09 março 2008

Mulheres que Amo - Maternidade

Todas as mulheres nasceram para ser mãe? Nosso conto de hoje dá uma espiadinha neste mito.

O casamento foi uma festa e tanto! Todos os amigos do colégio estavam presentes. Familiares dos noivos comemoravam alegremente o desenlace dos dois. Era um sorriso só! Todos estavam muito felizes com o desfecho daquele romance de cinco anos. Um romance iniciado no último ano do segundo grau e finalizado logo após a formatura de ambos. Frequentaram a mesma universidade. Combinaram os horários para estarem sempre juntos e concluíram todos os cursos sem repetência. O casamento foi a coroação de um ano perfeito. Uma vitória do Casal 20 perfeito.
Todos sabíamos que terminaria assim... em casamento. Desde a primeira vez que ficaram juntos no colégio, sempre foram uma espécie de casal padrão. Um relacionamento perfeito. A imagem da felicidade! Chegamos a discutir se aquele casal teria algum defeito. Na época, ninguém conseguiu encontrar nenhum. Foram alçados a ícones de felicidade por todos nós. Eram o modelo que gostaríamos de seguir. Pensei até escrever uma novela sobre o amor de ambos. O esforço dela em conquistá-lo e a entrega dele a esse amor, foi algo digno de um bom romance de ficção.
Imagina, então, sete anos após este casamento modelo de comportamento em relacionamentos, descobrir que ele havia terminado. Para mim, que não sou nenhum fã de casamento, uma sentença final neste ritual adorado pelas massas. Mas não fora apenas o final do casamento que me espantou! Foi, principalmente, o motivo do fim do casamento. Simplesmente, a filha deles. A incapacidade deles em lidar com o nascimento e as responsabilidades inerentes a ter um filho. Eles, simplesmente, não conseguiram, juntos, criar uma criança. Parece incrível, o motivo de muitos casamentos durarem, fora o motivo para o fim deste casamento modelo. Quem me contou os detalhes de tudo foi o pai dela, com quem tinha uma grande amizade.
Renato e Carmem eram amigos desde o primário e as famílias se conheciam há muito tempo. Renato era dois anos mais velho do que ela e desabrochou para adolescência mais cedo. Virou o 'queridinho' das meninas e um sucesso nos esportes, no caso dele, o futebol de salão. Carmem sempre fora bem magra e não chamava muito atenção até fazer quinze anos. No baile de debutante, ela realmente debutou para o mundo. Esteve deslumbrante de tão bela e tão feminina. Era uma mulher! E que mulher! Todos notamos, mas logo percebemos que os olhares e desejos tinham um endereço único: Renato. Ele, também, percebeu, mas estava 'enroscado' com outra menina e não queria se comportar como um canalha e manteve a distância. Carmem, porém, não deu sossego! Fez todo o possível para chamar a sua atenção e terminar com o relacionamento dele, o que conseguiu com certa facilidade. Era o destino! Tinham de ficar juntos e amarem-se. O relacionamento começou em um ano mágico para nós, o ano do vestibular. Foi um grande esforço de todos nós que culminou com todo nosso grupo passando para os cursos que desejavam, na Universidade que desejavam.
Ambos, construíram um caminho comum e, juntos, superaram grandes barreiras. Arranjaram emprego antes mesmo do fim do curso e antes do casamento. Quando casaram, já possuíam casa própria e um carro usado. Todos os problemas que afetam a vida a dois fora pensado e resolvido antes de resolveram 'juntar os trapinhos'. O casamento começou sem nenhuma tormenta à vista e sem nada que pudesse atrapalhar a carreira e a vida de ambos. Até vir a decisão de terem um filho. A decisão pareceu natural à todos que os conheciam. Seria o prêmio final para um relacionamento modelo como o deles. Só que não foi!
Na realidade, Renato e Carmem nunca mostraram a menor afinidade com crianças, mas 'ai morreu neves', nenhuma mulher mostra afinidades com crianças, a não ser as de colo, a não ser que sejam seus filhos. Renato sempre teve grande aversão a crianças, cheguei a comentar isto com ele, mas todos protestaram dizendo: "Quando ele vir aquela coisinha linda nos braços...." A conversa findava ali, não havia argumento que pudesse competir com este. O pai dela, também, não estava muito convencido de sua filha ser uma boa mãe, mas estava disposto a ajudar e sua esposa se comprometeu de ajudá-los nos primeiros meses após o nascimento do bebê.
