Continuo na minha busca de entender as mulheres, por mais difícil que seja. Hoje tento compreender a mecânica do relacionamento entre elas.
Amizade feminina é um mistério. Você não vê nas telas do cinema, não vê um grande romance a respeito, e, às vezes, a vê nas telas da TV. É algo estranho e diferente. Tento pensar em uma grande história em que o tema central tenha sido uma história de amizade entre duas ou mais mulheres. Não me lembro de nenhuma. A história da humanidade, também, não registrou nenhuma que eu lembre. É claro, somos uma sociedade machista. Esta é a explicação! Ou existirá outra.
Lembrei, agora, de uma história sobre amizade feminina. A história de Fabiana e Raquel, com quem trabalhei em um supermercado nos subúrbios do Rio de Janeiro. Lembro do primeiro dia que as vi junto... mãos dadas no meio do corredor, balançando as mãos e cantando uma música da Elba Ramalho. Era uma cena bonita, apesar de ter pensado de primeira que elas eram lésbicas. Deve ter sido alguma fantasia machista e pervertida minha. Também, duas mulheres lindas com corpos incríveis andando de mãos dadas e cantando... o que você queria que eu pensasse.
Era o meu primeiro dia no trabalho, por isto os dias contaram a verdadeira história delas. As mãos dadas eram um símbolo da união que ambas tinham. Dividiam tudo e sempre buscavam uma a outra. Nunca havia visto tal coisa. Se uma ficava doente, a outra saía correndo para comprar remédio. Se uma precisava de dinheiro, a outra emprestava a perder de vista. Se uma tinha um compromisso, a outra ficava em seu lugar no trabalho e nem fazia questão de receber por isto. Se não as tivesse conhecido e alguém me contasse... não acreditaria!
Lembro de um dia, quando Fabiana arrumou um namorado. Era sábado à noite e ela tinha uma filhinha. Não tinha com quem deixa-la e Raquel iria sair também, pois era um compromisso inadiável. Mas deixou de ir e ficou com a filha da amiga, sem reclamar e com um sorriso estampado no rosto.
Houve, também, uma premiação do melhor funcionário do mês. Ambas chegaram ao final da disputa como candidatas ao prêmio. Raquel acabou sendo a escolhida, mas ao tirar a fotografia, chamou sua melhor amiga para estar junto dela e exigiu a foto ser colocada em destaque na loja. Feito! Pela primeira vez, o quadro estampava uma dupla e não uma imagem solitária. Fez um enorme sucesso entre os clientes.
Raquel não havia completado o Segundo Grau, enquanto Fabiana chegou a fazer um curso de Psicologia em uma universidade particular. Fabiana insistiu tanto com Raquel, que esta entrou para um curso noturno e conseguiu completar seus estudos, mas foram dias em que ambas dormiam tarde estudando juntas para qualquer exame a ser realizado. O sofrimento foi compensado e realizaram uma festa em uma lanchonete próxima. Fabiana parecia mais feliz do que a própria formanda.
Impressionado pela amizade sincera das duas amigas, me tornei um amigo próximo e passei ajuda-las e insistia na existência de oportunidades melhores para ambas fora dali. Procurava nos jornais notícias sobre concursos públicos para elas. Emprestava material de estudo e até dava aulas para ambas quando inscreviam e faziam as provas. Não passaram em nenhum, mas sempre eram solidárias e confortavam uma a outra. Era incrível.
Mas o paraíso sempre tem sua serpente. Um dia, um novo padeiro chegou na loja. Foi um alvoroço entre todas as mulheres da loja. Bonito, atraente e bem-humorado. Era o objeto de desejo de todas elas, inclusive as casadas. Fabiana e Raquel pareciam indiferentes a ele, mas tudo mudou um dia, quando Fabiana passou conversando com o rapaz. Raquel com ciúmes da amiga, ficou amuada e não abandonou seu caixa uma única vez. Trabalhou compenetrada e distante o tempo todo. O dia foi longo. Fui conversar com ela, mas não me disse uma palavra sequer.
No dia seguinte, encontrei as duas discutindo pela primeira vez no corredor de acesso da loja. O assunto... era óbvio. Dali, iniciou uma corrida e disputa que finalizou toda amizade entre elas. Bastou um olhar de um homem para esqueceram tudo que fizeram uma pela outra. Aquela magia da amizade e fraternidade existente entre elas... desapareceu... esvaneceu. Não falavam mais uma com a outra. Os olhares trocados constantemente de cumplicidade, também, desapareceram. Nem mesmo a filha de Fabiana podia falar com Raquel quando esta visitava a loja. A amizade foi transformada em uma disputa ferrenha.
Vieram as fofocas, maledicências, novas e falsas amizades foram formadas. A paz e a tranqüilidade da loja foi dividida. Todas as meninas tomaram o partido, seja de uma ou seja de outra. Tudo virou de cabeça para baixo. Cheguei a argumentar com cada uma delas, mas fui colocado no meu lugar de forma direta. “Cala boca, você não tem nada a ver com isto! Isto é entre eu e ela!” O incrível que a resposta dada foi igual para ambas. Os meses se passaram e a disputa descambou para jogos de cena e arranjos estúpidos. O amor virou ódio. O carinho... ressentimento. Era uma pena.
No final, as brigas e as fofocas fizeram com cada uma fosse transferida para uma nova loja, longe uma da outra. O padeiro acabou arrumando uma namorada fora da loja e a amizade se perdeu no meio de intrigas e desejos não realizados. Fiquei desapontado e me perguntava: “Como algo tão bonito poderia ter mudado para um sentimento tão egoísta?” Estou sem resposta até hoje. Nunca mais falaram uma com a outra e nem admitem que alguém cite o nome delas em sua frente.
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