23 fevereiro 2007

Boogie Woogie - Olhar do Crime - Parte III: Colateral

A mulher pertence à cozinha! Pensa assim quase todo homem com mais de 50 anos de idade, a revolução feminina acontece fora de suas portas, pois em sua casa, os homens trabalham fora e as mulheres cuidam da casa. Dona Maria de Lurdes e sua filha estão lavando os pratos do jantar na cozinha. Seu dia foi extenuante: arrumar a casa, lavar a roupa do filho e do marido para eles trabalharem no dia seguinte, prepara o almoço e jantar, servi-los à mesa e depois deixar tudo limpo para poder, então dormir... exausta.
Apesar de tudo, se considera uma mulher feliz. Seu casamento dura mais de 25 anos. Dois filhos que a amam e um marido que nunca trouxe seus problemas para dentro de seu lar. O que mais uma mãe pode querer? Sua filha já está chegando no tempo de casar e transformou-se em uma bela mulher. Ela já viu os olhares que ela troca com o Carlinhos, filho do padeiro. Espera, sinceramente, que ela ouça todos os conselhos que lhe deu sobre a vida a dois, para não cometer os erros da maioria das meninas de sua idade, que acabam engravidando e jogando suas vidas fora. Graças a Deus, que ela tem o irmão! Este não vai deixar ninguém abusar de sua irmã querida.
Seu filho é fonte de orgulho. Não gostava de estudar, mas acabou descobrindo sua paixão: a mecânica. Fez o curso e começou a trabalhar em uma oficina no Dendê. Não ganha muito, mas já é um bom começo. Pior seria, se estivesse metido com estes garotos vagabundos do tráfico ou roubando por aí. Como o Cleber, filho da Dona Nalva, aquele sim um grande encrenqueiro e mau caráter.
Ela vai até o banheiro, limpa a sujeira acumulada do dia, coloca sua camisola de dormir, apesar do calor imenso que faz. Apanha o ventilador no canto do quarto e o liga na tomada, pensando que o seu marido podia, pelo menos fazer isto. Vai até o pequeno santuário que mantêm e começa a rezar para Nossa Senhora de Lourdes, sua santa protetora. Pede por seus filhos e por sua família, agradecendo tudo que lhe foi concedido de bom em toda a sua vida. O ritual se repete todas as noites, nunca falhando um único dia. Dona Maria de Lurdes é católica e fiel a Deus e a seu filho Jesus Cristo, sabendo sempre que o milagre da vida concedido a mortais como ela, seu marido e seus filhos só é possível graças a Ele.
Vai para a cama, seu marido já ronca a plenos pulmões. Anos atrás, diria ser impossível dormir com um barulho como aquele, mas acostumou-se e hoje, simplesmente, não atrapalha mais seu sono. Apaga as luzes de seu quarto e dorme.
Horas mais tarde, um barulho no quintal a desperta. Sempre teve sono leve e o som mais baixo a acorda. Fica atenta para tentar ouvir mais algum som, antes de acordar seu marido, que não ficará nada feliz com isto. Parece ouvir passos em seu quintal, tanto na frente da casa, como nos fundos. Será algum cachorro do vizinho e que pulou para seu quintal novamente ou um destes moleques a aprontar alguma das suas. Balança o corpo de seu marido, para acordá-lo. Resmungando, ele pergunta o que foi, mas não tem tempo de ouvir nenhuma resposta de sua esposa. O quarto é invadido por homens mascarados, Dona Maria grita, mas alguém coloca a mão sobre sua boca. Dois outros homens seguram seu marido pelos braços e fazem um sinal para ficarem quietos.
Os tiram da cama e os levam até a sala, Sheila é jogado a seu lado chorando por um outro mascarado. Armas surgem nas mãos deles e Dona Maria começa a ficar desesperada. Onde está seu filho? A resposta surge violentamente. O corpo dele é jogado sangrando sobre o chão da sala todo amarrado. O que estão fazendo estes homens? Dona Maria tenta erguer-se do sofá e ir até ele, mas um homem a segura e a joga no chão, ameaçando-a se tentar aquilo de novo. O marido ajoelha-se a seu lado e um dos mascarados a ajuda sentar no sofá, novamente.
Estão batendo em seu filho, jogado no chão. Sua filha tenta correr até a porta, mas é detida por alguém. Colocam-na no sofá e também fazem ameaças, apontando um revólver para ela. Dona Maria começa a implorar a eles que não façam aquilo com seu menino. Mas eles ficam enraivecidos e começam a falar coisas sem nexo sobre roubos de moto, assassinato de um menino... uma criança, dizem eles. Tudo culpa do seu menino. Impossível, quer gritar! Sua filha desata a chorar e seu marido a consola. Dona Maria começa a perceber o que irá acontecer. As armas, as máscaras, seu filho amarrado e jogado no chão da sala. Eles vão mata-lo! Não meu menino, não, por favor! Grita em desespero. O homem que parece chefiar os outros, grita com ela.
Enquanto isso, os chutes e pontapés começam a sacudir o corpo de seu filho no chão. Uma poça de sangue se forma. Uma poça de sangue... sangue de seu filho. Seu filho está morrendo na sua frente e ela nada pode fazer. Meu Deus, não permita! O choro vem a sua boca, a bílis sobe por sua garganta e seu coração dispara a bater em descontrole. Sua testa começa a suar... e então. Uma arma surge na mãos dos carrascos. Ele aponta para ele e dispara em sua cabeça, explodindo tudo em vermelho.
Dona Maria não chora mais! Sua visão vai do vermelho ao preto. Desmaia e acudida por um dos mascarados e seu marido. Os outros começam a gritar para irem embora dali o mais rápido possível. Arrastam o mascarado que ajudava Dona Maria, enquanto o marido a segura em seus braços. Xinga os mascarados, grita alucinadamente contra eles. Vocês destruíram a minha família! Mas nenhum deles olha para trás. A marca de sua presença é o vermelho sobre o piso branco. O corpo de um jovem, não mais identificável ali. Dona Maria, não mais entre os vivos deste mundo também
.

Assim chego ao fim desta tragédia em três visões. Este foi um fato real, aqui romanceado, pois não fui testemunha ocular do evento. O fato mais triste de toda a história, que a mãe dele, como relatado no conto, realmente morreu. Não na mesma noite, mas três semanas após o fato, em consequência de um derrame causado no dia. Será esta a solução que tantos pedem? Será que ela tinha culpa dos erros do filho? Cada um de nós terá uma resposta diferente, mas qual será a verdadeira? Será que existe uma verdadeira? Só peço que pensem... obrigado.

Nenhum comentário: