24 fevereiro 2008

Poesia - Justiça com Olhos e Coração

Imagens e desejos se confudem no pensar de todas as pessoas, queremos algo, mas não desejamos as consequências. Acreditamos em alguma coisa e descartamos tudo mais. A justiça tem motivo de basear suas ações no equilíbrio, pois se deixar levar pelo coração e os olhos, pode muito bem se enganar.

JUSTIÇA COM OLHOS E CORAÇÃO

Cristal estilhaçado
Ao baixo golpe
Da iniqüidade,
Faz-se em pedaços,
Fisiologia e forma
Com labor esculpidos.

Reduz-se à cacos
Conquistas de um povo,
Desorienta o norte da pátria,
Injusta justiça.

Traíste o que aceitara,
Ao abrir os olhos
E se encantar com as luzes
Da riqueza,
E ao abrir o coração,
E compadecer-se com o
Opaco da pobreza.

Justo não é o seu agir,
Pois paradoxalmente
De olhos e coração abertos,
Não há justiça
Em seus atos,
Não há limpidez
Em suas decisões,

Pois ignora os códigos
E com duvidosa mão
Exerce sua própria verdade.
Mata assim mães
Todos os dias.

Põe em risco o perigo
De matar a mãe de todos,
Pois filhos órfãos de mãe,
Não têm mais o que perder.

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Mulheres que Amo - Mulher Invisível

Até que ponto uma pessoa chega pela populariedade? Até onde a pessoa pode descer para alcançar a imagem de sucesso dos outros? Esta estória é uma pequena amostra do ponto em que chegamos.

