29 março 2008

Poesia - Exemplo da Natureza

A vida segue leis imutáveis! Não de Deus, mas sim da natureza. Ela nos ensina a melhor forma de viver, mas teimamos em não aprender ou querer ser Deus. Se nós pudessemos ouvir a Natureza, como ensina o nosso poeta no seu retorno ao nosso blog, a vida seria muito mais satisfatória para todos.

EXEMPLO DA NATUREZA

Desce ansiosa a montanha
A pequena corredeira,
Abandona sem saudades
Nem remorsos
A fresca gruta
Onde nascera,

Atira-se contra pedras
Que se emparedam
Em seu caminho
Tentando impedir
Seu acidentado trajeto.

Sem receio, lança-se
Em cachoeiras
Para encurtar o tempo
De alcançar seu destino,

Tem pressa a pequena corredeira
Para cumprir o desígnio de natureza,
Alegra-se em nutrir com água fresca
O já forte, vasto e caudaloso rio,
De caminhar sempre incólume e sereno.

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Boogie Woogie - O Sonho da Casa Própria

Um dos sonhos mais comuns de toda família é possuir sua Casa Própria. Por este motivo, o Brasil, o reino dos trambiqueiros e "Gersons" da vida, sempre busca oferecer formas diferentes de proporcionar este sonho aos crédulos de plantão.

