DISCUTINDO A RELAÇÃO
Tem alguma coisa mais chata no mundo que discutir a relação? Alguém tem paciência para suportar horas e horas de diálogo incessante sobre um assunto tão intangível como a relação pessoal entre duas pessoas? Eu não sei. Mas tenho certeza de um fato, discutir uma relação nunca alcança seu objetivo, já que ao invés de solucionar os problemas existentes, acaba aumentando o fosso existente entre os gladiadores. Até porque, chamar uma discussão de relação de diálogo é ser bem condescendente, pois na maior parte dos casos, a realidade é uma monologo.
Aconteceu um caso comigo que expressa bem este fato. Namorava a Sheila a mais de cinco meses e tudo estava, em minha concepção, maravilhoso. Pensava em tornar a relação mais séria e comprometida. Acreditava ser a coisa certa a fazer. Para tanto, marquei um jantar. Escolhi um dos melhores restaurantes da cidade, que tinha uma fama de ser muito romântico. Peguei indicação com amigos que estiveram lá, principalmente, das amigas. O lugar era perfeito, diziam elas. Qualquer mulher se derreteria com o clima do lugar. Comprei, até mesmo, uma bela lembrança para a ocasião.
Fui busca-la em sua casa e ela me surpreendeu de tão bonita que estava. Tive certeza absoluta de estar fazendo a coisa certa. Era uma mulher deslumbrante e inteligente. Tinha um bom humor e era companheira, reunia todas as qualidades que busquei por anos em uma mulher, pensava eu.
No restaurante tivemos momentos maravilhosos. Brincamos um com o outro, rimos de tolices e parecia não existir ninguém mais no mundo, a não ser nós dois. Estávamos em um bolha na qual o tempo havia parado para reverenciar o nosso amor. Era uma noite fantástica e perfeita. Quando lhe dei o presente, seu rosto ficou iluminado e aquele belíssimo sorriso me contagiou com tamanha felicidade que sentíamos, estando um ao lado do outro. Comemos, dançamos e rimos novamente. Estava, realmente, muito feliz.
Dali nós fomos para um motel e fizemos amor alucinadamente até quase às quatro horas da manhã. Paramos e conversamos muito, sobre diversos assuntos, na maioria banalidades sem sentido. Ela falava e sorria, me deixando completamente hipnotizado. Havia feito a coisa certa, com certeza. E fizemos amor novamente.
Exausto de tanto me sentir feliz, acabei adormecendo. Estava já mergulhando em um sono profundo, quando ela me sacudiu e pediu para eu acordar. Meio bêbado de sono, tentei abrir os olhos e me manter atento, apesar de ter certeza que era uma tarefa sem muito sucesso. Ela começou a falar que devíamos discutir a relação. Mas discutir o quê? A noite fora perfeita, nós estávamos felizes e apaixonados, qual era o problema? Ela falava sobre meu comportamento e coisas do tipo, dando mil voltas para chegar no mesmo ponto. Ela bem que podia ir direto ao assunto, mas decidi que não era algo muito sensato a dizer naquele momento. Deixei ela falar livremente. Ela falou sobre coisas que fiz no início de nosso relacionamento. Eu não me lembrava de absolutamente nada, tentei até dizer algumas palavras de protesto, mas fui sumariamente interrompido e acusado de não compreende-la, mas parecia que ela estava me acusando de ser um mentiroso. O sono apertava consideravelmente. Já não entendia uma frase inteira. Ela estava a milhas de distância e a cada frase pronunciada por sua boca, a distância aumentava de forma progressiva. Tentei pedir para fazermos isto um outro dia, mas meus protestos foram rejeitados.
O assunto girou sobre família, amigos, hábitos e comportamento. Quase perguntei se havia alguma coisa boa em mim. Se eu era tão ruim assim, por quê estava comigo? A felicidade no jantar era o quê? Fingimento ou apenas uma calmaria antes da tempestade? Não entendia nada. Sem falar no maldito sono. Acho que apaguei por algum tempo. Eu dormi e ela estava falando, acordei e ela continuava falando. Agora não tinha a menor idéia do que dizia. Concordava com tudo, meneava a cabeça a cada final de frase. Aquilo pareceu funcionar, pois o tom ficou mais delicado e carinhoso. Agora, se você me perguntar com o que eu concordei, nunca poderei lhe dizer. Se ela quisesse me vender um terreno na lua, naquele momento, teria concordado e aumentado a oferta, tranqüilamente. A única coisa que queria é poder dormir por uns quinze minutos para recuperar minha consciência. A felicidade ficara nas curvas daquela discussão a mais de duas horas atrás.
Ela fez recomendações e pedidos, que é claro concordei. Tentei me levantar para me afastar do som de sua voz, mas nem isto eu tive direito. Ela me segurou e me forçou a deitar de novo. Quase implorei para ir ao banheiro e só com a ameaça de urinar na cama, me foi permitida uma pausa para fazer xixi. Mas do banheiro, podia claramente ouvir sua voz. Ela havia aumentado o tom da voz para que eu não deixasse de ouvi-la. A tortura não podia cessar. Decidi sair de minha atitude passiva e participar ativamente naquela discussão, na verdade transforma-la em uma real discussão, já que era o que ela queria.
Idiota eu era. A cada palavra que eu pronunciava, ela pronunciava uma frase. A cada vez que aumentava o tom da minha voz, ela aumentava ainda mais o tom dela. Capitulei! Estava completamente... moralmente... espiritualmente derrotado. Sem forças nem para fazer xixi. Perguntei o que causara aquela tormenta verbal sobre mim. Ela me falou de algo que eu fizera durante o jantar. Juro pelo que é mais sagrado... não lembro de ter feito nada e desta vez não era o sono.
A discussão da relação durou pelo menos mais meia hora. Fiquei sentado de cabeça baixa, me sentindo humilhado e abatido. O peso nas costas era terrível. Falei então que a amava e nunca havia encontrado uma mulher tão especial como ela. Ela fora a melhor coisa que já acontecera na minha vida e nada mais importava. Então, como por mágica, tudo acabou. Ela me beijou ternamente no rosto. Me abraçou e disse que me amava.Nos vestimos e saímos do motel. Ela mais amorosa do que nunca e eu mais assustado do que nunca. A deixei em casa e ela me fez prometer ir vê-la a noite. Assim que ela entrou em casa, peguei a agenda e rasguei a página onde estava o nome e endereço dela. Liguei para o meu chefe e aceitei um trabalho em Imperatriz no Maranhão. Ele me disse que não havia telefone e nem internet lá. Teria que ficar uns dois meses por lá. Dei um beijo em seu rosto e saí comemorando como se ganhasse na mega-sena acumulada. Nunca mais a vi!
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