24 fevereiro 2008

Mulheres que Amo - Mulher Invisível

Até que ponto uma pessoa chega pela populariedade? Até onde a pessoa pode descer para alcançar a imagem de sucesso dos outros? Esta estória é uma pequena amostra do ponto em que chegamos.

Existem pessoas quase invisíveis. Pessoas que passam por nós e não as vemos. Pessoas que as tornamos insignificantes. São arrasadas existencialmente por todos nós. É quase como se desejássemos a não existência delas. Wanda era uma das pessoas! Olha, ela era uma menina bonita, mas usava um óculos de grau com aros pretos que deformava seu rosto e escondia seus belos olhos. Acredito que isto a fazia sentir medo dos outros. Falava sempre em tom muito baixo, como se não quisesse incomodar a ninguém. Se desejasse falar com alguém, esperava o tempo que a pessoa achasse necessário a se dignificar a falar com ela. Não conseguia tocar as pessoas. Mantinha uma distância segura e saudável para ela e para os outros, como tivesse uma doença contagiosa.
Ela andava pelo pátio do colégio e ninguém conversava com ela... ninguém falava com ela. Sentava em um canto perto do muro do pátio principal e dali olhava o movimento vivo do colégio. Em seus olhos denotava a inveja de não ser como eles e não estar em seu meio. Conversando, falando, contando, brincando. Fazendo coisas que as pessoas normais faziam, como se ela não fosse uma pessoa normal. Wanda cobrava demais de si mesma. Queria estabelecer um comportamento para si bem acima do necessário. Ela buscava ter uma vida social ativa. Ser popular como outras meninas, mas achava que não merecia ou, então, que não conseguiria.
Foi em uma festa do colégio que tudo mudaria. Wanda tinha a obrigação de ir, pois havia entrega de prêmios e ela era uma das laureadas da noite. Estava decidida a chegar no horário da premiação, pegar o seu e se mandar o mais rápido possível. Vestiu-se a sua maneira invisível, com roupas a esconder seu corpo e com o cabelo mal preparado para a noite e com pouca maquiagem, pois não queria parecer uma vagabunda. Na festa,m Wanda recebeu o prêmio, mas o professor de História não deixou-a sair, acabou ficando conversando com um garoto, em quase um monólogo, pois só ela falava. Ele se ofereceu para levá-la para casa, pois estava com o carro de seu pai, apesar de não ter idade para dirigir. Mas, ao invés de levá-la para casa, foram para um "pega" próximo da praia. Lá estavam muitos dos meninos e meninas mais populares do colégio. Havia bebida... havia drogas... havia meninos bonitos e um certo "frisson" no ar. Wanda não estava preparada para aquilo e acabou ficando. Sabia que deveria voltar para casa, mas deixou envolver-se pelo clima transgressor. Ficou, conheceu um garoto e acabou no carro dele. Foram para a praia e fizeram sexo. Foi sua primeira vez. Nem acreditara que acontecera. Estava radiante com o fato, mesmo tendo sido de forma tão rápida e inusitada.
No dia seguinte no colégio, passou a ser o centro das atenções. Não era mais a "Menina Invisível"! Os garotos vinham falar com ela, brincavam com ela e a olhavam... olhavam muito. Wanda viu tudo mudar a sua volta em apenas uma única noite. No princípio, pensou ter sido o prêmio que recebera, mas logo descobriu que sua noite amorosa estava "a todo vapor" na "rádio-peão". Era o assunto do memento! Wanda ficou indignada com o garoto, mas esqueceu disso rapidamente, pois ganhara uma fama e popularidade que nunca tivera antes. Passou a ser chamada para todas as festas e ser ouvidas por outras garotas. Tomou coragem e mudou seu guarda-roupa, Ousou mais, arriscou mais, apareceu mais.
Nas festas, todas as meninas pressionavam para que ela ficasse com algum garoto. Mas do que isso, queriam que ela fosse para cama com ele e depois fizesse um relatório completo para elas da noite de sexo e paixão. Wanda passou ser "pulo de dez" para todos os garotos. 'Vai lá que é fácil! Ganha a noite tranquilim!' O garoto "chegava" em Wanda e para não perder sua recém adquirida popularidade, Wanda ficava com o garoto e aceitava ir para cama com ele. Por incrível que possa parecer, ela estava feliz com aquela situação, não importando quantos parceiros já tivera, sem nunca ter permanecido namorando com nenhum.
Surgiu, então, um cara novo no colégio e Wanda ficou apaixonada à primeira vista por ele. Deu bola e "caiu matando" até conseguir ficar com ele. Passaram a andar juntos e saírem para todos os lados. Passaram a se conhecer e frequentar a casa um do outro. Descobriram os seus gostos e vontades, percebendo terem muito em comum. A paixão de ambos por Bob Marley era algo indescritível! Tudo parecia estar as "mil maravilhas", quando ele a procurou e terminou tudo. Wanda não conseguia entender o porquê daquilo. Estavam apaixonados e sabia o quanto ele gostava dela. Não podia acreditar que ele havia "chutado". Ficou inconsolável. Nem vou no colégio nos dois primeiros dias após o "fora" dele.
Na semana seguinte, decidiu conversar "a sério" com ele. Tinha que lhe dar uma explicação para aquele ato incompreensível. Assistiu os primeiros tempos de aula impaciente, não conseguia ficar concentrada de jeito nenhum. Só tinha pensamentos para ele e o porquê de ter feito aquilo. O porquê de tê-la abandonado. Tocou o sinal para o intervalo do recreio e ela saiu como um foguete atrás dele. Esperou na frente da sala de aula dele, até ele sair de lá. Pegou-o pelo braço e foram para um lugar reservado. Lá o interrogou de todas as formas possíveis. Pressionou pela verdade. Espremeu o cara até retirar o último sumo de paciência dele. Foi quando ele gritou: 'Não posso ficar namorando uma vagabunda que nem você! Pô, tu já ficou com metade do colégio, maior Maria Maçaneta, pô! Num dá!' Virou as costas e foi embora. Wanda ficou lá chorando e percebendo no que realmente havia se tornado pela popularidade tão desejada. O preço era muito alto. Foi até a sala e pegou suas coisas e foi chorar em casa. No dia seguinte, voltou a usar seus óculos negros de "fundo de garrafa" e suas roupas que a escondiam do mundo. Voltou a ser invisível.

Nenhum comentário: