02 fevereiro 2008

Boogie Woogie - Bloco das Piranhas

É Carnaval! Uma época de total liberdade e liberação dos sentidos e sentimentos. Época de vender felicidade e reunir estórias para o resto de nossas vidas. Esta é uma delas:

O som da marchinha começou a espoucar no Campinho. O carnaval estava sendo iniciado no morro pelo Bloco das Piranhas. A famosa, Cabeleira do Zezé, tinha a honra de abrir os trabalhos do primeiro carnaval do bloco. Era a coroação do esforço de meu tio Isnar, um verdadeiro guerrilheiro da folia de reis.
Tio Isnar era um saxofonista afamado em toda Ilha, pois fora um dos fundadores do famoso Bloco da Shell, o primeiro bloco carnavalesco da Ilha e que daria origem a primeira escola de samba local: O Boi da Freguesia. Mas um bloco carnavalesco era insuficiente para uma paixão tão intensa que ele tinha por esta festa. Isto somado a sua grande paixão pelo morro que o recebera a quinze anos atrás, quando chegara de Alagoas, só poderia resultar em uma festa tão especial e bonita. Mas não foi fácil!
No último carnaval, tio Isnar percebeu que o morro não comemorava o carnaval. Tudo acontecia na planície! Todo o festejo passava ao redor do morro, mas não entrava em seus rincões, alijando muitos moradores da comemoração de Momo. Não podia ficar assim! Resolveu que o ano seguinte seria o ano do bloco do morro. Assim que terminou o carnaval do ano passado, foi até a Sede (da Associação dos Moradores) e conversou com o presidente para acertar que haveria um bloco que inauguraria o carnaval da Ilha. Sairia na sexta-feira às 16 horas e percorreria as principais vias do morro, sem sair de seus limites. O presidente ficou entusiasmado e afirmou que colaboraria. Colocaram cartazes para convocar o povo para participar. Infelizmente, foi uma decepção! Muitos jovens vieram apoiar a iniciativa, mas nenhum era músico e muito menos tinham algum tipo de instrumento para colaborar. Tinham apenas a força de vontade de participar.
Percebendo que sem músicos não haveria bloco, meu tio resolveu procurar alguns dos amigos que já haviam participado do Bloco da Shell e estavam aposentados. Conseguiu três para ajudá-lo. Depois, foi buscar mais músicos fora do morro, mas a grande maioria tinha medo de tocar dentro de uma favela, então, recusavam o convite. Um dos amigos de meu tio sugeriu que poderiam ensinar os mais jovens que tivessem vontade. Feito! Rapidamente, tinham os voluntários necessários para formar a banda. Mas e os instrumentos? Era o problema seguinte a ser enfrentado. Foram recolhidos entre a população do morro alguns instrumentos de segunda mão, alguns instrumentos danificados e algumas doações para a compra de instrumentos. Mas não era o suficiente. Meu tio procurou o bloco da Shell, já de antemão o padrinho do novo bloco, para conseguir alguns instrumentos que os músicos não iriam mais utilizar e alguns músicos doaram instrumentos antigos que tinham em suas casas para colaborar. Tudo certo, tinham instrumentos em bom número para botar o bloco na rua.
O ponto seguinte foi conseguir um local para reunir os voluntários e ensinar-lhes algo que deveria levar anos para fazê-lo de forma razoável. A Sede cedeu duas noites da semana para realização das aulas e ensaios. Tudo começou de forma irregular, nunca conseguindo reunir todo o pessoal, todos tinham algum tipo de problema para resolver que o impediam de participar naquela determinada noite. mas os ensaios avançaram e os garotos começaram a demonstrar talento para a coisa. O melhor grupo foi selecionado para formar o set de metais do bloco, pois eram os instrumentos mais delicados e difíceis de aprender. A galera da percussão fez a festa e com quatro semanas já puxavam a batucada animadamente. O bloco, então, extrapolou a Sede e passou a reunir-se em bares e botequins do morro, animando as noites de sexta e sábado. O bar do Mouro lotava na sexta para vê-los, mas meu tio não participava destas brincadeiras, pois acreditava ser ainda prematuro, não estavam prontos. Pior, ele tinha receio que não ficariam até o carnaval.
Infelizmente, ele estava certo. Não conseguiram ensaiar todas as músicas e apenas o pessoal dos metais estava pronto quando chegou na semana que antecedia o carnaval. O morro estava em polvorosa para ver o bloco sair na sexta-feira antes do início dos festejos. Havia no ar um ambiente orgulhoso do que fora realizado até ali. Meu tio não tinha certeza se aquilo funcionaria, pois ele queria que tudo ficasse perfeito, mas a voz da sabedoria feminina surgiu para dizer-lhe: "Nem tudo na vida pode ficar perfeito, principalmente, quando feito pela primeira vez. Faça apenas o melhor que pode!" Minha tia veio para salvar seu ânimo e ajudá-lo a colocar a festa na rua.
As 14 horas, a maioria dos garotos da banda do bloco já estavam lá. Ensaiando e afinando os instrumentos, discutindo que músicas tocar e qual seria a música de abertura. Crianças e meninas chegavam e observavam o apronto do bloco. Corriam para casa e voltavam com fantasias improvisadas para participar do cortejo do bloco. Chegavam, também, os meninos vestindo suas fantasias de Clóvis e Bate-bola. Os sopros uniam seus sons com a percussão e alguns dos mais idosos começavam a dar os primeiros passos. Era o ensaio do samba que contagiaria todo o morro. As 16 horas, o presidente da Associação veio e anunciou que o carnaval do morro do Boogie Woogie estava aberto e pela primeira vez o Bloco, que ainda não tinha nome, sairia pelas ruas do morro.
A Cabeleira do Zezé animou as pessoas e contagiou a todos, o bloco partiu para sua viagem da alegria. No meio do caminho, no primeiro beco em que passou, um grupo grande de homens de vestido de mulheres saia para ir para o Centro do Rio, brincar o Carnaval, mas contagiado pelo som inesquecível do bloco, juntaram sua felicidade e diversão aos membros do bloco. Dentro do bloco, um enorme núcleo de piranhas foi formado, conseguiram um estandarte com uma calcinha rendada e o bloco ganhou seu nome, que dura até hoje, o Bloco das Piranhas. Foram duas horas de bom samba e muita alegria. Onde passaram, foram aplaudidos pelas pessoas na janelas de suas casas e arrastavam as crianças e até alguns saudosistas. Foi de encher os olhos de meu tio de lágrimas.
As 18 horas o bloco retornou para o Campinho, agora com o dobro do tamanho de quando saíra. Meu tio havia criado um novo filho e estava orgulhoso de seu feito, pois agora não era mais dele e sim da Comunidade. Ele abraçou minha tia e deu um beijo profundo e apaixonado, como para simbolizar seu amor pelo carnaval. Chorou feliz da vida. Chorou pelo amor que sentia naquele dia maravilhosa daquela festa profana de amor e alegria. Graças a Deus, continua amanhã e em todos os anos de sua vida.

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