA
SEPULTADO EM COVA AO FINGIR-SE DE MORTO.
CADA CICLO É CONDUZIDO À HUMILHANTE CONDIÇÃO
ELEMENTAR,
NUM PROCESSO SELETIVO DEPURADO PELA EXAUSTÃO.
A VIDA TEME OS VIVOS;
MATA-OS
AO QUEBRAR O CONTRATO, RETIRA-SE ILESA.
POUSA, ENTÃO, EM INOFENSIVAS ESTRUTURAS
E TRANSFORMA DUVIDOSAS VERDADES
EM PROGRESSIVA MENTIRA.
MAURÍCIO GRANZINOLLI.
mgran@urbi.com.br
Boogie Woogie - Olhar do Crime - Parte II: Carrasco
“... então o príncipe beijou Branca de Neve, ela despertou de seu sono enfeitiçado. Eles se amaram e foram felizes para todo sempre.”
Fechou o pequeno livro e olhou para a ‘sua’ princesa de cabelos negros encaracolados, aninhada em seu colo e falou:
“Acabou! Tá na hora de ir para cama, mocinha!” Delicadamente a tirou de seu colo e a colocou de pé, com aqueles doces olhos da inocência a pedir mais. “Mas, pai...” lamentou-se chorona. “e os anões! O que aconteceu com os anões?”
“Ah, filhinha... papai não sabe! Não está escrito no livro!” deu de ombros levemente.
“Mas eu quero saber, papai!” falou teimosamente cruzando os braços sobre seu peito.
Neste momento, uma mulher mulata na casa dos 30 anos saiu da cozinha e veio até a sala. Parou ao lado do marido e ficou olhando para a menina. Colocou as mãos na cadeira e com olhar severo, resolveu fazer a parte suja da noite:
“Mocinha! A história acabou! Seu pai não sabe o que aconteceu com os tais anões. Eles devem estar perdidos por aí! E se você não quiser descobrir o que acontece com mocinhas malcriadas e reclamonas, é melhor ir dormir, agora!”
“Ah, mãe... deixa ficar com o papai mais um pouco, vai!”
“Não! Pra cama já!”.
A menina bateu com o pé no chão, fechou a cara e saiu resmungando da sala para o banheiro. O pai fez menção de consola-la, mas a mãe segurou seu braço, indicando que deveria deixar ela ir, agora.
“Deixa que cuido dela! Vá até a cozinha e tome conta do café que pus no fogo para você!” Foi até a cozinha, mas seu pensamento estava longe. Tinha de sair e encontrar os rapazes. Tinham um ‘serviço’ naquela noite. Esperou sua esposa voltar e lhe disse que tinha que sair para trabalhar, a esposa estranhou, mas confiava muito em seu esposo e aceitou sem dizer nada.
Ele trocou de roupa, colocou a pistola na cintura e calçou os coturnos, parou de fronte para uma imagem de São Jorge, seu santo de devoção, e fez uma rápida prece. Levantou a cabeça e beijou o rosto de sua esposa e saiu. Na esquina da rua, dois de seus companheiros já estavam à sua espera. Entrou em silêncio no carro e cumprimentou aos dois, que responderam secamente. O motorista ligou e foram para o ponto de encontro principal. Lá encontrariam o líder do grupo deles.
O ponto de encontro era um conhecido botequim, freqüentado em sua maioria por policiais militares fora de serviço. Já estavam lá, o lide do grupo e mais um cara que não conhecia. Sentaram à mesa e foi apresentado ao mais novo membro do grupo. Era um policial do serviço reservado, seria o responsável por fornecer às informações necessárias para a ação daquela noite. Ele forneceria a melhor forma de entrar na favela e depois de sair sem encontros desagradáveis com os ‘soldados’ do tráfico local.
Falaram do plano, repassaram os detalhes e dividiram as tarefas. Mostraram fotos do ‘alvo’ e decidiram como seria feito na hora lá. Ele continuava a pensar em sua ‘princesinha’ e de que tudo aquilo estava sendo feito para que ela pudesse ter uma vida melhor e mais segura em seu futuro... sem bandidos e sem drogas, pensou. O líder o interrompeu ao enumerar os crimes do ‘alvo’. Furto de moto, assaltos a carros de entrega de cigarros e alguns assaltos a bilheteria de clubes da região. Parecia muito pouco, mas o líder colocou a carta principal sobre a mesa. Era a foto de um adolescente com metade do rosto destruído. Ele disse que fora o ‘alvo’ que o fizera. “era um assassino, com certeza!” afirmou categórico. Aquilo justificava tudo que iriam fazer, pois a justiça seria imposta de forma legal ou não.
