Estamos seguindo com a série Boogie Woogie, neste episódio falarei de um fato real. Isto aconteceu a mais de 20 anos atrás, foi o primeiro conto que escrevi na vida, como também, foi a primeira morte com quem tive contato. O conto a seguir foi um fato veridicto, apesar de estar romanceado, escondi os nomes para não prejudicar ninguém e o importante foi a visão que tive a respeito deste fato. O conto é dividido em três partes: vítima, carrasco & a mãe da vítima. Para registro, a vítima deste conto era um desafeto e na época fiquei extremamente feliz com que fizeram a ele, mas não é este o caminho que devemos seguir. Espero que apreciam... a seguir Olhar do Crime - parte I:
Uma imagem nublada surge em frente de seus olhos. Uma mecha de cabelos dourados esvoaça ao sabor da brisa marítima. “É uma deusa!” pensa consigo. O rosto! Olhos verdes inquiridores parecem encara-lo. Incita-o a uma ação! O corpo se apresenta por inteiro. Uma escultura. “Como é gostosa!” Um gosto doce invade sua boca.
Um rápido ‘zoom’ pela praia, mostra estar deserta. “É agora ou nunca!” Vrumm! O estrondo do potente motor de uma 460 explode sobre a quietude da areia e as rodas sulcam de forma selvagem a areia. A deusa se assusta com a potência. Fica aturdida e não consegue compreender o que está acontecendo. Começa a correr alucinadamente. Inicia a busca infrutífera de um ‘porto seguro’ para si.
Os olhos... os olhos dele cravam em suas curvas sinuosas formadas por seu corpo. Seios. Quadris. Cintura. Simetria perfeita! “Que mulherão... Tenho de tê-la! Ela vai ser minha!” As mãos aceleram a moto, como estivessem apertando as coxas dela contra a areia. Uma sede... um furor... uma insaciável desejo de posse. “Eu sou macho!” grita bem forte.
A linda jovem corre e vira o rosto para ver o seu caçador. Ela é a presa. Assustada presa a ser dominada. Possuída a força. Entregue a total loucura daquele moderno cavaleiro motorizado. O desespero aumenta a cada centímetro de proximidade da moto a seu corpo. Ele estica seu braço no intuito de tocar-lhe as nádegas. “Vou tocá-la!” Cerra os dentes sobre os lábios e antegoza o momento de dominar sua presa. O frágil corpo a sua frente tenta arrancar os últimos resquícios de energia para fugir de ser sobrepujada por aquele domador sem piedade. Aquele monumental corpo balança forte a cada passada que dá. A cada balanço... mais excitação provoca em seu perseguidor. “O instinto do macho em ação! Você não vai fugir de mim!”
A resfolegar como um animal selvagem antes de dar o bote fatal, sobe sobre o banco da moto, que por uma incrível força sobre natural continua a corrida alucinada por aquela mulher maravilhosa. Ela vira... ela sabe... não tem mais como fugir... ele a terá. Ele salta da moto e a agarra na cintura, jogando-a na areia. Ambos rolam. Giram diversas vezes sob a areia fofa. Quando param, ela tenta ficar de pé e continuar a sua fuga. Mas ele não lhe dá trégua, a segura pelo tornozelo. A puxa para si com toda a força. Ela não grita, mas em seus olhos demonstra toda a sua desesperança. Os dedos dele tocam a sedosa pele de suas coxas suadas. Não há mais fuga! Ele agora vai experimentar o sabor delicioso daquele corpo. Os pelos eriçam em seu pescoço. É o animal dando o derradeiro bote. Ela chora baixinho. Diz algo que ele não ouve. “Peguei! Agora você é toda minha. Vô fazê muito gostoso com você!” Ele olha para os seios grandes que parecem querer saltar do biquíni minúsculo que ela esta usando. “Ela está pedindo isto! Ela quer!” Segura o biquíni com uma das mãos e com toda a força arranca-o dela. Os seios saltam rosadas para fora. Ele cai de bocas sobre eles. Morde-os. Beija-os.
Ele ergue seu corpo para encarar a nova mulher que tem sob seu domínio. As mãos seguram as mãos dela acima da cabeça, enquanto a outra que permanece livre tomando posse de seu precioso terreno montanhoso. As pernas seguram as coxas dela, que não mais se debatem. Prepara a melhor arremetida de todas. Ele quase goza ante o momento mágico. Quando... de repente mãos seguram seus ombros. Mãos frias. Afastando-o daquela maravilha em forma de mulher. “Não!” Tenta voltar para ela, mas a imagem começa a sumir. Ela encara pela última vez seu algoz. Nua, linda e fria. A raiva estampada em seu olhar.
