28 julho 2007

Poesia - Fragmento

Caminhar pela vida é uma atividade díficil. Enfrentar seus percalços, é ainda pior. Enfrentar nossas falhas e indecisões... insuportável. Nosso mestre e poeta nos indica o caminho a seguir, pelo menos de que temos de encarar tudo isto à nossa frente.

FRAGMENTO

Há sempre um pouco de suicído
Em cada morte.
Há sempre um pouco de veneno,
Que pensamos expelido,
A correr contínuo e fatal
Ao longo de nossas veias.
Há sempre o outro lado da lâmina.

Na meia certeza que nos norteia
Ao campo da luz,
Seguimos sempre trilhas escuras.
Erramos muito.
Erramos com consciência,
Erramos por estarmos fragmentados
Pelo gume que separa a face da máscara.

Trazemos a predatória herança,
Precisamos fingir criadores,
Figura em nossos olhos a competição,
Fingimos compartilhar,
Temos fome,
Querem-nos um pé de alface.

E, assim,
Com os leões interiores
A duelarem entre si,
Resta ao corpo e ao espírito
A fraqueza de entregarem-se
Vencidos
À então assombrosa ameaça
Do miado de um gatinho.

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Boogie Woogie - Pêmio à Ética

O Brasil é um país estranho, todos reclamam da corrupção e da falta de ética nos assuntos do país, mas poucos querem se comprometer com o assunto. Os que se comprometem, acabam sendo punidos por sua ação moral. Esta é uma história sobre este assunto, espero que reflitam sobre este assunto.