Existem pessoas quase invisíveis. Pessoas que passam por nós e não as vemos. Pessoas que as tornamos insignificantes. São arrasadas existencialmente por todos nós. É quase como se desejássemos a não existência delas. Wanda era uma das pessoas! Olha, ela era uma menina bonita, mas usava um óculos de grau com aros pretos que deformava seu rosto e escondia seus belos olhos. Acredito que isto a fazia sentir medo dos outros. Falava sempre em tom muito baixo, como se não quisesse incomodar a ninguém. Se desejasse falar com alguém, esperava o tempo que a pessoa achasse necessário a se dignificar a falar com ela. Não conseguia tocar as pessoas. Mantinha uma distância segura e saudável para ela e para os outros, como tivesse uma doença contagiosa.
Ela andava pelo pátio do colégio e ninguém conversava com ela... ninguém falava com ela. Sentava em um canto perto do muro do pátio principal e dali olhava o movimento vivo do colégio. Em seus olhos denotava a inveja de não ser como eles e não estar em seu meio. Conversando, falando, contando, brincando. Fazendo coisas que as pessoas normais faziam, como se ela não fosse uma pessoa normal. Wanda cobrava demais de si mesma. Queria estabelecer um comportamento para si bem acima do necessário. Ela buscava ter uma vida social ativa. Ser popular como outras meninas, mas achava que não merecia ou, então, que não conseguiria.
Foi em uma festa do colégio que tudo mudaria. Wanda tinha a obrigação de ir, pois havia entrega de prêmios e ela era uma das laureadas da noite. Estava decidida a chegar no horário da premiação, pegar o seu e se mandar o mais rápido possível. Vestiu-se a sua maneira invisível, com roupas a esconder seu corpo e com o cabelo mal preparado para a noite e com pouca maquiagem, pois não queria parecer uma vagabunda. Na festa,m Wanda recebeu o prêmio, mas o professor de História não deixou-a sair, acabou ficando conversando com um garoto, em quase um monólogo, pois só ela falava. Ele se ofereceu para levá-la para casa, pois estava com o carro de seu pai, apesar de não ter idade para dirigir. Mas, ao invés de levá-la para casa, foram para um "pega" próximo da praia. Lá estavam muitos dos meninos e meninas mais populares do colégio. Havia bebida... havia drogas... havia meninos bonitos e um certo "frisson" no ar. Wanda não estava preparada para aquilo e acabou ficando. Sabia que deveria voltar para casa, mas deixou envolver-se pelo clima transgressor. Ficou, conheceu um garoto e acabou no carro dele. Foram para a praia e fizeram sexo. Foi sua primeira vez. Nem acreditara que acontecera. Estava radiante com o fato, mesmo tendo sido de forma tão rápida e inusitada.
No dia seguinte no colégio, passou a ser o centro das atenções. Não era mais a "Menina Invisível"! Os garotos vinham falar com ela, brincavam com ela e a olhavam... olhavam muito. Wanda viu tudo mudar a sua volta em apenas uma única noite. No princípio, pensou ter sido o prêmio que recebera, mas logo descobriu que sua noite amorosa estava "a todo vapor" na "rádio-peão". Era o assunto do memento! Wanda ficou indignada com o garoto, mas esqueceu disso rapidamente, pois ganhara uma fama e popularidade que nunca tivera antes. Passou a ser chamada para todas as festas e ser ouvidas por outras garotas. Tomou coragem e mudou seu guarda-roupa, Ousou mais, arriscou mais, apareceu mais.
Nas festas, todas as meninas pressionavam para que ela ficasse com algum garoto. Mas do que isso, queriam que ela fosse para cama com ele e depois fizesse um relatório completo para elas da noite de sexo e paixão. Wanda passou ser "pulo de dez" para todos os garotos. 'Vai lá que é fácil! Ganha a noite tranquilim!' O garoto "chegava" em Wanda e para não perder sua recém adquirida popularidade, Wanda ficava com o garoto e aceitava ir para cama com ele. Por incrível que possa parecer, ela estava feliz com aquela situação, não importando quantos parceiros já tivera, sem nunca ter permanecido namorando com nenhum.
Surgiu, então, um cara novo no colégio e Wanda ficou apaixonada à primeira vista por ele. Deu bola e "caiu matando" até conseguir ficar com ele. Passaram a andar juntos e saírem para todos os lados. Passaram a se conhecer e frequentar a casa um do outro. Descobriram os seus gostos e vontades, percebendo terem muito em comum. A paixão de ambos por Bob Marley era algo indescritível! Tudo parecia estar as "mil maravilhas", quando ele a procurou e terminou tudo. Wanda não conseguia entender o porquê daquilo. Estavam apaixonados e sabia o quanto ele gostava dela. Não podia acreditar que ele havia "chutado". Ficou inconsolável. Nem vou no colégio nos dois primeiros dias após o "fora" dele.
Na semana seguinte, decidiu conversar "a sério" com ele. Tinha que lhe dar uma explicação para aquele ato incompreensível. Assistiu os primeiros tempos de aula impaciente, não conseguia ficar concentrada de jeito nenhum. Só tinha pensamentos para ele e o porquê de ter feito aquilo. O porquê de tê-la abandonado. Tocou o sinal para o intervalo do recreio e ela saiu como um foguete atrás dele. Esperou na frente da sala de aula dele, até ele sair de lá. Pegou-o pelo braço e foram para um lugar reservado. Lá o interrogou de todas as formas possíveis. Pressionou pela verdade. Espremeu o cara até retirar o último sumo de paciência dele. Foi quando ele gritou: 'Não posso ficar namorando uma vagabunda que nem você! Pô, tu já ficou com metade do colégio, maior Maria Maçaneta, pô! Num dá!' Virou as costas e foi embora. Wanda ficou lá chorando e percebendo no que realmente havia se tornado pela popularidade tão desejada. O preço era muito alto. Foi até a sala e pegou suas coisas e foi chorar em casa. No dia seguinte, voltou a usar seus óculos negros de "fundo de garrafa" e suas roupas que a escondiam do mundo. Voltou a ser invisível.

17 fevereiro 2008

Poesia - Por Deus

A religião é assunto sempre delicado e problemático. A fé ainda mais. Nosso poeta nos apresenta sua visão da religião, vamos ouvir o que ele tem a dizer.