Acorda sobressaltado. Mãos o seguram. Várias mãos calosas. Ele tenta libertar-se, mas nada consegue. Seu corpo é arremessado contra o solo, fazendo-o sentir um frio do chão de cerâmica da casa. Ao tentar erguer o rosto e encarar seus atacantes, leva uma ‘botinada’ no rosto. Seu supercilho abre. O sangue escorre por seu olho esquerdo. Houve vozes gritando:
‘O canalha ainda tá tentando fugir!’
‘Cão preso... cão morto!’
Um novo chute, agora na orelha. A dor é lancinante. O bico da bota arranca o nódulo. ‘E aí vagabundo! Agora perdeu a valentia, não? Cadê a tua arma? Não quer mais brincar de caubói, não?
Em frente de seu rosto, uma mão mostra uma pistola automática, esfrega-a em seu nariz. Era a sua pistola! Seu corpo tremeu. Era o medo! Sabia o seu destino e quem era seus visitantes noturnos. Era a esquelética mão da morte. “Os mascarados!” O seu destino era certo e irreversível.
‘Viveu muito, bandidinho? Grana... moto... mulher pra caralho! Comeu muita garotinha aqui da favela não foi’ Alguém segurou seu cabelo e levantou sua cabeça para falar mais perto de sua orelha: ‘Será que lugar para onde ele vai tem moto?’ rindo muito depois. Várias vozes começam a rir.
A única coisa em que pensa agora é: “Papai, mamãe... Sheila?!?! E eles? O que eles vão fazer com eles?” Seu corpo é erguido do chão, suas pernas são amarradas com força, os braços postos para trás e amarrados juntamente com seus pés. Ele vê as botinas presas com nós atados na altura da canela. Sabe bem a quem pertence. Será a última coisa a saber na vida. Seu corpo é erguido, novamente, mas agora seguram pelas cordas atadas as suas pernas e braços. A dor é insuportável. Chora! Não somente pela dor em seu corpo... mas pelo destino que o aguarda. O destino que escolheu para sua vida.
Novo baque. A porta da sala de sua casa abre. Uma luz forte agride seus olhos e seu corpo é jogado como uma bola de boliche sobre o piso encerado. Por onde passa seu corpo, este fica com uma indelével marca de sangue em seu rastro. Seu corpo só pára quando acerta o pé da mesa de jantar. O sangue em seus olhos aumenta. Sua visão fica turva. “Deus, eu não quero morrer! Não me deixa morrer aqui, por favor!”
Ouve um soluço. Choro baixinho! Quem? O sangue não permite que veja. Mas ele sabe de quem é. “Mamãe... Sheila... não!” Tenta falar algo para seus captores, mas nenhum som sai de sua boca. Sente o gosto de bílis em sua garganta. A impotência toma conta de todo seu ser. “Por quê? Por quê eu?”
‘Agora sua vagabundinha... vai ver o cachorro do teu irmão sentir o sabor de chumbo. Quando ele andava com um 38 na cintura e montado naquela XL, todos o achavam o máximo. O fodão, não é mesmo? Agora chegou a hora dele!’ mais risos.
‘Não!!!’ o grito em desespero é de sua mãe. ‘Não podem fazer isto! É o meu menino.’
‘Foda-se dona!’ vira-se e vê uma bota indo para o sofá, onde devem estar sua mãe, Sheila e seu pai. “Mãe não! Deixe-os! Não morra por mim! Não mereço isto!”
O som de pés batendo contra o assoalho indica alguém correndo. Percebe uma discussão, mas não sabe o que estão dizendo, vê, então, sua mãe ajoelhada... chorando. Alguém a apóia. Uma bota. No mesmo momento, as pernas de sua irmã erguem-se do sofá e tenta correr para a porta. Vã tentativa, alguém a impede no meio do caminho até a porta e a leva de volta para o sofá. O desespero aumenta. Seu destino selado, mas sua família não merece passar por isto.
‘Deixa de ser tola, menina! Onde cê acha que vai. Chamar a polícia!’ Ouve o som de um puxão e o barulho do telefone sendo jogado. ‘Quer ligar? Tudo bem, pode tentar. Ninguém virá mesmo!’
O que está com sua mãe a levanta e coloca no sofá, de forma cuidadosa, percebe pelo movimento dos pés de sua mãe, que está sendo apoiada por sua irmã. ‘Meus filhos... por favor... não façam isso! Deus...’
