15 março 2008

Boogie Woogie - O Pior Inimigo

Tempos de Dengue! Parece que regredimos para o início do Século XX quando Osvaldo Cruz caçava os mosquitos e seus vetores na cidade causando revolta na população desinformada. Hoje vivemos algo bem parecido com este cenário de quase cem anos atrás, principalmente, que nosso pior inimigo não é o mosquito, mas a nossa total falta de educação e higiene.

Um mosquito é o inimigo público número um do Brasil. O Aedis Aegiptis, o famigerado mosquito da dengue. Estava em todos os cartazes espalhados nas ruas, nas igrejas, nos postos de saúde, nos hospitais. Em todo canto, encontrávamos a representação de nosso arqui-inimigo sanitário. Infelizmente, escolheram o réu errado. O verdadeiro inimigo mora dentro de sua casa, embaixo de nosso próprio teto, dentro de nós mesmos: nossa educação.
A Família costa era uma das mais antigas moradoras do morro que se tem notícia. Vieram para lá, quando havia terrenos de sobra. Por este motivo, era uma das poucas casas em que havia terreno para garagem e até mesmo para árvores. Enquanto nenhuma casa ficava a uma distância maior que um dedo da outra, a casa dos Costa era isolada. Fora construída no meio do terreno e este nunca foi dividido e ninguém pôde construir mais nada dentro dele. Era um oásis de isolamento em um morro do Rio de Janeiro, como não mais existia. Quando a epidemia começou a atacar a todos no bairro, os olhos de todos caíram acusadoramente sobre a Família Costa, pois tinham lixo, pneus e plantas em sua propriedade. Apesar dos conselhos repetidos a exaustão na televisão, não limpavam nada. Não mexiam em nada e não permitiam a ninguém entrar em sua propriedade para fazer o que eles deveriam fazer.
Ocorreram quase 100 casos de dengue no morro, chamando a atenção das autoridades. Primeiro, mandaram o 'fumacê' para desinfetar o morro e melhorar a contaminação. Quando perceberam que a redução dos casos fora muito reduzida, decidiram mandar um grupo de 'mata-mosquitos' para o morro. Andaram por todos os becos e vielas do morro. Entraram em todas as casas e reviraram tudo para encontrar os focos dos mosquitos transmissores da doença. Na maioria das casas, os 'mata-mosquitos' encontraram pequenos focos, mas nada muito preocupante. Ensinaram os moradores a lidar com eles e a prevenir contra a doença. As pequenas recomendações fizeram uma enorme diferença na saúde dos moradores, que ficaram tremendamente agradecidos aqueles bravos guerreiros sanitários.
Mas foi quando entraram no terreno dos Costas que a coisa se mostrou feia. Lá havia muitos focos de mosquito. Focos preocupantes e que, realmente, eram os verdadeiros causadores da epidemia a assolar o morro.
O 'mata-mosquito' que entrou no terreno, decidiu que não poderia fazer nada ali sem ajuda. Deixou um aviso com os moradores e foi embora, para poder voltar no dia seguinte com auxílio e equipamento. No dia seguinte, havia uma 'tropa de choque' no terreno. Limparam o lixo, retiraram os pneus, colocaram veneno contra o mosquito nas redes de esgoto, puseram areia nos vasos de planta, acertaram o terreno irregular que acumulava água e ligaram uma máquina 'fumacê' dentro do terreno, após terem solicitado que toda a família saísse. Um mês depois, não havia mais nenhum caso de dengue no morro.
O verão passou e veio um inverno tranqüilo. Não houve nenhum caso de dengue nas famílias moradoras do morro. O verão, então, começou a anunciar sua chegada com as temporadas de chuvas e muito calor em seguida. Todos os moradores começaram a preparar o combate ao mosquito famigerado. Foi criada uma brigada para ensinar os moradores, todos os cuidados que os 'mata-mosquitos' haviam ensinado no verão passado. A brigada, composta por crianças, seguia de casa em casa para falar com os moradores. Quando chegaram na casa dos Costas, viram todas as irregularidades que tanto problema haviam causado na estação passada. Parecia que o terreno estava voltando a sua antiga forma, tão alterada havia sido após a visita da 'tropa de choque' dos 'mata-mosquitos'. As crianças perceberam o desastre anunciado acontecer em frente a seus olhos novamente. Tentaram conversar com a família toda, para convencer a algum deles a fazer algo contra aquela possível epidemia. Não conseguiram comover nenhum deles. O terreno era deles e ninguém mandaria fazer nada ali dentro que eles não quisessem.
As crianças procuraram a Associação dos Moradores e contaram o que viram. O presidente ficou realmente preocupado, pois fora uma das muitas vítimas do mosquito e, agora, estavam falando de um mosquito que transmitia uma versão fatal da dengue. Foi até a casa para falar com Armando Costa, o patriarca. Reclamou do lixo, das plantas com água, dos pneus e do terreno mal-cuidado. Perguntou se ninguém havia ficado doente na casa deles. É claro que sim, respondeu veemente. 'Então por quê não vai fazer nada para ajudar não acontecer de novo?' O patriarca dos Costas não titubeou: 'Doença é problema do governo! Ele tem de cuidar disso, não eu! Que mandem os homens dele aqui para fazer o que fizeram no ano passado. Isso sim é que tá certo. Não eu, fazer isto por ele!' O lixo continuou a acumular, as plantas encheram de água, o terrenos ficou irregular, surgiram mais pneus e no final do verão, Armando Costa morreu no Hospital Municipal Paulino Werneck. Causa da morte: dengue hemorrágica.

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