31 março 2007

Poesia - Pachorrento

Sem parar, continuamos com nossos belos textos de Poesia escritos por nosso amigo e sócio, cadda vez mais afinado e observador.

PACHORRENTO

LEVANTEI-ME HOJE MAIS TARDE.
O SOL, QUE EMPRESTA SUA LUZ
PARA TORNAR COMPENSATÓRIO
O DESPERTAR,
FALTOU-ME NESTA MANHÃ.
O APELO DO CINZA
QUE SUBSTITUIU O DOURADO
FOI FRACO EM ELOQÜENCIA
E, COM POUCOS MOTIVOS
PARA ENTRAR NO DIA,QUIS ESTICAR-ME NA CAMA.

Maurício Granzinolli

Mulheres que Amor - Amor ou Amizade

Continuo na minha busca de entender as mulheres, por mais difícil que seja. Hoje tento compreender a mecânica do relacionamento entre elas.

Amizade feminina é um mistério. Você não vê nas telas do cinema, não vê um grande romance a respeito, e, às vezes, a vê nas telas da TV. É algo estranho e diferente. Tento pensar em uma grande história em que o tema central tenha sido uma história de amizade entre duas ou mais mulheres. Não me lembro de nenhuma. A história da humanidade, também, não registrou nenhuma que eu lembre. É claro, somos uma sociedade machista. Esta é a explicação! Ou existirá outra.
Lembrei, agora, de uma história sobre amizade feminina. A história de Fabiana e Raquel, com quem trabalhei em um supermercado nos subúrbios do Rio de Janeiro. Lembro do primeiro dia que as vi junto... mãos dadas no meio do corredor, balançando as mãos e cantando uma música da Elba Ramalho. Era uma cena bonita, apesar de ter pensado de primeira que elas eram lésbicas. Deve ter sido alguma fantasia machista e pervertida minha. Também, duas mulheres lindas com corpos incríveis andando de mãos dadas e cantando... o que você queria que eu pensasse.
Era o meu primeiro dia no trabalho, por isto os dias contaram a verdadeira história delas. As mãos dadas eram um símbolo da união que ambas tinham. Dividiam tudo e sempre buscavam uma a outra. Nunca havia visto tal coisa. Se uma ficava doente, a outra saía correndo para comprar remédio. Se uma precisava de dinheiro, a outra emprestava a perder de vista. Se uma tinha um compromisso, a outra ficava em seu lugar no trabalho e nem fazia questão de receber por isto. Se não as tivesse conhecido e alguém me contasse... não acreditaria!
Lembro de um dia, quando Fabiana arrumou um namorado. Era sábado à noite e ela tinha uma filhinha. Não tinha com quem deixa-la e Raquel iria sair também, pois era um compromisso inadiável. Mas deixou de ir e ficou com a filha da amiga, sem reclamar e com um sorriso estampado no rosto.
Houve, também, uma premiação do melhor funcionário do mês. Ambas chegaram ao final da disputa como candidatas ao prêmio. Raquel acabou sendo a escolhida, mas ao tirar a fotografia, chamou sua melhor amiga para estar junto dela e exigiu a foto ser colocada em destaque na loja. Feito! Pela primeira vez, o quadro estampava uma dupla e não uma imagem solitária. Fez um enorme sucesso entre os clientes.
Raquel não havia completado o Segundo Grau, enquanto Fabiana chegou a fazer um curso de Psicologia em uma universidade particular. Fabiana insistiu tanto com Raquel, que esta entrou para um curso noturno e conseguiu completar seus estudos, mas foram dias em que ambas dormiam tarde estudando juntas para qualquer exame a ser realizado. O sofrimento foi compensado e realizaram uma festa em uma lanchonete próxima. Fabiana parecia mais feliz do que a própria formanda.
Impressionado pela amizade sincera das duas amigas, me tornei um amigo próximo e passei ajuda-las e insistia na existência de oportunidades melhores para ambas fora dali. Procurava nos jornais notícias sobre concursos públicos para elas. Emprestava material de estudo e até dava aulas para ambas quando inscreviam e faziam as provas. Não passaram em nenhum, mas sempre eram solidárias e confortavam uma a outra. Era incrível.
Mas o paraíso sempre tem sua serpente. Um dia, um novo padeiro chegou na loja. Foi um alvoroço entre todas as mulheres da loja. Bonito, atraente e bem-humorado. Era o objeto de desejo de todas elas, inclusive as casadas. Fabiana e Raquel pareciam indiferentes a ele, mas tudo mudou um dia, quando Fabiana passou conversando com o rapaz. Raquel com ciúmes da amiga, ficou amuada e não abandonou seu caixa uma única vez. Trabalhou compenetrada e distante o tempo todo. O dia foi longo. Fui conversar com ela, mas não me disse uma palavra sequer.
No dia seguinte, encontrei as duas discutindo pela primeira vez no corredor de acesso da loja. O assunto... era óbvio. Dali, iniciou uma corrida e disputa que finalizou toda amizade entre elas. Bastou um olhar de um homem para esqueceram tudo que fizeram uma pela outra. Aquela magia da amizade e fraternidade existente entre elas... desapareceu... esvaneceu. Não falavam mais uma com a outra. Os olhares trocados constantemente de cumplicidade, também, desapareceram. Nem mesmo a filha de Fabiana podia falar com Raquel quando esta visitava a loja. A amizade foi transformada em uma disputa ferrenha.
Vieram as fofocas, maledicências, novas e falsas amizades foram formadas. A paz e a tranqüilidade da loja foi dividida. Todas as meninas tomaram o partido, seja de uma ou seja de outra. Tudo virou de cabeça para baixo. Cheguei a argumentar com cada uma delas, mas fui colocado no meu lugar de forma direta. “Cala boca, você não tem nada a ver com isto! Isto é entre eu e ela!” O incrível que a resposta dada foi igual para ambas. Os meses se passaram e a disputa descambou para jogos de cena e arranjos estúpidos. O amor virou ódio. O carinho... ressentimento. Era uma pena.
No final, as brigas e as fofocas fizeram com cada uma fosse transferida para uma nova loja, longe uma da outra. O padeiro acabou arrumando uma namorada fora da loja e a amizade se perdeu no meio de intrigas e desejos não realizados. Fiquei desapontado e me perguntava: “Como algo tão bonito poderia ter mudado para um sentimento tão egoísta?” Estou sem resposta até hoje. Nunca mais falaram uma com a outra e nem admitem que alguém cite o nome delas em sua frente.

24 março 2007

Poesia - Fecundo

O texto desta semana é elucidativo do trabalho de qualquer poeta, a necessidade de ter solo fértil de idéias e sentimentos, segue mais uma colaboração de nosso sócio.

