Seguindo com os contos da série Boogie Woogie, "Vamos falar de amor", como diria o saudoso Tim Maia.
Você sabia que, a doutrina cristã Pentecoastal tem 100 anos? Nasceu no interior dos Estados Unidos em 1906 com um pastor de nome Seymour, inspirado no Poder de Deus, assim ele dizia, ao fazer seus seguidores falarem diversas línguas em seus cultos. Na busca de repetir o momento em que os discípulos de Cristo receberam o sopro do Espírito Santo e saíram para evangelizar o mundo, no que foi denominado o Dia de Pentecostes. Seymour era um líder carismático e levava seus fiéis a estados intensos de frenesi coletivo. Os jornais da época o classificaram como um anacronismo, remando contra a maré de modernidade a inundar o planeta.
O tempo é um carrasco implacável! Seymour foi o vitorioso e provou para todos que estava certo quanto a suas convicções doutrinárias. O mundo foi conquistado. Enquanto a modernidade, preconizada pelos intelectuais da época, afundaram em um mar de obscuridade e esquecimento. Os Pentecostais cresceram e floresceram por todo o século XX.
Alheios a tudo isto, um casal teve sua vida influenciada por esta onda nascida quase 80 anos antes. Um casal que adoro e tenho de contar a sua história.
Cláudio era um morador do Beco A, uma das principais transversais da Rua Central do morro. Ele nasceu e viveu quase toda a sua vida ali. Futebol, bola de gude, pião eram os componentes diários de sua vida. Sua única preocupação era a diversão e a as amizades que tinha no morro. Seu momento mais feliz era quando colocava uma bola de futebol embaixo do braço e saía pela rua carregando qualquer um que estivesse com vontade de jogar. Procuravam um campo qualquer, podia ser um terreno baldio cheio de barro e pedras, não importava. O importante era a alegria e a vontade de jogar... à vontade de viver. Brigas e disputas acirradas eram constantes, mas no dia seguinte já haviam esquecido e todo o ciclo recomeçava. A vida era alegre do nascer ao por do sol.
Tudo isto mudou, no dia em que uma bela menina morena, com os cabelos negros escorridos sobre o ombro, foi morar na casa em frente da casa de seu primo Pingo. Alguns anos depois, ele me diria que a imagem que não saía de sua cabeça fora o momento em que aquela menina de 11 anos de idade saiu do táxi, balançou o cabelo e abraçou a mãe. O momento mais lindo de sua vida, diria ele. Seu nome: Valéria. Era filha de um marinheiro chamado Clementino e de uma costureira de nome Adele. Haviam recebido a casa como um bônus do patrão de Clementino, para poder estar mais próximo do trabalho e as filhas dele terem uma vida melhor.
Para Cláudio era o destino que batia em sua porta. Foi paixão a primeira vista. Ao sair daquele táxi, Valéria o enfeitiçou. A imagem ficaria gravada na sua mente por muito tempo. Era a imagem mais linda que ele já havia visto. Ficou por alguns minutos de boca aberta olhando para ela. Seu primo brincou, fingindo segurar a baba a escorrer de seu queixo.
Decidido a conhece-la. Resolveu ajudar a carregar os pertences da família. Foi voluntário para “Seu Clementino”, ficando íntimo na primeira hora. Trocou alguns olhares com a bela moreninha, mas não dirigiram nenhuma palavra um ao outro. Mas nos dias seguintes, ele se esforçou para estar presente em todos os momentos da menina em sua nova vida. Apresentou-a aos seus vizinhos, alguns colegas da rua e mostrou o bairro para ela. Quando foram para o colégio, acompanhou e mostrou tudo a ela. Fazia todo o possível para a vida de sua musa fosse o mais agradável possível. Assim, ambos acabaram se conhecendo melhor e surgindo uma amizade.
Cláudio, porém, queria bem mais que amizade, mas ambos eram muito novos ainda. O relacionamento de ambos foi crescendo e aprofundando com o passar do tempo. Inevitavelmente, acabaram os olhares se encontrando, palavras amáveis sendo trocadas e um namorando iniciando.
O início era algo ingênuo, quase uma brincadeira. Ele continuava a levar sua vida junto aos amigos da rua. Jogava suas peladas, caí na farra no final de semana e soltava pipa durante o verão. Praia, Maracanã e o Jequiá, eram sua vida. Mas sempre, com tempo para namorar sua deusa particular.