POR DEUS


Ovelhas reunidas em rebanho
Sob a atenta vigilância
De seus pastores.

Encerram-se voluntariamente
Em templos
Ouvem instruções
Já a muito sabidas.

Escutam palavras lidas
De códigos de duvidosa
Idoneidade,
Recebem de corações abertos
Indecifráveis conselhos
Emanadas de “sábias mentes”.

Aceitam, acreditando ou não,
A doutrina transmitida,
Encenam rituais mágicos,
Ricos em detalhes,
Fartos em exibição.

Montado o cenário,
Seguem os atores
A desempenhar seus papéis.
Cantam e repetem palavras
Que acreditam transformadoras.

Alguns ficam em silêncio,
Na certa são figurantes,
Outros, porém,
Por acreditarem
Na importância de seus personagens

Exacerbam-se nas demonstrações,
Emitem em altos tons,
Deixando em dúvida,
Se querem sensibilizar a Deus
Ou apenas impressionar ao próximo.

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Boogie Woogie - Um pouco de sorte

Muitas vezes imaginamos a pessoa que comete um crime como um marginal da pior espécie possível, mas às vezes esta imagem não corresponde inteiramente com a verdade. Esta é uma história que tenta mostrar isto.

Na vida você precisa ter um pouco de sorte. Tody encontrou a sua sem querer. Quando ouviu os tiros lá fora na rua, sabia que seu chefe estava "indo desta para uma muito pior". O safado não dera o arrego dos policiais que juraram que ele iria pagar, de um jeito ou de outro. Acho que foi "de outro", mas era uma questão de tempo, pouca gente ficava no cargo de "big boss" por mais de um ano, não seria diferente com o atual. Foi até o fundo da casa e subiu no telhado onde ficava a caixa d'água, abriu-a e procurou o pacote que ele havia pedido para guardar. Ficou olhando por alguns minutos e imaginando quem iria vir buscá-lo.
No dia seguinte, acordou cedo e foi para rua onde receberia em "primeira mão" o relato vívido das últimas horas de seu querido "chefinho". O importante mesmo era quem estava no comando agora. Mas ninguém sabia disto, pois os segundos-em-comando, o braço direito e o esquerdo, também, foram tudo para o saco junto com o "Big Boss". Foi limpeza total, não deixaram ninguém para contar a estória, apenas aqueles que não tem valor algum, como ele. Tody voltou para casa e sentou em cima do pacote, literalmente. Afundou no sofá de casa.
Passaram alguns dias e nada. Não apareceu um novo chefe e nenhuma facção se dignou a assumir o controle local. Sabia bem que o morro dava mais dor de cabeça do que dinheiro, mas sempre tinha algum maluco que achava que podia mudar as coisas para melhor. Ficassem sempre era na pior. Nada funcionava muito bem ali. E duas semanas se foram. Um primo dele muito viciado, estava na maior fissura por um "teco". ficou "enchendo o saco" de Tody, que não aguentou mais e pegou o pacote e vendeu algum para ele. Acho que não deu tempo dele chegar nem na rua com o bagulho bom na mão, já tinha "neguinho" batendo na janela e na porta de Tody querendo, também. O pacote foi embora em menos de 24 horas. Tody guardou cada centavo para entregar ao novo chefe que viria. Só não sabia quando. Ficou esperando o retorno de algum novo "Big Boss". Foi quando os viciados da vizinhança começaram a "torrar a sua paciência" falando para ele arrumar mais. Era quase todo dia, alguém batia na sua porta, abria e encontrava as "fuças" de um "maluco" que nunca vira antes. Mandava os "caras" pastar, mas sempre voltavam e pediam mais.