Mudanças políticas refletem em toda a organização do Estado. A eleição de um novo governador gera sempre mudanças na estrutura de pessoal dos inúmeros departamentos existentes na organização administrativa. Como toda a estrutura do poder Executivo, a Secretária de Segurança não é isenta desta 'dança de cadeiras'. Algumas vezes, para o bem e outras vezes para o mal. O batalhão de polícia, responsável pela área geográfica do morro do Boogie Woogie, uma vez sofreu uma mudança para o bem. Nomearam um comandante honesto e eficiente. Mas nada pode ser tão bom assim...
O Comandante Saboya era um oficial de carreira experiente, mas que nunca tivera a oportunidade de comandar seu próprio batalhão. Sempre atuou na área de inteligência da polícia militar do Estado e junto ao Quartel General da corporação. A eleição de um novo governado do Estado do Rio de Janeiro e conseqüentemente um novo Secretário de Segurança Pública, o levou ao comando do 19ª Batalhão de Polícia Militar da Ilha do Governador.
Chegou tranqüilo e sem alarde, pois era pouco conhecido dos soldados em geral. Não fez mudanças em seu quadro de pessoal, mas investigou a fundo o seu quadro de recursos humanos e materiais. Depois fez um levantamento da região sobre seu controle e as necessidades mais preementes. Após ter feito isto, criou uma árvore de prioridades, na qual colocou o tráfico de drogas atuantes no morro do Boogie Woogie, como prioridade, pois a proximidade física deste com o Batalhão era um motivo para a baixa moral do Batalhão frente as outras unidades da Secretária de Segurança.
Conhecendo seu novo efetivo, escolheu uma equipe a 'dedo' para uma incursão sobre o morro. Sabia que a informação iria 'vazar' para os traficantes. Cuidadosamente, deixou escapar as informações que desejava e depois, com um número reduzido de oficiais de confiança, traçou seus planos de ação.
Tudo deveria ser realizado em uma única noite, em horário que não prejudicasse os moradores e nem propriedades dentro da favela. Colocou homens da inteligência para identificar os principais pontos de defesa do tráfico, seu possível efetivo e as armas em seu poderio. Traçou uma estratégia de posicionamento da tropa e definiu que os homens que iriam atuar n esta ação, fossem retirados do Batalhão e enviados para treinamento em local fora da jurisdição do 19ª. Um outro grupo foi preparado para despistar o 'vazamento' de informações dos traficantes. O grupo foi selecionado com todos os possíveis suspeitos de envolvimento com este 'vazamento'. Uma data fictícia foi anunciada para a ação e um grupo de oficiais denominada para comandar este segundo grupo, todos homens que já haviam atuado dentro da favela, para não levantar suspeitas, alguns de confiança e outros nem tanto.
Quase tudo preparado, o Comandante fez um discurso para o grupo de 'distração', que não sabia ser apenas a fachada e deixou claro que seriam de extrema importância sua atuação nesta operação, que estava sendo cuidadosamente montada. Esperou que o 'vazamento' se concretizasse. Assim, trouxe o grupo principal, apenas no dia e a poucas horas da verdadeira operação tomar o palco de operações.
A ação foi rápida, precisa e sem incidentes. Quase todo o efetivo de traficantes de drogas foi preso na mesma noite, sem que ninguém tivesse sido ferido ou morto. O 'grosso' do armamento dos criminosos foi apreendido, bem como uma grande quantidade de drogas – cocaína, maconha, e até ecstasy – , uma grande soma em dinheiro e um livro contábil com as anotações do movimento do tráfico na região, nos últimos meses.
Não houve cobertura jornalística, não houve alarde na mídia, não houve cumprimentos e nem pedidos de aplausos para uma ação eficiente e eficaz da Polícia Militar. O acontecimento caiu em 'brancas nuvens'. Apenas o pessoal do Batalhão e os moradores da favela tomaram conhecimento das prisões e da audaciosa operação preparada. Grassou o medo no grupo de 'distração', pois era nítido a desconfiança que seu oficial superior dispensava ao grupo. Alguns oficiais, também, não ficaram nada satisfeitos de serem postos de lado e terem ficados 'às cegas' em tudo aquilo. O comandante havia alcançado sucesso em uma ação que deveria servir de modelo para toda a Polícia Militar do Rio de Janeiro. Era um homem honesto!
Mas o Brasil tem uma forma bem típica de premiar um homem honesto! Ele foi exonerado uma semana depois! O Secretário justificou que o novo Comandante não tinha 'experiência' de campo para atuar em operações complexas ao combate ao tráfico como devem ser realizadas. Se alguma pessoa compreendeu o que ele disse, eu não conheço. O que devemos esperar mais de um Comandante de um Batalhão? Ações com muitos mortos e danos a propriedades dos moradores? Anunciar as traficantes que iria realizar uma operação de apreensão de drogas e armas com antecedência para que eles os recebessem com cerveja e churrasco? Não entregar a delegacia policial local a soma de dinheiro apreendida na operação para uma distribuição mais restrita e uso da secretária? É difícil entender!
Até hoje, nunca mais ouvi falar deste comandante. Deve estar atrás de uma mesa realizando trabalhos inferiores para sua patente e capacidade. Nunca mais ouvi falar de um comandante que tenha realizado uma operação sem feridos e mortos para todos os lados, principalmente, com muitos inocentes derrubados na linha de tiro. Ouço sobre apreensões e operações consideradas um sucesso pela Secretária de Segurança e todas soam como propaganda política e ação inacabada, como se houvessem feito um acordo com os 'locais' para apresentar aqueles 'dados' para a mídia que cobre esta ação.
Lembro de ter assistido um documentário sobre um Posto Policial dentro de uma favela no Rio de Janeiro, onde a ação dos policiais no local diminuíram sensivelmente o índice de crimes no local, mas este documentário passou na BBC de Londres e não em um TV Local, que deveria ter este conhecimento e apresentar os fatos para o público. A proximidade promíscua da imprensa e das autoridades, nos deixam exemplos como este, um comandante crucificado por ser eficiente e eficaz. O prêmio por ser honesto e ético.


21 julho 2007

Poesia - Anel de Grau

Humildade e consciência de sua própria limitação é um dom fantástico. Ser realista, não deveria ser encarado como demérito, mas como qualidade. Nosso poeta traça as linhas destas idéias em mais um belo trabalho.


ANEL DE GRAU

QUÃO ARENOSOS SÃO OS ALICERCES
QUE COM POUCA PROFUNDIDADE,
ESPALHASTES NO REAL SUBTERRÂNEO,
PARA EMBASAREM A SUSTENTAÇÃO
DE TÃO DIFERENCIADO TÍTULO,
POR SI MESMO OUTORGADO
E DE TÃO PESADO ANEL
POR SI MESMO PRESENTEADO.