Fomos para o carro do cara do serviço reservado, era um carro com vidros fumê muito escuros, ninguém conseguiria ver quem e nem quantos estavam em seu interior, o objetivo era esse mesmo. Foram para uma entrada pouco utilizada do morro da favela. Lá encontraram o informante que os guiaria pelas ruelas estreitas e becos apertados. Era o caminho mais seguro até a casa do ‘alvo’. Seguiram o informante, a noite sem lua era uma grande aliada. Os momentos pareciam uma eternidade para ele, tinha inúmeras dúvidas sobre o que estavam fazendo ali, mesmo com tudo que lhe disseram, não parecia correto ser juiz-júri-carrasco ao mesmo tempo. “Será que este garoto fez tudo isto mesmo? Não pode ser que alguém tenha se enganado?” As perguntas formavam em sua cabeça, mas seus lábios não as pronunciava.
Chegaram até uma casa de alvenaria de um pavimento, possuía um pequeno quintal. Formaram dois grupos, um iria pela entrada principal e outro pelos fundos. Coordenariam através do relógio. Acertaram os relógios e seguiram. Suava muito, parecia que aquela noite de Junho estava deslocada para um Janeiro do alto verão. A hora chegou! A ação tem início de forma frenética. Chute na porta, forçaram a janela e seguiram até o fundo da casa de forma rápida e entraram no cômodo onde o ‘alvo’ dormia tranqüilamente. Seu rosto estava sorridente.
Novamente, pensou em sua ‘princesinha’. “O que estará fazendo a esta hora? Será que está segura com a mãe?” Da porta, ele viu o rapaz se debater, tentando livrar das mãos que o seguravam e amarravam. Para contê-lo vários golpes foram desferidos. Os pingos de sangue ficaram nítidos. Ergueram-no da cama e o jogaram contra o assoalho da sala e, no mesmo momento, os pais dele e a irmã eram trazidos e sentados no sofá para assistir o espetáculo. A irmã não deveria ter mais que treze anos.
Seus colegas de trabalho começaram a sessão de tortura. Pancadas, chutes, socos e todo o tipo de agressão passaram a fazer no rapaz deitado no solo sem defesa. A mãe tentou defendê-lo, mas foi jogada no chão por um de seus colegas, ao encarar seus olhos, viu a dor de uma mãe. Não importava o que ele fizera... ela não tinha culpa e não deveria estar ali. O ‘alvo’ era ele! Mantê-los assistindo aquilo era desumano e cruel. Ajudou-a levantar e colocou-a no sofá. O marido atirou de seus braços de forma violenta, mas protetor. A filha tentou fugir e o cara do serviço reservado acertou-a na altura do pescoço, detendo-a e levando-a para o sofá, novamente.
Gritos, discussões e crueldade foi o que seguiu. A arma em sua mão pesava uns 10 quilos a mais. Tinha certeza de que não deveria estar ali, muito menos de participar daquilo tudo. Nada justificava as ações daquela noite. Não era o caminho, tinha certeza agora disto. Ouviu o som de ossos partindo. Não havia mais rosto. O choro das mulheres era penoso. O pai tentava não deixá-las verem aquelas atrocidades. O garoto já estava morto bem antes do tiro de misericórdia.
O tiro selou o destino dele. A mãe desmaiou e um silêncio sepulcral tomou a sala, apenas os soluços da irmã se faziam ouvir. O pai tentava acordar a mãe, mas nada acontecia. O corpo do garoto jazia no chão de cerâmica sobre uma enorme poça de sangue. Seu corpo estava entorpecido. “Vamos!” Ouviu os gritos de ordem, mas suas pernas não obedeceram. Queria ajudar aquela pobre mulher, mas ao tentar estender a mão para segurá-la, a filha acertou sua mão. Tirou-o do torpor ao encarar o ódio de seu olhar. Correu sem saber para onde ia. Os becos escuros surgiam sombras assustadoras de sua própria mente.
Chegaram rapidamente no carro. Os outros gritavam excitados com morte do ‘alvo’. Era uma festa de alegria e júbilo pela morte de um ser humano. “Quero voltar para casa!” Foi o que conseguiu dizer. Eles disseram que tinham algumas coisas a fazer antes, mas ele insistiu.
