27 janeiro 2007

Poesia - Inflexível Ausência

Continuando a série de poesias de meu sócio e parceiro Maurício Granzinolli, seguimos abaixo o poema Inflexível Ausência em sua busca de compreensão de si mesmo e de todas as pessoas. Espero que gostem:


OLHO ANGUSTIADO E VEJO O CONTORNO
DE COISAS QUE NÃO EXISTEM.
ENTRO ATRAVÉS DE PORTAS
QUE NÃO SE ABREM.
PISO EM CHÃO ETÉREO
E FLUTUO AO ME AFUNDAR NO NADA.

PENSO ESTAR NO VÁCUO, INDIFERENTE
ÀS LEIS QUE ME GOVERNAM.
NÃO ME SINTO NESTE MUNDO.
QUANTO MAIS ESCREVO, MAIS ME APAVORA
A BRANCURA DO PAPEL.
PRECISO TERMINAR LOGO!
MAS NÃO ESTOU CERTO SE O QUE FAÇO
SÃO RISCOS EM AZUL OU SE OS SUFOCO
COM O INFINDÁVEL BRANCO.

NÃO SIGO O RÍTIMO LÓGICO.
PERMANEÇO AUSENTE MESMO ONDE ESTOU,
E SÓ ME FAÇO PRESENTE ONDE UM DIA JÁ ESTIVE.
O VENTO QUER-ME COM ELE,
MAS A RIGIDEZ DA MINHA ALMA
NÃO ME PERMITE A CARONA,
INFLEXÍVEL.
QUEBRO-ME EM PEDAÇOS.



MAURÍCIO GRANZINOLLI
http://www.blogger.com/mgran@urbi.com.br

Boogie Woogie - Olhar do Crime - Parte I: Vítima

Estamos seguindo com a série Boogie Woogie, neste episódio falarei de um fato real. Isto aconteceu a mais de 20 anos atrás, foi o primeiro conto que escrevi na vida, como também, foi a primeira morte com quem tive contato. O conto a seguir foi um fato veridicto, apesar de estar romanceado, escondi os nomes para não prejudicar ninguém e o importante foi a visão que tive a respeito deste fato. O conto é dividido em três partes: vítima, carrasco & a mãe da vítima. Para registro, a vítima deste conto era um desafeto e na época fiquei extremamente feliz com que fizeram a ele, mas não é este o caminho que devemos seguir. Espero que apreciam... a seguir Olhar do Crime - parte I:

Uma imagem nublada surge em frente de seus olhos. Uma mecha de cabelos dourados esvoaça ao sabor da brisa marítima. “É uma deusa!” pensa consigo. O rosto! Olhos verdes inquiridores parecem encara-lo. Incita-o a uma ação! O corpo se apresenta por inteiro. Uma escultura. “Como é gostosa!” Um gosto doce invade sua boca.
Um rápido ‘zoom’ pela praia, mostra estar deserta. “É agora ou nunca!” Vrumm! O estrondo do potente motor de uma 460 explode sobre a quietude da areia e as rodas sulcam de forma selvagem a areia. A deusa se assusta com a potência. Fica aturdida e não consegue compreender o que está acontecendo. Começa a correr alucinadamente. Inicia a busca infrutífera de um ‘porto seguro’ para si.
Os olhos... os olhos dele cravam em suas curvas sinuosas formadas por seu corpo. Seios. Quadris. Cintura. Simetria perfeita! “Que mulherão... Tenho de tê-la! Ela vai ser minha!” As mãos aceleram a moto, como estivessem apertando as coxas dela contra a areia. Uma sede... um furor... uma insaciável desejo de posse. “Eu sou macho!” grita bem forte.
A linda jovem corre e vira o rosto para ver o seu caçador. Ela é a presa. Assustada presa a ser dominada. Possuída a força. Entregue a total loucura daquele moderno cavaleiro motorizado. O desespero aumenta a cada centímetro de proximidade da moto a seu corpo. Ele estica seu braço no intuito de tocar-lhe as nádegas. “Vou tocá-la!” Cerra os dentes sobre os lábios e antegoza o momento de dominar sua presa. O frágil corpo a sua frente tenta arrancar os últimos resquícios de energia para fugir de ser sobrepujada por aquele domador sem piedade. Aquele monumental corpo balança forte a cada passada que dá. A cada balanço... mais excitação provoca em seu perseguidor. “O instinto do macho em ação! Você não vai fugir de mim!”
A resfolegar como um animal selvagem antes de dar o bote fatal, sobe sobre o banco da moto, que por uma incrível força sobre natural continua a corrida alucinada por aquela mulher maravilhosa. Ela vira... ela sabe... não tem mais como fugir... ele a terá. Ele salta da moto e a agarra na cintura, jogando-a na areia. Ambos rolam. Giram diversas vezes sob a areia fofa. Quando param, ela tenta ficar de pé e continuar a sua fuga. Mas ele não lhe dá trégua, a segura pelo tornozelo. A puxa para si com toda a força. Ela não grita, mas em seus olhos demonstra toda a sua desesperança. Os dedos dele tocam a sedosa pele de suas coxas suadas. Não há mais fuga! Ele agora vai experimentar o sabor delicioso daquele corpo. Os pelos eriçam em seu pescoço. É o animal dando o derradeiro bote. Ela chora baixinho. Diz algo que ele não ouve. “Peguei! Agora você é toda minha. Vô fazê muito gostoso com você!” Ele olha para os seios grandes que parecem querer saltar do biquíni minúsculo que ela esta usando. “Ela está pedindo isto! Ela quer!” Segura o biquíni com uma das mãos e com toda a força arranca-o dela. Os seios saltam rosadas para fora. Ele cai de bocas sobre eles. Morde-os. Beija-os.
Ele ergue seu corpo para encarar a nova mulher que tem sob seu domínio. As mãos seguram as mãos dela acima da cabeça, enquanto a outra que permanece livre tomando posse de seu precioso terreno montanhoso. As pernas seguram as coxas dela, que não mais se debatem. Prepara a melhor arremetida de todas. Ele quase goza ante o momento mágico. Quando... de repente mãos seguram seus ombros. Mãos frias. Afastando-o daquela maravilha em forma de mulher. “Não!” Tenta voltar para ela, mas a imagem começa a sumir. Ela encara pela última vez seu algoz. Nua, linda e fria. A raiva estampada em seu olhar.
Acorda sobressaltado. Mãos o seguram. Várias mãos calosas. Ele tenta libertar-se, mas nada consegue. Seu corpo é arremessado contra o solo, fazendo-o sentir um frio do chão de cerâmica da casa. Ao tentar erguer o rosto e encarar seus atacantes, leva uma ‘botinada’ no rosto. Seu supercilho abre. O sangue escorre por seu olho esquerdo. Houve vozes gritando:
‘O canalha ainda tá tentando fugir!’
‘Cão preso... cão morto!’
Um novo chute, agora na orelha. A dor é lancinante. O bico da bota arranca o nódulo. ‘E aí vagabundo! Agora perdeu a valentia, não? Cadê a tua arma? Não quer mais brincar de caubói, não?
Em frente de seu rosto, uma mão mostra uma pistola automática, esfrega-a em seu nariz. Era a sua pistola! Seu corpo tremeu. Era o medo! Sabia o seu destino e quem era seus visitantes noturnos. Era a esquelética mão da morte. “Os mascarados!” O seu destino era certo e irreversível.
‘Viveu muito, bandidinho? Grana... moto... mulher pra caralho! Comeu muita garotinha aqui da favela não foi’ Alguém segurou seu cabelo e levantou sua cabeça para falar mais perto de sua orelha: ‘Será que lugar para onde ele vai tem moto?’ rindo muito depois. Várias vozes começam a rir.