INFLA-SE COM O IMPURO GÁS,
QUE O FAZ SUBIR
EM INSTÁVEL ESCADA DE PAPEL,
MONTADO POR UMA CRUZ
CRAVEJADA DE VAIDADES,
QUE A FAZ MAIS DENSA
QUE SE DE CHUMBO FOSSE.

ESPERA, Ò PLANTA RASTEIRA,
LIVRAR-SE SINA DE TER SEU CORPO
COMO TAPETE
E IGUALAR-SE EM MAGNITUDE,
ÀS ALTAS ÁRVORES
QUE LHE SUBMETEM
À ETERNA SOMBRA.

SEM O DEVIDO ESFORÇO,
PARA GERAR AS SUFICIENTES RAÍZES
E FORTALECER-SE EM CRESCIMENTO
E ROBUSTES,
PENSAS QUE POR FAZER PARTE
DO MESMO BOSQUE,
PODE TER A HONRA DE RECEBER
O POUSO DOS PÁSSAROS,
E NÃO SOMENTE
SEUS INDESEJÁVEIS DEJETOS.

TENTA TRANSFORMAR-SE EM TREPADEIRA,
AGARRA-SE AOS FORTES TRONCOS,
DAQUELAS QUE MERECEM O SOL.
MAS O PESO DO TEU CONVENCIMENTO,
SUPERA A PUERIL RESISTÊNCIA
DOS TEUS GALHOS,
QUE SEM ESTRUTURA QUEDAM-SE AO CHÃO,
MOSTRANDO-LHE MAIS UMA VEZ,
O SOLO ONDE DEVE ESTAR
AQUELES QUE COM RALO MÉRITO,
EXARCEBAM-SE N AGRANDEZA.

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Mulheres que Amo - Peso na Consciência

Moral, regra que ajuda a coesão da sociedade ou instrumento de coersão da sociedade. Difícil dizer, cada pessoa no mundo tem sua pŕopria visão sobre moral, quase todas ligadas a questões religiosas, impedindo que o bom senso humano prevaleça. Esta é uma história, que prevaleceu o bom senso.

