07 julho 2007

Mulheres que Amo - Competição

Será que sabemos o que fazemos? Temos a percepção de onde nossos atos atuais nos levarão? Acho que não. A maioria de nós deixa a vida nos levar, como na música do Zeca Pagodinho, e poucos conseguem tomando às redeas de sua vida. Este é um exemplo disto.

Marcelo e Ida eram um casal quase perfeito. Eram bonitos, tinham uma vida econômica tranqüila e não eram de viver na balada. Os conheci quando mudei do horário matutino para o noturno na faculdade, mesmo eles estando alguns períodos na minha frente, acabamos fazendo algumas matérias optativas juntos. Assim, nos tornamos amigos.
A vida era muito boa para ambos e tudo indicava que acabariam se casando. Mas tudo deu uma guinada de 360 graus, quando Ida acabou se metendo em uma discussão com uma garota de nome Verônica. Verônica era uma espécie de “patricinha”, mas com muita “pimenta no seu tempero”. Tinha um gênio terrível e seu esporte predileto era humilhar as outras meninas, bem como trazer seus pretendentes aos seus pés. A discussão entre ambas girou em torno da tentativa de Verônica de humilhar uma amiga de Ida, que a defendeu e “saiu por cima” da discussão. Sendo aplaudida por todos os que assistiam impávidos.
Verônica jurou vingança e resolveu atingir Ida onde mais a machucaria: seu relacionamento com Marcelo. Rapidamente, colocou em prática seus planos e foi gradativamente minando o relacionamento de ambos. Ela era deslumbrante e extremamente “sexy”, quando queria. Marcelo acabou ficando fascinado pela atenção dela. Ida percebeu, mas era uma menina simples e de boa índole que não sabia como competir pela atenção de um homem. Acabou desistindo da briga e “entregando de bandeja” Marcelo para sua rival. É claro, sem antes Verônica a humilhar publicamente, como seu novo namorado.
Nós, os amigos de Ida, a consolamos e execramos ao Marcelo, mas Ida o defendeu, pois como ela, ele não conhecia as artimanhas das pessoas “urbanas”. Ambos haviam vindo de cidades do interior do estado. Ida viera de Cachoeira de Macacu e Marcelo de Laje do Muriaé, quase fronteira com Minas e Espírito Santo. Ida sentenciou que aquilo não iria longe, pois Verônica não agüentaria o convívio com alguém tão diferente dela e logo o largaria, trocando-o por um brinquedo novo.
A notícia correu e Verônica quis mostrar a todos que não era apenas um brinquedo e acabou ficando “firme” com Marcelo. Mãos dados, braço em torno da cintura, beijinhos no corredor, tudo para demonstrar os novos apaixonados do oitavo andar do prédio da UERJ. A maioria das meninas via o casal como uma espécie de Príncipe Encantado e sua Cinderela. Apesar de estarem mais para Sapo e Bruxa Malvada da Branca de Neve. O casal “abalou” nas festas e eventos da Faculdade de Administração por quase um ano. Todos apostando quando Verônica estaria enjoada dele e daria um belo “bico em sua bunda”, jogando-o para escanteio.
Mas, após as férias de verão, Ida surgiu com um novo namorado e a competição de Verônica se acirrou novamente. Agora, a disputa era para saber qual dos casais era o mais apaixonado, apesar de apenas Verônica saber da existência deste concurso. Ida vivia sua vida tranqüilamente e acabou esquecendo de Marcelo, cada vez mais envolvido com a “apaixonada” Verônica. Assim, os últimos períodos de faculdade do trio foram marcados por uma disputa silenciosa entre Verônica e Ida, sem que a segunda soubesse disto. Cada nova atitude ou ação de Ida era contra-posta por uma de Verônica e não a deixando perceber sua ligação cada vez maior com a vida de Marcelo.
No último período de faculdade, Marcelo pediu Verônica em casamento. Curso de ação lógico, devido à necessidade de Marcelo retornar para sua terra para cuidar da fazenda de café do pai. Verônica não pensou em mais nada e aceitou de pronto o pedido. Era o seu momento mágico de princesa se tornando realidade. Todos os preparativos para a festa foram realizados, muitos convidados, principalmente da faculdade, os pais de Marcelo vieram de Laje do Muriaé, salão de festas, buffet para quinhentas pessoas, um “dj” especial para festa. Até Ida foi convidada, mas recusou elegantemente. Foi o ponto baixo para Verônica, seu momento de triunfo não seria assistido pela sua rival, mas estava explodindo de felicidade e orgulho no dia da cerimônia.
Viajaram para Las Lenhas no Chile e retornaram para o Rio, pois havia a cerimônia da colação de grau. Depois de tudo isto, foram morar na fazenda dos pais de Marcelo. Foram começar a vida, de verdade. É claro, que nada deu certo a partir de então. Verônica era uma pessoa “urbana”, acostumada à badalação, roupas caras, shopping no fim de semana e, principalmente, pessoas para admirar e invejar sua beleza e charme. Em Laje do Muriaé, na fazenda dos pais de Marcelo, ela descobriu que vaca não tem inveja de ninguém. Pessoas simples dão muito pouca importância a roupa e a aparência de quem quer que seja. As vitrines estão atrasadas quase um século e as novidades chegam com a televisão e não são criadas nas ruas. Não há “raves”, apenas concursos de gado ou um bom e sacolejante forró. A vida de cidade do interior não é talhada para todos. Verônica nunca esqueceu na primeira noite da fazenda, quando os galos da vizinhança a acordaram junto com os raios de sol. Não havia botão de volume ou um botão “mute” para calar os galos. Pior, a vida começava com o sol na fazenda e não havia como silenciar a todos. Nem podia ser feito, parar era perder dinheiro. A vida tranqüila do campo era o verdadeiro inferno de Verônica.
O casamento não durou mais que dois anos. A separação foi amigável, pois Marcelo percebeu que havia casado com uma imagem e não com a mulher que Verônica era. Ela não era a espécie de mulher que pudesse ser a sua companheira, para a vida que estava destinado a levar. Verônica acordou tarde para perceber onde levara sua inconseqüente disputa com Ida. Não escolhera seu destino, não fizera opções, deixou a vida a levar e foi para em uma fazenda com cheiros e animais que nunca vira antes em sua vida. Encontrar pessoas que não conseguia compreender, muito menos compreende-la. Teve de refazer tudo, sua vida inteira, até mesmo retornar para a faculdade. Retomar hábitos e recuperar o tempo perdido de uma vida inconseqüente e de um “tiro que saiu pela culatra”.

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