Eram nove e meia da noite, a novela das oito já havia começado, quando a Kombi encostou ao lado do terreno baldio no topo do morro. De dentro dela saíram vários homens, com roupas de operários da Prefeitura. Começaram a tirar ferramentas de dentro da Kombi. Eram enxadas, marretas, estacas, cortadores de arame, plainas, socadores, pás dentre outros. Foram dispostos na entrada do terrenos baldio que estava coberto de mato alto. Surgiu, então, uma foice e dois deles a carregavam. Foram para o terreno e começaram a cortar o mato fora. Dois outros pegaram ancinhos e puxavam a grama cortada para fora do terreno.
Enquanto trabalhavam cortando a grama, um terceiro homem fixava uma placa de Obras da Prefeitura do Rio de Janeiro. O terreno havia sido reservado pela administração anterior, no intuito de construir uma área de lazer para o recém-inaugurado Conjunto habitacional do BNH da Pitangueiras, que recebera o carinhoso apelido de "Tijolinho", pois possuía em sua arquitetura, a peculiaridade de deixar, na sua parte inferior, os tijolos maciços vermelhos amostra, como eles eram bem pequenos, assim surgiu o nome popular do Conjunto habitacional.
O serviço estava indo de 'vento em popa', com a metade da área já tendo sido 'capinada' pelos homens. O lixo que estava sendo acumulado, foi reunido em três montes de grama. Neste memento, surgiu um caminhão, sem nenhuma indicação de pertencer à Prefeitura e encostou. Os homens com ancinho começaram a colocar o 'mato' alto cortado para a caçamba do caminhão. Um novo carro, também, estacionou e dois homens, com roupas inadequadas para o trabalho braçal no terreno baldio, desceram e ficaram conversando, apontando em várias direções do terreno. Ninguém pareceu ficar incomodado com aquele súbito movimento no terreno baldio, apesar de ninguém tê-lo limpo nos últimos 3 anos, desde que a nova administração assumiu. Muitos diziam que, a nova administração não iria alimentar uma boa idéia da administração anterior, apesar de ser uma boa idéia. Outros, no entanto, acreditavam que apenas haviam esquecido do projeto. Porém, a maioria achava que o problema seria a falta de verbas, o crônico problema da Administração Pública brasileira. "Deixaram o cofre vazio para ele (Novo Prefeito)! Fizeram a limpa antes de se mandar!" Eram o que todos diziam.
Por volta das onze, o mato já estava todo cortado. Todos se empenharam na limpeza do terreno e o carregamento do lixo acumulado. Antes da meia-noite, não havia mais uma réstia de verde no imenso terreno. O grupo, então, apanhou pá e enxada e os socadores. Começaram a aplainar o terreno e 'afofá-lo'. O serviço era bem mais duro e demorado que o corte do 'mato'. O grupo pegou pesado e o serviço andou bem depressa, apesar da parada para o 'cafezinho' e para beberem água. O horário ajudava bastante, pois sem o calor inclemente do sol, o trabalho ficava mais fácil e rápido para ser realizado.
Um grupo de rapazes que chegava da 'farra' diminuiu o passo para apreciar o trabalho alheio. Ficaram alguns minutos observando, foi quando um dos homens que chegaram no carro, se aproximou e mandou 'seguirem seu caminho', pois não havia nada ali de seu interesse. Os jovens não gostaram e iniciaram uma reclamação, mas um deles percebeu uma arma pendurada na cintura do homem e fez um sinal para que todos se calassem e fossem embora rapidinho. Ninguém mais apareceu para acompanhar o trabalho dos operários da 'Prefeitura'.
O terreno ficou limpo e aplainado por volta das três da manhã. Então, foi a vez das estacas de madeira e do barbante. Barbante?!?! As estacas foram fixadas a partir do fundo do terreno formando quadrados ou retângulos e entre elas foi amarrado barbante, que as unia. Foi deixado, porém uma área livre em forma de corredor entre as marcações das estacas, sendo dois corredores começado na rua e seguindo até o final do terreno e mais dois corredores cortando o terreno em três partes na sua largura. Antes das seis horas da manhã estava tudo pronto. Foi colocado alguns tapumes para ninguém olhar o conteúdo do serviço dos operários da 'Prefeitura'. O sol surgiu e os trabalhadores se retiraram, tão furtivamente quanto chegaram.
Os moradores passaram na frente do terreno e ficaram impressionados com a eficiência dos homens da 'Prefeitura', tecendo altos elogios a um trabalho tão bem feito. O terreno da forma como estava somente servia para acúmulo de lixo e de animais. Os elogios vieram de todos os lados e a satisfação foi total. Naquela noite, o serviço continuou na velocidade da luz da noite anterior. Agora, surgiram vários caminhões com areia, cimento e pedra. Também, havia mais homens trabalhando na 'área de lazer' para entregar para a população. Mas houve um incidente, um senhor de meia-idade já aposentado, servidor Público, resolveu conversar com os homens da 'Prefeitura' para saber o prazo da entrega da 'área de lazer' aos moradores. Foi sumariamente 'enxotado' de lá pelos seguranças da 'Prefeitura'. Reclamou, xingou e até quis briga, mas quando lhe apresentaram o Senhor .45, resolveu 'tirar seu time de campo', mas não se conformava com a falta de educação dos servidores públicos da 'Prefeitura'. Poxa, ele, também, era um servidor Público e nunca havia tratado ninguém assim em seu local de trabalho. "E, olha que tem uma porrada de camarada ruim de onda por aí para te pentelhar!"
Depois do incidente, ninguém mais se aproximou da obra, deixaram para lá. Passada uma semana, algumas estruturas de concreto e cimento já estavam de pé, o estranho era que estavam ocupando toda a extensão do terreno. Alguns moradores estavam se perguntando se não haveria nenhuma área verde para as crianças brincarem. Mas, muitos achavam bom, pois Altas assim gerariam mais sombra e, além do mais, quem quer saber de ver afinal de contas? Alguns dos homens de carro sempre estavam presentes no trabalho noturno da 'Prefeitura'. A obra funcionava todos os dias, inclusive domingo e feriados. O estranho era que só trabalhavam à noite, das 9 às 6 da manhã. Era o sol levantar e todos se retiravam.
Foi um domingo de manhã que os moradores descobriram que aquela não era uma obra da 'Prefeitura'. Os tapumes foram retirados e casas surgiram onde devia haver uma 'área de lazer'. Caminhões de mudança, Kombis e até carrinhos de mão chegaram com os pertences de dezenas de família que ocuparam o terreno no domingo. Era uma nova área de favela, dentro da própria favela. O serviço foi feito rapidamente e ninguém percebeu qual era o verdadeiro motivo. Também, receberam um aviso: "Não falem nada! Fiquem de boquinha fechada, tão me entendendo?" Foi a mensagem que percorreu toda a comunidade. Ninguém avisou polícia e nem Prefeitura. Todos ficaram calados... com medo. Demorou anos para alguém da Prefeitura descobrir que o terreno à ela pertencente, havia sido ocupado. As família já estavam instaladas a muito tempo e era ano eleitoral. Não ficaria nada bem para o Prefeito mandar expulsar famílias de sua casa para a construção de parques e jardins. A Prefeitura decidiu fechar os olhos, os moradores resolveram ficar de 'bico fechado' e os moradores ilegais gritaram por seus direitos à moradia e a uma vida decente. Os únicos que já estavam satisfeitos e longe de toda a confusão armada eram os vendedores dos terrenos, os operários da 'Prefeitura' e os seguranças.

23 março 2008

Mulheres que Amo - Profissão: Mãe

Pode perceber que estou em um momento de focalizar as mães. Alguns fatos ocorridos me chamaram a atenção sobre o assunto. Por este motivo, trago mais uma história sobre mãe para vocês. Uma pequena observação, a todos que estão acostumados a visitar o blog, esta semana não teremos poesia, pois nosso poetinha está com problemas e não pôde enviar o texto semanal. Agradeço a compreensão de todos.