SÓ AGORA, QUANDO AS FOLHAS
DOS PESSEGUEIROS SE FORAM
E OS RESSEQUIDOS GALHOS
VESTEM-SE COM SUA ROUPAGEM
MAIS NOBRE,
A VIDA LATENTE É DESPERTADA
EM CADA CÉLULA.
E OS CEGOS OLHOS ENCOBERTOS
PELO VISÍVEL PODEM CAPTAR
A METAMORFOSE MOLECULAR.


NUMA QUÍMICA DE RESULTADOS,
O TEMPO FAZ RECRIAR.
E O VENTO, PORTADOR DE MENSAGENS
DE OUTROS MUNDOS,
FECUNDA ÚTEROS SEDENTOS
QUE, HORA GERAM A VIDA,
HORA PAREM A MORTE



Maurício Granzinolli

mgran@urbi.com.br

Boogie Woogie - Engenharia

O conto de hoje faz referência ao trabalho comunitário dentro das favelas, de seu valor e sua importância na vida de todos.

Alberto acordou bem cedo e colocou as caixas de som na parte de cima da casa. O primeiro a aparecer, não podia ser outro, senão o ‘engenheiro’ da obra: Seu Antônio. Carlinhos, seu filho, ainda dormia. Ele pediu desculpas pelo filho e Alberto acrescentou: “Os preguiçosos dos meus irmãos ainda estão dormindo, também!” Subiram para a laje e inspecionaram o serviço a ser feito... Na verdade Seu Antônio inspecionou, Alberto ficou apenas esperando as ordens do ‘chefe’.
A primeira coisa a ser feita era colocar os sacos de cimento para cima. “Graças a Deus, que já tínhamos subido a areia e os tijolos!” Colocou o primeiro saco de cimento no ombro esquerdo e preparou para subi-lo. Neste momento, o primeiro dos ‘ajudantes’ surgiu no portão, com aquela cara de sono. Era o Marcos, melhor amigo de meu irmão: o Balão. Colocou o saco de cimento de volta no chão de cerâmicas picotadas e cumprimentou-o e agradeceu sua vinda. Lá dentro dava para ouvir a voz dos meus irmãos - Balão e Mário - finalmente saindo da cama. “É claro que não estavam dormindo, estes dois...” Resolveu ficar quieto. Marcos entrou e foi tomar café na mesa posta por Alberto, junto com Mário e Balão. Alberto continuou a subir os sacos de cimento.
Lá embaixo, um a um os ‘convidados’ chegaram, juntamente com a Dona Nalva, a mãe deles, que fora no ‘sacolão’ comprar verduras para incrementar o sopão. Deu para ouvir os urras de felicidade, quando ela contou o que iria fazer. Alberto foi surpreendido por Mazinho, que já estava ajudando a subir os sacos de 50 Kg de cimento. Quando o restante dos ‘convidados’ perceberam os dois trabalhando, largaram o café e começaram a ajudar. Sob protestos de Mário, que achava que poderiam esperar mais um pouco. Alberto não disse nada.
Logo, Seu Antonio retornou, trazendo a tiracolo o seu filho, Carlinhos. Alberto gostava muito dele, sentimento não partilhado por seus dois irmãos, que deveriam estar com razão, pois Alberto não convivia nas ruas do morro, enquanto seus irmãos o faziam diariamente. Era um mundo diferente do seu, ele pensou, com aquiescência. A tropa acabou com o carregamento do cimento em menos de 15 minutos, alguns voltaram a tomar café, enquanto o restante permaneceu na laje. Receberam as instruções do que cada um deveria fazer pelo ‘engenheiro’ Antonio e iniciaram o ‘traço’.
A mistura de cimento e areia tinha de ser exata para não prejudicar a cobertura dos ferros formadores da base da laje do segundo andar da casa. Estes seriam os quartos das ‘crianças’, como a mãe deles os chamava. A quantidade de terra e cimento era misturada cuidadosamente e formavam uma massa uniforme e então esta massa recebia água. Os três elementos eram misturados de forma a ficarem completamente uniformes e a mistura deveria alcançar uma consistência pastosa, flexível o bastante para ser manipulada pelos ‘engenheiros’ e dura o suficiente para resistir às intempéries futuras.
Movimentar mais de 200 Kg de massa não era nada fácil, pior ficava depois de molhada. Eram sete e às vezes oito pessoas movimentando a massa para misturá-la bem. A força necessária era enorme. Alguns deles agüentavam firmes o ‘tranco’ do serviço, mas a maioria tinha de ser substituída de tempos em tempos, devido ao cansaço. Alberto era um deles, apesar de estar na linha de frente o tempo todo, não tinha a força física como uma de suas qualidades, muito menos a resistência. Seus irmãos ajudavam, também... bem menos, é claro.
Traço pronto. Baldes são cheios e jogados para o pessoal na armação de ferros que cobrem toda a área onde a laje ficará. O ‘engenheiro’ Antonio explica como fazer o serviço. Espalham o concreto (o resultante do traço após a mistura completa) e o ‘engenheiro’ acerta o ‘caimento’ da laje com uma madeira denominada ‘perna de três’, que tem de estar perfeitamente alinhada para retirar o excesso de concreto. Depois de retirado o excesso, coloca o prumo sobre a ‘perna de três’ e examina o ‘caimento’ se está correto. Esta é uma atividade vital para o resultado final da colocação da laje, pois um ‘caimento’ mal feito provocará o acúmulo de água em um ponto da laje e causará infiltrações na casa, danificando paredes e estruturas da casa, bem como os móveis. O ‘engenheiro’ experiente é de suma importância neste ponto. Seu Antonio é o cara, alguém afirma. Isto porquê ele já instalou mais de 20 lajes nos últimos cinco anos e sempre conseguiu o melhor resultado entre todos os ‘engenheiros’ em atuação no morro. O melhor de tudo era o preço... totalmente grátis. No ano passado, o “Zé Leão” contratou uma companhia para instalar a sua. O motivo foi não ter um bom relacionamento com ninguém no morro, que pudesse dar uma ‘mão’ a ele, alguns acreditavam que nem uma unha dava para ele. Foram rápidos e bem precisos, pelo menos, foi o que todos pensaram. Muitos já comentavam que iriam tentar contratar a mesma empresa para instalar o delas, quando caiu uma tempestade de verão. A casa de ‘Zé Leão' ficou embaixo d´água. Parecia estar chovendo mais dentro de casa do que na rua. Os gritos dele foram ouvidos até no campinho e as gargalhadas das crianças que brincavam na chuva, foi ainda mais alta. Era uma festa assistir ele ‘quebrar a cara’! Este era o motivo de todos ainda continuarem com seus caseiros ‘engenheiros’.
Estes ‘engenheiros’ eram fundamentais para a favela: instalaram a rede de esgotos, fixaram o encanamento de água, consertaram a fiação elétrica de muitas casas e construíram PCs para controlarem melhor a distribuição da energia elétrica. Em quase toda a obra realizada no morro, eles eram imprescindíveis para fazer tudo funcionar ‘nos conformes’. E Seu Antonio era o melhor! O serviço durou menos de três horas, com dois ‘traços’ de cimento meticulosamente medidos, foi possível cobrir toda a laje. O primeiro grupo, que havia misturado a areia, o cimento e a água, ficou no banco de reservas. Recuperavam a força bebendo cerveja e discutindo sobre o pagode que estava tocando era bom ou não. O som era por conta dos convidados de honra: Zeca, Almir, Jovelina, Martinho e vários outros. Quando o segundo time desceu, a sopa já estava sendo servida. As discussões já estavam acaloradas devido à cerveja bebida até então. O calor aumentava a sensação de cansaço e sono em todos.
O ‘engenheiro’ ficava solitário com seu trabalho inacabado. Acertando os últimos detalhes de sua responsabilidade, doido para seu filho pegar o gosto da ‘coisa’ toda, mas este preferia ficar bebendo com o restante do pessoal lá embaixo. Bebida, comida, bom papo... o quê podemos querer mais? Sempre podemos ter mais, alguém chegou com algumas ‘peças’ e o som eletrônico foi desligado e rapidamente a ‘rodinha’ de pagode estava formada. Alberto foi até Seu Antonio para descobrir se poderia ajudar em alguma coisa mais, mas ao chegar lá em cima, percebeu que tudo já estava pronto.
Reuniram as ferramentas e Alberto ajudou-o a descer. Lá embaixo, viu seu filho no meio da ‘rodinha’, gritou algumas recomendações, que ele não ouviu, e foi para casa com os agradecimentos de Alberto e sua mãe. Os outros tinham preocupações mais imediatas. O pagode ‘rolou’ ainda até o meio da noite, a cerveja acabou e a sopa, também. Nada que atrapalhasse a diversão, fizeram uma ‘vaquinha’ e compraram mais cerveja, os irmãos de Alberto pegaram o que tinha na geladeira e criaram alguns aperitivos para continuar a brincadeira.
Antes de meia-noite, todos já tinham ido embora. A casa estava uma zona, mas o serviço fora feito em um único dia, com a ajuda da comunidade, sem os amigos e vizinhos, não teriam conseguido. Era o segredo: ajudar um ao outro.

