09 fevereiro 2007

Boogie Woogie - Olhar do Crime - Parte II: Carrasco

Sei que falar deste assunto esta semana não é uma boa idéia, devido ao que aconteceu com aquele menino de seis anos, aqui no Rio. Foi brutal, covarde e quem de nós, não adoraria meter uma bala na cabeça destes imbecis que fizeram isto. Infelizmente, este não é o caminho. A história abaixo tenta mostrar isto, espero que tenha conseguido passar a minha mensagem.

“... então o príncipe beijou Branca de Neve, ela despertou de seu sono enfeitiçado. Eles se amaram e foram felizes para todo sempre.”
Fechou o pequeno livro e olhou para a ‘sua’ princesa de cabelos negros encaracolados, aninhada em seu colo e falou:
“Acabou! Tá na hora de ir para cama, mocinha!” Delicadamente a tirou de seu colo e a colocou de pé, com aqueles doces olhos da inocência a pedir mais. “Mas, pai...” lamentou-se chorona. “e os anões! O que aconteceu com os anões?”
“Ah, filhinha... papai não sabe! Não está escrito no livro!” deu de ombros levemente.
“Mas eu quero saber, papai!” falou teimosamente cruzando os braços sobre seu peito.
Neste momento, uma mulher mulata na casa dos 30 anos saiu da cozinha e veio até a sala. Parou ao lado do marido e ficou olhando para a menina. Colocou as mãos na cadeira e com olhar severo, resolveu fazer a parte suja da noite:
“Mocinha! A história acabou! Seu pai não sabe o que aconteceu com os tais anões. Eles devem estar perdidos por aí! E se você não quiser descobrir o que acontece com mocinhas malcriadas e reclamonas, é melhor ir dormir, agora!”
“Ah, mãe... deixa ficar com o papai mais um pouco, vai!”
“Não! Pra cama já!”.
A menina bateu com o pé no chão, fechou a cara e saiu resmungando da sala para o banheiro. O pai fez menção de consola-la, mas a mãe segurou seu braço, indicando que deveria deixar ela ir, agora.
“Deixa que cuido dela! Vá até a cozinha e tome conta do café que pus no fogo para você!” Foi até a cozinha, mas seu pensamento estava longe. Tinha de sair e encontrar os rapazes. Tinham um ‘serviço’ naquela noite. Esperou sua esposa voltar e lhe disse que tinha que sair para trabalhar, a esposa estranhou, mas confiava muito em seu esposo e aceitou sem dizer nada.
Ele trocou de roupa, colocou a pistola na cintura e calçou os coturnos, parou de fronte para uma imagem de São Jorge, seu santo de devoção, e fez uma rápida prece. Levantou a cabeça e beijou o rosto de sua esposa e saiu. Na esquina da rua, dois de seus companheiros já estavam à sua espera. Entrou em silêncio no carro e cumprimentou aos dois, que responderam secamente. O motorista ligou e foram para o ponto de encontro principal. Lá encontrariam o líder do grupo deles.
O ponto de encontro era um conhecido botequim, freqüentado em sua maioria por policiais militares fora de serviço. Já estavam lá, o lide do grupo e mais um cara que não conhecia. Sentaram à mesa e foi apresentado ao mais novo membro do grupo. Era um policial do serviço reservado, seria o responsável por fornecer às informações necessárias para a ação daquela noite. Ele forneceria a melhor forma de entrar na favela e depois de sair sem encontros desagradáveis com os ‘soldados’ do tráfico local.
Falaram do plano, repassaram os detalhes e dividiram as tarefas. Mostraram fotos do ‘alvo’ e decidiram como seria feito na hora lá. Ele continuava a pensar em sua ‘princesinha’ e de que tudo aquilo estava sendo feito para que ela pudesse ter uma vida melhor e mais segura em seu futuro... sem bandidos e sem drogas, pensou. O líder o interrompeu ao enumerar os crimes do ‘alvo’. Furto de moto, assaltos a carros de entrega de cigarros e alguns assaltos a bilheteria de clubes da região. Parecia muito pouco, mas o líder colocou a carta principal sobre a mesa. Era a foto de um adolescente com metade do rosto destruído. Ele disse que fora o ‘alvo’ que o fizera. “era um assassino, com certeza!” afirmou categórico. Aquilo justificava tudo que iriam fazer, pois a justiça seria imposta de forma legal ou não.