Casamento é um grande desafio, para não dizer... um grande problema. Ter alguma experiência ajuda... não ter pode ser uma dor de cabeça sem fim. Casamento entre adolescentes, sempre foi motivo de grande aflição para os pais, não só pelo sexo em si, mas pelas consequências que este tipo de relação acaba desencadeando. Todos ao redor são tragados para o redemoinho de infelicidade criado pelos noivos de forma egoísta. Assim foi com Leandra e Roberto.
Leandra e Roberto não eram modelos de beleza. Eram crianças comuns do segundo grau do Colégio. Tinham todos os defeitos da idade e muito poucas qualidades, pois nesta idade, ainda não conseguiram criar nada aproveitável. Conheceram e criaram uma ligação forte, pois acreditavam estar destinados um ao outro e se não ficassem juntos, não ficariam com mais ninguém no mundo. E olha, o mundo tem mais de 5 bilhões de habitantes. Os dois eram exigentes ou desesperados. O que, na verdade, acreditavam era: se não ficassem juntos, nunca mais conseguiriam alguém para amá-los, pois não eram o modelo de sucesso dos jovens da época deles. O destino foi o casamento, apesar dos pais deles tentarem de todas as formas evitar. Mas Leandra providenciou o vôo da cegonha bem cedo e Roberto embarcou no vôo a primeira chamada do balcão de atendimento.
Leandra casou com um barrigão de seis meses, mas assim mesmo fez questão do vestido branco, festa e buffet. Não sobrou dinheiro para mais nada e tiveram de ir morar de aluguel em um pequeno apartamento de um conjunto habitacional do BNH. O apartamento caía aos pedaços, mas o jovem casal embarcou em sua jornada pelo conhecimento pessoal. A filha deles, Raquel, nasceu prematura de 8 meses. Passou alguns maus-bocados para sobreviver.
Os riscos da gravidez e pela vida da filha, fez com que os instintos maternais de Leandra ficassem exarcebados. Excluiu todos da família de cuidar da filha, assumindo integralmente a tarefa, nada árdua para uma menina de 19 anos. Foi um fracasso anunciado. Todos algures da primeira infância caíram na cabeça de Leandra, que não conseguia suportar a responsabilidade, mas não queria demonstrar que não estava preparada para ser mãe, portanto suportava tudo calada. Começou a descontar na filha suas frustrações, batendo, gritando e desconsiderando. Ela, também, colocou o marido em segundo plano e não permitiu que participasse dos primeiros meses de vida da própria filha. O excluiu da relação com a filha e com a esposa. Era um intruso em sua própria casa. O afastamento foi total. Leandra passou a viver para a filha, mas sem saber exatamente como fazer isto.
Sem experiência de como criar a sua filha, sem querer ouvir a opinião de seus familiares, dos familiares de seu marido e nem mesmo dele, Leandra criava a criança como cuidava de suas bonecas quando criança. Mas Raquel não era uma boneca. Raquel chorava, reclamava, vomitava, derrubava coisas, fugia e fazia malcriações. Leandra achava aquilo tudo insuportável, pois a filha tinha a obrigação de respeitá-la já que fora ela quem dera a vida à ela. Ela quem a criara, limpara seu cocô, colocara pomada em suas assaduras e a colocara para arrotar. Ela quem suportava as noites de choro interminável, quem a levava ao médico. Ela quem comprava os remédios. O pai não fazia nada disso. Mas Leandra esquecia do principal: ela nunca falava com a filha. Somente ela tinha o direito de falar, a criança deveria ficar calada enquanto um adulto falasse. Sempre ouvira aquilo de sua mãe e de seu pai. Para ela, aquele era um conselho sábio.
Imersa em um mundo que criara para si ao redor da filha. Escolheu não estudar mais. Escolheu não ter um emprego. Escolheu não ter nenhuma identidade que não fosse a ligada a filha e a sua casa. O marido, pelo contrário, começou a trabalhar com o pai e melhorou, entrou na faculdade, conheceu pessoas novas, teve contato com novas realidades, ganhou corpo e cabeça. O mundo ganhou novas cores e sua auto-estima ganhou um 'upgrade' tremendo. Não era mais o garoto medroso e infantil de sua adolescência. Estava alcançando a maturidade. Percebeu, então, o distanciamento que tinha em relação a sua filha. Resolveu corrigir isto. Insistiu com sua esposa e passou a levá-la para o Colégio. Levava para passear, para estudar, para a casa das amiguinhas. Em todo o percurso, falava de seu dia para a filha e perguntava sobre o dela. Criou laços de igualdade com a filha... criou laços de amor e respeito.
Leandra, primeiro, acreditou ser um ótimo passo a proximidade do marido com a filha. Depois, veio o ciúme da intimidade e amizade de ambos. Não conseguia entender o porquê da filha conversar com pai e não com ela. Não entendia, quando os via rindo juntos de algo que não compreendia. Não aceitava a filha não ter segredos com o pai, mas sim com ela. Percebeu, então, a distância que havia entre ela e a filha. Em relação ao marido, a distância já era intransponível. Não conversavam mais, não tinham mais nada em comum e, praticamente, seguiam apenas uma rotina de casados, sem nenhuma real intimidade que não fosse na cama. Não eram mais os adolescentes tolos que haviam se casado contra a vontade de todos.
Hoje, Leandra, que acreditava ser uma heroína por ter vencido todos que estavam contra o seu amor, agora não conseguia compreender o porque casara-se com aquele homem que estava ao seu lado. Vivia o casamento e não o amor. Mas, infelizmente, não conseguia separar as duas coisas. Para ela, como para a maioria das mulheres, estar casada era estar amando. Por este motivo, seu mundo desabou quando o marido a traiu. Não só a traiu, mas contou-lhe tudo e afirmou que iria sair de casa, pois não a amava mais. Na realidade, ele achava que nunca a amara. Foi uma estocada em seu pai. Uma ira profunda nasceu naquele memento. Os dois se separaram!
Leandra decidiu que a filha viria com ela e não daria espaço para o ex-marido traidor vê-la. Uma guerra santa foi iniciada por ela contra o ex-marido traidor. No princípio, todos ficaram ao seu lado nesta luta sagrada. Era um marido canalha que a traíra e tripudiara de seu casamento. Ele rompera uma aliança sagrada abençoada por Deus. Mas, quanto mais Leandra tentava afastar o pai da sua filha, mais as pessoas começavam a passar para o lado dele. Diziam que ela estava exagerando. O pai tinha direitos e estes deviam ser respeitados. Mais do que isso, a filha merecia um pai. 'Minha filha não precisa de um pai canalha!' pensava Leandra. Estava fazendo aquilo tudo pelo bem dela.
Não houve outro jeito, a disputa foi parar no tribunal. Toda a vida de ambos foi devassada e apresentada para deleite público. Os dois lados sofreram no processo, mas a filha sofria mais. Mesmo assim, Leandra sentia que venceria a disputa. O Juiz já estava do seu lado, a pobre mulher traída. Faltava apenas ouvir sua filha, Leandra tinha certeza, que após isto o Juiz decidiria a seu favor e proibiria aquele traidor de chegar perto de sua amada criança. Juiz perguntou a Raquel se ela queria realmente fazer aquilo. Sua filha insistiu que tinha de fazer aquilo. Isto a deixou tão orgulhosa.
Veio, então, a segunda estocada no peito. Raquel disse com todas as letras que desejava ficar com o pai. Pior, justificou a escolha de forma detalhada, falou ter recebido ajuda de uma professora para poder explicar com toda a precisão seus motivos. Explicou a forma como a mãe a criara e o distanciamento em que ela vivia de tudo e de todos. Falou de seu relacionamento com o pai e as coisas que ele lhe ensinara. Falou de muita coisa, mas Leandra somente conseguiu ouvir que a filha queria ficar com o pai. Chorou... chorou... e chorou. E pela primeira vez, pensou: 'Onde eu errei?'