‘Deus?!?! A senhora tem coragem de usar o nome dele em vão. Para ajudar um merdinha safado como seu filho. Pergunta ele quantos ele já matou sem dó nem piedade. Pergunta, vai! Quero ver ele ter coragem de dizer. Quero ver ele lembrá do garoto de 15 anos que ele matou com 4 tiros na cabeça, apenas para roubar sua moto. Senhora devia ver o corpo sem cabeça, a pobre mãe não conseguia nem respirar na hora de identificar o filho.
“Para que esta tortura? Vou morrer mesmo! Acaba logo com isso. Não faz isso com minha mãe.”
‘Se a senhora é crente... então... reze muito! Porquê seu filho está indo ter um encontro com o capeta!’ O choro de sua mãe aumenta, vê os pés descalços de um homem aproximar de sua mãe. Seu pai, com certeza! Deve estar abraçando-a, tentando consola-la, protege-la desta violência. Mas será que existe proteção para alguém?
O frio de um cano de uma arma toca a sua nuca. Chegou a hora! Não há como fugir... não há esperança... aos meus 20 anos. “Aqui se faz... aqui se paga! É o fim! O meu destino selado por uma fotografia.” O destino selado, na manhã seguinte será apenas um número a mais no IML, mas uma carcaça deixada nas ruas pela violência diária do Rio de Janeiro.
O primeiro chute que vem, quebra-lhe o nariz. O sangue espirra pelo chão. O choro de sua mãe e irmã aumenta. “Espero que elas não estejam olhando isso tudo, por favor, Deus!” O segundo chute pega em seu braço. Já não consegue mais sentir dor, mas consegue manter os sentidos. Um zumbido em seus ouvidos impede de ouvir qualquer coisa que esteja sendo dita.
As pernas, ele não as sente mais. “O gosto é amargo demais!” Não poderia ser doce o sabor de uma morte violenta. Agora as pancadas chegam em ondas em um fluxo contínuo, o corpo sacode... ossos se partem e o corpo assume uma forma cada vez mais gelatinosa e disforme. Cabeça-tronco-membros... cabeça-tronco-membros... cabeça-tronco-membros. A sucessão de golpes é infinita. O zumbido aumenta. “Por quê não vem o silêncio final?”
Seus olhos embaçam e pensa ver dona Maria de Lurdes, sua mãe, de fronte dele. Uma pobre lavadeira que com muito custo conseguiu manter os filhos na escola. Depois é a imagem de seu pai Pedro, um pedreiro semi-analfabeto que bebe para suportar a vida. A última imagem é de sua irmã, nunca envolvida na lama de sua vida... intocada. “Desculpe minha irmã!” É tão pouco para se levar de uma vida inteira. “Mas é a única que tenho... a única que terei!”
O estampido! O corpo sacode por uma última vez... o peito explode... Fim!
Um rápido ‘zoom’ pela praia, mostra estar deserta. “É agora ou nunca!” Vrumm! O estrondo do potente motor de uma 460 explode sobre a quietude da areia e as rodas sulcam de forma selvagem a areia. A deusa se assusta com a potência. Fica aturdida e não consegue compreender o que está acontecendo. Começa a correr alucinadamente. Inicia a busca infrutífera de um ‘porto seguro’ para si.
Os olhos... os olhos dele cravam em suas curvas sinuosas formadas por seu corpo. Seios. Quadris. Cintura. Simetria perfeita! “Que mulherão... Tenho de tê-la! Ela vai ser minha!” As mãos aceleram a moto, como estivessem apertando as coxas dela contra a areia. Uma sede... um furor... uma insaciável desejo de posse. “Eu sou macho!” grita bem forte.
A linda jovem corre e vira o rosto para ver o seu caçador. Ela é a presa. Assustada presa a ser dominada. Possuída a força. Entregue a total loucura daquele moderno cavaleiro motorizado. O desespero aumenta a cada centímetro de proximidade da moto a seu corpo. Ele estica seu braço no intuito de tocar-lhe as nádegas. “Vou tocá-la!” Cerra os dentes sobre os lábios e antegoza o momento de dominar sua presa. O frágil corpo a sua frente tenta arrancar os últimos resquícios de energia para fugir de ser sobrepujada por aquele domador sem piedade. Aquele monumental corpo balança forte a cada passada que dá. A cada balanço... mais excitação provoca em seu perseguidor. “O instinto do macho em ação! Você não vai fugir de mim!”
A resfolegar como um animal selvagem antes de dar o bote fatal, sobe sobre o banco da moto, que por uma incrível força sobre natural continua a corrida alucinada por aquela mulher maravilhosa. Ela vira... ela sabe... não tem mais como fugir... ele a terá. Ele salta da moto e a agarra na cintura, jogando-a na areia. Ambos rolam. Giram diversas vezes sob a areia fofa. Quando param, ela tenta ficar de pé e continuar a sua fuga. Mas ele não lhe dá trégua, a segura pelo tornozelo. A puxa para si com toda a força. Ela não grita, mas em seus olhos demonstra toda a sua desesperança. Os dedos dele tocam a sedosa pele de suas coxas suadas. Não há mais fuga! Ele agora vai experimentar o sabor delicioso daquele corpo. Os pelos eriçam em seu pescoço. É o animal dando o derradeiro bote. Ela chora baixinho. Diz algo que ele não ouve. “Peguei! Agora você é toda minha. Vô fazê muito gostoso com você!” Ele olha para os seios grandes que parecem querer saltar do biquíni minúsculo que ela esta usando. “Ela está pedindo isto! Ela quer!” Segura o biquíni com uma das mãos e com toda a força arranca-o dela. Os seios saltam rosadas para fora. Ele cai de bocas sobre eles. Morde-os. Beija-os.
Ele ergue seu corpo para encarar a nova mulher que tem sob seu domínio. As mãos seguram as mãos dela acima da cabeça, enquanto a outra que permanece livre tomando posse de seu precioso terreno montanhoso. As pernas seguram as coxas dela, que não mais se debatem. Prepara a melhor arremetida de todas. Ele quase goza ante o momento mágico. Quando... de repente mãos seguram seus ombros. Mãos frias. Afastando-o daquela maravilha em forma de mulher. “Não!” Tenta voltar para ela, mas a imagem começa a sumir. Ela encara pela última vez seu algoz. Nua, linda e fria. A raiva estampada em seu olhar.
Acorda sobressaltado. Mãos o seguram. Várias mãos calosas. Ele tenta libertar-se, mas nada consegue. Seu corpo é arremessado contra o solo, fazendo-o sentir um frio do chão de cerâmica da casa. Ao tentar erguer o rosto e encarar seus atacantes, leva uma ‘botinada’ no rosto. Seu supercilho abre. O sangue escorre por seu olho esquerdo. Houve vozes gritando:
‘O canalha ainda tá tentando fugir!’
‘Cão preso... cão morto!’
Um novo chute, agora na orelha. A dor é lancinante. O bico da bota arranca o nódulo. ‘E aí vagabundo! Agora perdeu a valentia, não? Cadê a tua arma? Não quer mais brincar de caubói, não?
Em frente de seu rosto, uma mão mostra uma pistola automática, esfrega-a em seu nariz. Era a sua pistola! Seu corpo tremeu. Era o medo! Sabia o seu destino e quem era seus visitantes noturnos. Era a esquelética mão da morte. “Os mascarados!” O seu destino era certo e irreversível.
‘Viveu muito, bandidinho? Grana... moto... mulher pra caralho! Comeu muita garotinha aqui da favela não foi’ Alguém segurou seu cabelo e levantou sua cabeça para falar mais perto de sua orelha: ‘Será que lugar para onde ele vai tem moto?’ rindo muito depois. Várias vozes começam a rir.
A única coisa em que pensa agora é: “Papai, mamãe... Sheila?!?! E eles? O que eles vão fazer com eles?” Seu corpo é erguido do chão, suas pernas são amarradas com força, os braços postos para trás e amarrados juntamente com seus pés. Ele vê as botinas presas com nós atados na altura da canela. Sabe bem a quem pertence. Será a última coisa a saber na vida. Seu corpo é erguido, novamente, mas agora seguram pelas cordas atadas as suas pernas e braços. A dor é insuportável. Chora! Não somente pela dor em seu corpo... mas pelo destino que o aguarda. O destino que escolheu para sua vida.
Novo baque. A porta da sala de sua casa abre. Uma luz forte agride seus olhos e seu corpo é jogado como uma bola de boliche sobre o piso encerado. Por onde passa seu corpo, este fica com uma indelével marca de sangue em seu rastro. Seu corpo só pára quando acerta o pé da mesa de jantar. O sangue em seus olhos aumenta. Sua visão fica turva. “Deus, eu não quero morrer! Não me deixa morrer aqui, por favor!”
Ouve um soluço. Choro baixinho! Quem? O sangue não permite que veja. Mas ele sabe de quem é. “Mamãe... Sheila... não!” Tenta falar algo para seus captores, mas nenhum som sai de sua boca. Sente o gosto de bílis em sua garganta. A impotência toma conta de todo seu ser. “Por quê? Por quê eu?”
‘Agora sua vagabundinha... vai ver o cachorro do teu irmão sentir o sabor de chumbo. Quando ele andava com um 38 na cintura e montado naquela XL, todos o achavam o máximo. O fodão, não é mesmo? Agora chegou a hora dele!’ mais risos.
‘Não!!!’ o grito em desespero é de sua mãe. ‘Não podem fazer isto! É o meu menino.’
‘Foda-se dona!’ vira-se e vê uma bota indo para o sofá, onde devem estar sua mãe, Sheila e seu pai. “Mãe não! Deixe-os! Não morra por mim! Não mereço isto!”
O som de pés batendo contra o assoalho indica alguém correndo. Percebe uma discussão, mas não sabe o que estão dizendo, vê, então, sua mãe ajoelhada... chorando. Alguém a apóia. Uma bota. No mesmo momento, as pernas de sua irmã erguem-se do sofá e tenta correr para a porta. Vã tentativa, alguém a impede no meio do caminho até a porta e a leva de volta para o sofá. O desespero aumenta. Seu destino selado, mas sua família não merece passar por isto.
‘Deixa de ser tola, menina! Onde cê acha que vai. Chamar a polícia!’ Ouve o som de um puxão e o barulho do telefone sendo jogado. ‘Quer ligar? Tudo bem, pode tentar. Ninguém virá mesmo!’
O que está com sua mãe a levanta e coloca no sofá, de forma cuidadosa, percebe pelo movimento dos pés de sua mãe, que está sendo apoiada por sua irmã. ‘Meus filhos... por favor... não façam isso! Deus...’
‘Deus?!?! A senhora tem coragem de usar o nome dele em vão. Para ajudar um merdinha safado como seu filho. Pergunta ele quantos ele já matou sem dó nem piedade. Pergunta, vai! Quero ver ele ter coragem de dizer. Quero ver ele lembrá do garoto de 15 anos que ele matou com 4 tiros na cabeça, apenas para roubar sua moto. Senhora devia ver o corpo sem cabeça, a pobre mãe não conseguia nem respirar na hora de identificar o filho.
“Para que esta tortura? Vou morrer mesmo! Acaba logo com isso. Não faz isso com minha mãe.”
‘Se a senhora é crente... então... reze muito! Porquê seu filho está indo ter um encontro com o capeta!’ O choro de sua mãe aumenta, vê os pés descalços de um homem aproximar de sua mãe. Seu pai, com certeza! Deve estar abraçando-a, tentando consola-la, protege-la desta violência. Mas será que existe proteção para alguém?
O frio de um cano de uma arma toca a sua nuca. Chegou a hora! Não há como fugir... não há esperança... aos meus 20 anos. “Aqui se faz... aqui se paga! É o fim! O meu destino selado por uma fotografia.” O destino selado, na manhã seguinte será apenas um número a mais no IML, mas uma carcaça deixada nas ruas pela violência diária do Rio de Janeiro.
O primeiro chute que vem, quebra-lhe o nariz. O sangue espirra pelo chão. O choro de sua mãe e irmã aumenta. “Espero que elas não estejam olhando isso tudo, por favor, Deus!” O segundo chute pega em seu braço. Já não consegue mais sentir dor, mas consegue manter os sentidos. Um zumbido em seus ouvidos impede de ouvir qualquer coisa que esteja sendo dita.
As pernas, ele não as sente mais. “O gosto é amargo demais!” Não poderia ser doce o sabor de uma morte violenta. Agora as pancadas chegam em ondas em um fluxo contínuo, o corpo sacode... ossos se partem e o corpo assume uma forma cada vez mais gelatinosa e disforme. Cabeça-tronco-membros... cabeça-tronco-membros... cabeça-tronco-membros. A sucessão de golpes é infinita. O zumbido aumenta. “Por quê não vem o silêncio final?”
Seus olhos embaçam e pensa ver dona Maria de Lurdes, sua mãe, de fronte dele. Uma pobre lavadeira que com muito custo conseguiu manter os filhos na escola. Depois é a imagem de seu pai Pedro, um pedreiro semi-analfabeto que bebe para suportar a vida. A última imagem é de sua irmã, nunca envolvida na lama de sua vida... intocada. “Desculpe minha irmã!” É tão pouco para se levar de uma vida inteira. “Mas é a única que tenho... a única que terei!”
O estampido! O corpo sacode por uma última vez... o peito explode... Fim!
História: José Alfredo de B. Dantas
zealfie27@hotmail.com
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