A profissão mais antiga do mundo!” Assim é conhecida a prostituição. O alvo deste comércio sempre foram as mulheres, apesar de existirem “prostitutos”, por falta de um termo melhor, a maioria prefere “garotos de programa”, mas a verdade é uma só: são prostitutos. Mas para mim não interessam os prostitutos neste momento. O meu interesse está focado nas prostitutas, mais especificamente em uma em particular.
Há muitos anos atrás, era um freqüentador assíduo de 'inferninhos', um misto de boate e prostíbulo. Copacabana é campeoníssima nesta categoria, mas eu freqüentava a região do cais do porto: a Praça Mauá. Lá conhecia, a Isabella, uma menina que veio do interior de Minas Gerais, trazida por um agenciador de 'garotas', com a sempre vívida promessa de alcançar uma vida melhor na cidade grande, atraía as meninas para as capitais e depois cobrava os gastos que teve no 'translado' e na 'hospedagem' da pobre coitada. Isabella caiu neste truque e para pagar suas despesas passou a ser integrante de uma famosa boate da Praça Mauá: a Flórida. Como viera virgem para o Rio, tinha cara de menina, apesar dos seus 20 anos. A entrega de sua 'preciosidade' foi uma festa na boate, com direito a espumante e roupa de noiva para Isabella. Foi neste dia que a conheci! Bobo que era, fiquei apaixonado e, por mais incrível que pareça, iniciei um 'namoro' com ela. Fadado ao fracasso, é claro!
O incrível disto tudo, foi que o motivo do fracasso, não foi aquele que todos podem imaginar, ou seja, a profissão dela. Mas sim a culpa que ela sentia por ter de 'trabalhar' à noite com outros homens. Ela se torturava por este motivo. Não sei se o conceito do pecado cristão ou a vergonha, a faziam ficar pequeninha em qualquer situação em que saíamos juntos. Ela cobrava de si mesmo, bem mais do que qualquer outra pessoa. Principalmente, eu! Quem, realmente, deveria reclamar daquilo tudo. Mas por algum motivo inexplicável, aquilo não me afetava. A minha única preocupação era com a segurança dela, já que muito dos 'clientes' assíduos de casas deste tipo, vão para maltratar as prostitutas e não fazer sexo. Era impressionante a quantidade dos assim chamados 'machos', que contratavam os serviços de uma 'profissa' e utilizavam para bater ou mesmo para servir de divã. Alguns apenas dormiam! Mas a minha preocupação sempre foi com os violentos. Lembro de uma vez que, um homem armado, matou uma das meninas no meio da boate, por ela ter rido do 'pinto' pequeno que ele tinha.
O que interessa, na verdade, é que Isabella sempre insistia que eu deveria encontrar alguém que pudesse me fazer realmente feliz. Que não me causasse tanta vergonha e pudesse me acompanhar em público. Como se aquilo tivesse alguma importância, não sou nada e nunca fui nada e acho que nunca serei nada! Mas ela insistiu tanto que acabamos nos separando.
Alguns meses atrás, a encontrei novamente. Está fazendo os preparativos para seu casamento. Era uma felicidade de dar gosto! Fiquei contente por ela, realmente contente. Era acima de tudo, uma lutadora. Mas não demorou para o assunto cair nas culpas por sua antiga profissão. A impressão que eu tinha enquanto ela falava, era que o próprio diabo estava a esfregar suas mãos e olhando sobre nossos ombros. Ela me contou que tinha ido até um padre para pedir perdão por seus pecados, mas nem aquilo acalmou sua alma. Aquilo já era meio absurdo, não queria dizer-lhe que suas crenças eram falsas e dificilmente ela teria um castigo pior do que qualquer dona de casa fofoqueira e cheia de inveja pela vida que não viveu.
A pior parte veio depois. Ela me falou que tinha guardado quase 75,000 doláres em um banco. Os dez anos de profissão a compensaram bastante. Ela não tinha a menor idéia do que faria com aquele dinheiro, pois não podia dizer ao marido como conseguira. Estava pensando doar para obras de caridade. Seria um gesto nobre, se ela não estivesse desempregada e o noivo trabalhasse de sub-gerente em uma loja de material de construção. Tentei convencê-la que aquilo era absurdo, que deveria arrumar um jetio de contar ao noivo toda a verdade sobre ela, até porque algum dia ela apareceria. Mas o grande problema era a cerimônia. Já tinham sido enviados convites e a festa, família, amigos, todos estavam prontos para o grande dia, principalmente, ela. Tinha mais de 30 anos e não queria morrer sem experimentar aquela maravilhosa cerimônia: o casamento.
Para não atrapalhar a cerimônia, a convenci a deixar o dinheiro em uma conta no banco, até que o maridão fosse capaz de aceitar a profissão que a fez juntar tal quantia. Imagine uma trabalhadora, supostamente 'honesta', conseguiria juntar esta quantia em dez anos de trabalho. Digo, com certeza, que... Não! Será que o marido jogaria a chance de construir um bom futuro junto, pelo que ela fez no seu passado. Que ficou no passado, lembremos! Por pura hipocrisia, pois a maior hipocrisia não é viver com o ganho honesto de um trabalhadora, mas discriminar alguém por uma falsa e irreal ótica moral de uma sociedade que não conhece nem mesmo os próprios fundadores desta falsa ética moral.




14 julho 2007

Poesia - Indefectível Destino

Vida é um grande problema para todos. Como vivê-la? Como suportá-la? Qual o caminho a trilhar? As dúvidas são parte de toda a trajetória e as decisões sempre serão difíceis. Hoje nosso poeta nos fala da vida.

INDEFECTÍVEL DESTINO

ESTÁ A COLHEITA FINDA E O CESTO
À TRANSBORDAR,
DE FRUTOS TÃO AMARGOS, PORÉM
AO INFINITO PENSO LANÇÁ-LOS.

MAS O DESTINO IMPÕE SUAS NORMAS
E ESTOU IMPEDIDO PELA FORÇA
E PELA OPRESSÃO
DE FAZÊ-LO.

E ENQUANTO FRUTOS NO CESTO EXISTIR,
OU ENQUANTO DURAR MEU TEMPO
NESTE LAPSO
ENTRE O NASCIMENTO E A MORTE,
SERÁ ESTE MEU ÚNICO
E OBRIGATÓRIO ALIMENTO.