15 março 2008

Poesia - Autofagia

Nosso poeta um dia me disse algo assim: "Em toda morte, há muito de suícidio!" De primeira não compreendi o que ele estava dizendo, depois fui assimilando lentamente esta verdade. Hoje, ele volta com esta idéia, mas de uma forma um pouco mais lúgubre.

AUTOFAGIA

Morri em algum dia da minha vida!
De algo me lembro ainda,
Muito, porém esqueci.
Sei que paguei pra morrer,
Foi tudo o que mereci.

Minha morte foi solene
E não morte vulgar,
Vesti-me com roupa nova
Jurei não recuar.

Juntaram-se algumas pessoas
Para ver-me agonizar,
Sendo morte oficial
Tinham que testemunhar.

Deve ter sido sofrido,
Ou até coisa pior,
Tremia com as mãos,
Molhei-me com suor.

O fato consumado,
Sem ter do que reclamar,
Sozinho e cabisbaixo
Sai pra comemorar.

Não comi comida viva,
E sim espiritual,
Sem cor nem sabor
Sequer com cheiro de sal.

A bebida foi sem álcool,
Pois disso não carecia,
Minha alma fora do corpo
Para o limbo já descia.

Hoje virei churrasco,
Pro inferno fui mandado
Só como brasa de fogo
Tostado por todo lado.

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Boogie Woogie - O Pior Inimigo

Tempos de Dengue! Parece que regredimos para o início do Século XX quando Osvaldo Cruz caçava os mosquitos e seus vetores na cidade causando revolta na população desinformada. Hoje vivemos algo bem parecido com este cenário de quase cem anos atrás, principalmente, que nosso pior inimigo não é o mosquito, mas a nossa total falta de educação e higiene.