17 março 2007

Poesia - Novos Ares

Nosso sócio e colaborador, nos brinda com mais um de seus ótimos textos: Novos Ares.

Novos Ares

QUANDO CHEGAR AOS TRÓPICOS,
A ESTAÇÃO DOS FRUTOS,
E A LUA COM SUA LUZ
TROUXER OS FRUTOS MADUROS,
HEI DE CONTEMPLAR SUAS FORMAS,
CHEIROS, TEXTURAS E SABORES.

HEI DE TRANSFORMAR-ME EM ALADO SER
QUISERA UM BEIJA-FLOR
E, EM VÔO ANSIOSO E CONTÍNUO,
ALCANÇAR O MAIS ALTO DOS GALHOS
PARA CERTIFICAR-ME DA LIBERDADE.

HEI DE CANTAR O CANTO DOS QUE
VÊEM O HORIZONTE,
ENERGIZAR AS ASAS,
LEVAR MEU CORPO AO ENCOTRO DAS IMAGENS
MÚLTIPLAS EM CORES.

PROCURAR O SUAVE AR
LIMPO DO VENENO QUE A CÓLERA
FEZ FERMENTAR;
ESQUECER OS MAPAS, AS ROTAS
E O RELÓGIO.

RECRIAR MINHA HISTÓRIA
COM AS PALAVRAS QUE QUISER,
MORRER PELA MINHA HISTÓRIA,
PINTAR A QUATRO MÃOS
NA INFINITA AQUARELA DO UNIVERSO
A MINHA PRÓPRIA ARTE E VIVER.

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Mulheres que Amo - Caminho Interrompido

Na viagem de compreensão das mulheres, hoje falarei sobre o binômio: família x carreira.