PROCURO ÁGUA FRESCA
PARA APAZIGUAR MINHA NAÚSEA
E ENCONTRO NAS OUTRORAS NASCENTES,
APENAS LAMA À ESCORRER DOMINANTE,
E O AR QUE ME CHEGA AOS PULMÕES,
FORA DELE SUPRIMIDO O OXIGÊNIO.

DESÇO AO CÉLEBRE INFERNO
À PROCURA DO V CANTO
E ME DECEPCIONO
AO CONSTATAR, QUE ATÉ
O IMENSURÁVEL AMOR,
FORA LANÇADO AO ETERNO VÓRTICE.

CONSULTO AS LUAS
E ROGO-LHES,
QUE ME RESPONDAM,
QUAL DELAS ME LEVARÁ
AO CENTRO DO DESCONHECIDO.

QUAL DELAS ME LIVRARÁ
DO INDEFICTÍVEL ALIMENTO,
QUE A CADA DIA
MAIS VENENOSO E ABUNDANTE
SE TORNA.

Maurício Granzinolli

Boogie Woogie - Família Vertical

As últimas décadas nos tem proporcionado mudanças elétricas e velocíssimas, a história de hoje reflete uma destas muitas mudanças na vida dos morros cariocas.

A família tem sofrido inúmeras mudanças ao longo dos últimos cinqüenta anos, devido ao avanço da importância feminina na força de trabalho, a liberação sexual, o divórcio, e a enormidade de informações disponibilizadas para as crianças. O custo de vida passou a ser proibitivo para a manutenção de famílias grandes com inúmeros filhos, assim como forçou a muitos dos filhos a permanecerem na casa dos pais, mesmo após se casarem.
Filhos passaram a ter de conviver com madrastas, padrastos, avôs postiços, irmãos emprestados e relações familiares incompreensíveis e surreais. Inclua a adoção e crianças de proveta, para complicar a cabeça de qualquer indivíduo na sociedade moderna.
É claro, que a favela não poderia passar incólume desta imensa transformação social. O dinheiro sendo um componente indissolúvel na existência e manutenção das famílias nas favelas, a falta dele complica e muito estas relações. Na realidade, dificilmente encontramos situações legalmente garantidas por lá, pois o custo de separações, divórcios, pensões alimentícias e tantas mais necessidades criadas por esta desfragmentação, ficam muito aquém do horizonte de possibilidades de uma pessoa com uma baixa renda familiar. Todos acabam convivendo sob o mesmo teto, numa balbúrdia familiar estonteante, facilitada por uma invenção de grande valia para a vida no morro: a laje.
As casas nas favelas eram, em sua maioria, de telhas de cerâmica, sendo sustentadas por armações de madeira, sistema bastante ineficiente e incômodo para a convivência de um grande número de pessoas sob o mesmo teto. As telhas não possibilitavam a expansão vertical das residências, apenas de forma horizontal, mas como não havia terreno disponível para esta expansão, a necessidade da saída dos filhos era premente. A laje veio para alterar este quadro.
Ninguém representou tanto esta mudança espacial do que a família de seu Antônio. Era um morador de há muitos anos no Beco A, casado com dona Virgínia, tivera seis filhos, sendo cinco meninas e um menino. Quando o processo de mudança das telhas para a laje no final dos anos setenta, o filho mais velho, Renato, já havia alugado uma casa para si e mudara-se. Assim, apenas as filhas moravam com eles quando a mais velha delas, Rosana, engravidou e teve o primeiro filho. Sem espaço para todos na casa, seu Antônio, ajudado pelo novo cunhado, construiu o segundo pavimento, colocando uma laje entre eles e fazendo do segundo pavimento o teto, também, com uma laje. Foram dois anos de muito suplício e brigas conjugais em que viveu a filha mais velha, rapidamente tomando a decisão mais lógica e dando um ‘bico’ no vagabundo do cunhado que arranjara para seu pai.
Não sei bem o motivo, inveja ou estupidez, a segunda filha do casal arrumou um novo cunhado para seu Antônio e decidiram ir morar com na casa da família dela. Como havia o segundo pavimento, Rosangela fez uma divisão e construiu um quarto para si e seu namorado, eram agora vizinhas às irmãs mais velhas, enquanto as mais novas continuavam se apertando no primeiro pavimento junto com seu Antônio e dona Virgínia. Foram anos de calmaria.
