Pode perceber que estou em um momento de focalizar as mães. Alguns fatos ocorridos me chamaram a atenção sobre o assunto. Por este motivo, trago mais uma história sobre mãe para vocês. Uma pequena observação, a todos que estão acostumados a visitar o blog, esta semana não teremos poesia, pois nosso poetinha está com problemas e não pôde enviar o texto semanal. Agradeço a compreensão de todos.
Casamento é um grande desafio, para não dizer... um grande problema. Ter alguma experiência ajuda... não ter pode ser uma dor de cabeça sem fim. Casamento entre adolescentes, sempre foi motivo de grande aflição para os pais, não só pelo sexo em si, mas pelas consequências que este tipo de relação acaba desencadeando. Todos ao redor são tragados para o redemoinho de infelicidade criado pelos noivos de forma egoísta. Assim foi com Leandra e Roberto.
Leandra e Roberto não eram modelos de beleza. Eram crianças comuns do segundo grau do Colégio. Tinham todos os defeitos da idade e muito poucas qualidades, pois nesta idade, ainda não conseguiram criar nada aproveitável. Conheceram e criaram uma ligação forte, pois acreditavam estar destinados um ao outro e se não ficassem juntos, não ficariam com mais ninguém no mundo. E olha, o mundo tem mais de 5 bilhões de habitantes. Os dois eram exigentes ou desesperados. O que, na verdade, acreditavam era: se não ficassem juntos, nunca mais conseguiriam alguém para amá-los, pois não eram o modelo de sucesso dos jovens da época deles. O destino foi o casamento, apesar dos pais deles tentarem de todas as formas evitar. Mas Leandra providenciou o vôo da cegonha bem cedo e Roberto embarcou no vôo a primeira chamada do balcão de atendimento.
Leandra casou com um barrigão de seis meses, mas assim mesmo fez questão do vestido branco, festa e buffet. Não sobrou dinheiro para mais nada e tiveram de ir morar de aluguel em um pequeno apartamento de um conjunto habitacional do BNH. O apartamento caía aos pedaços, mas o jovem casal embarcou em sua jornada pelo conhecimento pessoal. A filha deles, Raquel, nasceu prematura de 8 meses. Passou alguns maus-bocados para sobreviver.
Os riscos da gravidez e pela vida da filha, fez com que os instintos maternais de Leandra ficassem exarcebados. Excluiu todos da família de cuidar da filha, assumindo integralmente a tarefa, nada árdua para uma menina de 19 anos. Foi um fracasso anunciado. Todos algures da primeira infância caíram na cabeça de Leandra, que não conseguia suportar a responsabilidade, mas não queria demonstrar que não estava preparada para ser mãe, portanto suportava tudo calada. Começou a descontar na filha suas frustrações, batendo, gritando e desconsiderando. Ela, também, colocou o marido em segundo plano e não permitiu que participasse dos primeiros meses de vida da própria filha. O excluiu da relação com a filha e com a esposa. Era um intruso em sua própria casa. O afastamento foi total. Leandra passou a viver para a filha, mas sem saber exatamente como fazer isto.
Sem experiência de como criar a sua filha, sem querer ouvir a opinião de seus familiares, dos familiares de seu marido e nem mesmo dele, Leandra criava a criança como cuidava de suas bonecas quando criança. Mas Raquel não era uma boneca. Raquel chorava, reclamava, vomitava, derrubava coisas, fugia e fazia malcriações. Leandra achava aquilo tudo insuportável, pois a filha tinha a obrigação de respeitá-la já que fora ela quem dera a vida à ela. Ela quem a criara, limpara seu cocô, colocara pomada em suas assaduras e a colocara para arrotar. Ela quem suportava as noites de choro interminável, quem a levava ao médico. Ela quem comprava os remédios. O pai não fazia nada disso. Mas Leandra esquecia do principal: ela nunca falava com a filha. Somente ela tinha o direito de falar, a criança deveria ficar calada enquanto um adulto falasse. Sempre ouvira aquilo de sua mãe e de seu pai. Para ela, aquele era um conselho sábio.