Eles chegaram a vida adulta. Ela começou a trabalhar depois de terminar o colegial, mas ele ainda não sabia o que fazer com sua vida, completara o segundo Grau e parara de estudar. Não tinha curso técnico e não sabia fazer nada, por isto era bem mais difícil conseguir um emprego. Sua única certeza é que ela estaria em sua vida.
Nesta época, a mãe dela adoeceu gravemente. Passaram um grande sufoco e foram ajudados pelo patrão de “Seu Clementino” que pagou as custas médicas. Mas para a família, quem a salvara foi Jesus Cristo. Dona Adele passara a freqüentar a Igreja dos Últimos Dias e agradecia todos os dias pela sua cura milagrosa. Sua fé cresceu e passou a incluir suas filhas nos cultos a que participava, apenas “Seu Clementino” não abraçou a nova fé descoberta na doença.
A entrada da Igreja na vida de Valéria, começou a alterar seu relacionamento com Cláudio. Parou de freqüentar a rua em que viviam, escolheu novos amigos vindo da Igreja e criou uma distância segura de todos os que não partilham da mesma fé. Apenas Cláudio conseguiu ficar no círculo fechado que a família criou.
O círculo fechado o tragou para dentro como um redemoinho. Teve que começar a se afastar dos amigos da rua, parar com os jogos de bola e, também, de sair à noite. O namoro ficou sério e mesmo ele não tendo um emprego e nem destino, não importava, apenas seguir os novos mandamentos impostos pela Igreja eram suficientes.
Ficaram noivos sem que ninguém soubesse. Enquanto os amigos esperavam-no para comemorar a vitória de seu time local de várzea no Campeonato da Vila. Lá estava ele reunido a sua família circular comemorando o noivado. É claro, os amigos passaram a cobrar dele sua ausência, sua falta de envolvimento em tudo que eles faziam. Diziam que ele não podia anular sua vida devido a uma mulher. Mas para ele, era a mulher de sua vida. Seu grande amor!
As exigências da família circular aumentaram. Estava atrapalhando seu próprio convívio familiar. Sua mãe e irmãs, já não o viam e pouco se falavam uns com os outros. O vórtice o tragou para dentro dele, como o retirando da face da Terra. Até conseguira emprego através da Igreja. Sentia feliz, mas não completo. Apesar de tudo, aquela não era sua vida. Aquele não era ele. Estava representando um papel para satisfazer a família dela e não a si próprio. Abdicara de sua identidade.
O peso de não ser mais livre em suas decisões, começou a ter um preço difícil de ser pago. O relacionamento começou a esfriar, apesar de ainda amá-la. Até o dia em que os amigos deram uma grande festa na casa do Gordo e não o convidaram. Percebeu ali, que tinha apenas ela e a família dela para viver. Era muito pouco.
Indeciso e com medo de perder seu grande amor, passou a viver um drama pessoal. Quando, então, veio à gota d´água: a mãe dela exigiu que ele se convertesse para a Igreja. Ele fora batizado por seus pais na Igreja Católica, não a freqüentava como a maioria dos brasileiros faz, mas se considerava um Católico. A exigência teve um peso excessivo no seu fardo a carregar. Explodiu, disse não. Tentou mostrar para sua amada, que nada daquilo era necessário se ambos realmente se amavam. A sua crise agora passou a pesar nela. Ficou dividida entre a família e seu amor.
Ela foi pedir conselhos com as amigas da Igreja, que não o viam com bons olhos, devido ter rejeitado a conversão a Jesus. Era uma espécie de Satã jovem. O demonizaram para ela. Convenceram-na, que pela pouca idade e por nunca ter tido outro namorado, estaria confundindo seus sentimentos. Estes não podiam ser tão profundos para um como ele. A pressão da família, dos novos amigos e do próprio pastor da Igreja, fez com que rompesse o noivado.
Cláudio ficou revoltado e com ódio, não só da Igreja como da mãe dela. Voltou a vida noturna e começou a beber. Mas quando ambos encontravam-se, algo ficava no ar. O sentimento era transparente, mas todos estavam contra: seus amigos e família, bem como os amigos e família dela.