A idade avança e o tempo é implacável. As mais novas já estavam cansadas de aula de sexo auditivo, que vinha do quarto de seus pais e começaram a pressionar para ter seus próprios quartos, já que suas irmãs já haviam alcançado este direito. Seu Antônio não tinha recursos suficientes para construir mais um pavimento, mas imagine o que é três adolescentes iradas e cheias de desejos te pressionando. Não é nada fácil, posso garantir! Não queria estar na pele dele.
A guerra estava declarada. Uma cisão entre as irmãs foi iniciada. Um pouco de inveja e uma pitada de intransigência de parte a parte, fez com que sua esposa se bandeasse para o ‘lado inimigo’. A sua paz de espírito passou a depender de uma laje! Esforço hercúleo comprou. Com a ajuda do cunhado e dos namorados das meninas, construiu mais um pavimento com três quartos. Apesar de não ter alcançado a satisfação da maioria, pois achavam os quartos bem menores do que suas irmãs possuíam. “Não tem como satisfazer a todos!” Me disse seu Antônio alguns dias depois da obra pronta. Já eram oito pessoas vivendo sob os mesmos ‘tetos’!
Rosangela resolveu dar uma ‘forcinha’ na povoação do planeta e ficou grávida. Mais uma menina! Sem contar os namorados que resolveram economizar em motéis e passaram a praticar o esporte predileto dos brasileiros nos quartos a mais. Como não podia deixar de ser, no sétimo dia se fez mais uma criança. Helena, a quarta filha do casal, engravidou. Uma criança a mais, banheiros do menos, uma nova equação surgiu, sem solução aparente. O resultado: uma nova laje e um novo pavimento.
Um pavimento a mais, novas janelas, novas dependências, cada uma com seu próprio estilo, gosto e desejos. A casa estava sendo transformada em uma mansão... ou em um Frankenstein arquitetônico! Quem pode dizer? A paz estava selada. Quem dera! Os motivos das brigas eram sobre a quantidade de banheiros, quem os limpava, sobre o choro das crianças, sobre lavagem de roupa, limpeza da casa e tantas outras questões domésticas que ninguém queria cumprir. Na verdade, a casa era um grande pensionato para moças e seu Antônio era o relutante gerente. Novas obras foram realizadas, aumentando a casa para frente e para os lados, tudo sem um estudo mínima de um engenheiro de profissão. “Quem tem dinheiro pra isto! E quem se importa!” Havia mais antenas de TV na casa de seu Antônio do que em todo o Beco A.
A calmaria chegou, mas não durou. Um dia claro e muito azul, o filho da vizinha de frente estava empinando pipa, quando ele jura ter visto a casa se mover ao sabor do vento, como um bambu. Um grupo de crianças se reuniu na laje em frente e ficou rindo do vai-vem da casa da família de seu Antônio. Ele contou pra sua mãe, que, é claro, não acreditou. “Fantasia de criança!”!
Na casa de seu Antônio, o problema era de saúde pública. Todos começaram a vomitar e sentir vertigens... inexplicáveis. O único ponto comum era que todas estavam no terceiro ou quarto pavimento quando sentiram os sintomas. Seu Antônio rezava para não ser gravidez em massa. Chegou a fazer promessa para Santo Antônio, mas acho que este era o santo errado para fazer um pedido como este.
Em junho, uma tempestade se formou. Chuva com ventos em alta velocidade começaram a sacudir perigosamente a casa. Agora, era muito visível a precariedade da construção. Todos saíram da casa com medo de desabamento. A ‘torre’ balançava bastante mas não caía. O vento aumentou de intensidade, um som seco... uma rachadura... um pedaço de reboco que caí... e... a casa desmoronou!A casa desabou sobre à casa vizinha. Foi um desastre quase total! Apenas o primeiro pavimento da casa de seu Antônio ficou de pé, enquanto a casa da pobre vizinha, em que o único pecado que cometera fora morar ao lado de uma família com febre de construção, ficou complemente esmagada. Seu Antônio só chegou em casa à noite, para encontrar pilhas de tijolos e escombros espalhados em frente de sua antiga residência. Sentou no chão do beco e ficou ouvindo a Babel de vozes ao seu redor cobrando uma atitude, enquanto ele decidia se a providência divina era uma aívio ou um novo tormento.

