12 janeiro 2007

Boogie Woogie - Fotografia

Estou colocando o conto de apresentação da série Boogie Woogie, espero que gostem:

FOTOGRAFIA:



Colocaram um cavalete no meio da rua para impedir a passagem de carros, a rua era de mão única, por este motivo não teriam trabalho. Mamaco e Badu ficaram de prontidão para nenhum espertinho tentar tirar o cavalete, enquanto isso Márcio e Balão começavam a trazer as mesas e cadeiras. Mário e Padeirinho traziam as panelas e os instrumentos de cozinha, arrumavam tudo no meio do Largo do Campinho, no topo do Morro, bem em frente à Igreja de Nossa Senhora das Graças. A festa estava nos seus preparativos.
Era o começo de toda uma história de dor e tragédia para todos ali presentes. Tudo ficou marcado pela previsão daquela velha macumbeira que apareceu no final da festa e contou a eles o seu destino. Todos riram na época, mas o tempo mostrou ser implacável. Lembro deles terem a procurado, mas nunca mais a viram .
Eles eram amigos desde pequenos e cresceram nas ruas do morro correndo para todos os lados e aprontando tudo que lhes foi permitido, mesmo na adolescência os caminhos não se distanciaram.
A festa foi preparada era uma amostra da forte ligação entre eles. Marlúcio e Mamaco, haviam roubado uma moto e conseguido passa-la adiante sem nenhum problema. O Cabo Branco havia sido o intermediário e conseguido uma boa grana, isto ajudou a financiar a reunião. O Largo do Campinho no ponto mais alto do morro, foi o local escolhido para a festa, já tradicional para eles.
A combinação era insólita: cerveja, maconha e mocotó. Mário foi designado como cozinheiro pois e o cozinheiro oficial do grupo, Padeirinho, só poderia ir para a festa muito tarde. Renato, Vesgo e Toddinho ficaram responsáveis pela cerveja e demais bebidas. Tico trouxe os móveis: meãs, cadeiras, bancos e panelas, Badurico ajudou-o a carregar tudo. Márcio e Zé da Pilha, após puxar um fuminho, conseguiram um velho Corcel I para fazer as compras e leva-los até lá..
Aos poucos, o Largo do Campinho foi enchendo. Amigos, conhecidos e meninas vieram para os festejos da grana fácil. A política da boa vizinhança não foi esquecida: o Presidente da Associação dos Moradores foi convidado e passou por lá rapidamente, também, foram convidados os dois PMs de plantão no Posto Policial naquela noite. Márcio conseguiu uma aparelhagem de som e colocou a música para animar a praça. Ao som de Zeca Pagodinho, Jovelina e Almir, a dança rolou solta.
Às 21:00 h a praça estava lotada: Mamaco e Marlúcio, os patrocinadores; Mário e Padeirinho, os cozinheiros; Toddinho, Vesgo, Zé da Pilha, Balão, Tico, Júnior, Badurico, Douglas, Nestor e sua bela esposa, Tonhão e seu irmão, Cláudio e sua namorada, Márcio e sua parceira de encrencas; Washington, Robinho e Tuta, os irmãos cara-de-pau; Ricardinho bundão e sua bela irmã Cirlene; as irmãs de Cláudio; Mazinho, sozinho como sempre; a família ter-lê-lê toda estava lá Zé Antonio, Genaldo, Glauco, e suas irmãs Cajazeiras; Beto e suas irmãs Linalva, Rosana e Rosangela; Pingo deu uma passada para não dizer que não fora, mas desapareceu tão rápido quanto apareceu; Jorginho e Márcia, irmão de Pingo, também foram, mas para mostrar o carro novo dele. Havia muitas outras pessoas na festa, algumas surgiam e iam embora bem rápido, não dava nem para registrar.
O Cabo Branco não podia faltar e teve o privilégio de abrir a primeira garrafa de cerveja. Renato trouxe a nova namorada para mostrá-la a todos. Eles sentaram juntos na mesa e fumaram um cigarro de canabis para início da diversão. Era o clima transgressor assumindo seu lugar juntamente com as bebidas quentes, para maioria cachaça e para uma seleta corja de apreciadores: whisky. Ricardinho Bundão e Júnior chegaram e trouxeram um grupo de pagodeiros locais para animar a festa, o som foi desligado e todos se reuniram em torno do grupo de pagodeiros para cantar e dançar.
Não era noite apenas de diversão, os negócios não saíam da cabeça de alguns que escolheram uma mesa ao lado da Igreja, meio escondida pela sombra projetada pelo edifício, para realizar algumas vendas a seus clientes habitué. Os sacolés estavam saindo mais rápido que a cerveja e antes do final da festa, o produto já tinha voado de sua mão direto para as narinas dos mais afoitos. O Cabo Branco não gostou, mas algumas gotas em suas mãos o convenceram de não ter visto nada.
Samba, mulher, bebida e drogas, a festa animou e entrou madrugada adentro. Alguns casais foram embora e aqueles não envolvidos nas transgressões dos patrocinadores, também. A festa foi ficando íntima, somente os mais próximos ficaram ali. O grupo de pagode foi embora, o som foi desligado e a cerveja acabou, ficaram apenas o mocotó, o whiskey e alguns cigarros de maconha. Mamaco narrou sua última conquista e passou a falar de seus planos futuros.
Neste momento, Robinho apareceu com uma câmera fotográfica e reuniu todos para uma foto. Uma senhora de roupas brancas e com a aparência de uns 60 anos, passava na hora e foi chamada para tirar a foto comemorativa. A senhora veio, apanhou a câmera e escutou atentamente a explicação de como faze-la funcionar. Escolheram a mesa grande para servir de apoio para todos. Sentados sobre ela ou no banco, todos se juntaram para a foto. A senhora tirou a foto em silêncio.
Robinho correu até ela e tirou a máquina de sua mão. Enquanto, Robinho a examinava, ela aproximou da mesa e olhou nos rostos de todos. De repente, falou: “Esta é a última foto que você vão tirar juntos. Dentro de um ano, muitos de vocês não estarão mais aqui.” Mamaco e Badurico avançaram sobre ela para tomar satisfações, mas a turma do deixa disso interrompeu. Ela continuou: “Os pecados são pagos aqui mesmo e você acumularam bastante, o destino foi selado. Adeus.” Dito isto ela virou as costas e foi embora. Alguns gritaram xingamentos para a velha senhora, chamando-a de doida e maldita. Ela não virou para olhar seus acusadores. Sumiu descendo a rua que levava para o asfalto.
A alegria sumiu, apesar de todos brincarem com a estranha previsão, algo não pareceu certo. As vozes altas foram substituídas por sussurros. O mal-estar fez com que todos resolvessem ir embora, recolherem tudo e partiram para encontrar o destino.

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