02 fevereiro 2007

Mulheres que Amo - Me basto

Seguindo nossa trilha pela minha tentativa de compreender as mulheres, coloco no ar mais um conto.Ésta é a história de uma mulher que foi completamente independente de tudo... e foi muito feliz.

Valeska era uma bela mulata de uns 14 anos quando chegou na casa de Milton, o meu melhor amigo. Nós devíamos ter uns 8 a 9 anos, não lembro bem. Mas lembro da caboclinha chegando na casa dele com a mala na mão e a cabeça baixa. A mãe dele nos disse que ela iria trabalhar na casa e estudar a noite para completar seus estudos. E foi assim mesmo.
Durante o dia, Valeska cuidava das tarefas da casa e à noite estudava em uma escola pública. Era esforçada nas duas atividades, a casa estava sempre um brinco e suas notas do colégio eram ótimas. Além disso, brincava comigo, Milton e sua irmã a Nanda. Nós a adorávamos! A cada dia que passava gostávamos mais dela, tanto no sentido da amizade quanto na relação homem-mulher, chegávamos a adolescência e os hormônios estavam explodindo em nossos corpos. Nanda é quem segurava nosso ímpeto, mas sempre dávamos um jeito de burlar sua vigilância e observa-la quando não estava olhando.
Mas não fomos os únicos a perceberem quão bonita ela era. Havia no prédio um cara, era militar, estava no curso Preparatório para Oficiais do Exército, lá em Resende. Nos finais de semana, sempre arrumava uma forma de bater um papinho com Valeska. O namoro começou bem depressa e as conseqüências também: Valeska estava grávida.
O cara afirmou para a mãe de Milton que iria assumir total responsabilidade e se casaria com ela. O rosto dela ficou iluminado quando ele afirmou isto. Sua felicidade estava completa, iria fazer um ótimo casamento. Mas nem tudo são flores no reino do Brasil, o rapaz recebeu o espadim e foi designado para um posto longe do Rio. Garantiu que viria busca-la. Mas... buscou, sim, a família dele e sumiu Brasil afora. Nunca mais o viu novamente. Ficou triste e em uma situação difícil, teria um filho e morava na casa de uma família, que não era a sua, apesar de todos gostarem muito dela. A mãe e o pai de Milton discutiram muito toda a situação e chegaram a conclusão que ela não poderia mais ficar ali, teriam de conseguir uma nova empregada. Nanda e Milton protestaram e o casal ficou em um impasse, decidido pela própria Valeska. Ela juntou suas coisas e resolveu ir embora. Alugou um quartinho em um bairro pobre próximo e foi em busca de um emprego.
Não conseguiu nada, mas fazia bicos: lavava roupa para fora, passava e costurava. Foi o suficiente para seu sustento e as despesas do parto. Os pais de Milton ajudaram nas despesas dos meses seguintes e uma irmã dela veio de Minas para ajuda-la.
O incrível era que dois meses depois, Valeska já estava de pé. Arranjou um emprego em uma padaria. Apesar do horário escravocrata, continuou a estudar e a cuidar do pequeno José Antônio. Não deixava faltar nada para o garoto e cuidava muito bem dele. Alguns domingos, ela visitava a família de Milton. Nós três ficávamos babando pelo menino, enquanto ela estava lá. Nanda virou uma espécie de babá informal do menino. Assim, Valeska conseguiu completar o segundo grau e passar no Vestibular para a Universidade Federal.
No curso, conheceu um bom rapaz e iniciaram um romance, para desespero meu e de Milton. Ardorosos apaixonados dela, Nanda vivia a troçar com nossas caras. Ela veio apresenta-lo para a família de Milton e pareciam realmente loucos um pelo outro. Logo depois, ela conseguiu um estágio em sua área e tudo pareceu entrar nos eixos. O garoto foi para o jardim de infância e ela mudou-se para um apartamento um pouco melhor. Alugado, mas era bem ajeitadinho.
No último ano do curso, ela foi efetivada na empresa e seu namorado resolveu pedi-la em casamento. Mas para a surpresa de todos... recusou. Nós três discutimos longamente o motivo, Nanda e eu tínhamos a certeza de que foi porquê ela ainda amava o pai do Zé Antônio. O Milton sonhava que ela não aceitou por estar esperando por ele... para casarem. Verdade ou não, algum anos depois, ambos iniciaram um romance.
Milton estava no melhor dos mundos, seu sorriso ao lado dela era contagiante. Ela não ficava atrás, o emprego estava indo muito bem, Zé Antônio crescia a olhos vistos e tirava ótimas notas no colégio, e estava mais linda do que nunca. Senti uma ponta de inveja dos dois, confesso. Olhando o romance dos dois, no dia em que fui junto de Nanda ajudar a mudança para o novo apartamento de Valeska, comprara financiado com uma ajuda do pai de Milton.
Então, em um belo dia que fui visitar Nanda, Milton estava lá mostrando um anel que comprara. Iria pedir a mão de Valeska em casamento. Tinha a certeza absoluta que ela aceitaria sem pestanejar. Fazia planos. Não havia um só motivo para ela recusa-lo, pois Zé Antonio o amava como a um pai, chamava-o até de Tio, e ela... nem precisava disser! Eu mesmo dei meus parabéns antecipados para ele, pois teria de viajar no dia seguinte e não poderia estar presente naquela data festiva.
De volta da viagem, liguei para ele, mas ninguém atendia. Liguei, então, para Nanda. Foi aí que tive minha segunda grande surpresa sobre Valeska: ela recusara o pedido. Perguntei se ela havia dado alguma explicação para o fato. Nenhuma, foi à resposta de Nanda. Continuaram juntos, mas Milton estava arrasado. O relacionamento de ambos nunca mais foi o mesmo. Milton ficou ciumento e desconfiado, não demorou para Valeska terminar com tudo. Quis ir até sua casa e interceder pelo meu amigo, ainda mais depois que o vi tão triste. Mas não o fiz, tinha meus próprios problemas para resolver.
Acompanhei a história dela de longe ao longo do tempo. Nanda era minha fonte de informações, continuavam grandes amigas, apesar do fim do relacionamento entre Valeska e seu irmão. Nanda amava o filho dela como seu próprio e quando teve seu próprio filho, confiava-o apenas a Valeska, que agora tinha mais tempo disponível, pois montara uma loja própria e abandonara seu emprego. Feliz como nunca antes, mantinha sempre um relacionamento, mas nunca avançava além do namoro. Nunca ficara noiva e nem ao menos falou uma única vez em casamento. Nanda a pressionava, dizendo já ter passado, e muito, do tempo de se casar. Ela concordava, mas ela sempre afirmava que casamento não estava em seus planos.
Um dia nos encontramos na rua e ela me convidou para jantar, já que Zé Antonio iria sair com sua primeira namorada. Aceitei, jantamos em um bom restaurante italiano na Zona Sul e fomos ao teatro. Acabamos a noite sem seu apartamento e resolvi, finalmente, perguntar o que tanto me intrigava. Por quê ela não se casara?
A resposta foi mais simples que imaginei: ‘Não preciso de um homem para ser feliz, me basto. Amo-me o suficiente para viver só. Realizei meus sonhos, tive um filho maravilhoso e quando preciso, encontro alguém bom o bastante para me fazer companhia nas noites frias, mas não preciso acordar com ninguém ao meu lado todos os dias, estou satisfeita de acordar comigo mesma. Sei que meu filho algum dia irá partir, mas continuarei vivendo da forma que escolhi. Feliz... muito feliz!’
Sorri e nos despedimos, nada aconteceu naquela noite, apenas a admirei muito mais. Era a mulher mais decidida e consciente que encontrei em toda a minha vida.
José Alfredo de B Dantas

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