Foi quando um amigo do amigo apareceu aconselhando a ele montar a "boca" por conta própria, ele arrumaria o bagulho para vender. 'Tá maluco! Gosto muito da minha pele, para entrar nesta robada, tá ligado!' Tody sabia quando surgisse uma nova boca as sopas de letrinhas iriam vir atrás de quem ousou fazer aquela bobagem. O idiota da vez seria ele. Resistiu por algumas semanas, mas a combinação da oportunidade e dos "pentelhos" batendo na sua porta todo dia, o impulsionaram ao empreendedorismo. Escolheu um canto e chamou uns amigos para ajudar e o negócio foi em frente. A !coisa! era tão amadora que eles nem usavam armas. Alguns moleques queriam entrar para o "movimento", mas quando descobriam que não iriam receber armas, desistiam. Na verdade, a "boca" era tocada por três pessoas, Tody e dois amigos, nada mais. Tody vendia o mínimo necessário e guardava até o último níquel da sua parte, pois sabia que um dia alguém iriam querer tomar dele o negócio e ainda iria querer o dinheiro que ele havia faturado. Por este motivo, Tody arrumou um emprego na padaria da Vila, onde aprendeu a fazer pão. Pegava às cinco da manhã e ficava trabalhando até as duas da tarde. Às seis pegava no outro trampo. Nunca gastava um único centavo que ganhava na boca para não chamar a atenção. Não deixava que seus "sócios" fizessem nenhuma bobagem que pudesse atrair olhares alheios sobre eles. E a vida foi boa por quase 18 meses.
Então, como nada que é tão bom dura para sempre, um dos moleques que queriam trabalhar para Tody e recusaram por não ter armas na jogada, Foi até um morro próximo e contou que Tody era o novo "Big Boss" do Boogie Woogie e que estava fazendo "rios de dinheiro" no ponto. Não pagava nada a ninguém e os caras não podiam deixar as coisas assim. Ele podia levar um grupo e invadir aquela merda e tomar tudo daquele bundão. Tody soube que o moleque fora no morro vizinho na mesma hora em que ele saiu de lá. Largou a padaria, chamou seus "sócios" e juntou tudo que tinha, botou tudo em um táxi e se mandou para a rodoviária. Lá comprou uma passagem para Minas Gerais e foram embora da Ilha do Governador para nunca mais colocar o pé lá. Os sócios foram embora, também, para destinos mais próximos: a Baixada Fluminense.
A invasão aconteceu naquela mesma noite, mas não encontraram nada. Ninguém sabia de nada e não havia "boca" nenhuma funcionando no morro. O "Big Boss" do outro morro não gostou nenhum um pouco da brincadeira de mau gosto daquele moleque fissurado em armas. Já que ele gostava tanto delas, por quê não ficar mais próximo delas, bem próximo para falar a verdade. Alojou uma bala de .45 bem no meio da testa do moleque, que caiu durinho e nem chegou aos quinze anos de idade. A paixão o matou. Como não havia nada no morro, o grupo de ataque do morro vizinho foi embora e esqueceu tudo aquilo.
Tody ficou uns seis meses longe do morro e do Rio de Janeiro, mas sempre mantinha o contato para saber o que estava acontecendo por lá. Quando sentiu não haver mais perigo, resolveu que estava na hora de voltar para casa. Antes, foi sozinho até o Rio de Janeiro, fez um saque do dinheiro que havia acumulado e comprou um imóvel em um longínquo bairro da Baixada Fluminense que ninguém nunca ouvira falar. Comprou uma mercearia próxima a sua casa e voltou a Minas para buscar sua família. Veio para a Baixada e começou a sua vida novamente. Alguns meses depois seus amigos mais próximos foram visitá-lo na casa. Fizeram um belo churrasco e comemoraram o retorno de Tody e sua família. Seu primo estava mais interessado em comprar mais bagulho dele, mas Tody não queria dar "sopa para o azar" e mandou seu primo "chegar". O que havia ganho até ali, sem precisar dar nenhum tiro e sem uso de nenhum ato violento, fora o melhor que pudera fazer, na próxima não teria tanta sorte, por isso mesmo, não haveria próxima.

10 fevereiro 2008

Poesia - Pouca Vitória

Nosso poeta vem nos falar de nossos desejos em detrimento de personalidade, o quê é mais importante? Segue sua opinião abaixo.

POUCA VITÓRIA

Da vida pensaste possuir,
Tudo o que a vida lhe deste
Ou tudo o que seus invejosos
Olhos de alheios cobiçaste.

Traçaste planos para conservar
Projetos de conquistar,
Preferiste os ilícitos atalhos
Pelos quais encurtaste o caminho
Que o levou ao cume
Do que julgaste glória.

Morreste, porém a cada passo,
Pois o que pensas possuir,
O tempo, cavalo da justiça
Não tarde levará.

A verdade então descortinada,
Mais uma vez ensinará,
Se não tens a própria vida,
Nada mais podeis ter.

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Mulheres que Amo - Padrões Inalcançáveis

Já perceberam como toda a mulher acredita que deve ter um homem "melhor" que ela. Alguém que tenha uma situação financeira melhor, uma carreira mais bem sucedida ou uma populariedade maior que a dela. Ela cria para padrões cada vez mais difíceis de ser atingidos, como veremos no conto a seguir.

Magda era uma mulher quase perfeita! Desde a sua juventude conseguiu tudo o que queria e podia. Era a melhor aluna de sua turma e a melhor jogadora do time de voleibol do colégio. Seu sucesso era enorme, que em toda a Ilha do Governador, todos a conheciam, tanto por sua beleza quanto por suas capacidades. Era uma loira que conseguiu ter muito mais do que dois neurônios. A menina era show!
Infelizmente, tudo tem seu preço. O equilíbrio deve ser preservado entre todas as coisas. Assim, Magda conseguia sucesso em quase todos os aspectos de sua vida pessoal. Apenas um... e somente um... não a trazia contentamento. Era na sua vida amorosa! Seu enorme sucesso, assustava os garotos de sua idade e os mais velhos, tinham que estar em um padrão elevado para poder sair com ela. Não podia ser vista com qualquer um, muito menos um fracassado. Ela tinha uma reputação a zelar! Então, seu padrão para relacionamentos era o mais inatingível possível. Praticamente, tinha que encontrar uma mistura de Super Homem com Brad Pitt. Tarefa, que venhamos e convenhamos, não é nada fácil.
Sua adolescência foi o céu para seu pai, pois apesar de viver cercada por inúmeros garotos, Magda não tinha relacionamento com nenhum. Na verdade, nunca namorou ninguém na adolescência. Era uma enorme quantidade de nãos que ela distribuía a seus pretendentes. Ninguém estava à sua altura. Se namorados da mesma idade não estavam a sua altura, decidiu buscar um maior de idade. Acabou saindo com um cadete da Aeronáutica, mas o namoro não andou. Ele queria uma mulher submissa para tomar conta da casa e dos filhos, enquanto ela queria construir o foguete que levaria o primeiro brasileiro à Lua. Incompatibilidade de gênios, sem dúvida nenhuma! O tiro saiu pela culatra. Magda decidiu mirar em um novo alvo: Universitários. Conheceu um engenheiro mecânico do 2º período da faculdade. Teve início um dos romances mais rápidos da história. Enquanto ele falava de Marx, comunismo e divisão de bens, Magda estava mais interessada em saber qual era o último grito da estação. Separação por Incompatibilidade de Estilos!
Magda entrou na Universidade, bem provavelmente, virgem. Não por falta de dotes atrativos femininos, mas sim por uma necessidade de alcançar um padrão alto demais. Na Universidade, decidiu terminar com sua invencibilidade de qualquer maneira. Diminuiu o padrão e conheceu o garoto de Biologia. Saíam para as festas e estavam presentes a todo acontecimento social dentro da Universidade. Magda alcançou seu objetivo e o biólogo se tornou o namorado de maior resistência de Magda. Mas não passou ao teste do jantar em família. Foi apresentar o recente candidato a marido, para a rejeição dele ser completa dentro de sua família e amigos. O biólogo dançou.