Fomos para o carro do cara do serviço reservado, era um carro com vidros fumê muito escuros, ninguém conseguiria ver quem e nem quantos estavam em seu interior, o objetivo era esse mesmo. Foram para uma entrada pouco utilizada do morro da favela. Lá encontraram o informante que os guiaria pelas ruelas estreitas e becos apertados. Era o caminho mais seguro até a casa do ‘alvo’. Seguiram o informante, a noite sem lua era uma grande aliada. Os momentos pareciam uma eternidade para ele, tinha inúmeras dúvidas sobre o que estavam fazendo ali, mesmo com tudo que lhe disseram, não parecia correto ser juiz-júri-carrasco ao mesmo tempo. “Será que este garoto fez tudo isto mesmo? Não pode ser que alguém tenha se enganado?” As perguntas formavam em sua cabeça, mas seus lábios não as pronunciava.
Chegaram até uma casa de alvenaria de um pavimento, possuía um pequeno quintal. Formaram dois grupos, um iria pela entrada principal e outro pelos fundos. Coordenariam através do relógio. Acertaram os relógios e seguiram. Suava muito, parecia que aquela noite de Junho estava deslocada para um Janeiro do alto verão. A hora chegou! A ação tem início de forma frenética. Chute na porta, forçaram a janela e seguiram até o fundo da casa de forma rápida e entraram no cômodo onde o ‘alvo’ dormia tranqüilamente. Seu rosto estava sorridente.
Novamente, pensou em sua ‘princesinha’. “O que estará fazendo a esta hora? Será que está segura com a mãe?” Da porta, ele viu o rapaz se debater, tentando livrar das mãos que o seguravam e amarravam. Para contê-lo vários golpes foram desferidos. Os pingos de sangue ficaram nítidos. Ergueram-no da cama e o jogaram contra o assoalho da sala e, no mesmo momento, os pais dele e a irmã eram trazidos e sentados no sofá para assistir o espetáculo. A irmã não deveria ter mais que treze anos.
Seus colegas de trabalho começaram a sessão de tortura. Pancadas, chutes, socos e todo o tipo de agressão passaram a fazer no rapaz deitado no solo sem defesa. A mãe tentou defendê-lo, mas foi jogada no chão por um de seus colegas, ao encarar seus olhos, viu a dor de uma mãe. Não importava o que ele fizera... ela não tinha culpa e não deveria estar ali. O ‘alvo’ era ele! Mantê-los assistindo aquilo era desumano e cruel. Ajudou-a levantar e colocou-a no sofá. O marido atirou de seus braços de forma violenta, mas protetor. A filha tentou fugir e o cara do serviço reservado acertou-a na altura do pescoço, detendo-a e levando-a para o sofá, novamente.
Gritos, discussões e crueldade foi o que seguiu. A arma em sua mão pesava uns 10 quilos a mais. Tinha certeza de que não deveria estar ali, muito menos de participar daquilo tudo. Nada justificava as ações daquela noite. Não era o caminho, tinha certeza agora disto. Ouviu o som de ossos partindo. Não havia mais rosto. O choro das mulheres era penoso. O pai tentava não deixá-las verem aquelas atrocidades. O garoto já estava morto bem antes do tiro de misericórdia.
O tiro selou o destino dele. A mãe desmaiou e um silêncio sepulcral tomou a sala, apenas os soluços da irmã se faziam ouvir. O pai tentava acordar a mãe, mas nada acontecia. O corpo do garoto jazia no chão de cerâmica sobre uma enorme poça de sangue. Seu corpo estava entorpecido. “Vamos!” Ouviu os gritos de ordem, mas suas pernas não obedeceram. Queria ajudar aquela pobre mulher, mas ao tentar estender a mão para segurá-la, a filha acertou sua mão. Tirou-o do torpor ao encarar o ódio de seu olhar. Correu sem saber para onde ia. Os becos escuros surgiam sombras assustadoras de sua própria mente.
Chegaram rapidamente no carro. Os outros gritavam excitados com morte do ‘alvo’. Era uma festa de alegria e júbilo pela morte de um ser humano. “Quero voltar para casa!” Foi o que conseguiu dizer. Eles disseram que tinham algumas coisas a fazer antes, mas ele insistiu.
Deixaram-no na porta de sua casa. Como um zumbi, foi direto ao quarto de sua ‘princesinha’, tirou-a da cama e segurou apertada contra seu peito e começou a chorar.

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