17 março 2007

Mulheres que Amo - Caminho Interrompido

Na viagem de compreensão das mulheres, hoje falarei sobre o binômio: família x carreira.

Fui convidado para mais uma festa de aniversário. Era de Clóvis, filho de minha amiga da adolescência Paula. Havia casado a pouco e tínhamos muito pouco contato, mas como esta festa era uma celebração maior para a mãe do que para a criança, pois esta nem tem idéia do que está acontecendo, fui lembrado.
Adoro festa de criança, não pelos ‘comes e bebes’, mas porquê adoro criança e brincar com elas, como não tenho meus próprios filhos, esta é uma oportunidade para me divertir e recuperar um pouco da minha infância perdida. Mesmo sendo uma festa, essencialmente, para as mulheres... não! Mulheres, não, mães! Pois esta é a celebração da maior vitória da mulher, apesar de todo modernismo propalado nos atuais tempos, a mulher sente completa apenas quando casa e tem seu primeiro filho. Seu ciclo está perfeito! Pobre ou rica, executiva ou operária, não importa, o ciclo de vitória só é verdadeiro quando existe o casamento e a concepção, não precisando ser imaculada, pelo contrário. A vitoriosa desfila para todos a felicidade transbordante de ter alcançado sua própria realização a todas as outras. As mães celebram a felicidade como cúmplices, compreendendo totalmente o sentimento envolvido, as solteiras e sem filhos sofrem com sua incapacidade, mas sonhando com o dia que estarão no lugar da debutante.
Entretanto, existe no meio delas, aquelas em que este dia é transformado em um lembrete em seu fracasso de realizar algo tão óbvio e primário. Era o caso de Cleide. Cleide era de nossa turma no colegial e formávamos um grupo animado e desligado dos principais grupinhos, mas estávamos sempre em todas as festas e agitos de nossa época. Cleide na época não era uma garota muito atraente, demorou a mostrar sua beleza, que dava para perceber para os amigos mais próximos. A combinação de timidez e uma certa inabilidade no vestir e enxergar a si própria, fez com que ela passasse a juventude sem ser percebida pelos garotos. Eu mesmo era um deles! Acredito ser este o motivo dela ter escolhido uma profissão tão diferente do caminho de suas amigas: Engenharia Química. Falávamos, na época, não ser uma ‘profissão de mulher’. Tolice arrematada e um machismo a flor da pele. Ele seguiu em frente, com enorme sucesso, tenho de acrescentar.
Completou o curso como uma das melhores alunas da turma, estudando na Federal, não era qualquer porcaria, não. Nem ao menos havia pego o diploma, foi convidada para ser trainee em uma grande empresa farmacêutica, na divisão de Pesquisa & desenvolvimento. O período de treinamento deveria ser de 1 ano, mas com bem menos que isto, acabou sendo efetivada no cargo de Pesquisadora Júnior. Em um ano, já recebera sua primeira promoção e foi convidada a trabalhar em um dos principais projetos da empresa. No ano seguinte, já publicava seu primeiro artigo científico relevante, chamando a atenção da direção.
Os resultados alcançados de forma tão rápida e eficiente, levaram-na a ser participante do projeto de financiamento de bolsas de estudo em um curso de pós-graduação fora do país. Fez teste e acabou entrando para o M.I.T., de Boston. Seguiu para os Estados Unidos e completou a pós com louvor e teve sua tese publicada em uma das mais conceituadas revistas do setor químico americano. Choveram convites de empresas estrangeiras, mas ela decidiu retornar para o Brasil e continuar seu trabalho na empresa farmacêutica, onde começara sua carreira profissional.
Neste ínterim, com sua auto-estima no topo, descobriu a si mesma como uma bela mulher que era. Passou a se cuidar melhor e aprendeu a vestir. Aos 30 anos de idade era uma mulher: linda, inteligente e bem-sucedida. Todo este tempo nós mantivemos em contato, mesmo quando estava nos Estados Unidos. Eu, sempre, implicava com o namorado novo dela. Parecia ter um novo a cada semana. Todos, sem exceção, não estavam a altura dela, pelo menos era a minha opinião.
Naquela festa a encontrei sozinha sentada em uma mesa, isolada e segregada de todos, principalmente, de todas as suas amigas. Algo sempre me atrai para os tristes e problemáticos. Fui até ela e indaguei qual era o problema. O problema era ela ainda não ter se casado e nem ter um filho, já tinha quase trinta anos e nada conseguira. A frase me pareceu totalmente deslocada. Argumentei toda as conquistas dela até ali, o tipo de vida que tinha e a inveja que causava a muitas delas presentes nesta festa. Mesmo assim, continuava inconsolável. Argumentava não ter um namorado decente para apresentar para as amigas e não tinha assunto para conversar com elas. Tudo isto a fazia se sentir como um ‘peixe fora d´água’. Estava incompleta.
Percebi que meus argumentos não faziam nenhum efeito. Não havia uma razão real para ela se sentir daquela forma. Ao contrário de todas as mães ali, ela nunca gostara de crianças, não tinha paciência para elas e mesmo o casamento, não parecia fazer sentido para uma pessoa como ela. Sempre buscando novos horizontes e desafios, não mantendo nada fixo em sua vida, uma ‘metamorfose ambulante’, como bem descreveu Raul.
A conversa tomou novos rumos e esquecemos o assunto. Mas senti toda a pressão sobre ela, quando chegou o momento dos parabéns. Paula estava com Clóvis no colo a embala-lo. A criança parecia que iria chorar a qualquer instante, mas Paula não deixava sair do seu colo. O marido era um apêndice colocado a margem da festa, em segundo plano. Ninguém ligava muito para ele. As velhinhas foram apagadas por Paula. Clóvis nem ao menos olhou para o bolo, queria sair dali. Após o apagar das velhinhas, Clóvis foi solenemente posto no colo de alguma tia, que não conhecia, e ficou esquecido de sua própria festa, enquanto Paula continuava sua memorável comemoração. A cada exclamação de felicidade e riso incontido de Paula, parecia que um alfinete estava sendo enfiado nas costas de Cleide. Era um sofrimento atroz, provocado por ela mesma.
No final da festa, nos despedimos cordialmente, mas ela fez uma promessa ali mesmo. Aquela era a última vez que iria a uma festa de criança de suas amigas, a próxima seria a de seu filho. Tanto a promessa quanto a atitude dela eram despropositadas, mas percebi seu descontrole emocional e decidi não dizer nada. Fiquei mudo. Não teria mesmo o que dizer.
Um ano depois, recebi um convite de casamento. Era de Cleide! Estava de casamento com um tal de Rodrigo Amorim Silva, de quem nunca havia ouvido falar, nem de colunas sociais e nem das páginas policiais. Fui ao casamento, gostava muito dela e só tinha boas lembranças de nossa amizade de colegial. O cara era muito bonito e elegante. Alto e esbelto, devia malhar muito. Nos olhos das amigas, até mesmo de Paula dava para perceber a inveja. Nos olhos dela percebi que era o homem dos sonhos de muitas delas.
Fui apresentado a ele, mas não gostei muito. Era afetado e tinha um ar de superioridade. Ela estava radiante, incrivelmente bonita de noiva. Nunca gostei muito de mulher vestida de noiva, mas no caso de Cleide, ela estava um arraso! Cheguei a me perguntar o motivo de nunca ter tentado nada. Fiquei quieto. Ela veio até mim cheia de alegria e com um sorriso aberto e contagioso. Acreditei, naquele momento, a promessa feita a mim no ano passado, tinha sido a melhor decisão de sua vida. Fiquei um pouco na festa, revi amigos, bebi e comi, mas fui para a casa cedo. Não havia nada de meu interesse lá mesmo.
Dois anos depois, outro convite. Festa de aniversário de Thiago, o primeiro filho de Cleide. A velocidade de tudo aquilo era incrível. Ela desviou toda a sua determinação, usada no trabalho, para a concretização de seu próprio ciclo de realização como mulher. Já estava cansado daquelas festas e resolvi não ir. No dia seguinte a festa, ela me ligou o foi me visitar com o pequeno Thiago. Carregava-o como um troféu e parecia muito pouco a vontade com a criança em seus braços. Em certo momento, tirei-o dela e fiquei embalando-o em meu colo. Trouxe bolo e algumas coisas da festa que havia guardado para mim. Antes de ir embora, me falou de forma altiva. “Não te disse que a próxima festa que eu iria seria a minha!” Dito aquilo, foi embora. Não a vi mais depois daquilo. Fora estranho e inusitado. Eu era a testemunha escolhida para sua vitória. Uma testemunha relutante, mas uma testemunha única do que ela desejara e conseguira.