Depois do biólogo, vários foram os namorados de Magda, ninguém que mereça destaque, vários fracassados, que eram detonados pela família e amigos no primeiro encontro. Magda não parecia ter uma opinião própria, bastava uma crítica mais ácida contra seus relacionamento, e ela chutava o possível candidato. Ninguém nunca estava à sua altura e nem dentro dos parâmetros de validação de sua família e amigos. Era difícil compreender o que ela e todos queriam. O namorado não podia em hipótese nenhuma estar em um patamar de, igualdade ou inferioridade com Magda. Imagine como isto passava a ser torturante, pois Magda era sempre a melhor aluna de sua turma e conseguia um grande destaque em todas as atividades que tentava realizar. Então, se fosse alguém que fizesse o mesmo curso na Universidade, ele tinha de ser de um período mais à frente, quase um formando, ou no mínimo teria de ser que ser uma espécie de Einstein. O período da Universidade se arrastou sem grandes novidades.
Quando estava próxima de se formar, Magda iniciou um relacionamento com um executivo da empresa em que fazia estágio. O cara era bem mais velho, tinha uma vida estável, algumas propriedades, exercia um cargo de poder na empresa, mas... era casado. Apesar de satisfazer quase todos os quesitos possíveis para a admissão no quadro de candidatos, ele tinha um impedimento: era casado. Mas como, era bem sucedido, bonito e impressionava onde chegava... família e amigos argumentavam que um casamento podia ser desfeito, se não havia amor. "É muito comum o número grande de divórcios no Brasil!", argumentavam. "Dizem que já superou o número de casamentos!" As justificativas eram as mais estapafúrdias possíveis. Mas, satisfaziam Magda, que descobriu um novo talento: ser amante. Com certeza, foi seu relacionamento mais duradouro: doze anos. Sempre à espera da inevitável separação dele, agora executivo chefe da companhia. As desculpas mais imbecis do mundo, todas elas eram racionalizadas por Magda e algumas de suas amigas. A família já não era da mesma opinião, apesar de ainda acreditar que aquele tipo de homem era o certo para sua filha viver.
Mas o pior ainda estava por vir, Magda recebeu a notícia de seu amante: iria deixá-la. Magda ficou inconsolável, apostou grande parte de sua vida naquele relacionamento. Merecia saber o motivo! Ele justificou que não ficaria bem para um grande executivo como ele, estar envolvido em um escândalo familiar, em função de manter uma amante, ainda mais sendo uma funcionária da companhia. Magda reclamou, mas aceitou e concordou. Dias depois, após visitar um cliente, estava parada em um sinal de trânsito, próximo ao motel que tantas vezes tinha vindo com ele. Quando viu o carro dele entrando no motel e havia uma loira sentada no banco do carona. A esposa dele era morena! Descobriu, então, que ele havia trocado por uma beldade branquela de 18 aninhos. Uma burrinha e cabeça oca de fartos seios e belos quadris. E que não enchia a paciência dele com a palavra casamento. Magda, então, perdeu o homem perfeito para se casar. Estava velha e cansada da vida solitária que vivera até ali. Foi quando conheceu um vendedor de seguros de meia-idade. Não era lá grandes coisas, mas a fazia rir e se sentir feliz.
Apresentou-o para a família e as amigas. Todos ensaiaram o mesmo discursos. "Ele não é pra você!" "Você merece coisa melhor!""Meu Deus, ele não sabe se vestir direito, e afinal, o que ele tem!" As mil opiniões de sempre, que levaram-na para aquela vida solitária e infeliz. Magda resolveu chutar os padrões para o alto. Não importava que ele ganhasse menos que ela. Não importava que ele não impressionasse sua família e amigos. Não importava se ele não estava à altura dela. O que importava mesmo... era que ela se sentia feliz a seu lado.