Fui convidado para mais uma festa de aniversário. Era de Clóvis, filho de minha amiga da adolescência Paula. Havia casado a pouco e tínhamos muito pouco contato, mas como esta festa era uma celebração maior para a mãe do que para a criança, pois esta nem tem idéia do que está acontecendo, fui lembrado.
Adoro festa de criança, não pelos ‘comes e bebes’, mas porquê adoro criança e brincar com elas, como não tenho meus próprios filhos, esta é uma oportunidade para me divertir e recuperar um pouco da minha infância perdida. Mesmo sendo uma festa, essencialmente, para as mulheres... não! Mulheres, não, mães! Pois esta é a celebração da maior vitória da mulher, apesar de todo modernismo propalado nos atuais tempos, a mulher sente completa apenas quando casa e tem seu primeiro filho. Seu ciclo está perfeito! Pobre ou rica, executiva ou operária, não importa, o ciclo de vitória só é verdadeiro quando existe o casamento e a concepção, não precisando ser imaculada, pelo contrário. A vitoriosa desfila para todos a felicidade transbordante de ter alcançado sua própria realização a todas as outras. As mães celebram a felicidade como cúmplices, compreendendo totalmente o sentimento envolvido, as solteiras e sem filhos sofrem com sua incapacidade, mas sonhando com o dia que estarão no lugar da debutante.
Entretanto, existe no meio delas, aquelas em que este dia é transformado em um lembrete em seu fracasso de realizar algo tão óbvio e primário. Era o caso de Cleide. Cleide era de nossa turma no colegial e formávamos um grupo animado e desligado dos principais grupinhos, mas estávamos sempre em todas as festas e agitos de nossa época. Cleide na época não era uma garota muito atraente, demorou a mostrar sua beleza, que dava para perceber para os amigos mais próximos. A combinação de timidez e uma certa inabilidade no vestir e enxergar a si própria, fez com que ela passasse a juventude sem ser percebida pelos garotos. Eu mesmo era um deles! Acredito ser este o motivo dela ter escolhido uma profissão tão diferente do caminho de suas amigas: Engenharia Química. Falávamos, na época, não ser uma ‘profissão de mulher’. Tolice arrematada e um machismo a flor da pele. Ele seguiu em frente, com enorme sucesso, tenho de acrescentar.
Completou o curso como uma das melhores alunas da turma, estudando na Federal, não era qualquer porcaria, não. Nem ao menos havia pego o diploma, foi convidada para ser trainee em uma grande empresa farmacêutica, na divisão de Pesquisa & desenvolvimento. O período de treinamento deveria ser de 1 ano, mas com bem menos que isto, acabou sendo efetivada no cargo de Pesquisadora Júnior. Em um ano, já recebera sua primeira promoção e foi convidada a trabalhar em um dos principais projetos da empresa. No ano seguinte, já publicava seu primeiro artigo científico relevante, chamando a atenção da direção.
Os resultados alcançados de forma tão rápida e eficiente, levaram-na a ser participante do projeto de financiamento de bolsas de estudo em um curso de pós-graduação fora do país. Fez teste e acabou entrando para o M.I.T., de Boston. Seguiu para os Estados Unidos e completou a pós com louvor e teve sua tese publicada em uma das mais conceituadas revistas do setor químico americano. Choveram convites de empresas estrangeiras, mas ela decidiu retornar para o Brasil e continuar seu trabalho na empresa farmacêutica, onde começara sua carreira profissional.
Neste ínterim, com sua auto-estima no topo, descobriu a si mesma como uma bela mulher que era. Passou a se cuidar melhor e aprendeu a vestir. Aos 30 anos de idade era uma mulher: linda, inteligente e bem-sucedida. Todo este tempo nós mantivemos em contato, mesmo quando estava nos Estados Unidos. Eu, sempre, implicava com o namorado novo dela. Parecia ter um novo a cada semana. Todos, sem exceção, não estavam a altura dela, pelo menos era a minha opinião.
Naquela festa a encontrei sozinha sentada em uma mesa, isolada e segregada de todos, principalmente, de todas as suas amigas. Algo sempre me atrai para os tristes e problemáticos. Fui até ela e indaguei qual era o problema. O problema era ela ainda não ter se casado e nem ter um filho, já tinha quase trinta anos e nada conseguira. A frase me pareceu totalmente deslocada. Argumentei toda as conquistas dela até ali, o tipo de vida que tinha e a inveja que causava a muitas delas presentes nesta festa. Mesmo assim, continuava inconsolável. Argumentava não ter um namorado decente para apresentar para as amigas e não tinha assunto para conversar com elas. Tudo isto a fazia se sentir como um ‘peixe fora d´água’. Estava incompleta.
Percebi que meus argumentos não faziam nenhum efeito. Não havia uma razão real para ela se sentir daquela forma. Ao contrário de todas as mães ali, ela nunca gostara de crianças, não tinha paciência para elas e mesmo o casamento, não parecia fazer sentido para uma pessoa como ela. Sempre buscando novos horizontes e desafios, não mantendo nada fixo em sua vida, uma ‘metamorfose ambulante’, como bem descreveu Raul.
A conversa tomou novos rumos e esquecemos o assunto. Mas senti toda a pressão sobre ela, quando chegou o momento dos parabéns. Paula estava com Clóvis no colo a embala-lo. A criança parecia que iria chorar a qualquer instante, mas Paula não deixava sair do seu colo. O marido era um apêndice colocado a margem da festa, em segundo plano. Ninguém ligava muito para ele. As velhinhas foram apagadas por Paula. Clóvis nem ao menos olhou para o bolo, queria sair dali. Após o apagar das velhinhas, Clóvis foi solenemente posto no colo de alguma tia, que não conhecia, e ficou esquecido de sua própria festa, enquanto Paula continuava sua memorável comemoração. A cada exclamação de felicidade e riso incontido de Paula, parecia que um alfinete estava sendo enfiado nas costas de Cleide. Era um sofrimento atroz, provocado por ela mesma.
No final da festa, nos despedimos cordialmente, mas ela fez uma promessa ali mesmo. Aquela era a última vez que iria a uma festa de criança de suas amigas, a próxima seria a de seu filho. Tanto a promessa quanto a atitude dela eram despropositadas, mas percebi seu descontrole emocional e decidi não dizer nada. Fiquei mudo. Não teria mesmo o que dizer.
Um ano depois, recebi um convite de casamento. Era de Cleide! Estava de casamento com um tal de Rodrigo Amorim Silva, de quem nunca havia ouvido falar, nem de colunas sociais e nem das páginas policiais. Fui ao casamento, gostava muito dela e só tinha boas lembranças de nossa amizade de colegial. O cara era muito bonito e elegante. Alto e esbelto, devia malhar muito. Nos olhos das amigas, até mesmo de Paula dava para perceber a inveja. Nos olhos dela percebi que era o homem dos sonhos de muitas delas.
Fui apresentado a ele, mas não gostei muito. Era afetado e tinha um ar de superioridade. Ela estava radiante, incrivelmente bonita de noiva. Nunca gostei muito de mulher vestida de noiva, mas no caso de Cleide, ela estava um arraso! Cheguei a me perguntar o motivo de nunca ter tentado nada. Fiquei quieto. Ela veio até mim cheia de alegria e com um sorriso aberto e contagioso. Acreditei, naquele momento, a promessa feita a mim no ano passado, tinha sido a melhor decisão de sua vida. Fiquei um pouco na festa, revi amigos, bebi e comi, mas fui para a casa cedo. Não havia nada de meu interesse lá mesmo.
Dois anos depois, outro convite. Festa de aniversário de Thiago, o primeiro filho de Cleide. A velocidade de tudo aquilo era incrível. Ela desviou toda a sua determinação, usada no trabalho, para a concretização de seu próprio ciclo de realização como mulher. Já estava cansado daquelas festas e resolvi não ir. No dia seguinte a festa, ela me ligou o foi me visitar com o pequeno Thiago. Carregava-o como um troféu e parecia muito pouco a vontade com a criança em seus braços. Em certo momento, tirei-o dela e fiquei embalando-o em meu colo. Trouxe bolo e algumas coisas da festa que havia guardado para mim. Antes de ir embora, me falou de forma altiva. “Não te disse que a próxima festa que eu iria seria a minha!” Dito aquilo, foi embora. Não a vi mais depois daquilo. Fora estranho e inusitado. Eu era a testemunha escolhida para sua vitória. Uma testemunha relutante, mas uma testemunha única do que ela desejara e conseguira.
Algumas semanas depois, encontrei o Cláudio, um amigo comum com Cleide, inclusive trabalhavam na mesma empresa. Estava na praia bebendo um chope, quando ele acenou para mim. Nunca fomos lá muito próximos, mas nunca recusava um bom bate-papo. Não sei o que deu nele, disparou a contar histórias do trabalho e de sua vida pessoal, de suas conquistas e realizações. Falou de diversos assuntos, a maioria, eu não tinha o menor interesse ou não entendia ‘bulufas’ nenhuma que ele estava dizendo, mas era uma companhia para um chope em uma tarde quente no Rio de Janeiro. Deixei ele continuar. Foi quando ele me perguntou o por quê de não ter ido na festa da Cleide. Respondi com sinceridade e ele pulou para a fase seguinte de uma conversa de duas pessoas que tem muito pouco em comum: a fofoca sobre a vida alheia. Falou dos exageros da festa, que para mim parecia os mesmos de todas as outras, da roupa de Cleide, de seus arroubos e, principalmente, do marido dela que ficava agarrado a uma bela loirinha mignon, que ninguém conhecia.
Não era de espantar, tudo aquilo fora rápido demais. Não podia ser um conto de fadas tão perfeito. Ele percebeu meu interesse e como havia saído de minha letargia, continuou seu relato, apimentando um pouco, é claro. Ela nem ao menos cuidava da criança, tinha uma babá para tanto. Nem se preocupara em dar leite materno para o garoto e sua carreira na empresa havia estagnado. Ela não era mais a mesma. Não publicava nenhum artigo e não completava nenhuma pesquisa a um bom tempo. Havia rumores de sua possível demissão, o que não acontecera ainda, devido ao alto investimento feito nela.
Voltei para casa preocupado, queria ligar para ela, mas sua atitude irracional na festa do Clóvis, me deixara pouco confortável para discutir qualquer assunto que fosse com ela. Na realidade, após aquela festa, a amizade desvaneceu. Não sabia como tratar o assunto ou mesmo se devia trata-lo com ela. Decidi, como sempre, pela inação.
Algum tempo depois, comecei o namoro com uma secretária da mesma empresa em que ela trabalhava. Um dia, resolvi perguntar sobre ela a minha namorada. Ela não sabia de quem eu estava falando. Tinha pouco tempo na empresa, havia ocorrido um programa de reengenharia na empresa, antes dela fazer parte dos quadros, e muito havia sido mudado. “Sua amiga deve ter uma sido uma das mudanças ocorridas.” Aí sim, fiquei preocupado! Ela havia investido tanto na carreira. Fiquei uns dias pensando e tomei a decisão de ir até sua casa e fazer uma visita de cortesia, relembrando os velhos tempos. Morava ainda no mesmo apartamento e estava em casa quando cheguei. Subi e fui cumprimentado alegremente por ela. Falamos sobre amenidades e tentamos afastar o sentimento de estranheza que havia entre nós. Quando ficamos sem assunto, perguntei sobre seu emprego. Ela me contou que atualmente estava procurando novas oportunidades, leia-se desempregada, pois acontecera uma pressão muito grande quando a companhia farmacêutica foi incorporada por uma empresa maior, muitos perderam seus cargos e a pressão foi demais para ela. Pediu demissão. Estava estudando novas propostas, mas não tinha nada decidido até o momento. No rosto dela estava escrito o quanto aquilo tudo era doloroso para ela. Não vendo sinal do filho e nem do marido, indaguei sobre ambos. O marido, como era esperado, havia partido assim que os problemas começaram, entenda-se o filho. Não havia suportado a responsabilidade de ser pai, não vinha nem ver o próprio filho, reclamou.
A criança estava na creche, passava o dia todo lá. Falou de seus problemas para cuidar dele, principalmente, agora sem babá. Passou um bom tempo enumerando as dificuldade que tinha para lidar com isto (o garoto) e sem eu ter dito nada, acrescentou: “Acho que não nasci para ser mãe!” Era algo óbvio que qualquer pessoa que convivesse com ela teria percebido de primeira. Fiquei com a língua queimando para dizer: “Eu te disse!”, mas nada fiz. O vácuo de assunto retornou e percebi que era hora de partir.
Na porta, polidamente nos despedimos. Ela olhou para o relógio e descobriu que estava atrasada para buscar Thiago na creche. O gosto de ‘nunca mais’ daquela despedida, podia ser sentido por qualquer um. Queria perguntar a ela se valeu a pena ter jogado toda a carreira profissional dela no lixo, para realizar um sonho que não era dela e nada tinha a haver com ela. Olhei bem nos seus olhos e, novamente, inação.
Fui embora, nunca mais ouvi falar sobre Cleide e Thiago. Ainda cheguei a procurar artigos científicos dela escritos ou seu nome na internet, mas não havia nada. Nunca mais ela recuperou a sua antiga magia, perdida nos sonhos de outras pessoas. Um belo caminho interrompido... uma pena.