07 julho 2007

Poesia - Tradução

Comunicação é um ato que nos difere de todos os outros seres. A complexidade do ato e sua imensa dificuldade, nos coloca em uma posição de superioridade. Mas quão difícil é fazê-lo! Quão difícil é passar a correta mensagem! Isto que nos avisa nosso poeta e mais importante tradutor da vida.

TRADUÇÃO

COMO PODERIA DAR AO MUNDO
A PRECISA LEITURA,
DA IDEAL FORMA E DO EXATO CONCEITO?

COMO PODERIA CUMPRIR A TRAJETÓRIA
DE UM INDUBITÁVEL PROJÉTIL,
QUE SEM HESITAR FURA O OLHO DO ALVO?

COMO EXTRAIR DAS PALAVRAS
A ÚLTIMA GOTA
DO SEU ENIGMÁTICO SUMO
E EXPOR EM NUDEZ,
SEU SIGNIFICADO SEM PUDOR?

OH, POBRES PALAVRAS,
MESMO QUE EXPONHAS
TUAS VÍSCERAS AO PRESUNÇOSO LÉXICO,
NÃO CONSEGUES LIBERTAR
OS SENTIMENTOS DE TUAS ÓBVIAS AÇÕES.

E ASSIM, AOS GUTURAIS GRITOS,
CABEM A CONFUSA MISSÃO
DE EXPRESSAR O INEFÁVEL INVISÍVEL

Maurício Granzinolli

Mulheres que Amo - Competição

Será que sabemos o que fazemos? Temos a percepção de onde nossos atos atuais nos levarão? Acho que não. A maioria de nós deixa a vida nos levar, como na música do Zeca Pagodinho, e poucos conseguem tomando às redeas de sua vida. Este é um exemplo disto.