Um mosquito é o inimigo público número um do Brasil. O Aedis Aegiptis, o famigerado mosquito da dengue. Estava em todos os cartazes espalhados nas ruas, nas igrejas, nos postos de saúde, nos hospitais. Em todo canto, encontrávamos a representação de nosso arqui-inimigo sanitário. Infelizmente, escolheram o réu errado. O verdadeiro inimigo mora dentro de sua casa, embaixo de nosso próprio teto, dentro de nós mesmos: nossa educação.
A Família costa era uma das mais antigas moradoras do morro que se tem notícia. Vieram para lá, quando havia terrenos de sobra. Por este motivo, era uma das poucas casas em que havia terreno para garagem e até mesmo para árvores. Enquanto nenhuma casa ficava a uma distância maior que um dedo da outra, a casa dos Costa era isolada. Fora construída no meio do terreno e este nunca foi dividido e ninguém pôde construir mais nada dentro dele. Era um oásis de isolamento em um morro do Rio de Janeiro, como não mais existia. Quando a epidemia começou a atacar a todos no bairro, os olhos de todos caíram acusadoramente sobre a Família Costa, pois tinham lixo, pneus e plantas em sua propriedade. Apesar dos conselhos repetidos a exaustão na televisão, não limpavam nada. Não mexiam em nada e não permitiam a ninguém entrar em sua propriedade para fazer o que eles deveriam fazer.
Ocorreram quase 100 casos de dengue no morro, chamando a atenção das autoridades. Primeiro, mandaram o 'fumacê' para desinfetar o morro e melhorar a contaminação. Quando perceberam que a redução dos casos fora muito reduzida, decidiram mandar um grupo de 'mata-mosquitos' para o morro. Andaram por todos os becos e vielas do morro. Entraram em todas as casas e reviraram tudo para encontrar os focos dos mosquitos transmissores da doença. Na maioria das casas, os 'mata-mosquitos' encontraram pequenos focos, mas nada muito preocupante. Ensinaram os moradores a lidar com eles e a prevenir contra a doença. As pequenas recomendações fizeram uma enorme diferença na saúde dos moradores, que ficaram tremendamente agradecidos aqueles bravos guerreiros sanitários.
Mas foi quando entraram no terreno dos Costas que a coisa se mostrou feia. Lá havia muitos focos de mosquito. Focos preocupantes e que, realmente, eram os verdadeiros causadores da epidemia a assolar o morro.
O 'mata-mosquito' que entrou no terreno, decidiu que não poderia fazer nada ali sem ajuda. Deixou um aviso com os moradores e foi embora, para poder voltar no dia seguinte com auxílio e equipamento. No dia seguinte, havia uma 'tropa de choque' no terreno. Limparam o lixo, retiraram os pneus, colocaram veneno contra o mosquito nas redes de esgoto, puseram areia nos vasos de planta, acertaram o terreno irregular que acumulava água e ligaram uma máquina 'fumacê' dentro do terreno, após terem solicitado que toda a família saísse. Um mês depois, não havia mais nenhum caso de dengue no morro.
O verão passou e veio um inverno tranqüilo. Não houve nenhum caso de dengue nas famílias moradoras do morro. O verão, então, começou a anunciar sua chegada com as temporadas de chuvas e muito calor em seguida. Todos os moradores começaram a preparar o combate ao mosquito famigerado. Foi criada uma brigada para ensinar os moradores, todos os cuidados que os 'mata-mosquitos' haviam ensinado no verão passado. A brigada, composta por crianças, seguia de casa em casa para falar com os moradores. Quando chegaram na casa dos Costas, viram todas as irregularidades que tanto problema haviam causado na estação passada. Parecia que o terreno estava voltando a sua antiga forma, tão alterada havia sido após a visita da 'tropa de choque' dos 'mata-mosquitos'. As crianças perceberam o desastre anunciado acontecer em frente a seus olhos novamente. Tentaram conversar com a família toda, para convencer a algum deles a fazer algo contra aquela possível epidemia. Não conseguiram comover nenhum deles. O terreno era deles e ninguém mandaria fazer nada ali dentro que eles não quisessem.
As crianças procuraram a Associação dos Moradores e contaram o que viram. O presidente ficou realmente preocupado, pois fora uma das muitas vítimas do mosquito e, agora, estavam falando de um mosquito que transmitia uma versão fatal da dengue. Foi até a casa para falar com Armando Costa, o patriarca. Reclamou do lixo, das plantas com água, dos pneus e do terreno mal-cuidado. Perguntou se ninguém havia ficado doente na casa deles. É claro que sim, respondeu veemente. 'Então por quê não vai fazer nada para ajudar não acontecer de novo?' O patriarca dos Costas não titubeou: 'Doença é problema do governo! Ele tem de cuidar disso, não eu! Que mandem os homens dele aqui para fazer o que fizeram no ano passado. Isso sim é que tá certo. Não eu, fazer isto por ele!' O lixo continuou a acumular, as plantas encheram de água, o terrenos ficou irregular, surgiram mais pneus e no final do verão, Armando Costa morreu no Hospital Municipal Paulino Werneck. Causa da morte: dengue hemorrágica.

09 março 2008

Poesia - Hemisfério Direito

Emoção é algo indescritível! Tanto para o bem quanto para o mal. Mas qual o preço que pagamos por ela? Nosso poeta segue nos dando pérolas de sua filosofia.

HEMISFÉRIO DIREITO

Instinto que cega
Como a luz do sol,
Que em troca do seu
Brilho calcina a inocente
Retina.

Repele as barreiras do racional
E explode em fúria
Humilhando a débil lógica.

Sobrepõem-se a todos os sons,
Emitindo em todas as ondas
Faz-se onipresente na
Ocupação dos espaços.

Com corpulenta presença,
Desprovido de rumo
Cavalga o instinto
O chucro potro da
Incontida explosão.

Pisoteia os jardins da consciência
E ilumina apenas
O palco onde se encena
A traiçoeira emoção.

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Mulheres que Amo - Maternidade

Todas as mulheres nasceram para ser mãe? Nosso conto de hoje dá uma espiadinha neste mito.

O casamento foi uma festa e tanto! Todos os amigos do colégio estavam presentes. Familiares dos noivos comemoravam alegremente o desenlace dos dois. Era um sorriso só! Todos estavam muito felizes com o desfecho daquele romance de cinco anos. Um romance iniciado no último ano do segundo grau e finalizado logo após a formatura de ambos. Frequentaram a mesma universidade. Combinaram os horários para estarem sempre juntos e concluíram todos os cursos sem repetência. O casamento foi a coroação de um ano perfeito. Uma vitória do Casal 20 perfeito.
Todos sabíamos que terminaria assim... em casamento. Desde a primeira vez que ficaram juntos no colégio, sempre foram uma espécie de casal padrão. Um relacionamento perfeito. A imagem da felicidade! Chegamos a discutir se aquele casal teria algum defeito. Na época, ninguém conseguiu encontrar nenhum. Foram alçados a ícones de felicidade por todos nós. Eram o modelo que gostaríamos de seguir. Pensei até escrever uma novela sobre o amor de ambos. O esforço dela em conquistá-lo e a entrega dele a esse amor, foi algo digno de um bom romance de ficção.
Imagina, então, sete anos após este casamento modelo de comportamento em relacionamentos, descobrir que ele havia terminado. Para mim, que não sou nenhum fã de casamento, uma sentença final neste ritual adorado pelas massas. Mas não fora apenas o final do casamento que me espantou! Foi, principalmente, o motivo do fim do casamento. Simplesmente, a filha deles. A incapacidade deles em lidar com o nascimento e as responsabilidades inerentes a ter um filho. Eles, simplesmente, não conseguiram, juntos, criar uma criança. Parece incrível, o motivo de muitos casamentos durarem, fora o motivo para o fim deste casamento modelo. Quem me contou os detalhes de tudo foi o pai dela, com quem tinha uma grande amizade.
Renato e Carmem eram amigos desde o primário e as famílias se conheciam há muito tempo. Renato era dois anos mais velho do que ela e desabrochou para adolescência mais cedo. Virou o 'queridinho' das meninas e um sucesso nos esportes, no caso dele, o futebol de salão. Carmem sempre fora bem magra e não chamava muito atenção até fazer quinze anos. No baile de debutante, ela realmente debutou para o mundo. Esteve deslumbrante de tão bela e tão feminina. Era uma mulher! E que mulher! Todos notamos, mas logo percebemos que os olhares e desejos tinham um endereço único: Renato. Ele, também, percebeu, mas estava 'enroscado' com outra menina e não queria se comportar como um canalha e manteve a distância. Carmem, porém, não deu sossego! Fez todo o possível para chamar a sua atenção e terminar com o relacionamento dele, o que conseguiu com certa facilidade. Era o destino! Tinham de ficar juntos e amarem-se. O relacionamento começou em um ano mágico para nós, o ano do vestibular. Foi um grande esforço de todos nós que culminou com todo nosso grupo passando para os cursos que desejavam, na Universidade que desejavam.
Ambos, construíram um caminho comum e, juntos, superaram grandes barreiras. Arranjaram emprego antes mesmo do fim do curso e antes do casamento. Quando casaram, já possuíam casa própria e um carro usado. Todos os problemas que afetam a vida a dois fora pensado e resolvido antes de resolveram 'juntar os trapinhos'. O casamento começou sem nenhuma tormenta à vista e sem nada que pudesse atrapalhar a carreira e a vida de ambos. Até vir a decisão de terem um filho. A decisão pareceu natural à todos que os conheciam. Seria o prêmio final para um relacionamento modelo como o deles. Só que não foi!
Na realidade, Renato e Carmem nunca mostraram a menor afinidade com crianças, mas 'ai morreu neves', nenhuma mulher mostra afinidades com crianças, a não ser as de colo, a não ser que sejam seus filhos. Renato sempre teve grande aversão a crianças, cheguei a comentar isto com ele, mas todos protestaram dizendo: "Quando ele vir aquela coisinha linda nos braços...." A conversa findava ali, não havia argumento que pudesse competir com este. O pai dela, também, não estava muito convencido de sua filha ser uma boa mãe, mas estava disposto a ajudar e sua esposa se comprometeu de ajudá-los nos primeiros meses após o nascimento do bebê.