02 fevereiro 2008

Poesia - A um Palito de Fósforo

Nosso poeta resolveu ser um pouco diferente... ou será falta de assunto? Não importa!" O que importa é a mudança constante para proporcionar mais uma bela poesia para nós.

A UM PALITO DE FÓSFORO

Tamanha desproporção,
Harmonia fragmentada.

Possui um grande corpo
Esguio e independente,
Sustenta a si próprio
E à cabeça também.

Esta, porém pequena,
Pobre e escravizada,
Negra de qualquer luz.

Se sozinha inexpressiva,
Não há quem a possa notar,
Pois nela não há brilho,
Apenas parece dormir,
Mesmo estando de pé.

Vive a procurar outra parte,
Em total inconsciência.
Para ter vida própria,
Morre da dependência.

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Boogie Woogie - Bloco das Piranhas

É Carnaval! Uma época de total liberdade e liberação dos sentidos e sentimentos. Época de vender felicidade e reunir estórias para o resto de nossas vidas. Esta é uma delas:

O som da marchinha começou a espoucar no Campinho. O carnaval estava sendo iniciado no morro pelo Bloco das Piranhas. A famosa, Cabeleira do Zezé, tinha a honra de abrir os trabalhos do primeiro carnaval do bloco. Era a coroação do esforço de meu tio Isnar, um verdadeiro guerrilheiro da folia de reis.
Tio Isnar era um saxofonista afamado em toda Ilha, pois fora um dos fundadores do famoso Bloco da Shell, o primeiro bloco carnavalesco da Ilha e que daria origem a primeira escola de samba local: O Boi da Freguesia. Mas um bloco carnavalesco era insuficiente para uma paixão tão intensa que ele tinha por esta festa. Isto somado a sua grande paixão pelo morro que o recebera a quinze anos atrás, quando chegara de Alagoas, só poderia resultar em uma festa tão especial e bonita. Mas não foi fácil!
No último carnaval, tio Isnar percebeu que o morro não comemorava o carnaval. Tudo acontecia na planície! Todo o festejo passava ao redor do morro, mas não entrava em seus rincões, alijando muitos moradores da comemoração de Momo. Não podia ficar assim! Resolveu que o ano seguinte seria o ano do bloco do morro. Assim que terminou o carnaval do ano passado, foi até a Sede (da Associação dos Moradores) e conversou com o presidente para acertar que haveria um bloco que inauguraria o carnaval da Ilha. Sairia na sexta-feira às 16 horas e percorreria as principais vias do morro, sem sair de seus limites. O presidente ficou entusiasmado e afirmou que colaboraria. Colocaram cartazes para convocar o povo para participar. Infelizmente, foi uma decepção! Muitos jovens vieram apoiar a iniciativa, mas nenhum era músico e muito menos tinham algum tipo de instrumento para colaborar. Tinham apenas a força de vontade de participar.
Percebendo que sem músicos não haveria bloco, meu tio resolveu procurar alguns dos amigos que já haviam participado do Bloco da Shell e estavam aposentados. Conseguiu três para ajudá-lo. Depois, foi buscar mais músicos fora do morro, mas a grande maioria tinha medo de tocar dentro de uma favela, então, recusavam o convite. Um dos amigos de meu tio sugeriu que poderiam ensinar os mais jovens que tivessem vontade. Feito! Rapidamente, tinham os voluntários necessários para formar a banda. Mas e os instrumentos? Era o problema seguinte a ser enfrentado. Foram recolhidos entre a população do morro alguns instrumentos de segunda mão, alguns instrumentos danificados e algumas doações para a compra de instrumentos. Mas não era o suficiente. Meu tio procurou o bloco da Shell, já de antemão o padrinho do novo bloco, para conseguir alguns instrumentos que os músicos não iriam mais utilizar e alguns músicos doaram instrumentos antigos que tinham em suas casas para colaborar. Tudo certo, tinham instrumentos em bom número para botar o bloco na rua.