A única coisa em que pensa agora é: “Papai, mamãe... Sheila?!?! E eles? O que eles vão fazer com eles?” Seu corpo é erguido do chão, suas pernas são amarradas com força, os braços postos para trás e amarrados juntamente com seus pés. Ele vê as botinas presas com nós atados na altura da canela. Sabe bem a quem pertence. Será a última coisa a saber na vida. Seu corpo é erguido, novamente, mas agora seguram pelas cordas atadas as suas pernas e braços. A dor é insuportável. Chora! Não somente pela dor em seu corpo... mas pelo destino que o aguarda. O destino que escolheu para sua vida.
Novo baque. A porta da sala de sua casa abre. Uma luz forte agride seus olhos e seu corpo é jogado como uma bola de boliche sobre o piso encerado. Por onde passa seu corpo, este fica com uma indelével marca de sangue em seu rastro. Seu corpo só pára quando acerta o pé da mesa de jantar. O sangue em seus olhos aumenta. Sua visão fica turva. “Deus, eu não quero morrer! Não me deixa morrer aqui, por favor!”
Ouve um soluço. Choro baixinho! Quem? O sangue não permite que veja. Mas ele sabe de quem é. “Mamãe... Sheila... não!” Tenta falar algo para seus captores, mas nenhum som sai de sua boca. Sente o gosto de bílis em sua garganta. A impotência toma conta de todo seu ser. “Por quê? Por quê eu?”
‘Agora sua vagabundinha... vai ver o cachorro do teu irmão sentir o sabor de chumbo. Quando ele andava com um 38 na cintura e montado naquela XL, todos o achavam o máximo. O fodão, não é mesmo? Agora chegou a hora dele!’ mais risos.
‘Não!!!’ o grito em desespero é de sua mãe. ‘Não podem fazer isto! É o meu menino.’
‘Foda-se dona!’ vira-se e vê uma bota indo para o sofá, onde devem estar sua mãe, Sheila e seu pai. “Mãe não! Deixe-os! Não morra por mim! Não mereço isto!”
O som de pés batendo contra o assoalho indica alguém correndo. Percebe uma discussão, mas não sabe o que estão dizendo, vê, então, sua mãe ajoelhada... chorando. Alguém a apóia. Uma bota. No mesmo momento, as pernas de sua irmã erguem-se do sofá e tenta correr para a porta. Vã tentativa, alguém a impede no meio do caminho até a porta e a leva de volta para o sofá. O desespero aumenta. Seu destino selado, mas sua família não merece passar por isto.
‘Deixa de ser tola, menina! Onde cê acha que vai. Chamar a polícia!’ Ouve o som de um puxão e o barulho do telefone sendo jogado. ‘Quer ligar? Tudo bem, pode tentar. Ninguém virá mesmo!’
O que está com sua mãe a levanta e coloca no sofá, de forma cuidadosa, percebe pelo movimento dos pés de sua mãe, que está sendo apoiada por sua irmã. ‘Meus filhos... por favor... não façam isso! Deus...’
‘Deus?!?! A senhora tem coragem de usar o nome dele em vão. Para ajudar um merdinha safado como seu filho. Pergunta ele quantos ele já matou sem dó nem piedade. Pergunta, vai! Quero ver ele ter coragem de dizer. Quero ver ele lembrá do garoto de 15 anos que ele matou com 4 tiros na cabeça, apenas para roubar sua moto. Senhora devia ver o corpo sem cabeça, a pobre mãe não conseguia nem respirar na hora de identificar o filho.
“Para que esta tortura? Vou morrer mesmo! Acaba logo com isso. Não faz isso com minha mãe.”
‘Se a senhora é crente... então... reze muito! Porquê seu filho está indo ter um encontro com o capeta!’ O choro de sua mãe aumenta, vê os pés descalços de um homem aproximar de sua mãe. Seu pai, com certeza! Deve estar abraçando-a, tentando consola-la, protege-la desta violência. Mas será que existe proteção para alguém?
O frio de um cano de uma arma toca a sua nuca. Chegou a hora! Não há como fugir... não há esperança... aos meus 20 anos. “Aqui se faz... aqui se paga! É o fim! O meu destino selado por uma fotografia.” O destino selado, na manhã seguinte será apenas um número a mais no IML, mas uma carcaça deixada nas ruas pela violência diária do Rio de Janeiro.
O primeiro chute que vem, quebra-lhe o nariz. O sangue espirra pelo chão. O choro de sua mãe e irmã aumenta. “Espero que elas não estejam olhando isso tudo, por favor, Deus!” O segundo chute pega em seu braço. Já não consegue mais sentir dor, mas consegue manter os sentidos. Um zumbido em seus ouvidos impede de ouvir qualquer coisa que esteja sendo dita.
As pernas, ele não as sente mais. “O gosto é amargo demais!” Não poderia ser doce o sabor de uma morte violenta. Agora as pancadas chegam em ondas em um fluxo contínuo, o corpo sacode... ossos se partem e o corpo assume uma forma cada vez mais gelatinosa e disforme. Cabeça-tronco-membros... cabeça-tronco-membros... cabeça-tronco-membros. A sucessão de golpes é infinita. O zumbido aumenta. “Por quê não vem o silêncio final?”
Seus olhos embaçam e pensa ver dona Maria de Lurdes, sua mãe, de fronte dele. Uma pobre lavadeira que com muito custo conseguiu manter os filhos na escola. Depois é a imagem de seu pai Pedro, um pedreiro semi-analfabeto que bebe para suportar a vida. A última imagem é de sua irmã, nunca envolvida na lama de sua vida... intocada. “Desculpe minha irmã!” É tão pouco para se levar de uma vida inteira. “Mas é a única que tenho... a única que terei!”
O estampido! O corpo sacode por uma última vez... o peito explode... Fim!
História: José Alfredo de B. Dantas
zealfie27@hotmail.com

19 janeiro 2007

Poesia - Pesadelo

Seguindo nosso trabalho de publicação das poesias de nosso amigo e sócio Maurício Granzinolli, segue agora seu novo texto, espero que gostem:

PESADELO

ENTERRO MEUS SONHOS EM VALA COMUM
E ENCONTRO NO ANONIMATO DA MULTIDÃO
MORTAS ESPERANÇAS,
CEIFADAS MENOS PELO DESTINO
QUE PELO INEXORÁVEL SUICÍDIO.

VEJO NO ESPELHO OS QUE NÃO FALAM
POR SUAS BOCAS AMORDAÇADAS,
NEM GRITAM POR SUAS GARGANTAS CORTADAS
PELA LÂMINA DA PRÓPRIA BAINHA

VEJO OLHOS OPACOS
QUE A LUZ NÃO REFLETE,
PELOS QUAIS A ALMA JÁ NÃO SE MOSTRA.

CAPTO ONDAS TRÊMULAS DE VOZES IDAS
E RECORRO A MIM MESMO
À PROCURA DE CÓDIGOS QUE AS DECIFREM.

NÃO HÁ PARALELOS NESTE MUNDO
ONDE AUNIFORMIDADE DO CAOS
QUEBRA AS ARESTAS DAS DIFERENÇAS,
E TRANSFORMA SONHOS DIVERSOS
EM ÚNICA MASSA AMORFA.

MAURICIO GRANZINOLLI
mgran@urbi.com.br

Mulheres que Amo - Discutindo a Relação

Este é o segundo conto da série: Mulheres que Amo. Apenas aviso, que várias histórias destas são verdadeiras, mas os nomes foram trocados para não comprometer ou chatear ninguém. Divirtam-se.

DISCUTINDO A RELAÇÃO

Tem alguma coisa mais chata no mundo que discutir a relação? Alguém tem paciência para suportar horas e horas de diálogo incessante sobre um assunto tão intangível como a relação pessoal entre duas pessoas? Eu não sei. Mas tenho certeza de um fato, discutir uma relação nunca alcança seu objetivo, já que ao invés de solucionar os problemas existentes, acaba aumentando o fosso existente entre os gladiadores. Até porque, chamar uma discussão de relação de diálogo é ser bem condescendente, pois na maior parte dos casos, a realidade é uma monologo.
Aconteceu um caso comigo que expressa bem este fato. Namorava a Sheila a mais de cinco meses e tudo estava, em minha concepção, maravilhoso. Pensava em tornar a relação mais séria e comprometida. Acreditava ser a coisa certa a fazer. Para tanto, marquei um jantar. Escolhi um dos melhores restaurantes da cidade, que tinha uma fama de ser muito romântico. Peguei indicação com amigos que estiveram lá, principalmente, das amigas. O lugar era perfeito, diziam elas. Qualquer mulher se derreteria com o clima do lugar. Comprei, até mesmo, uma bela lembrança para a ocasião.
Fui busca-la em sua casa e ela me surpreendeu de tão bonita que estava. Tive certeza absoluta de estar fazendo a coisa certa. Era uma mulher deslumbrante e inteligente. Tinha um bom humor e era companheira, reunia todas as qualidades que busquei por anos em uma mulher, pensava eu.
No restaurante tivemos momentos maravilhosos. Brincamos um com o outro, rimos de tolices e parecia não existir ninguém mais no mundo, a não ser nós dois. Estávamos em um bolha na qual o tempo havia parado para reverenciar o nosso amor. Era uma noite fantástica e perfeita. Quando lhe dei o presente, seu rosto ficou iluminado e aquele belíssimo sorriso me contagiou com tamanha felicidade que sentíamos, estando um ao lado do outro. Comemos, dançamos e rimos novamente. Estava, realmente, muito feliz.
Dali nós fomos para um motel e fizemos amor alucinadamente até quase às quatro horas da manhã. Paramos e conversamos muito, sobre diversos assuntos, na maioria banalidades sem sentido. Ela falava e sorria, me deixando completamente hipnotizado. Havia feito a coisa certa, com certeza. E fizemos amor novamente.
Exausto de tanto me sentir feliz, acabei adormecendo. Estava já mergulhando em um sono profundo, quando ela me sacudiu e pediu para eu acordar. Meio bêbado de sono, tentei abrir os olhos e me manter atento, apesar de ter certeza que era uma tarefa sem muito sucesso. Ela começou a falar que devíamos discutir a relação. Mas discutir o quê? A noite fora perfeita, nós estávamos felizes e apaixonados, qual era o problema? Ela falava sobre meu comportamento e coisas do tipo, dando mil voltas para chegar no mesmo ponto. Ela bem que podia ir direto ao assunto, mas decidi que não era algo muito sensato a dizer naquele momento. Deixei ela falar livremente. Ela falou sobre coisas que fiz no início de nosso relacionamento. Eu não me lembrava de absolutamente nada, tentei até dizer algumas palavras de protesto, mas fui sumariamente interrompido e acusado de não compreende-la, mas parecia que ela estava me acusando de ser um mentiroso. O sono apertava consideravelmente. Já não entendia uma frase inteira. Ela estava a milhas de distância e a cada frase pronunciada por sua boca, a distância aumentava de forma progressiva. Tentei pedir para fazermos isto um outro dia, mas meus protestos foram rejeitados.
O assunto girou sobre família, amigos, hábitos e comportamento. Quase perguntei se havia alguma coisa boa em mim. Se eu era tão ruim assim, por quê estava comigo? A felicidade no jantar era o quê? Fingimento ou apenas uma calmaria antes da tempestade? Não entendia nada. Sem falar no maldito sono. Acho que apaguei por algum tempo. Eu dormi e ela estava falando, acordei e ela continuava falando. Agora não tinha a menor idéia do que dizia. Concordava com tudo, meneava a cabeça a cada final de frase. Aquilo pareceu funcionar, pois o tom ficou mais delicado e carinhoso. Agora, se você me perguntar com o que eu concordei, nunca poderei lhe dizer. Se ela quisesse me vender um terreno na lua, naquele momento, teria concordado e aumentado a oferta, tranqüilamente. A única coisa que queria é poder dormir por uns quinze minutos para recuperar minha consciência. A felicidade ficara nas curvas daquela discussão a mais de duas horas atrás.
Ela fez recomendações e pedidos, que é claro concordei. Tentei me levantar para me afastar do som de sua voz, mas nem isto eu tive direito. Ela me segurou e me forçou a deitar de novo. Quase implorei para ir ao banheiro e só com a ameaça de urinar na cama, me foi permitida uma pausa para fazer xixi. Mas do banheiro, podia claramente ouvir sua voz. Ela havia aumentado o tom da voz para que eu não deixasse de ouvi-la. A tortura não podia cessar. Decidi sair de minha atitude passiva e participar ativamente naquela discussão, na verdade transforma-la em uma real discussão, já que era o que ela queria.
Idiota eu era. A cada palavra que eu pronunciava, ela pronunciava uma frase. A cada vez que aumentava o tom da minha voz, ela aumentava ainda mais o tom dela. Capitulei! Estava completamente... moralmente... espiritualmente derrotado. Sem forças nem para fazer xixi. Perguntei o que causara aquela tormenta verbal sobre mim. Ela me falou de algo que eu fizera durante o jantar. Juro pelo que é mais sagrado... não lembro de ter feito nada e desta vez não era o sono.
A discussão da relação durou pelo menos mais meia hora. Fiquei sentado de cabeça baixa, me sentindo humilhado e abatido. O peso nas costas era terrível. Falei então que a amava e nunca havia encontrado uma mulher tão especial como ela. Ela fora a melhor coisa que já acontecera na minha vida e nada mais importava. Então, como por mágica, tudo acabou. Ela me beijou ternamente no rosto. Me abraçou e disse que me amava.Nos vestimos e saímos do motel. Ela mais amorosa do que nunca e eu mais assustado do que nunca. A deixei em casa e ela me fez prometer ir vê-la a noite. Assim que ela entrou em casa, peguei a agenda e rasguei a página onde estava o nome e endereço dela. Liguei para o meu chefe e aceitei um trabalho em Imperatriz no Maranhão. Ele me disse que não havia telefone e nem internet lá. Teria que ficar uns dois meses por lá. Dei um beijo em seu rosto e saí comemorando como se ganhasse na mega-sena acumulada. Nunca mais a vi!

12 janeiro 2007

Poesia - Cacto

Esta é segunda colaboração do poeta Maurício Granzinolli para nosso blog, com seu trabalho Cacto, que segue abaixo:

CACTO

PRECISO FLUIR EM PURA ESSÊNCIA,

CAMINHAR INTROSPECTO AO LADO

DE MIM MESMO,

A DESPEITO DO VENTO QUE ME PERTURBA

AO TRAZER DO MUNDO AS COISAS DO MUNDO,

ÓBVIAS NA EXISTÊNCIA DESPROVIDAS DO EXISTIR.



QUERO DESVIAR MEUS OLHOS DO OFUSCANTE BRILHO

DOS QUE SE MOSTRAM

E VERTÊ-LOS SERENAMENTE

À MINHA PÁLIDA E PRÓPRIA LUZ.



SALVAR MEUS OUVIDOS DOS RUÍDOS DOS QUE

SE ENVAIDECEM

E LEVÁ-LOS QUASE MOUCOS AO ECO DO MEU

SILÊNCIO.



PLANTAR A SEMENTE DO MEU PENSAMENTO

NO DESVALIDO E ESTÉRIL DESERTO

E VISLUMBRAR COMO COLHEITA

FLORES E FRUTOS DE UMA FLORESTA

COMPOSTA DE UM ÚNICO CACTO.

Boogie Woogie - Fotografia

Estou colocando o conto de apresentação da série Boogie Woogie, espero que gostem:

FOTOGRAFIA:



Colocaram um cavalete no meio da rua para impedir a passagem de carros, a rua era de mão única, por este motivo não teriam trabalho. Mamaco e Badu ficaram de prontidão para nenhum espertinho tentar tirar o cavalete, enquanto isso Márcio e Balão começavam a trazer as mesas e cadeiras. Mário e Padeirinho traziam as panelas e os instrumentos de cozinha, arrumavam tudo no meio do Largo do Campinho, no topo do Morro, bem em frente à Igreja de Nossa Senhora das Graças. A festa estava nos seus preparativos.
Era o começo de toda uma história de dor e tragédia para todos ali presentes. Tudo ficou marcado pela previsão daquela velha macumbeira que apareceu no final da festa e contou a eles o seu destino. Todos riram na época, mas o tempo mostrou ser implacável. Lembro deles terem a procurado, mas nunca mais a viram .
Eles eram amigos desde pequenos e cresceram nas ruas do morro correndo para todos os lados e aprontando tudo que lhes foi permitido, mesmo na adolescência os caminhos não se distanciaram.
A festa foi preparada era uma amostra da forte ligação entre eles. Marlúcio e Mamaco, haviam roubado uma moto e conseguido passa-la adiante sem nenhum problema. O Cabo Branco havia sido o intermediário e conseguido uma boa grana, isto ajudou a financiar a reunião. O Largo do Campinho no ponto mais alto do morro, foi o local escolhido para a festa, já tradicional para eles.
A combinação era insólita: cerveja, maconha e mocotó. Mário foi designado como cozinheiro pois e o cozinheiro oficial do grupo, Padeirinho, só poderia ir para a festa muito tarde. Renato, Vesgo e Toddinho ficaram responsáveis pela cerveja e demais bebidas. Tico trouxe os móveis: meãs, cadeiras, bancos e panelas, Badurico ajudou-o a carregar tudo. Márcio e Zé da Pilha, após puxar um fuminho, conseguiram um velho Corcel I para fazer as compras e leva-los até lá..
Aos poucos, o Largo do Campinho foi enchendo. Amigos, conhecidos e meninas vieram para os festejos da grana fácil. A política da boa vizinhança não foi esquecida: o Presidente da Associação dos Moradores foi convidado e passou por lá rapidamente, também, foram convidados os dois PMs de plantão no Posto Policial naquela noite. Márcio conseguiu uma aparelhagem de som e colocou a música para animar a praça. Ao som de Zeca Pagodinho, Jovelina e Almir, a dança rolou solta.
Às 21:00 h a praça estava lotada: Mamaco e Marlúcio, os patrocinadores; Mário e Padeirinho, os cozinheiros; Toddinho, Vesgo, Zé da Pilha, Balão, Tico, Júnior, Badurico, Douglas, Nestor e sua bela esposa, Tonhão e seu irmão, Cláudio e sua namorada, Márcio e sua parceira de encrencas; Washington, Robinho e Tuta, os irmãos cara-de-pau; Ricardinho bundão e sua bela irmã Cirlene; as irmãs de Cláudio; Mazinho, sozinho como sempre; a família ter-lê-lê toda estava lá Zé Antonio, Genaldo, Glauco, e suas irmãs Cajazeiras; Beto e suas irmãs Linalva, Rosana e Rosangela; Pingo deu uma passada para não dizer que não fora, mas desapareceu tão rápido quanto apareceu; Jorginho e Márcia, irmão de Pingo, também foram, mas para mostrar o carro novo dele. Havia muitas outras pessoas na festa, algumas surgiam e iam embora bem rápido, não dava nem para registrar.
O Cabo Branco não podia faltar e teve o privilégio de abrir a primeira garrafa de cerveja. Renato trouxe a nova namorada para mostrá-la a todos. Eles sentaram juntos na mesa e fumaram um cigarro de canabis para início da diversão. Era o clima transgressor assumindo seu lugar juntamente com as bebidas quentes, para maioria cachaça e para uma seleta corja de apreciadores: whisky. Ricardinho Bundão e Júnior chegaram e trouxeram um grupo de pagodeiros locais para animar a festa, o som foi desligado e todos se reuniram em torno do grupo de pagodeiros para cantar e dançar.
Não era noite apenas de diversão, os negócios não saíam da cabeça de alguns que escolheram uma mesa ao lado da Igreja, meio escondida pela sombra projetada pelo edifício, para realizar algumas vendas a seus clientes habitué. Os sacolés estavam saindo mais rápido que a cerveja e antes do final da festa, o produto já tinha voado de sua mão direto para as narinas dos mais afoitos. O Cabo Branco não gostou, mas algumas gotas em suas mãos o convenceram de não ter visto nada.
Samba, mulher, bebida e drogas, a festa animou e entrou madrugada adentro. Alguns casais foram embora e aqueles não envolvidos nas transgressões dos patrocinadores, também. A festa foi ficando íntima, somente os mais próximos ficaram ali. O grupo de pagode foi embora, o som foi desligado e a cerveja acabou, ficaram apenas o mocotó, o whiskey e alguns cigarros de maconha. Mamaco narrou sua última conquista e passou a falar de seus planos futuros.
Neste momento, Robinho apareceu com uma câmera fotográfica e reuniu todos para uma foto. Uma senhora de roupas brancas e com a aparência de uns 60 anos, passava na hora e foi chamada para tirar a foto comemorativa. A senhora veio, apanhou a câmera e escutou atentamente a explicação de como faze-la funcionar. Escolheram a mesa grande para servir de apoio para todos. Sentados sobre ela ou no banco, todos se juntaram para a foto. A senhora tirou a foto em silêncio.
Robinho correu até ela e tirou a máquina de sua mão. Enquanto, Robinho a examinava, ela aproximou da mesa e olhou nos rostos de todos. De repente, falou: “Esta é a última foto que você vão tirar juntos. Dentro de um ano, muitos de vocês não estarão mais aqui.” Mamaco e Badurico avançaram sobre ela para tomar satisfações, mas a turma do deixa disso interrompeu. Ela continuou: “Os pecados são pagos aqui mesmo e você acumularam bastante, o destino foi selado. Adeus.” Dito isto ela virou as costas e foi embora. Alguns gritaram xingamentos para a velha senhora, chamando-a de doida e maldita. Ela não virou para olhar seus acusadores. Sumiu descendo a rua que levava para o asfalto.
A alegria sumiu, apesar de todos brincarem com a estranha previsão, algo não pareceu certo. As vozes altas foram substituídas por sussurros. O mal-estar fez com que todos resolvessem ir embora, recolherem tudo e partiram para encontrar o destino.

09 janeiro 2007

Esta é uma poesia do colaborador Maurício Granzinolli, que estará colocando a cada semana um novo texto conosco, espero que gostem.

GARRAFAS AO MAR

Sigo rente ao horizonte,
No limite do nada ao infinito.
Quebro-me em pedras
Atirado por um mar
Que de mim não gosta
Resvalo em ondas
Que se enfurecem com a minha presença
E naufrago em águas movediças
Que me engolem, fingindo abraçar-me.

Sou falsamente resgatado
Pelo vento
Que em infindável redemoinho
Embebeda-me com seu canto,
Enquanto afasta-me do porto.

As garrafas que lanço ao mar
Sabotam minhas mensagens
Aportando em praias cegas
De solo surdo.

Não há ilhas nesta viagem,
Sequer miragens se apresentam,
E a ilusão da esperança
É a lacuna viva de um hiato eterno.

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

06 janeiro 2007

PRIMEIROS ESCRITOS - Prosa

A seguir, publicaremos os contos do carioca José Alfredo, que a cada semana contará uma série diferente de histórias. A primeira série será: Mulheres que Amo, mostrando sua completa incompreensão sobre as mulheres. A segunda série será: Boogie Woogie, com histórias sobre a formação de uma favela carioca e a vida das pessoas nelas. Espero que gostem.

O PRINCÍPE ENCANTADO

Em uma festa, um inusitado encontro acontece. Branca de Neve, A Bela Adormecida e Rapunzel se encontram, Branca de Neve:

- Que coincidência, nós três juntas, depois de tanto tempo, não?

- É a história com ele nunca termina bem, não? – indaga Rapunzel.

- Deve ser algum tipo de insanidade temporária, que nos assola, naquele período. – completa A Bela Adormecida.

- Explicar é impossível, mas graças a Deus nós...

Neste momento, chega Lilly, a nova esposa do Princincípe Encantado. Vestida de branco, deslumbrante combinando com o cabelo louro descolorido, cumprimenta suas três convidadas:

- Que bom que puderam vir... as três.

- Foi um prazer. – falou afavelmente, Branca.

- Não podíamos deixar de parabenizá-la. – acrescentou Rapunzel.

- Sem dúvida. – concordou Bela.

- Espero que nenhuma de você fique melindrada, por eu estar casando com o ex-marido de vocês. – falou, com ar superior, Lilly.

- É claro que não, Lilly. – apressou-se em dizer Rapunzel.

- Nós queremos o melhor para ele. – concluiu a Bela.

- Fomos nós que fracassamos em faze-lo feliz, esta é uma verdade. Não podemos impedir que ele refaça a vida dele, com alguém que o possa. – falou conciliadoramente Branca.

Lilly as olhou com surpresa e indagou:

- Vocês estão aceitando isto muito bem! Pensei que ficariam com raiva de mim, por o estar roubando-o de vocês.

Branca colocou a mão no braço de Lilli e fez um delicado gesto de puxa-la para próximo de si e falou:

- Se fosse assim, nenhum de nós poderia estar conversando aqui... sabe juntas! Estaríamos nos estapeando e xingando, morrendo de inveja uma das outras. – fez uma pequena pausa e olhou para as suas companheiras de festa. – Nós compreendemos que ele é um homem acima do normal. Não é para qualquer mulher. Você tem que ser muito especial para merece-lo.

- Tem que ter um algo mais! – falou Bela movimentando a mão como se estivesse formando um desenho auto-explicativo. – Não sei explicar bem....

- Todas nós, sentimos que não conseguíamos retribuir a imensa felicidade que ele nos proporcionou. – continuou Branca.

- Sentíamos culpadas, como se não fossemos merecedoras de estar ao lado de alguém assim tão especial. Acho que era isto que sentíamos, não? – indagou Rapunzel para as outras duas.

- Um homem lindo e maravilhoso como ele, nos deixava inseguras e não soubemos mantê-lo ao nosso lado. – concordou Bela.

- É por este motivo, que fiquei com raiva quando ele partiu para viver com a Bela, após te-la resgatado de seu sono. Mas compreendi depois... aceitei, porquê era o melhor para nós dois. – explicou Branca.

- O mesmo aconteceu comigo, quando ele partiu para resgatar e viver com a Rapunzel. Ele tinha de faze-lo. É por isto que ele é especial. Ele é um herói! – a Bela balançou os ombros e falou, tolamente: - Ele é encantado... mágico... maravilhoso.

- É claro, que sentíamos um pouco de inveja de você. Mas... espere... é uma inveja boa. É porque será impossível encontrar um homem igual a ele no mundo outra vez. – colocou Rapunzel.

- Isto é impossível! Existir um já é o bastante. – exclamou Branca.

- Imagine... dois. – Bela faz uma pausa e olha para outras mulheres. – É inconcebível.

Lilly dá um sorriso de vitoriosa e levanta os ombros como estivesse em uma estatura superior a de suas convidadas. Fala de forma autoritária e definitiva:

- Ele, realmente, é maravilhoso e único. O melhor da espécie.

Todas concordam com ela. Neste momento, lindo e elegantemente trajado, surge o Príncipe Encantado, passa entre elas e sorrindo de forma sexy, segura sua nova esposa pela cintura e fala:

- Vim resgata-la, minha lady. Que tal me dar o prazer desta dança.

Lilly se despede de suas convidadas e mergulha naqueles olhos claros como o oceano. Um garçom passa com taças de champagne e as três se servem. Olham para o casal que se afasta, com um olhar de raiva e indignação. É Rapunzel que fala:

- Meninas, será que ela acreditou nesta baboseira que falamos?

- Tomara que sim! Eu não aceito devolução. – completou aliviada a Bela.

- Pelamordeus! Imagine o tormento de uma segunda vida com ele. Ninguém merece! É para levar qualquer uma direto pro hospício. – falou Branca, que levou a taça de champagne aos lábios.

- Eu agradeço a todos os deuses por ele ter achado uma nova otária e me esquecido completamente. É a melhor notícia que tive em anos. – falou a Bela.

- Queridas, que tal sairmos desta festa chata e sairmos por aí para encontrar uns homens de verdade, hein? – indagou Rapunzel.

- Ótima idéia! To nessa! – concordou eufórica Branca.

- Vamos arrasar esta noite!

As três deram os braços uma a outra e saíram cantando e felizes da festa para, agora sim... viverem de verdade.

JOSÉ ALFREDO B DANTAS

Para comentários enviem mensagens para: Poesia - mgran@urbi.com.br e Prosa - zealfie27@hotmail.com. Muito obrigado.



PRIMEIROS ESCRITOS - Poesia

O primeiro texto apresentado será uma poesia intimista do nosso amigo mineiro: Maurício.

MAGARRAFAS AO MARR 1111010000


00000 100FAS AO MAR 100

SIGO RENTE AO HORIZONTE,

NO LIMITE ENTRE O NADA E O INFINITO.

QUEBRO-ME EM PEDRAS

ATIRADO POR UM MAR

QUE DE MIM NÃO GOSTA.

RESVALO EM ONDAS

QUE SE ENFURECEM COM A MINHA PRESENÇA

E NAUFRAGO EM ÁGUAS MOVEDIÇAS

QUE ME ENGOLEM, FINGINDO ABRAÇAR-ME.


SOU FALSAMENTE RESGATADO

PELO VENTO

QUE, EM INFINDÁVEL REDEMOINHO,

EMBEBEDA-ME COM SEU CANTO,

ENQUANTO AFASTA-ME DO PORTO.


AS GARRAFAS QUE LANÇO AO MAR

SABOTAM MINHAS MENSAGENS

APORTANDO EM PRAIAS CEGAS

DE SOLO SURDO.


NÃO HÁ ILHAS NESTA VIAGEM,

SEQUER MIRAGENS SE APRESENTAM,

E A ILUSÃO DA ESPERANÇA

É A LACUNA VIVA DE UM HIATO ETERNO.


MAURÍCIO GRANZINOLLI