Deixaram-no na porta de sua casa. Como um zumbi, foi direto ao quarto de sua ‘princesinha’, tirou-a da cama e segurou apertada contra seu peito e começou a chorar.
02 fevereiro 2007
Poesia - Troféu
ERGO OS PUNHOS CERRADOS
PELO CANSAÇO,
A COMEMORAR DERROTAS
QUE O TEMPO AMADURECEU
E O DESTINO EM SEU CAPRICHO
FEZ-ME COLHER COMO ÚNICO ALIMENTO.
OS OLHOS COMO FÉRTEIS NASCENTES,VERTEM
PARA DENTRO DE SI PRÓPRIOS
ÁGUAS QUE OS LEVAM À CEGUEIRA
E O MUNDO NÃO AS VÊ.
PROCURO ROSAS E ORQUÍDEAS
MAS NÃO AS PLANTEI.
O TEMPO TRASFORMA EM UM ÚNICO SENTIDO.
NA IMAGEM ENQUADRADA PELO ESPELHO
SÓ VEJO O QUE NÃO FIZ.
AGUARDEI PASSIVOA HORA DA VIAGEM PERFEITA,
QUE ME CONDUZISSE SEGURO
A LUGARES ONDE EU JÁ ESTAVA,
E A ÂNSIA PELO SUICÍDIO NÃO ME DEIXOU VER.
MAURÍCIO GRANZINOLLI
mgran@urbi.com.br
Mulheres que Amo - Me basto
Valeska era uma bela mulata de uns 14 anos quando chegou na casa de Milton, o meu melhor amigo. Nós devíamos ter uns 8 a 9 anos, não lembro bem. Mas lembro da caboclinha chegando na casa dele com a mala na mão e a cabeça baixa. A mãe dele nos disse que ela iria trabalhar na casa e estudar a noite para completar seus estudos. E foi assim mesmo.
Durante o dia, Valeska cuidava das tarefas da casa e à noite estudava em uma escola pública. Era esforçada nas duas atividades, a casa estava sempre um brinco e suas notas do colégio eram ótimas. Além disso, brincava comigo, Milton e sua irmã a Nanda. Nós a adorávamos! A cada dia que passava gostávamos mais dela, tanto no sentido da amizade quanto na relação homem-mulher, chegávamos a adolescência e os hormônios estavam explodindo em nossos corpos. Nanda é quem segurava nosso ímpeto, mas sempre dávamos um jeito de burlar sua vigilância e observa-la quando não estava olhando.
Mas não fomos os únicos a perceberem quão bonita ela era. Havia no prédio um cara, era militar, estava no curso Preparatório para Oficiais do Exército, lá em Resende. Nos finais de semana, sempre arrumava uma forma de bater um papinho com Valeska. O namoro começou bem depressa e as conseqüências também: Valeska estava grávida.
O cara afirmou para a mãe de Milton que iria assumir total responsabilidade e se casaria com ela. O rosto dela ficou iluminado quando ele afirmou isto. Sua felicidade estava completa, iria fazer um ótimo casamento. Mas nem tudo são flores no reino do Brasil, o rapaz recebeu o espadim e foi designado para um posto longe do Rio. Garantiu que viria busca-la. Mas... buscou, sim, a família dele e sumiu Brasil afora. Nunca mais o viu novamente. Ficou triste e em uma situação difícil, teria um filho e morava na casa de uma família, que não era a sua, apesar de todos gostarem muito dela. A mãe e o pai de Milton discutiram muito toda a situação e chegaram a conclusão que ela não poderia mais ficar ali, teriam de conseguir uma nova empregada. Nanda e Milton protestaram e o casal ficou em um impasse, decidido pela própria Valeska. Ela juntou suas coisas e resolveu ir embora. Alugou um quartinho em um bairro pobre próximo e foi em busca de um emprego.
Não conseguiu nada, mas fazia bicos: lavava roupa para fora, passava e costurava. Foi o suficiente para seu sustento e as despesas do parto. Os pais de Milton ajudaram nas despesas dos meses seguintes e uma irmã dela veio de Minas para ajuda-la.
O incrível era que dois meses depois, Valeska já estava de pé. Arranjou um emprego em uma padaria. Apesar do horário escravocrata, continuou a estudar e a cuidar do pequeno José Antônio. Não deixava faltar nada para o garoto e cuidava muito bem dele. Alguns domingos, ela visitava a família de Milton. Nós três ficávamos babando pelo menino, enquanto ela estava lá. Nanda virou uma espécie de babá informal do menino. Assim, Valeska conseguiu completar o segundo grau e passar no Vestibular para a Universidade Federal.