08 março 2007

Poesia - Vórtice sem Fim

Primeiro, tenho que agradecer os elogios feitos aos textos apresentados aqui em nosso blog, muitíssimo obrigado a todos! A melhor forma, que meu parceiro de idéias e eu podemos pensar para agradecer o seu carinho é: continuar escrevendo e postando nossos textos. Antecipadamente hoje, coloco no ar mais um belo trabalho do Maurício.

Vórtice sem Fim

SINTO-ME DENSO AO ENTREGAR MEU ESPÍRITO
AO PESO DA DESILUSÃO.
ESTA FECHA MEUS OLHOS,
ENFRAQUECE MEUS MÚSCULOS
E TURVA MINHA CONSCIÊNCIA
NUMA PROGRESSIVA ANEMIA;
EMPALIDEÇO-ME COM O SOL.

MORRO A CADA MADRUGADA
AO EXIGIR DA VIDA
A MORTE QUE ME É DE DIREITO;
PERCO-ME NA INFINIDADE DO UNIVERSO.
VAGO MUITO PELOS MESMOS LUGARES
QUE CADA VEZ MENOS DOMINO.

PRISIONEIRO ETERNO DAS ASPIRAIS
DE UM VÓRTICE,
SOU, INEXORAVELMENTE, CONDUZIDO
À NÁUSEA DA EXISTÊNCIA
E À PÁLIDA VONTADE DE EXISTIR.

IMENSO SÃO OS CICLOS DE CADA DOR
E LENTO É O ESCOAR DO TEMPO
QUE, GORDUROSO, ENCOLHE SUAS PERNAS
CAMINHANDO PARA O NUNCA
E APAVORANDO-ME COM A IDÉIA
DO ETERNO.

MAURÍCIO GRANZINOLLI.

mgran@urbi.com.br

Boogie Woogie - Amor & Religião

Seguindo com os contos da série Boogie Woogie, "Vamos falar de amor", como diria o saudoso Tim Maia.

Você sabia que, a doutrina cristã Pentecoastal tem 100 anos? Nasceu no interior dos Estados Unidos em 1906 com um pastor de nome Seymour, inspirado no Poder de Deus, assim ele dizia, ao fazer seus seguidores falarem diversas línguas em seus cultos. Na busca de repetir o momento em que os discípulos de Cristo receberam o sopro do Espírito Santo e saíram para evangelizar o mundo, no que foi denominado o Dia de Pentecostes. Seymour era um líder carismático e levava seus fiéis a estados intensos de frenesi coletivo. Os jornais da época o classificaram como um anacronismo, remando contra a maré de modernidade a inundar o planeta.

O tempo é um carrasco implacável! Seymour foi o vitorioso e provou para todos que estava certo quanto a suas convicções doutrinárias. O mundo foi conquistado. Enquanto a modernidade, preconizada pelos intelectuais da época, afundaram em um mar de obscuridade e esquecimento. Os Pentecostais cresceram e floresceram por todo o século XX.

Alheios a tudo isto, um casal teve sua vida influenciada por esta onda nascida quase 80 anos antes. Um casal que adoro e tenho de contar a sua história.

Cláudio era um morador do Beco A, uma das principais transversais da Rua Central do morro. Ele nasceu e viveu quase toda a sua vida ali. Futebol, bola de gude, pião eram os componentes diários de sua vida. Sua única preocupação era a diversão e a as amizades que tinha no morro. Seu momento mais feliz era quando colocava uma bola de futebol embaixo do braço e saía pela rua carregando qualquer um que estivesse com vontade de jogar. Procuravam um campo qualquer, podia ser um terreno baldio cheio de barro e pedras, não importava. O importante era a alegria e a vontade de jogar... à vontade de viver. Brigas e disputas acirradas eram constantes, mas no dia seguinte já haviam esquecido e todo o ciclo recomeçava. A vida era alegre do nascer ao por do sol.

