24 março 2007

Boogie Woogie - Engenharia

O conto de hoje faz referência ao trabalho comunitário dentro das favelas, de seu valor e sua importância na vida de todos.

Alberto acordou bem cedo e colocou as caixas de som na parte de cima da casa. O primeiro a aparecer, não podia ser outro, senão o ‘engenheiro’ da obra: Seu Antônio. Carlinhos, seu filho, ainda dormia. Ele pediu desculpas pelo filho e Alberto acrescentou: “Os preguiçosos dos meus irmãos ainda estão dormindo, também!” Subiram para a laje e inspecionaram o serviço a ser feito... Na verdade Seu Antônio inspecionou, Alberto ficou apenas esperando as ordens do ‘chefe’.
A primeira coisa a ser feita era colocar os sacos de cimento para cima. “Graças a Deus, que já tínhamos subido a areia e os tijolos!” Colocou o primeiro saco de cimento no ombro esquerdo e preparou para subi-lo. Neste momento, o primeiro dos ‘ajudantes’ surgiu no portão, com aquela cara de sono. Era o Marcos, melhor amigo de meu irmão: o Balão. Colocou o saco de cimento de volta no chão de cerâmicas picotadas e cumprimentou-o e agradeceu sua vinda. Lá dentro dava para ouvir a voz dos meus irmãos - Balão e Mário - finalmente saindo da cama. “É claro que não estavam dormindo, estes dois...” Resolveu ficar quieto. Marcos entrou e foi tomar café na mesa posta por Alberto, junto com Mário e Balão. Alberto continuou a subir os sacos de cimento.
Lá embaixo, um a um os ‘convidados’ chegaram, juntamente com a Dona Nalva, a mãe deles, que fora no ‘sacolão’ comprar verduras para incrementar o sopão. Deu para ouvir os urras de felicidade, quando ela contou o que iria fazer. Alberto foi surpreendido por Mazinho, que já estava ajudando a subir os sacos de 50 Kg de cimento. Quando o restante dos ‘convidados’ perceberam os dois trabalhando, largaram o café e começaram a ajudar. Sob protestos de Mário, que achava que poderiam esperar mais um pouco. Alberto não disse nada.
Logo, Seu Antonio retornou, trazendo a tiracolo o seu filho, Carlinhos. Alberto gostava muito dele, sentimento não partilhado por seus dois irmãos, que deveriam estar com razão, pois Alberto não convivia nas ruas do morro, enquanto seus irmãos o faziam diariamente. Era um mundo diferente do seu, ele pensou, com aquiescência. A tropa acabou com o carregamento do cimento em menos de 15 minutos, alguns voltaram a tomar café, enquanto o restante permaneceu na laje. Receberam as instruções do que cada um deveria fazer pelo ‘engenheiro’ Antonio e iniciaram o ‘traço’.
A mistura de cimento e areia tinha de ser exata para não prejudicar a cobertura dos ferros formadores da base da laje do segundo andar da casa. Estes seriam os quartos das ‘crianças’, como a mãe deles os chamava. A quantidade de terra e cimento era misturada cuidadosamente e formavam uma massa uniforme e então esta massa recebia água. Os três elementos eram misturados de forma a ficarem completamente uniformes e a mistura deveria alcançar uma consistência pastosa, flexível o bastante para ser manipulada pelos ‘engenheiros’ e dura o suficiente para resistir às intempéries futuras.
Movimentar mais de 200 Kg de massa não era nada fácil, pior ficava depois de molhada. Eram sete e às vezes oito pessoas movimentando a massa para misturá-la bem. A força necessária era enorme. Alguns deles agüentavam firmes o ‘tranco’ do serviço, mas a maioria tinha de ser substituída de tempos em tempos, devido ao cansaço. Alberto era um deles, apesar de estar na linha de frente o tempo todo, não tinha a força física como uma de suas qualidades, muito menos a resistência. Seus irmãos ajudavam, também... bem menos, é claro.