Marcelo e Ida eram um casal quase perfeito. Eram bonitos, tinham uma vida econômica tranqüila e não eram de viver na balada. Os conheci quando mudei do horário matutino para o noturno na faculdade, mesmo eles estando alguns períodos na minha frente, acabamos fazendo algumas matérias optativas juntos. Assim, nos tornamos amigos.
A vida era muito boa para ambos e tudo indicava que acabariam se casando. Mas tudo deu uma guinada de 360 graus, quando Ida acabou se metendo em uma discussão com uma garota de nome Verônica. Verônica era uma espécie de “patricinha”, mas com muita “pimenta no seu tempero”. Tinha um gênio terrível e seu esporte predileto era humilhar as outras meninas, bem como trazer seus pretendentes aos seus pés. A discussão entre ambas girou em torno da tentativa de Verônica de humilhar uma amiga de Ida, que a defendeu e “saiu por cima” da discussão. Sendo aplaudida por todos os que assistiam impávidos.
Verônica jurou vingança e resolveu atingir Ida onde mais a machucaria: seu relacionamento com Marcelo. Rapidamente, colocou em prática seus planos e foi gradativamente minando o relacionamento de ambos. Ela era deslumbrante e extremamente “sexy”, quando queria. Marcelo acabou ficando fascinado pela atenção dela. Ida percebeu, mas era uma menina simples e de boa índole que não sabia como competir pela atenção de um homem. Acabou desistindo da briga e “entregando de bandeja” Marcelo para sua rival. É claro, sem antes Verônica a humilhar publicamente, como seu novo namorado.
Nós, os amigos de Ida, a consolamos e execramos ao Marcelo, mas Ida o defendeu, pois como ela, ele não conhecia as artimanhas das pessoas “urbanas”. Ambos haviam vindo de cidades do interior do estado. Ida viera de Cachoeira de Macacu e Marcelo de Laje do Muriaé, quase fronteira com Minas e Espírito Santo. Ida sentenciou que aquilo não iria longe, pois Verônica não agüentaria o convívio com alguém tão diferente dela e logo o largaria, trocando-o por um brinquedo novo.
A notícia correu e Verônica quis mostrar a todos que não era apenas um brinquedo e acabou ficando “firme” com Marcelo. Mãos dados, braço em torno da cintura, beijinhos no corredor, tudo para demonstrar os novos apaixonados do oitavo andar do prédio da UERJ. A maioria das meninas via o casal como uma espécie de Príncipe Encantado e sua Cinderela. Apesar de estarem mais para Sapo e Bruxa Malvada da Branca de Neve. O casal “abalou” nas festas e eventos da Faculdade de Administração por quase um ano. Todos apostando quando Verônica estaria enjoada dele e daria um belo “bico em sua bunda”, jogando-o para escanteio.
Mas, após as férias de verão, Ida surgiu com um novo namorado e a competição de Verônica se acirrou novamente. Agora, a disputa era para saber qual dos casais era o mais apaixonado, apesar de apenas Verônica saber da existência deste concurso. Ida vivia sua vida tranqüilamente e acabou esquecendo de Marcelo, cada vez mais envolvido com a “apaixonada” Verônica. Assim, os últimos períodos de faculdade do trio foram marcados por uma disputa silenciosa entre Verônica e Ida, sem que a segunda soubesse disto. Cada nova atitude ou ação de Ida era contra-posta por uma de Verônica e não a deixando perceber sua ligação cada vez maior com a vida de Marcelo.
No último período de faculdade, Marcelo pediu Verônica em casamento. Curso de ação lógico, devido à necessidade de Marcelo retornar para sua terra para cuidar da fazenda de café do pai. Verônica não pensou em mais nada e aceitou de pronto o pedido. Era o seu momento mágico de princesa se tornando realidade. Todos os preparativos para a festa foram realizados, muitos convidados, principalmente da faculdade, os pais de Marcelo vieram de Laje do Muriaé, salão de festas, buffet para quinhentas pessoas, um “dj” especial para festa. Até Ida foi convidada, mas recusou elegantemente. Foi o ponto baixo para Verônica, seu momento de triunfo não seria assistido pela sua rival, mas estava explodindo de felicidade e orgulho no dia da cerimônia.
Viajaram para Las Lenhas no Chile e retornaram para o Rio, pois havia a cerimônia da colação de grau. Depois de tudo isto, foram morar na fazenda dos pais de Marcelo. Foram começar a vida, de verdade. É claro, que nada deu certo a partir de então. Verônica era uma pessoa “urbana”, acostumada à badalação, roupas caras, shopping no fim de semana e, principalmente, pessoas para admirar e invejar sua beleza e charme. Em Laje do Muriaé, na fazenda dos pais de Marcelo, ela descobriu que vaca não tem inveja de ninguém. Pessoas simples dão muito pouca importância a roupa e a aparência de quem quer que seja. As vitrines estão atrasadas quase um século e as novidades chegam com a televisão e não são criadas nas ruas. Não há “raves”, apenas concursos de gado ou um bom e sacolejante forró. A vida de cidade do interior não é talhada para todos. Verônica nunca esqueceu na primeira noite da fazenda, quando os galos da vizinhança a acordaram junto com os raios de sol. Não havia botão de volume ou um botão “mute” para calar os galos. Pior, a vida começava com o sol na fazenda e não havia como silenciar a todos. Nem podia ser feito, parar era perder dinheiro. A vida tranqüila do campo era o verdadeiro inferno de Verônica.
O casamento não durou mais que dois anos. A separação foi amigável, pois Marcelo percebeu que havia casado com uma imagem e não com a mulher que Verônica era. Ela não era a espécie de mulher que pudesse ser a sua companheira, para a vida que estava destinado a levar. Verônica acordou tarde para perceber onde levara sua inconseqüente disputa com Ida. Não escolhera seu destino, não fizera opções, deixou a vida a levar e foi para em uma fazenda com cheiros e animais que nunca vira antes em sua vida. Encontrar pessoas que não conseguia compreender, muito menos compreende-la. Teve de refazer tudo, sua vida inteira, até mesmo retornar para a faculdade. Retomar hábitos e recuperar o tempo perdido de uma vida inconseqüente e de um “tiro que saiu pela culatra”.