Tudo isto mudou, no dia em que uma bela menina morena, com os cabelos negros escorridos sobre o ombro, foi morar na casa em frente da casa de seu primo Pingo. Alguns anos depois, ele me diria que a imagem que não saía de sua cabeça fora o momento em que aquela menina de 11 anos de idade saiu do táxi, balançou o cabelo e abraçou a mãe. O momento mais lindo de sua vida, diria ele. Seu nome: Valéria. Era filha de um marinheiro chamado Clementino e de uma costureira de nome Adele. Haviam recebido a casa como um bônus do patrão de Clementino, para poder estar mais próximo do trabalho e as filhas dele terem uma vida melhor.

Para Cláudio era o destino que batia em sua porta. Foi paixão a primeira vista. Ao sair daquele táxi, Valéria o enfeitiçou. A imagem ficaria gravada na sua mente por muito tempo. Era a imagem mais linda que ele já havia visto. Ficou por alguns minutos de boca aberta olhando para ela. Seu primo brincou, fingindo segurar a baba a escorrer de seu queixo.

Decidido a conhece-la. Resolveu ajudar a carregar os pertences da família. Foi voluntário para “Seu Clementino”, ficando íntimo na primeira hora. Trocou alguns olhares com a bela moreninha, mas não dirigiram nenhuma palavra um ao outro. Mas nos dias seguintes, ele se esforçou para estar presente em todos os momentos da menina em sua nova vida. Apresentou-a aos seus vizinhos, alguns colegas da rua e mostrou o bairro para ela. Quando foram para o colégio, acompanhou e mostrou tudo a ela. Fazia todo o possível para a vida de sua musa fosse o mais agradável possível. Assim, ambos acabaram se conhecendo melhor e surgindo uma amizade.

Cláudio, porém, queria bem mais que amizade, mas ambos eram muito novos ainda. O relacionamento de ambos foi crescendo e aprofundando com o passar do tempo. Inevitavelmente, acabaram os olhares se encontrando, palavras amáveis sendo trocadas e um namorando iniciando.

O início era algo ingênuo, quase uma brincadeira. Ele continuava a levar sua vida junto aos amigos da rua. Jogava suas peladas, caí na farra no final de semana e soltava pipa durante o verão. Praia, Maracanã e o Jequiá, eram sua vida. Mas sempre, com tempo para namorar sua deusa particular.

Eles chegaram a vida adulta. Ela começou a trabalhar depois de terminar o colegial, mas ele ainda não sabia o que fazer com sua vida, completara o segundo Grau e parara de estudar. Não tinha curso técnico e não sabia fazer nada, por isto era bem mais difícil conseguir um emprego. Sua única certeza é que ela estaria em sua vida.

Nesta época, a mãe dela adoeceu gravemente. Passaram um grande sufoco e foram ajudados pelo patrão de “Seu Clementino” que pagou as custas médicas. Mas para a família, quem a salvara foi Jesus Cristo. Dona Adele passara a freqüentar a Igreja dos Últimos Dias e agradecia todos os dias pela sua cura milagrosa. Sua fé cresceu e passou a incluir suas filhas nos cultos a que participava, apenas “Seu Clementino” não abraçou a nova fé descoberta na doença.

A entrada da Igreja na vida de Valéria, começou a alterar seu relacionamento com Cláudio. Parou de freqüentar a rua em que viviam, escolheu novos amigos vindo da Igreja e criou uma distância segura de todos os que não partilham da mesma fé. Apenas Cláudio conseguiu ficar no círculo fechado que a família criou.

O círculo fechado o tragou para dentro como um redemoinho. Teve que começar a se afastar dos amigos da rua, parar com os jogos de bola e, também, de sair à noite. O namoro ficou sério e mesmo ele não tendo um emprego e nem destino, não importava, apenas seguir os novos mandamentos impostos pela Igreja eram suficientes.

Ficaram noivos sem que ninguém soubesse. Enquanto os amigos esperavam-no para comemorar a vitória de seu time local de várzea no Campeonato da Vila. Lá estava ele reunido a sua família circular comemorando o noivado. É claro, os amigos passaram a cobrar dele sua ausência, sua falta de envolvimento em tudo que eles faziam. Diziam que ele não podia anular sua vida devido a uma mulher. Mas para ele, era a mulher de sua vida. Seu grande amor!

As exigências da família circular aumentaram. Estava atrapalhando seu próprio convívio familiar. Sua mãe e irmãs, já não o viam e pouco se falavam uns com os outros. O vórtice o tragou para dentro dele, como o retirando da face da Terra. Até conseguira emprego através da Igreja. Sentia feliz, mas não completo. Apesar de tudo, aquela não era sua vida. Aquele não era ele. Estava representando um papel para satisfazer a família dela e não a si próprio. Abdicara de sua identidade.

O peso de não ser mais livre em suas decisões, começou a ter um preço difícil de ser pago. O relacionamento começou a esfriar, apesar de ainda amá-la. Até o dia em que os amigos deram uma grande festa na casa do Gordo e não o convidaram. Percebeu ali, que tinha apenas ela e a família dela para viver. Era muito pouco.

Indeciso e com medo de perder seu grande amor, passou a viver um drama pessoal. Quando, então, veio à gota d´água: a mãe dela exigiu que ele se convertesse para a Igreja. Ele fora batizado por seus pais na Igreja Católica, não a freqüentava como a maioria dos brasileiros faz, mas se considerava um Católico. A exigência teve um peso excessivo no seu fardo a carregar. Explodiu, disse não. Tentou mostrar para sua amada, que nada daquilo era necessário se ambos realmente se amavam. A sua crise agora passou a pesar nela. Ficou dividida entre a família e seu amor.

Ela foi pedir conselhos com as amigas da Igreja, que não o viam com bons olhos, devido ter rejeitado a conversão a Jesus. Era uma espécie de Satã jovem. O demonizaram para ela. Convenceram-na, que pela pouca idade e por nunca ter tido outro namorado, estaria confundindo seus sentimentos. Estes não podiam ser tão profundos para um como ele. A pressão da família, dos novos amigos e do próprio pastor da Igreja, fez com que rompesse o noivado.

Cláudio ficou revoltado e com ódio, não só da Igreja como da mãe dela. Voltou a vida noturna e começou a beber. Mas quando ambos encontravam-se, algo ficava no ar. O sentimento era transparente, mas todos estavam contra: seus amigos e família, bem como os amigos e família dela.