Tudo acertado, Carmem ficou grávida. Teve um parto de cesariana e nasceu Raquel, uma bela e saudável menina. Foi o 'dengo' de todos nas duas famílias, era o primeiro neto dos avós. Era a menina para ser 'paparicada' de todas as formas e com o amor que pai e mãe sentiam um pelo outro, aquela criança só poderia ser a mais feliz de todas. Mas... não foi. Os problemas começaram logo nos primeiros meses.
Carmem estava de licença maternidade, mas Renato não. O choro da criança era um tormento para ele, enquanto Carmem queria que o marido fizesse a mesma quantidade de esforço que ela. Tinham de dividir tudo, Renato não concordou e as brigas intensificaram. A irritação foi aumentando a medida que os problemas da criança sugavam os dois para o redemoinho da vida dela. Doenças, vacinas, cuidados com alimentação, passeios, roupas, gastos. A criança era o centro da vida deles, agora. Para duas pessoas acostumadas a serem o centro de atenções uma da outra, a entrada de um novo elemento não foi muito bem-vindo. Os pais interferiam na tentativa de amenizar os problemas, mas ao invés disto, pioravam a situação, pois acabavam tomando partido de um ou de outro, de acordo com os laços de sangue e não pela razão correta. Chegou ao ponto, dos avós terem de fazer um horário diferenciado para poderem ver a criança e não verem um ao outro. As famílias até, então, tão unidas, estavam agora separadas.
O fato ficou ainda mais tenso, quando Carmem voltou ao trabalho e foi anunciada uma promoção, que deveria ser sua. Todos, na empresa, já contavam com isso, mas a direção acabou optando por trazer alguém de fora. Carmem não falou nada, mas de certa forma culpou a gravidez. Renato, também, estava tendo dificuldades com o sustento da casa pela primeira vez e a esposa não colaborava muito, mantendo seus ganhos fora do orçamento doméstico. A disputa entre ambos foi acirrada pela escassez de recursos financeiros pela primeira vez.
Os problemas chegaram a tal ponto, que Carmem chegou a sair de casa antes da menina completar um ano de idade. Voltou para a casa dos pais, que decidiram colocar suas diferenças de lado e procurarem os pais de Renato. Acertaram uma trégua e contornaram a separação de ambos: "pelo bem da pequena Raquel." A felicidade retornou, mesmo que momentânea. A trégua durou poucos meses e Renato passou a ficar 'preso' no trabalho com a desculpa de estar fazendo horas extras para sustentar a família. Na maioria das vezes, estava gastando o que não devia em alguma happy-hour com os amigos do trabalho. A distância entre os dois começou a crescer. Não mais conversavam sobre os assuntos de trabalho e nem sobre a família um do outro. Passaram a ter apenas um assunto comum: a filha. Segredos passaram a fazer parte da mesa do jantar. Silêncios gritantes da falta de assunto compunham uma sinfonia de distanciamento absurdo em duas pessoas que haviam sido tão próximas quanto seja possível. O casal perfeito... não existia mais.
As fugas de Renato da sua própria casa ficaram cada vez maiores, incluindo os finais de semana. Havia futebol, curso de aperfeiçoamento, encontro entre amigos e até eventos do trabalho, qualquer coisa para ficar longe da mulher e da filha. Não demorou para surgir, também, uma mulher que não brigava com ele e não falava de fraldas e vômitos. Ele criou um porto-seguro longe de casa. Mas não era só ele! Carmem contratou uma babá em tempo integral assim que a menina completou um ano de idade. Parou de amamentá-la o mais cedo possível, pois estava 'acabando com seus peitos durinhos'. Ela engordou bastante após a gravidez e as brigas e discussões, fizeram que ela começasse a comer desenfreadamente. Para combater tudo isto, veio a Academia de Ginástica. Vieram novas amigas e um novo mundo distante do marido e da filha.
Lembro bem, ter encontrado Carmem, Raquel e a babá no calçadão. Durante a conversa, percebi nitidamente que a babá sabia mais sobre a criança do que a própria mãe. Não vi Carmem segurá-la no colo nenhuma vez. Na verdade, somente a via com Raquel nos braços em algum evento social que ela e Renato deveriam ir. Ademais, a distância da criança era algo palpável, Logo foi percebido e comentado por todos. Assim como, a frieza que o casal tratava um ao outro. A descoberta da amante, apenas finalizou um casamento que não estava preparado para encarar o desafio seguinte: a criação de filhos.