O ponto seguinte foi conseguir um local para reunir os voluntários e ensinar-lhes algo que deveria levar anos para fazê-lo de forma razoável. A Sede cedeu duas noites da semana para realização das aulas e ensaios. Tudo começou de forma irregular, nunca conseguindo reunir todo o pessoal, todos tinham algum tipo de problema para resolver que o impediam de participar naquela determinada noite. mas os ensaios avançaram e os garotos começaram a demonstrar talento para a coisa. O melhor grupo foi selecionado para formar o set de metais do bloco, pois eram os instrumentos mais delicados e difíceis de aprender. A galera da percussão fez a festa e com quatro semanas já puxavam a batucada animadamente. O bloco, então, extrapolou a Sede e passou a reunir-se em bares e botequins do morro, animando as noites de sexta e sábado. O bar do Mouro lotava na sexta para vê-los, mas meu tio não participava destas brincadeiras, pois acreditava ser ainda prematuro, não estavam prontos. Pior, ele tinha receio que não ficariam até o carnaval.
Infelizmente, ele estava certo. Não conseguiram ensaiar todas as músicas e apenas o pessoal dos metais estava pronto quando chegou na semana que antecedia o carnaval. O morro estava em polvorosa para ver o bloco sair na sexta-feira antes do início dos festejos. Havia no ar um ambiente orgulhoso do que fora realizado até ali. Meu tio não tinha certeza se aquilo funcionaria, pois ele queria que tudo ficasse perfeito, mas a voz da sabedoria feminina surgiu para dizer-lhe: "Nem tudo na vida pode ficar perfeito, principalmente, quando feito pela primeira vez. Faça apenas o melhor que pode!" Minha tia veio para salvar seu ânimo e ajudá-lo a colocar a festa na rua.
As 14 horas, a maioria dos garotos da banda do bloco já estavam lá. Ensaiando e afinando os instrumentos, discutindo que músicas tocar e qual seria a música de abertura. Crianças e meninas chegavam e observavam o apronto do bloco. Corriam para casa e voltavam com fantasias improvisadas para participar do cortejo do bloco. Chegavam, também, os meninos vestindo suas fantasias de Clóvis e Bate-bola. Os sopros uniam seus sons com a percussão e alguns dos mais idosos começavam a dar os primeiros passos. Era o ensaio do samba que contagiaria todo o morro. As 16 horas, o presidente da Associação veio e anunciou que o carnaval do morro do Boogie Woogie estava aberto e pela primeira vez o Bloco, que ainda não tinha nome, sairia pelas ruas do morro.
A Cabeleira do Zezé animou as pessoas e contagiou a todos, o bloco partiu para sua viagem da alegria. No meio do caminho, no primeiro beco em que passou, um grupo grande de homens de vestido de mulheres saia para ir para o Centro do Rio, brincar o Carnaval, mas contagiado pelo som inesquecível do bloco, juntaram sua felicidade e diversão aos membros do bloco. Dentro do bloco, um enorme núcleo de piranhas foi formado, conseguiram um estandarte com uma calcinha rendada e o bloco ganhou seu nome, que dura até hoje, o Bloco das Piranhas. Foram duas horas de bom samba e muita alegria. Onde passaram, foram aplaudidos pelas pessoas na janelas de suas casas e arrastavam as crianças e até alguns saudosistas. Foi de encher os olhos de meu tio de lágrimas.
As 18 horas o bloco retornou para o Campinho, agora com o dobro do tamanho de quando saíra. Meu tio havia criado um novo filho e estava orgulhoso de seu feito, pois agora não era mais dele e sim da Comunidade. Ele abraçou minha tia e deu um beijo profundo e apaixonado, como para simbolizar seu amor pelo carnaval. Chorou feliz da vida. Chorou pelo amor que sentia naquele dia maravilhosa daquela festa profana de amor e alegria. Graças a Deus, continua amanhã e em todos os anos de sua vida.