Algumas semanas depois, encontrei o Cláudio, um amigo comum com Cleide, inclusive trabalhavam na mesma empresa. Estava na praia bebendo um chope, quando ele acenou para mim. Nunca fomos lá muito próximos, mas nunca recusava um bom bate-papo. Não sei o que deu nele, disparou a contar histórias do trabalho e de sua vida pessoal, de suas conquistas e realizações. Falou de diversos assuntos, a maioria, eu não tinha o menor interesse ou não entendia ‘bulufas’ nenhuma que ele estava dizendo, mas era uma companhia para um chope em uma tarde quente no Rio de Janeiro. Deixei ele continuar. Foi quando ele me perguntou o por quê de não ter ido na festa da Cleide. Respondi com sinceridade e ele pulou para a fase seguinte de uma conversa de duas pessoas que tem muito pouco em comum: a fofoca sobre a vida alheia. Falou dos exageros da festa, que para mim parecia os mesmos de todas as outras, da roupa de Cleide, de seus arroubos e, principalmente, do marido dela que ficava agarrado a uma bela loirinha mignon, que ninguém conhecia.
Não era de espantar, tudo aquilo fora rápido demais. Não podia ser um conto de fadas tão perfeito. Ele percebeu meu interesse e como havia saído de minha letargia, continuou seu relato, apimentando um pouco, é claro. Ela nem ao menos cuidava da criança, tinha uma babá para tanto. Nem se preocupara em dar leite materno para o garoto e sua carreira na empresa havia estagnado. Ela não era mais a mesma. Não publicava nenhum artigo e não completava nenhuma pesquisa a um bom tempo. Havia rumores de sua possível demissão, o que não acontecera ainda, devido ao alto investimento feito nela.
Voltei para casa preocupado, queria ligar para ela, mas sua atitude irracional na festa do Clóvis, me deixara pouco confortável para discutir qualquer assunto que fosse com ela. Na realidade, após aquela festa, a amizade desvaneceu. Não sabia como tratar o assunto ou mesmo se devia trata-lo com ela. Decidi, como sempre, pela inação.
Algum tempo depois, comecei o namoro com uma secretária da mesma empresa em que ela trabalhava. Um dia, resolvi perguntar sobre ela a minha namorada. Ela não sabia de quem eu estava falando. Tinha pouco tempo na empresa, havia ocorrido um programa de reengenharia na empresa, antes dela fazer parte dos quadros, e muito havia sido mudado. “Sua amiga deve ter uma sido uma das mudanças ocorridas.” Aí sim, fiquei preocupado! Ela havia investido tanto na carreira. Fiquei uns dias pensando e tomei a decisão de ir até sua casa e fazer uma visita de cortesia, relembrando os velhos tempos. Morava ainda no mesmo apartamento e estava em casa quando cheguei. Subi e fui cumprimentado alegremente por ela. Falamos sobre amenidades e tentamos afastar o sentimento de estranheza que havia entre nós. Quando ficamos sem assunto, perguntei sobre seu emprego. Ela me contou que atualmente estava procurando novas oportunidades, leia-se desempregada, pois acontecera uma pressão muito grande quando a companhia farmacêutica foi incorporada por uma empresa maior, muitos perderam seus cargos e a pressão foi demais para ela. Pediu demissão. Estava estudando novas propostas, mas não tinha nada decidido até o momento. No rosto dela estava escrito o quanto aquilo tudo era doloroso para ela. Não vendo sinal do filho e nem do marido, indaguei sobre ambos. O marido, como era esperado, havia partido assim que os problemas começaram, entenda-se o filho. Não havia suportado a responsabilidade de ser pai, não vinha nem ver o próprio filho, reclamou.
A criança estava na creche, passava o dia todo lá. Falou de seus problemas para cuidar dele, principalmente, agora sem babá. Passou um bom tempo enumerando as dificuldade que tinha para lidar com isto (o garoto) e sem eu ter dito nada, acrescentou: “Acho que não nasci para ser mãe!” Era algo óbvio que qualquer pessoa que convivesse com ela teria percebido de primeira. Fiquei com a língua queimando para dizer: “Eu te disse!”, mas nada fiz. O vácuo de assunto retornou e percebi que era hora de partir.
Na porta, polidamente nos despedimos. Ela olhou para o relógio e descobriu que estava atrasada para buscar Thiago na creche. O gosto de ‘nunca mais’ daquela despedida, podia ser sentido por qualquer um. Queria perguntar a ela se valeu a pena ter jogado toda a carreira profissional dela no lixo, para realizar um sonho que não era dela e nada tinha a haver com ela. Olhei bem nos seus olhos e, novamente, inação.
Fui embora, nunca mais ouvi falar sobre Cleide e Thiago. Ainda cheguei a procurar artigos científicos dela escritos ou seu nome na internet, mas não havia nada. Nunca mais ela recuperou a sua antiga magia, perdida nos sonhos de outras pessoas. Um belo caminho interrompido... uma pena.

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