Na Igreja apresentaram um novo rapaz para Valéria. Responsável, correto, mais velho e comprometido com a Igreja. Fizeram de tudo para juntá-los. Acabou, é claro, acontecendo, principalmente, quando ela o encontrou na farra com várias meninas. Decidiu que era hora de deixar o passado para trás e seguir o caminho do futuro, sem ele. O namoro começou e um noivado logo foi selado, com as bênçãos do pastor acabaram se casando menos de um ano depois.
Cláudio continuou perdido e em crise. Após o casamento dela, pareceu não importar com mais nada. Sua vida seguia sem rumo e sem conseqüências. Eram seus anos negros. Para completar, os encapuzados entraram no morro e começaram a matar vários de seus amigos que enveredaram pelo caminho do crime. Ele não foi atacado, mas a perda de amigos queridos o abalou. Olhou para si mesmo e percebeu não ter um destino, um objetivo de vida. Nada. Sua vida passara até aquele momento sem nenhuma importância para ninguém, nem mesmo para ele. Tinha de mudar.
Assim o fez. Voltou a estudar e conseguiu um emprego melhor, por suas próprias virtudes. Colocou toda sua energia de viver no trabalho, a exemplo de seu primo Tengo e de seu melhor amigo o Gordo, que haviam encontrado seu próprio caminho de vida.
Esqueceu a mulher que amava e passou a buscar novas pessoa e viver novos romances. Sentiu a força de sua própria liberdade e de assumir as conseqüências de seus próprios atos. Estava seguro e levava uma vida feliz, ainda não completa. Alguns amigos ainda lhe traziam notícias dela, mas estas não tinham o efeito de antes. Quando conheceu Alessandra, o afastamento foi total.
Um dia, passou em frente à Igreja dos Últimos Dias, estava ocorrendo uma festividade. Sentiu uma grande raiva e desapontamento pelo envolvimento que tivera em sua vida, de como aquela fé fez mudar sua vida e seu destino, sem nem ao menos ele acreditar nela. Tudo poderia ter sido mais fácil sem sua existência e influência. Continuou o seu caminho.
A vida de Valéria havia se tornado um inferno. Estava ao lado de um homem que não amava e que depois de um certo tempo, ligava pouco para ela. A Igreja tinha uma importância bem maior na vida dele do que ela. Sua convivência com todos na Igreja e com sua vida começou a se alterar. Passou a ver a vida com outros olhos e percebeu quanto havia cedido por medo e insegurança. Não seguia aquela fé por vontade própria, mas porquê havia sido jogado dentro dela sem nenhuma escolha ou opção. Nunca teve direito a uma real decisão em sua vida. Sua mãe, sua família e a Igreja vinham antes dela. Era a sua própria crise de identidade começando.
A sua solução foi dedicar-se ao trabalho. Não tiveram filhos e a casa era um vácuo para ambos, ela e seu marido. Ela não se sentia bem dentro dela. Era feliz apenas quando estava fora daquelas quatro paredes, principalmente, no trabalho. Novas amizades surgiram e novas possibilidades, também. Sua visão de vida ficou mais larga e agora percebia que a Igreja não era o único caminho possível.
O estranho como caminhos podem se cruzar. No mesmo mês em que Valéria decidiu acabar com seu casamento. Cláudio estava sendo pressionado pela segunda vez: agora sua nova namorada queria que ele tomasse uma decisão sobre o casamento deles. Ele aprendera a não ceder as pressões. Ao invés de enveredar por um casamento, do qual ele estava indeciso. Optou por comprar um carro para si. Foi um balde de água fria em sua namorada, que não aceitara a decisão de ter de adiar mais ainda o casamento.
Valéria abandonou a Igreja e voltou a estudar, decidiu optar por uma vida tranqüila sem ninguém e longe da família. Cláudio acabou com o namoro devido à pressão pelo casamento.
Um belo dia, os dois acabaram se encontrando novamente. Uma carona. Uma simples carona e todo o sentimento represado pelos dois voltou à tona. Começaram de novo, mas agora sem pressões, sem afastamentos e bem mais maduros do que queriam para sua vida. Estavam felizes e poderiam viver suas vidas sem a interferência de família ou Igreja.