No curso, conheceu um bom rapaz e iniciaram um romance, para desespero meu e de Milton. Ardorosos apaixonados dela, Nanda vivia a troçar com nossas caras. Ela veio apresenta-lo para a família de Milton e pareciam realmente loucos um pelo outro. Logo depois, ela conseguiu um estágio em sua área e tudo pareceu entrar nos eixos. O garoto foi para o jardim de infância e ela mudou-se para um apartamento um pouco melhor. Alugado, mas era bem ajeitadinho.
No último ano do curso, ela foi efetivada na empresa e seu namorado resolveu pedi-la em casamento. Mas para a surpresa de todos... recusou. Nós três discutimos longamente o motivo, Nanda e eu tínhamos a certeza de que foi porquê ela ainda amava o pai do Zé Antônio. O Milton sonhava que ela não aceitou por estar esperando por ele... para casarem. Verdade ou não, algum anos depois, ambos iniciaram um romance.
Milton estava no melhor dos mundos, seu sorriso ao lado dela era contagiante. Ela não ficava atrás, o emprego estava indo muito bem, Zé Antônio crescia a olhos vistos e tirava ótimas notas no colégio, e estava mais linda do que nunca. Senti uma ponta de inveja dos dois, confesso. Olhando o romance dos dois, no dia em que fui junto de Nanda ajudar a mudança para o novo apartamento de Valeska, comprara financiado com uma ajuda do pai de Milton.
Então, em um belo dia que fui visitar Nanda, Milton estava lá mostrando um anel que comprara. Iria pedir a mão de Valeska em casamento. Tinha a certeza absoluta que ela aceitaria sem pestanejar. Fazia planos. Não havia um só motivo para ela recusa-lo, pois Zé Antonio o amava como a um pai, chamava-o até de Tio, e ela... nem precisava disser! Eu mesmo dei meus parabéns antecipados para ele, pois teria de viajar no dia seguinte e não poderia estar presente naquela data festiva.
De volta da viagem, liguei para ele, mas ninguém atendia. Liguei, então, para Nanda. Foi aí que tive minha segunda grande surpresa sobre Valeska: ela recusara o pedido. Perguntei se ela havia dado alguma explicação para o fato. Nenhuma, foi à resposta de Nanda. Continuaram juntos, mas Milton estava arrasado. O relacionamento de ambos nunca mais foi o mesmo. Milton ficou ciumento e desconfiado, não demorou para Valeska terminar com tudo. Quis ir até sua casa e interceder pelo meu amigo, ainda mais depois que o vi tão triste. Mas não o fiz, tinha meus próprios problemas para resolver.
Acompanhei a história dela de longe ao longo do tempo. Nanda era minha fonte de informações, continuavam grandes amigas, apesar do fim do relacionamento entre Valeska e seu irmão. Nanda amava o filho dela como seu próprio e quando teve seu próprio filho, confiava-o apenas a Valeska, que agora tinha mais tempo disponível, pois montara uma loja própria e abandonara seu emprego. Feliz como nunca antes, mantinha sempre um relacionamento, mas nunca avançava além do namoro. Nunca ficara noiva e nem ao menos falou uma única vez em casamento. Nanda a pressionava, dizendo já ter passado, e muito, do tempo de se casar. Ela concordava, mas ela sempre afirmava que casamento não estava em seus planos.
Um dia nos encontramos na rua e ela me convidou para jantar, já que Zé Antonio iria sair com sua primeira namorada. Aceitei, jantamos em um bom restaurante italiano na Zona Sul e fomos ao teatro. Acabamos a noite sem seu apartamento e resolvi, finalmente, perguntar o que tanto me intrigava. Por quê ela não se casara?
A resposta foi mais simples que imaginei: ‘Não preciso de um homem para ser feliz, me basto. Amo-me o suficiente para viver só. Realizei meus sonhos, tive um filho maravilhoso e quando preciso, encontro alguém bom o bastante para me fazer companhia nas noites frias, mas não preciso acordar com ninguém ao meu lado todos os dias, estou satisfeita de acordar comigo mesma. Sei que meu filho algum dia irá partir, mas continuarei vivendo da forma que escolhi. Feliz... muito feliz!’
Sorri e nos despedimos, nada aconteceu naquela noite, apenas a admirei muito mais. Era a mulher mais decidida e consciente que encontrei em toda a minha vida.