28 julho 2007

Boogie Woogie - Pêmio à Ética

O Brasil é um país estranho, todos reclamam da corrupção e da falta de ética nos assuntos do país, mas poucos querem se comprometer com o assunto. Os que se comprometem, acabam sendo punidos por sua ação moral. Esta é uma história sobre este assunto, espero que reflitam sobre este assunto.

Mudanças políticas refletem em toda a organização do Estado. A eleição de um novo governador gera sempre mudanças na estrutura de pessoal dos inúmeros departamentos existentes na organização administrativa. Como toda a estrutura do poder Executivo, a Secretária de Segurança não é isenta desta 'dança de cadeiras'. Algumas vezes, para o bem e outras vezes para o mal. O batalhão de polícia, responsável pela área geográfica do morro do Boogie Woogie, uma vez sofreu uma mudança para o bem. Nomearam um comandante honesto e eficiente. Mas nada pode ser tão bom assim...
O Comandante Saboya era um oficial de carreira experiente, mas que nunca tivera a oportunidade de comandar seu próprio batalhão. Sempre atuou na área de inteligência da polícia militar do Estado e junto ao Quartel General da corporação. A eleição de um novo governado do Estado do Rio de Janeiro e conseqüentemente um novo Secretário de Segurança Pública, o levou ao comando do 19ª Batalhão de Polícia Militar da Ilha do Governador.
Chegou tranqüilo e sem alarde, pois era pouco conhecido dos soldados em geral. Não fez mudanças em seu quadro de pessoal, mas investigou a fundo o seu quadro de recursos humanos e materiais. Depois fez um levantamento da região sobre seu controle e as necessidades mais preementes. Após ter feito isto, criou uma árvore de prioridades, na qual colocou o tráfico de drogas atuantes no morro do Boogie Woogie, como prioridade, pois a proximidade física deste com o Batalhão era um motivo para a baixa moral do Batalhão frente as outras unidades da Secretária de Segurança.
Conhecendo seu novo efetivo, escolheu uma equipe a 'dedo' para uma incursão sobre o morro. Sabia que a informação iria 'vazar' para os traficantes. Cuidadosamente, deixou escapar as informações que desejava e depois, com um número reduzido de oficiais de confiança, traçou seus planos de ação.
Tudo deveria ser realizado em uma única noite, em horário que não prejudicasse os moradores e nem propriedades dentro da favela. Colocou homens da inteligência para identificar os principais pontos de defesa do tráfico, seu possível efetivo e as armas em seu poderio. Traçou uma estratégia de posicionamento da tropa e definiu que os homens que iriam atuar n esta ação, fossem retirados do Batalhão e enviados para treinamento em local fora da jurisdição do 19ª. Um outro grupo foi preparado para despistar o 'vazamento' de informações dos traficantes. O grupo foi selecionado com todos os possíveis suspeitos de envolvimento com este 'vazamento'. Uma data fictícia foi anunciada para a ação e um grupo de oficiais denominada para comandar este segundo grupo, todos homens que já haviam atuado dentro da favela, para não levantar suspeitas, alguns de confiança e outros nem tanto.
Quase tudo preparado, o Comandante fez um discurso para o grupo de 'distração', que não sabia ser apenas a fachada e deixou claro que seriam de extrema importância sua atuação nesta operação, que estava sendo cuidadosamente montada. Esperou que o 'vazamento' se concretizasse. Assim, trouxe o grupo principal, apenas no dia e a poucas horas da verdadeira operação tomar o palco de operações.
A ação foi rápida, precisa e sem incidentes. Quase todo o efetivo de traficantes de drogas foi preso na mesma noite, sem que ninguém tivesse sido ferido ou morto. O 'grosso' do armamento dos criminosos foi apreendido, bem como uma grande quantidade de drogas – cocaína, maconha, e até ecstasy – , uma grande soma em dinheiro e um livro contábil com as anotações do movimento do tráfico na região, nos últimos meses.
Não houve cobertura jornalística, não houve alarde na mídia, não houve cumprimentos e nem pedidos de aplausos para uma ação eficiente e eficaz da Polícia Militar. O acontecimento caiu em 'brancas nuvens'. Apenas o pessoal do Batalhão e os moradores da favela tomaram conhecimento das prisões e da audaciosa operação preparada. Grassou o medo no grupo de 'distração', pois era nítido a desconfiança que seu oficial superior dispensava ao grupo. Alguns oficiais, também, não ficaram nada satisfeitos de serem postos de lado e terem ficados 'às cegas' em tudo aquilo. O comandante havia alcançado sucesso em uma ação que deveria servir de modelo para toda a Polícia Militar do Rio de Janeiro. Era um homem honesto!
Mas o Brasil tem uma forma bem típica de premiar um homem honesto! Ele foi exonerado uma semana depois! O Secretário justificou que o novo Comandante não tinha 'experiência' de campo para atuar em operações complexas ao combate ao tráfico como devem ser realizadas. Se alguma pessoa compreendeu o que ele disse, eu não conheço. O que devemos esperar mais de um Comandante de um Batalhão? Ações com muitos mortos e danos a propriedades dos moradores? Anunciar as traficantes que iria realizar uma operação de apreensão de drogas e armas com antecedência para que eles os recebessem com cerveja e churrasco? Não entregar a delegacia policial local a soma de dinheiro apreendida na operação para uma distribuição mais restrita e uso da secretária? É difícil entender!
Até hoje, nunca mais ouvi falar deste comandante. Deve estar atrás de uma mesa realizando trabalhos inferiores para sua patente e capacidade. Nunca mais ouvi falar de um comandante que tenha realizado uma operação sem feridos e mortos para todos os lados, principalmente, com muitos inocentes derrubados na linha de tiro. Ouço sobre apreensões e operações consideradas um sucesso pela Secretária de Segurança e todas soam como propaganda política e ação inacabada, como se houvessem feito um acordo com os 'locais' para apresentar aqueles 'dados' para a mídia que cobre esta ação.
Lembro de ter assistido um documentário sobre um Posto Policial dentro de uma favela no Rio de Janeiro, onde a ação dos policiais no local diminuíram sensivelmente o índice de crimes no local, mas este documentário passou na BBC de Londres e não em um TV Local, que deveria ter este conhecimento e apresentar os fatos para o público. A proximidade promíscua da imprensa e das autoridades, nos deixam exemplos como este, um comandante crucificado por ser eficiente e eficaz. O prêmio por ser honesto e ético.


Um comentário:

Unknown disse...

Parabéns, depois de quase 2 anos , alguem lê o que escrevemos...Assim é a net.
Abraço.
Voltarei para ler outras postagens.