16 fevereiro 2007

Mulheres que Amo - O Princípe que virou sapo

Seguindo a saga de tentar o impossível: compreender as mulheres, segue mais um conto.

Você já sofreu de paixonite aguda? Eu já! Por anos, na verdade... Dá para imaginar algo assim? Torturar a si mesmo por algo que você nem ao menos está certo de querer. O nome dela Patrícia. Estudamos juntos no início do Segundo Grau. Ela era linda! Deslumbrante, mesmo! Por onde passava deixava todos com torcicolo, incluindo a mim.

Ela, por algum motivo inescrutável, escolheu fazer parte da mesma turma que eu. Nós éramos apelidados de: Os Rejeitados. Mas ela destoava da paisagem. Era uma princesa no vivendo no meio da plebe. O convívio conosco e uma certa adoração de todos por ela, alterou um pouco seu juízo ou seu senso de realidade. Pois ficou obcecada que encontraria seu Cavaleiro de Armadura Brilhante ainda na adolescência. Seria seu Príncipe Encantado, a Alma Gêmea com quem partilharia todos os dias de sua vida, sendo eternamente feliz.

Besteira! Eu dizia, melhor... discutia. Tentava colocar, naquela linda cabecinha loura, um pouco da realidade da vida, seja lá o que isso signifique. Mas não tinha jeito, estava decidida e não havia maneira de mudar sua opinião. Quando seus argumentos racionais terminavam, dizia, simplesmente, que eu era um insensível e sem uma gota de romantismo no meu ser. Eu não era insensível e nem um anti-romântico, se isto existe, mas sim um ciumento. Queria que ela me escolhesse e não ficasse procurando um Deus em forma de homem.

O incrível era, ela já tinha definido tudo o que o Cavaleiro era e devia ser. Descrevia-o nos mínimos detalhes, como se estivesse vendo o passar em sua frente no exato instante de sua detalhada definição. Eu, sinceramente, tinha a certeza absoluta de não ser possível sua existência e, não seria nesta vida ou em qualquer outra, ela o encontraria. Era um mito feminino!

Mas, um belo dia, ela surgiu em sala de aula com um sorriso radiante. Algo havia acontecido. Ardi em curiosidade em sabe-lo. Esperei até o intervalo e quando a encontrei, disse apenas: “Achei!” Sabia de antemão o significado daquela singular palavra. Achara o Cavaleiro Andante. Fiz mil perguntas e questionei-a de todas as maneiras, mas inabalável respondia a tudo sem pestanejar, com uma segurança nunca vista antes. Eu não podia acreditar! Aquele alien existia de verdade... seria possível? Devia ser só imaginação dela, ou então encontrou alguém em que ela acredita ser sua encarnação. Ao conhece-lo, derrubaria o mito.

Bem, foi o que pensei, mas à distância entre o real e o desejado é enorme! Conheci-o e, para falar a verdade, o cara era tudo o que ela descrevia. Parecia um personagem dos Contos dos Irmãos Grimm. Hans Cristian Andersen ficaria orgulhoso. Minhas esperanças foram por terra. A perdi. Só não sei como podemos perder algo que nunca tivemos.

Os dias... os meses... os anos passaram. O romance deu certo! A vida deles juntos parecia perfeita. Nas reuniões feitas pelo grupo após o Segundo Grau, todos admiravam os dois juntos. Alegria e a felicidade estampada em seus rostos. A enorme integração existente entre ambos, não dá nem para citar todos os detalhes. Eles eram um lindo casal perfeito. Feitos um para o outro. Dei a mão à palmatória: o Príncipe Encantado existe.

Depois disto, passei a freqüentar bem menos as reuniões, pois meu principal motivo não mais existia. Conseqüência natural, veio o convite para o casamento. Era a concretização de seu doce sonho de juventude.

Fui a Igreja e a festa, tudo estava de acordo com as descrições que ela fazia para todos nós. Foi a festa de casamento mais bonita e perfeita em que eu estive presente. Se alguém tivesse alguma dúvida, era olhar para seu sorriso solar estampado em sua face de felicidade, para ter certeza.

Logo após o casamento, houve uma nova reunião do pessoal. Resolvi ir. Queria ouvir todas as fofocas do casamento e saber mais sobre a nova vida dela. Eu ainda era obcecado, minha paixonite não estava curada. Ao chegar lá, tive uma grande surpresa. Ela estava lá, cercada por todas as meninas querendo saber todos os detalhes, até os mais picantes. Ela desfiou o rosário completo das maravilhas do casamento com o homem de seus sonhos. Os suspiros femininos se espalhavam, dava para sentir uma ponta de inveja em algumas delas. Os homens ficaram um pouco enfadados daquilo tudo.