02 março 2008

Poesia - Arrastando

Um certo eterno retorno de nosso poeta é a sua inseparável relação com o Deus Tempo, o mais implacável e distante de todos os deuses humanos.

ARRASTANDO

De todo o tempo
Que tenho
Mais longo é aquele
Tempo
Que tenho que esperar.

Mais preguiçosas as horas
Que pachorrentas
Não se transformam
Em horas de chegar.

Mais paquidérmico
E gorduroso
Faz-se o vagar,
Atropelando o tempo
Na sua vontade de transformar.

Maurício Granzinolli
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Boogie Woogie - Legado

Justiça, por incrível que possa parecer, é um ato fundamental em qualquer sociedade, sem ela seria impossível viver ou alcançar tudo que o ser humano conseguiu. Mas e sem ela, oq ue aconteceria? Aqui vemos uma pequena amostra do que a falta da justiça pode causar no destino de alguém.

Ele chegou por trás, puxou o cão do revólver para trás lentamente, sem fazer barulho algum. Pé ante pé se aproximou e colocou a arma na direção da cabeça dele e puxou o gatilho. O cérebro dele foi espalhado sobre o balcão do bar. Gritos por todo o lado. Pessoas correndo e os amigos a seu lado... assustados. Todos ficaram sem palavras, enquanto o assassino apreciava a cena de seu trabalho. O sangue escorria pelo balcão, pingando no chão. O assassino chegou perto e cuspiu na cabeça de Douglas. Virou para os dois amigos dele que o acompanhavam e disse algo, mas ninguém conseguiu ouvir. Foi embora.
Na casa de Douglas o eco do disparo se fez ouvir no desespero de uma mãe. Sabia que seu filho estava envolvido em 'coisas erradas', mas nunca poderia imaginar que o destino reservado para ele seria esse. Chorou copiosamente na sal e foi acalmada por seu filho mais novo: Diego. Diego era o reverso do irmão, bem comportado, estudioso e uma doce criança, mesmo assim adorava o irmão mais velho. Pois o irmão mais velho nunca quis que ele seguisse seus passos errados. Achava que o irmão poderia ter algo mais... algo melhor. Sair dali e levar sua mãe para um lugar melhor. Muito do dinheiro que ganhava com as 'coisas erradas' era guardado em uma conta poupança no nome do irmão, para poder estudar no futuro. O destino batia à sua porta.
Enterraram Douglas e a vida seguiu, mas Diego queria honrar seu irmão. Queria vingança da maneira certa para o irmão. Queria seu assassino preso, julgado e condenado. A família foi a polícia, apesar das ameaças que sofreram para não fazê-lo. A coragem falou mais alto e registraram a queixa, mas como Douglas era um bandido conhecido e fichado, ninguém deu nenhuma atenção. Vários policiais disseram que deveriam dar uma medalha para o cara que fez aquilo, menos um desgraçado no mundo. Sem esforço de ninguém, a história rapidamente caiu no esquecimento. Mas não para Diego e nem para a família.
Diego juntou o máximo que pôde para levar o caso há algum advogado que pudesse ajudá-lo a condenar o safado que fizera aquilo ao seu irmão. Ficou obcecado e colocou os estudos de lado para dedicar-se a vingar o irmão. Sofria pressões e ameaças dos bandidos ligados ao assassino de seu irmão. Não desistiu! Investigou e conseguiu provas físicas, já que não poderia contar com testemunho dos presentes na hora do assassinato. Juntou tudo e entregou a uma advogado levar o caso à Justiça. Logo depois de notificado o assassino de seu irmão, Diego foi atacado por cinco caras que deram uma surra tão grande que ficou internado na UTI por duas semanas. Sua mãe quase morreu de preocupação. Ela, então, decidiu colocar a casa à venda e irem embora do morro. E foram.
Passaram anos e o caso foi a julgamento, Diego foi à corte, apenas para descobrir que o assassino de seu irmão foi inocentado por todas as acusações. Saiu andando do fórum sem nenhum problema, ainda apontou o dedo para Diego em forma de uma arma e apontou o gatilho. chegou perto e falou: "vou atrás de ti e da vagabunda da tua mãe!" Toda a 'corriola' que o acompanhava riram 'à beça' e saíram fazendo sinais de disparos contra Diego.
Diego, então, percebeu que por meio da Justiça não conseguiria vingar o irmão. Por meios legais não funcionou, Diego decidiu trilhar o caminho ilegal. Mandou a mãe para uma cidade em Minas Gerais e escondeu no interior do Estado. Lá aprendeu a usar uma arma e treinou tiro, até ficar muito bom no disparo à distância. Preparou o corpo também e quando se sentiu pronto, foi até o bando rival que lutava pelo controle do morro e falou que queria entrar pro time. Sob risos, Diego comprometeu a dar uma demonstração do que era capaz, se lhe dessem uma arma nova. O chefe deu uma arma a ele e perguntou o que faria: Vou matar o filha da puta que matou meu irmão!" Saiu resoluto da casa, foi até a rua Central, sabia onde os garotos da gangue rival ficava, carregou a arma com 12 balas e preparou. Quando estava a menos de 100 metros deles, começou a disparar. Os três primeiros tiros derrubaram três deles. Esconderam atrás de um balcão e tentaram se defender, mas muitos deles não estavam armados. Diego disparou sua arma até ficar vazia, conseguiu acertar mais dois. Três fugiram e ficou apenas o assassino de seu irmão, que tentava acertar Diego, mas este foi mais preciso e conseguiu acertar o braço dele, que derrubou a arma. Diego carregou novamente sua arma e caminhou tranquilamente até o assassino de seu irmão. A cada passo que dava disparava um tiro, primeiro acertou a perna, depois acertou na barriga e depois acertou na virilha. O assassino de seu irmão urrava de dor e desmaiou. Diego pegou água e jogou em seu rosto. Quando acordou, encarou-o profundamente, enquanto ele implorava por piedade. Disparou os oito tiros à queima-roupa até que o rosto do assassino de seu irmão tivesse transformado em uma massa disforme. Carregou a arma de novo e foi embora, sem que ninguém se aproximasse dele.
Depois disso, ganhou fama e ascendeu na hierarquia. Acabou indo mais longe dentro da organização criminosa do que seu irmão Douglas foi. Ganhou dinheiro suficiente para sair daquela vida, mas nada mais lhe importava. Enviou todo dinheiro que ganhou para sua mãe. Todo dinheiro que ganhava mandava para ela e nada ficava com ele, apenas o suficiente para sobreviver. Morava em um barraco sem móveis e apenas com um colchonete e um fogareiro. Não tinha geladeiras e nem um tipo de conforto doméstico. Comia mal e não se cuidava, nunca teve uma namorada. Fazia apenas seu trabalho... matar. Até o dia que foi morto por policiais, alguns dos quais haviam ridicularizado à morte de seu irmão. Tudo acabou. Sem nenhuma justiça e com uma família sem futuro.