Imersa em um mundo que criara para si ao redor da filha. Escolheu não estudar mais. Escolheu não ter um emprego. Escolheu não ter nenhuma identidade que não fosse a ligada a filha e a sua casa. O marido, pelo contrário, começou a trabalhar com o pai e melhorou, entrou na faculdade, conheceu pessoas novas, teve contato com novas realidades, ganhou corpo e cabeça. O mundo ganhou novas cores e sua auto-estima ganhou um 'upgrade' tremendo. Não era mais o garoto medroso e infantil de sua adolescência. Estava alcançando a maturidade. Percebeu, então, o distanciamento que tinha em relação a sua filha. Resolveu corrigir isto. Insistiu com sua esposa e passou a levá-la para o Colégio. Levava para passear, para estudar, para a casa das amiguinhas. Em todo o percurso, falava de seu dia para a filha e perguntava sobre o dela. Criou laços de igualdade com a filha... criou laços de amor e respeito.
Leandra, primeiro, acreditou ser um ótimo passo a proximidade do marido com a filha. Depois, veio o ciúme da intimidade e amizade de ambos. Não conseguia entender o porquê da filha conversar com pai e não com ela. Não entendia, quando os via rindo juntos de algo que não compreendia. Não aceitava a filha não ter segredos com o pai, mas sim com ela. Percebeu, então, a distância que havia entre ela e a filha. Em relação ao marido, a distância já era intransponível. Não conversavam mais, não tinham mais nada em comum e, praticamente, seguiam apenas uma rotina de casados, sem nenhuma real intimidade que não fosse na cama. Não eram mais os adolescentes tolos que haviam se casado contra a vontade de todos.
Hoje, Leandra, que acreditava ser uma heroína por ter vencido todos que estavam contra o seu amor, agora não conseguia compreender o porque casara-se com aquele homem que estava ao seu lado. Vivia o casamento e não o amor. Mas, infelizmente, não conseguia separar as duas coisas. Para ela, como para a maioria das mulheres, estar casada era estar amando. Por este motivo, seu mundo desabou quando o marido a traiu. Não só a traiu, mas contou-lhe tudo e afirmou que iria sair de casa, pois não a amava mais. Na realidade, ele achava que nunca a amara. Foi uma estocada em seu pai. Uma ira profunda nasceu naquele memento. Os dois se separaram!
Leandra decidiu que a filha viria com ela e não daria espaço para o ex-marido traidor vê-la. Uma guerra santa foi iniciada por ela contra o ex-marido traidor. No princípio, todos ficaram ao seu lado nesta luta sagrada. Era um marido canalha que a traíra e tripudiara de seu casamento. Ele rompera uma aliança sagrada abençoada por Deus. Mas, quanto mais Leandra tentava afastar o pai da sua filha, mais as pessoas começavam a passar para o lado dele. Diziam que ela estava exagerando. O pai tinha direitos e estes deviam ser respeitados. Mais do que isso, a filha merecia um pai. 'Minha filha não precisa de um pai canalha!' pensava Leandra. Estava fazendo aquilo tudo pelo bem dela.
Não houve outro jeito, a disputa foi parar no tribunal. Toda a vida de ambos foi devassada e apresentada para deleite público. Os dois lados sofreram no processo, mas a filha sofria mais. Mesmo assim, Leandra sentia que venceria a disputa. O Juiz já estava do seu lado, a pobre mulher traída. Faltava apenas ouvir sua filha, Leandra tinha certeza, que após isto o Juiz decidiria a seu favor e proibiria aquele traidor de chegar perto de sua amada criança. Juiz perguntou a Raquel se ela queria realmente fazer aquilo. Sua filha insistiu que tinha de fazer aquilo. Isto a deixou tão orgulhosa.
Veio, então, a segunda estocada no peito. Raquel disse com todas as letras que desejava ficar com o pai. Pior, justificou a escolha de forma detalhada, falou ter recebido ajuda de uma professora para poder explicar com toda a precisão seus motivos. Explicou a forma como a mãe a criara e o distanciamento em que ela vivia de tudo e de todos. Falou de seu relacionamento com o pai e as coisas que ele lhe ensinara. Falou de muita coisa, mas Leandra somente conseguiu ouvir que a filha queria ficar com o pai. Chorou... chorou... e chorou. E pela primeira vez, pensou: 'Onde eu errei?'