Não quero ser espírito de poço, mas já sendo, o que uma mulher, com um casamento tão perfeito estava fazendo ali sem o marido? Perguntei. Era pura inveja, mas eu não era perfeito. Ela justificou de diversas maneiras, nenhuma convincente. Mas acabei sendo bombardeado por todas, sendo, novamente, tachado de insensível. Eu acreditava, firmemente, nisto. Já fora repetido tantas vezes que devia ser verdade. Fiquei quieto.

Meses depois, lá estávamos reunidos de novo. Não lembro o motivo, festa de comemoração para alguém do grupo... sei lá. Novamente, ela estava lá. A experiência do último encontro, me fez escolher um lugar do grupo que a cercava. Acabei me dando muito bem, o pessoal era muito animado e divertido, nunca dera uma oportunidade para conhece-los antes, dá para perceber o porquê. Conheci uma mulata linda: Luana, era seu nome. Estava ótima, em todos os sentidos e me perguntei como nunca havia reparado nela antes. Mas sabia bem a resposta. A conversa ficava cada vez mais animada, quando Lola, que estava sentada a mesa de Patrícia, veio se juntar a nós. Sentou, olhou para mim e disse: “Ela só fala do mesmo assunto, para o bem ou para o mal, daquele marido dela. Um porre!” Não fiz nenhum comentário, mas pensei: “Pelo menos houve uma evolução: agora ela fala mal dele.” Seriam os primeiros sinais de ferrugem na armadura do Cavaleiro?”

Comecei um namoro com Luana e evitei em ir a novas reuniões por muito tempo. Mas Lola e Luana ficaram muito amigas e bem próximas. Sentia ciúme de Patrícia, como se ela fosse um fantasma entre nós. Sempre perguntava a Lola notícias dela e por tabela, acabava sabendo também. O tom das conversas entre elas subia. A temperatura do paraíso já não era a mesma. A serpente plantara sua semente e o relacionamento vinha deteriorando. Lola dizia que ela passava o tempo todo reclamando dele: deixava a toalha molhada sobre a cama, a tampa do vaso levantada, não tinha disposição para programas de fim de semana, a largava para jogar pelada na sexta-feira com os amigos e até mesmo os olhares para outras mulheres a incomodava. Quase perguntei se isto era possível, mas não quis atrito.

Lola conheceu um cara do trabalho e logo se casou. Na festa, a vi. Sozinha num canto, sem o brilho radiante que admirava tanto. Havia murchado, não era a idade, mas sim algo em seu olhar e jeito. Eu me aproximei e a cumprimentei. Sabia o que houvera, antes mesmo dela tocar no assunto: ele a havia deixado. O Cavaleiro deixara a Donzela no meio da estrada de lama. Conversamos um bom tempo e antes dela ir embora, me disse: “Você estava certo! Príncipe Encantado não existe!” Esperei muito por isto, mas não me trouxe a satisfação que pensava.

Nos encontramos outras vezes, Luana me deu um belo chute no traseiro e comecei um relacionamento com ela. Mas não era nada do que havia imaginado, durou muito pouco. Na realidade, acabou sendo um alívio tanto para mim como para ela. Graças a Deus, que ela decidiu me colocar para escanteio. Justificou dizendo que éramos grandes amigos, mas não servíamos como amante um para outro. Concordei por fora, mas a verdade era que não tínhamos absolutamente nada em comum. Eu havia desejado a imagem dela na adolescência e não a mulher que ela era. Foi apenas uma obsessão juvenil. Decidi nunca mais ir naquelas malditas reuniões.

Anos depois, trabalhava como Corretor Imobiliário, quando ela entrou em meu escritório e estava acompanhada do seu novo marido. Ficou feliz em me ver, apresentando-me como um grande amigo do passado. Continuava belíssima e tinha recuperado seu brilho. Estava casada a 4 anos e planejavam um filho no próximo. O encontro foi agradável. Apenas fiquei curioso, o novo marido era uma antítese do primeiro. Devia ser algum tipo de trauma.

Consegui uma ótima casa para o casal e acabamos nos tornando grandes amigos novamente. Nos encontrávamos periodicamente e foi o período em que nos tornamos mais próximos. Para minha surpresa, reclamava do marido pelos mesmos motivos que reclamava do primeiro. Reclamava das toalhas deixadas molhadas na cama, a tampa do vaso sanitário deixada levantada, a falta de vontade de ir nas festas nos finais de semana, do encontro para as peladas de sábado e sentia ciúmes de todas as mulheres para quem ele olhava. Não agüentei e perguntei qual era a diferença deles para ela não larga-lo, assim como o primeiro. Ela me deu um monte de justificativas, explicações e só faltou criar uma fórmula matemática para demonstrar a diferença entre os dois. Na realidade, a única diferença era visível: estava na aparência, pois até a personalidade de ambos era parecida. Continuei sem entender, pois para mim parecia que o Príncipe havia se tornado o sapo e o sapo transformado em príncipe.

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