As últimas décadas nos tem proporcionado mudanças elétricas e velocíssimas, a história de hoje reflete uma destas muitas mudanças na vida dos morros cariocas.
A família tem sofrido inúmeras mudanças ao longo dos últimos cinqüenta anos, devido ao avanço da importância feminina na força de trabalho, a liberação sexual, o divórcio, e a enormidade de informações disponibilizadas para as crianças. O custo de vida passou a ser proibitivo para a manutenção de famílias grandes com inúmeros filhos, assim como forçou a muitos dos filhos a permanecerem na casa dos pais, mesmo após se casarem.
Filhos passaram a ter de conviver com madrastas, padrastos, avôs postiços, irmãos emprestados e relações familiares incompreensíveis e surreais. Inclua a adoção e crianças de proveta, para complicar a cabeça de qualquer indivíduo na sociedade moderna.
É claro, que a favela não poderia passar incólume desta imensa transformação social. O dinheiro sendo um componente indissolúvel na existência e manutenção das famílias nas favelas, a falta dele complica e muito estas relações. Na realidade, dificilmente encontramos situações legalmente garantidas por lá, pois o custo de separações, divórcios, pensões alimentícias e tantas mais necessidades criadas por esta desfragmentação, ficam muito aquém do horizonte de possibilidades de uma pessoa com uma baixa renda familiar. Todos acabam convivendo sob o mesmo teto, numa balbúrdia familiar estonteante, facilitada por uma invenção de grande valia para a vida no morro: a laje.
As casas nas favelas eram, em sua maioria, de telhas de cerâmica, sendo sustentadas por armações de madeira, sistema bastante ineficiente e incômodo para a convivência de um grande número de pessoas sob o mesmo teto. As telhas não possibilitavam a expansão vertical das residências, apenas de forma horizontal, mas como não havia terreno disponível para esta expansão, a necessidade da saída dos filhos era premente. A laje veio para alterar este quadro.
Ninguém representou tanto esta mudança espacial do que a família de seu Antônio. Era um morador de há muitos anos no Beco A, casado com dona Virgínia, tivera seis filhos, sendo cinco meninas e um menino. Quando o processo de mudança das telhas para a laje no final dos anos setenta, o filho mais velho, Renato, já havia alugado uma casa para si e mudara-se. Assim, apenas as filhas moravam com eles quando a mais velha delas, Rosana, engravidou e teve o primeiro filho. Sem espaço para todos na casa, seu Antônio, ajudado pelo novo cunhado, construiu o segundo pavimento, colocando uma laje entre eles e fazendo do segundo pavimento o teto, também, com uma laje. Foram dois anos de muito suplício e brigas conjugais em que viveu a filha mais velha, rapidamente tomando a decisão mais lógica e dando um ‘bico’ no vagabundo do cunhado que arranjara para seu pai.
Não sei bem o motivo, inveja ou estupidez, a segunda filha do casal arrumou um novo cunhado para seu Antônio e decidiram ir morar com na casa da família dela. Como havia o segundo pavimento, Rosangela fez uma divisão e construiu um quarto para si e seu namorado, eram agora vizinhas às irmãs mais velhas, enquanto as mais novas continuavam se apertando no primeiro pavimento junto com seu Antônio e dona Virgínia. Foram anos de calmaria.
A idade avança e o tempo é implacável. As mais novas já estavam cansadas de aula de sexo auditivo, que vinha do quarto de seus pais e começaram a pressionar para ter seus próprios quartos, já que suas irmãs já haviam alcançado este direito. Seu Antônio não tinha recursos suficientes para construir mais um pavimento, mas imagine o que é três adolescentes iradas e cheias de desejos te pressionando. Não é nada fácil, posso garantir! Não queria estar na pele dele.
A guerra estava declarada. Uma cisão entre as irmãs foi iniciada. Um pouco de inveja e uma pitada de intransigência de parte a parte, fez com que sua esposa se bandeasse para o ‘lado inimigo’. A sua paz de espírito passou a depender de uma laje! Esforço hercúleo comprou. Com a ajuda do cunhado e dos namorados das meninas, construiu mais um pavimento com três quartos. Apesar de não ter alcançado a satisfação da maioria, pois achavam os quartos bem menores do que suas irmãs possuíam. “Não tem como satisfazer a todos!” Me disse seu Antônio alguns dias depois da obra pronta. Já eram oito pessoas vivendo sob os mesmos ‘tetos’!
Rosangela resolveu dar uma ‘forcinha’ na povoação do planeta e ficou grávida. Mais uma menina! Sem contar os namorados que resolveram economizar em motéis e passaram a praticar o esporte predileto dos brasileiros nos quartos a mais. Como não podia deixar de ser, no sétimo dia se fez mais uma criança. Helena, a quarta filha do casal, engravidou. Uma criança a mais, banheiros do menos, uma nova equação surgiu, sem solução aparente. O resultado: uma nova laje e um novo pavimento.
Um pavimento a mais, novas janelas, novas dependências, cada uma com seu próprio estilo, gosto e desejos. A casa estava sendo transformada em uma mansão... ou em um Frankenstein arquitetônico! Quem pode dizer? A paz estava selada. Quem dera! Os motivos das brigas eram sobre a quantidade de banheiros, quem os limpava, sobre o choro das crianças, sobre lavagem de roupa, limpeza da casa e tantas outras questões domésticas que ninguém queria cumprir. Na verdade, a casa era um grande pensionato para moças e seu Antônio era o relutante gerente. Novas obras foram realizadas, aumentando a casa para frente e para os lados, tudo sem um estudo mínima de um engenheiro de profissão. “Quem tem dinheiro pra isto! E quem se importa!” Havia mais antenas de TV na casa de seu Antônio do que em todo o Beco A.
A calmaria chegou, mas não durou. Um dia claro e muito azul, o filho da vizinha de frente estava empinando pipa, quando ele jura ter visto a casa se mover ao sabor do vento, como um bambu. Um grupo de crianças se reuniu na laje em frente e ficou rindo do vai-vem da casa da família de seu Antônio. Ele contou pra sua mãe, que, é claro, não acreditou. “Fantasia de criança!”!
Na casa de seu Antônio, o problema era de saúde pública. Todos começaram a vomitar e sentir vertigens... inexplicáveis. O único ponto comum era que todas estavam no terceiro ou quarto pavimento quando sentiram os sintomas. Seu Antônio rezava para não ser gravidez em massa. Chegou a fazer promessa para Santo Antônio, mas acho que este era o santo errado para fazer um pedido como este.
Em junho, uma tempestade se formou. Chuva com ventos em alta velocidade começaram a sacudir perigosamente a casa. Agora, era muito visível a precariedade da construção. Todos saíram da casa com medo de desabamento. A ‘torre’ balançava bastante mas não caía. O vento aumentou de intensidade, um som seco... uma rachadura... um pedaço de reboco que caí... e... a casa desmoronou!A casa desabou sobre à casa vizinha. Foi um desastre quase total! Apenas o primeiro pavimento da casa de seu Antônio ficou de pé, enquanto a casa da pobre vizinha, em que o único pecado que cometera fora morar ao lado de uma família com febre de construção, ficou complemente esmagada. Seu Antônio só chegou em casa à noite, para encontrar pilhas de tijolos e escombros espalhados em frente de sua antiga residência. Sentou no chão do beco e ficou ouvindo a Babel de vozes ao seu redor cobrando uma atitude, enquanto ele decidia se a providência divina era uma aívio ou um novo tormento.