Na Igreja apresentaram um novo rapaz para Valéria. Responsável, correto, mais velho e comprometido com a Igreja. Fizeram de tudo para juntá-los. Acabou, é claro, acontecendo, principalmente, quando ela o encontrou na farra com várias meninas. Decidiu que era hora de deixar o passado para trás e seguir o caminho do futuro, sem ele. O namoro começou e um noivado logo foi selado, com as bênçãos do pastor acabaram se casando menos de um ano depois.

Cláudio continuou perdido e em crise. Após o casamento dela, pareceu não importar com mais nada. Sua vida seguia sem rumo e sem conseqüências. Eram seus anos negros. Para completar, os encapuzados entraram no morro e começaram a matar vários de seus amigos que enveredaram pelo caminho do crime. Ele não foi atacado, mas a perda de amigos queridos o abalou. Olhou para si mesmo e percebeu não ter um destino, um objetivo de vida. Nada. Sua vida passara até aquele momento sem nenhuma importância para ninguém, nem mesmo para ele. Tinha de mudar.

Assim o fez. Voltou a estudar e conseguiu um emprego melhor, por suas próprias virtudes. Colocou toda sua energia de viver no trabalho, a exemplo de seu primo Tengo e de seu melhor amigo o Gordo, que haviam encontrado seu próprio caminho de vida.

Esqueceu a mulher que amava e passou a buscar novas pessoa e viver novos romances. Sentiu a força de sua própria liberdade e de assumir as conseqüências de seus próprios atos. Estava seguro e levava uma vida feliz, ainda não completa. Alguns amigos ainda lhe traziam notícias dela, mas estas não tinham o efeito de antes. Quando conheceu Alessandra, o afastamento foi total.

Um dia, passou em frente à Igreja dos Últimos Dias, estava ocorrendo uma festividade. Sentiu uma grande raiva e desapontamento pelo envolvimento que tivera em sua vida, de como aquela fé fez mudar sua vida e seu destino, sem nem ao menos ele acreditar nela. Tudo poderia ter sido mais fácil sem sua existência e influência. Continuou o seu caminho.

A vida de Valéria havia se tornado um inferno. Estava ao lado de um homem que não amava e que depois de um certo tempo, ligava pouco para ela. A Igreja tinha uma importância bem maior na vida dele do que ela. Sua convivência com todos na Igreja e com sua vida começou a se alterar. Passou a ver a vida com outros olhos e percebeu quanto havia cedido por medo e insegurança. Não seguia aquela fé por vontade própria, mas porquê havia sido jogado dentro dela sem nenhuma escolha ou opção. Nunca teve direito a uma real decisão em sua vida. Sua mãe, sua família e a Igreja vinham antes dela. Era a sua própria crise de identidade começando.

A sua solução foi dedicar-se ao trabalho. Não tiveram filhos e a casa era um vácuo para ambos, ela e seu marido. Ela não se sentia bem dentro dela. Era feliz apenas quando estava fora daquelas quatro paredes, principalmente, no trabalho. Novas amizades surgiram e novas possibilidades, também. Sua visão de vida ficou mais larga e agora percebia que a Igreja não era o único caminho possível.

O estranho como caminhos podem se cruzar. No mesmo mês em que Valéria decidiu acabar com seu casamento. Cláudio estava sendo pressionado pela segunda vez: agora sua nova namorada queria que ele tomasse uma decisão sobre o casamento deles. Ele aprendera a não ceder as pressões. Ao invés de enveredar por um casamento, do qual ele estava indeciso. Optou por comprar um carro para si. Foi um balde de água fria em sua namorada, que não aceitara a decisão de ter de adiar mais ainda o casamento.

Valéria abandonou a Igreja e voltou a estudar, decidiu optar por uma vida tranqüila sem ninguém e longe da família. Cláudio acabou com o namoro devido à pressão pelo casamento.

Um belo dia, os dois acabaram se encontrando novamente. Uma carona. Uma simples carona e todo o sentimento represado pelos dois voltou à tona. Começaram de novo, mas agora sem pressões, sem afastamentos e bem mais maduros do que queriam para sua vida. Estavam felizes e poderiam viver suas vidas sem a interferência de família ou Igreja.

03 março 2007

Segue mais uma colaboração de nosso sócio e amigo na sua tarefa de nos trazer suas idéias em forma de poesia. Gostaríamos muito de saber sua opinião sobre os textos, deixem seus comentários, que teremos o maior prazer em discutir e conversar com todos vocês.

BORBOLETA

Costumo sobrevoar meu próprio
cadáver.
Como um abutre autofágico;
Disseco minha alma com a isenção
Objetiva de um olhar externo
E um visceral envolvimento
De quem um dia deu vida
Ao que hoje se vai.

Do alto de mim mesmo, tenho a ampla visão
Da destruição que, impulsionada pela dor,
Vai mais rápida que o tempo.

Ponho-me a pousar em pseudos
Pontos de resistência.
Alicerçados em terrenos sísmicos,
Perdem-se um pouco a cada abalo.

Retorno ao meu corpo
Içado por uma borboleta
Que, de tão frágil, faz-me levantar.
Mas respiro pouco,
Caminho pouco.

Acordo.
E ressuscito para a
Morte.
Pobre borboleta.

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Mulheres que Amo - Em busca da beleza perfeita

No caminho da compreensão do outro, sigo com um novo conto da série Mulheres que Amo, tentando entender a obsessão por padrões de beleza impossíveis de atingir, que na maioria das vezes não agrada aos seus supostos alvos: nós os homens.