Traço pronto. Baldes são cheios e jogados para o pessoal na armação de ferros que cobrem toda a área onde a laje ficará. O ‘engenheiro’ Antonio explica como fazer o serviço. Espalham o concreto (o resultante do traço após a mistura completa) e o ‘engenheiro’ acerta o ‘caimento’ da laje com uma madeira denominada ‘perna de três’, que tem de estar perfeitamente alinhada para retirar o excesso de concreto. Depois de retirado o excesso, coloca o prumo sobre a ‘perna de três’ e examina o ‘caimento’ se está correto. Esta é uma atividade vital para o resultado final da colocação da laje, pois um ‘caimento’ mal feito provocará o acúmulo de água em um ponto da laje e causará infiltrações na casa, danificando paredes e estruturas da casa, bem como os móveis. O ‘engenheiro’ experiente é de suma importância neste ponto. Seu Antonio é o cara, alguém afirma. Isto porquê ele já instalou mais de 20 lajes nos últimos cinco anos e sempre conseguiu o melhor resultado entre todos os ‘engenheiros’ em atuação no morro. O melhor de tudo era o preço... totalmente grátis. No ano passado, o “Zé Leão” contratou uma companhia para instalar a sua. O motivo foi não ter um bom relacionamento com ninguém no morro, que pudesse dar uma ‘mão’ a ele, alguns acreditavam que nem uma unha dava para ele. Foram rápidos e bem precisos, pelo menos, foi o que todos pensaram. Muitos já comentavam que iriam tentar contratar a mesma empresa para instalar o delas, quando caiu uma tempestade de verão. A casa de ‘Zé Leão' ficou embaixo d´água. Parecia estar chovendo mais dentro de casa do que na rua. Os gritos dele foram ouvidos até no campinho e as gargalhadas das crianças que brincavam na chuva, foi ainda mais alta. Era uma festa assistir ele ‘quebrar a cara’! Este era o motivo de todos ainda continuarem com seus caseiros ‘engenheiros’.
Estes ‘engenheiros’ eram fundamentais para a favela: instalaram a rede de esgotos, fixaram o encanamento de água, consertaram a fiação elétrica de muitas casas e construíram PCs para controlarem melhor a distribuição da energia elétrica. Em quase toda a obra realizada no morro, eles eram imprescindíveis para fazer tudo funcionar ‘nos conformes’. E Seu Antonio era o melhor! O serviço durou menos de três horas, com dois ‘traços’ de cimento meticulosamente medidos, foi possível cobrir toda a laje. O primeiro grupo, que havia misturado a areia, o cimento e a água, ficou no banco de reservas. Recuperavam a força bebendo cerveja e discutindo sobre o pagode que estava tocando era bom ou não. O som era por conta dos convidados de honra: Zeca, Almir, Jovelina, Martinho e vários outros. Quando o segundo time desceu, a sopa já estava sendo servida. As discussões já estavam acaloradas devido à cerveja bebida até então. O calor aumentava a sensação de cansaço e sono em todos.
O ‘engenheiro’ ficava solitário com seu trabalho inacabado. Acertando os últimos detalhes de sua responsabilidade, doido para seu filho pegar o gosto da ‘coisa’ toda, mas este preferia ficar bebendo com o restante do pessoal lá embaixo. Bebida, comida, bom papo... o quê podemos querer mais? Sempre podemos ter mais, alguém chegou com algumas ‘peças’ e o som eletrônico foi desligado e rapidamente a ‘rodinha’ de pagode estava formada. Alberto foi até Seu Antonio para descobrir se poderia ajudar em alguma coisa mais, mas ao chegar lá em cima, percebeu que tudo já estava pronto.
Reuniram as ferramentas e Alberto ajudou-o a descer. Lá embaixo, viu seu filho no meio da ‘rodinha’, gritou algumas recomendações, que ele não ouviu, e foi para casa com os agradecimentos de Alberto e sua mãe. Os outros tinham preocupações mais imediatas. O pagode ‘rolou’ ainda até o meio da noite, a cerveja acabou e a sopa, também. Nada que atrapalhasse a diversão, fizeram uma ‘vaquinha’ e compraram mais cerveja, os irmãos de Alberto pegaram o que tinha na geladeira e criaram alguns aperitivos para continuar a brincadeira.
Antes de meia-noite, todos já tinham ido embora. A casa estava uma zona, mas o serviço fora feito em um único dia, com a ajuda da comunidade, sem os amigos e vizinhos, não teriam conseguido. Era o segredo: ajudar um ao outro.

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