No colégio, conheci uma menina lindíssima, seu nome era Margareth. Ela era deslumbrante, cabelos perfeitos, rosto perfeito, boca perfeita, cintura perfeita, quadril perfeito... em suma, tudo perfeito. Os garotos do colégio mal conseguiam tirar os olhos dela na aula, quantos de nós fomos repreendidos por não estarem concentrados na aula por sua culpa. Eu sonhava com ela quase todos os dias, não era paixão, mas adoração. Veja bem, eu não estava só neste novo culto.
Um dia, ela conheceu um cara novo no colégio, o João. Era o cara perfeito para a garota perfeita. Ele era invejado por todos nós, era bonito, rico e bom nos esportes. Não demorou para Margareth coloca-lo em sua mira e decidir que os dois seriam o casal 20 do colégio, para a inveja de todos. Passou um ano inteiro dando em cima dele, mas não parecia funcionar. O motivo era simples, João era gay. Não o sabia na época, iria se descobrir na universidade, mas na época os primeiros sinais já surgiam. Seu cuidado doentio com o cabelo e a seu egocentrismo exacerbado quase chegando a uma paranóia eram os primeiros indicativos. Mas ser gay naquela época necessitava de muita coragem, algo nada fácil de encontrar em João. Pensei na época, apenas para mim, que ele era gay, não pelos sinais, mas como aquele idiota não percebia a Deusa dando bola para ele.
Mas não resistiu, seja pela insistência dela ou pela fofoca que estava rolando sobre sua sexualidade, acabaram iniciando um romance no final do ano. Era um relacionamento estranho. Ela o mostrava para todos, principalmente, todas as amigas. Enquanto ele ficava amuado, quieto e pensativo ao lado dela. Ela estava sempre radiante e ele parecia estar com dor de barriga. Na festa de final de ano do colégio, o único momento em que sorriu foi quando estava conversando conosco longe dela. Não durou, é claro, pois ela veio busca-lo para cumprirem todas as formalidades do baile. Seu desejo máximo era exibi-lo para as amigas. Era seu troféu.
As férias começaram e não os vi mais. Até às vésperas do carnaval, quando encontrei João. Contei-lhe estar organizando uma viagem para o carnaval e muito dos garotos do colégio iriam. Entusiasmado, afirmou categoricamente que iria conosco. Quase perguntei o que faria com Margareth, mas achei que era fogo de palha e logo ele esqueceria.
Dia da partida, João aparece de mala e cuia na rodoviária no nosso ponto de encontro. Não acreditei, pior de tudo... estava sozinho. Sem Margareth. Ninguém conseguiu dizer bom dia para ele, Eduardo fuzilou com a pergunta que todos queriam fazer: “Onde estava a Margareth?” Friamente, afirmou que não estavam mais juntos e foi só. Fomos para a praia e passamos duas semanas lá. Voltamos na véspera do reinício das aulas.
Coincidência ou não, o primeiro rosto, e que rosto, que vi foi de Margareth. Estava inconsolável e parecia ter chorado muito. As amigas passaram por mim como se eu não existisse e apoiaram. Soube depois que ela havia entrado em depressão pelo fim do namoro e levou quase quatro meses para se recuperar do trauma.
No segundo semestre, fui para no grupo de estudos dela. Era um trabalho de história e, até hoje, não sei o motivo que fui parar junto com elas. Eram somente mulheres no grupo, é claro, eu sendo a exceção, deixemos isto bem claro. Para mim parecia ter ido para o paraíso, descobri rapidamente que estava mais para o inferno. Não importa quão bonitas são... elas serão sempre mulheres. Era como se eu não estivesse ali, caso eu decidisse faltar a uma reunião, acredito que nem lembrariam que eu devia estar ali. Mas fui levando, metendo a cara no trabalho. Em um certo dia, Margareth me chamou no canto e perguntou na lata se ela era feia. Eu não podia acreditar naquilo, fiz mil elogios e a chamei de Deusa, mas acho que minha opinião não tinha um grande valor, pois ao invés de ficar feliz, ficou ainda mais amuada e soturna.
Na reunião seguinte, novamente, me chamou em um canto. Fui alegre e feliz, crente que iria me dar bem com ela. Ledo engano! Ela insistia em saber o que havia de errado com ela. Perguntava se João havia comentado algo comigo, apesar dele ser um grande amigo nada disse e nem me interessei em perguntar. Mas ela insistiu tanto em saber, que lhe falei que seu nariz era um pouco achatado. Qual nada! Disse aquilo apenas para ela parar de encher minha paciência.
Sei que, meses depois, ela não apareceu por duas semanas no colégio. Pensei que estaria doente, pensei até mesmo em lhe ligar para saber seu estado. Acabei descobrindo que não tinha nada físico, apenas mental. Havia feito uma operação plástica no nariz! Entrou triunfante no colégio exibindo seu novo e arrebitado nariz no colégio. Sua primeira providência, foi procurar João. O efeito... nulo, totalmente. Acho que ele estava ficando cada vez mais gay.
Houve uma festa na casa dela, dada na esperança de encontra-lo por lá, mas... Na festa, o assunto era um só: João e sua indiferença para com Margareth. Resolvi aventar a possibilidade dele ser gay, mas quase apanhei. Fui chamado de invejoso e acusado de acreditar que qualquer homem bonito era gay. Não era bem verdade, não acreditava que todos fossem, mas uma grande maioria... tinha certeza absoluta que sim. Já estava sendo expulso da festa pelas meninas, quando encontrei com Margareth chorando. Novamente, me perguntou o que havia de errado com ela. Nada era a minha única e possível resposta. Mas já havia aprendido, para algumas mulheres, principalmente as bonitas, a minha opinião e nada eram a mesma coisa.
Fui para faculdade e a encontrei nos corredores da faculdade de direito. Me contou: estava fazendo ginástica, dieta, indo ao cabelereiro, manicure, pedicure e toda cure que existisse e a ajudasse a ficar mais bonita. Pensei em lhe dizer que nada disso era necessário, mas já havia aprendido a ficar de boca fechada.
Um dia a encontrei em uma festa do pessoal da engenharia, estava com a minha namorada da época. Quando ela me cumprimentou, quase tive o braço arrancado pela minha namorada. Ficamos conversando longamente e o assunto... eu dou um doce para quem adivinhar, a beleza ou não dela. Dizia não ter namorado. Ninguém que se interessasse por ela e era feia. Indagou o porquê de nunca ter tentado nada com ela, já que era tão bonita. O motivo era esse mesmo... era muita areia para meu pobre caminhão carregar. Não acreditou, é claro. Apontou minha namorada e comparou as duas, no final indagou com qual das duas eu ficaria se tivesse escolha. Já estava pronto para ganhar uns pontinhos com ela, mas minha namorada voltou e tive que mentir. Fiz um elogio a esbelta forma de minha namorada e a comparei com uma modelo de passarela, pois não sou louco. Ela foi embora mais chateada ainda.
Meses depois soube por uma amiga comum, que ela havia feito lipoaspiração e feito uma operação para diminuir os quadris. Estava em uma dieta rigorosa para perder o peso. Chegou a ter apenas 45 Kg, o que era um absurdo. Mesmo assim, não ficava satisfeita. Cismou que havia rugas em seu rosto e passou a fazer plástica na face. Mudava o cabelo todos os meses e experimentava cada novo cosmético que surgia. A busca pela beleza perfeita virou seu mantra. Estava obcecada.
Ouvi muita coisa a respeito das loucuras que fez por isto. Teve um namorado médico que enlouqueceu com suas manias e psicoses sobre sua beleza. Nem suas amigas mais próximas a suportava mais. Mas nada disto a demovia da vontade de ficar linda. As tentativas não cessavam.
Abandonou carreira e a própria vida em função desta paranóia. Ninguém a convencia do contrário. No dia do casamento de um amigo comum, ela apareceu. Confesso a todos, nunca pensei que monstros existissem, mas encontrei pela primeira vez um Frankenstein em minha vida. Era até difícil definir se ela era feia ou estranha, sei que aquela belíssima menina da infância havia sumido, não pela ação do tempo, mas por suas próprias mãos. Assim mesmo, a única coisa que a preocupava e se era ou não bonita. Ninguém mais dizia a verdade para ela. Foi nesta mesma festa que vi João com seu marido, um cara tão bonito quanto ele, pensei em leva-la até ele, mas o que adiantaria. Ela poderia cometer suicido ao descobrir que destruiu sua vida por alguém que não valia a pena.