Tudo acertado, Carmem ficou grávida. Teve um parto de cesariana e nasceu Raquel, uma bela e saudável menina. Foi o 'dengo' de todos nas duas famílias, era o primeiro neto dos avós. Era a menina para ser 'paparicada' de todas as formas e com o amor que pai e mãe sentiam um pelo outro, aquela criança só poderia ser a mais feliz de todas. Mas... não foi. Os problemas começaram logo nos primeiros meses.
Carmem estava de licença maternidade, mas Renato não. O choro da criança era um tormento para ele, enquanto Carmem queria que o marido fizesse a mesma quantidade de esforço que ela. Tinham de dividir tudo, Renato não concordou e as brigas intensificaram. A irritação foi aumentando a medida que os problemas da criança sugavam os dois para o redemoinho da vida dela. Doenças, vacinas, cuidados com alimentação, passeios, roupas, gastos. A criança era o centro da vida deles, agora. Para duas pessoas acostumadas a serem o centro de atenções uma da outra, a entrada de um novo elemento não foi muito bem-vindo. Os pais interferiam na tentativa de amenizar os problemas, mas ao invés disto, pioravam a situação, pois acabavam tomando partido de um ou de outro, de acordo com os laços de sangue e não pela razão correta. Chegou ao ponto, dos avós terem de fazer um horário diferenciado para poderem ver a criança e não verem um ao outro. As famílias até, então, tão unidas, estavam agora separadas.
O fato ficou ainda mais tenso, quando Carmem voltou ao trabalho e foi anunciada uma promoção, que deveria ser sua. Todos, na empresa, já contavam com isso, mas a direção acabou optando por trazer alguém de fora. Carmem não falou nada, mas de certa forma culpou a gravidez. Renato, também, estava tendo dificuldades com o sustento da casa pela primeira vez e a esposa não colaborava muito, mantendo seus ganhos fora do orçamento doméstico. A disputa entre ambos foi acirrada pela escassez de recursos financeiros pela primeira vez.
Os problemas chegaram a tal ponto, que Carmem chegou a sair de casa antes da menina completar um ano de idade. Voltou para a casa dos pais, que decidiram colocar suas diferenças de lado e procurarem os pais de Renato. Acertaram uma trégua e contornaram a separação de ambos: "pelo bem da pequena Raquel." A felicidade retornou, mesmo que momentânea. A trégua durou poucos meses e Renato passou a ficar 'preso' no trabalho com a desculpa de estar fazendo horas extras para sustentar a família. Na maioria das vezes, estava gastando o que não devia em alguma happy-hour com os amigos do trabalho. A distância entre os dois começou a crescer. Não mais conversavam sobre os assuntos de trabalho e nem sobre a família um do outro. Passaram a ter apenas um assunto comum: a filha. Segredos passaram a fazer parte da mesa do jantar. Silêncios gritantes da falta de assunto compunham uma sinfonia de distanciamento absurdo em duas pessoas que haviam sido tão próximas quanto seja possível. O casal perfeito... não existia mais.
As fugas de Renato da sua própria casa ficaram cada vez maiores, incluindo os finais de semana. Havia futebol, curso de aperfeiçoamento, encontro entre amigos e até eventos do trabalho, qualquer coisa para ficar longe da mulher e da filha. Não demorou para surgir, também, uma mulher que não brigava com ele e não falava de fraldas e vômitos. Ele criou um porto-seguro longe de casa. Mas não era só ele! Carmem contratou uma babá em tempo integral assim que a menina completou um ano de idade. Parou de amamentá-la o mais cedo possível, pois estava 'acabando com seus peitos durinhos'. Ela engordou bastante após a gravidez e as brigas e discussões, fizeram que ela começasse a comer desenfreadamente. Para combater tudo isto, veio a Academia de Ginástica. Vieram novas amigas e um novo mundo distante do marido e da filha.
Lembro bem, ter encontrado Carmem, Raquel e a babá no calçadão. Durante a conversa, percebi nitidamente que a babá sabia mais sobre a criança do que a própria mãe. Não vi Carmem segurá-la no colo nenhuma vez. Na verdade, somente a via com Raquel nos braços em algum evento social que ela e Renato deveriam ir. Ademais, a distância da criança era algo palpável, Logo foi percebido e comentado por todos. Assim como, a frieza que o casal tratava um ao outro. A descoberta da amante, apenas finalizou um casamento que não estava preparado para encarar o desafio seguinte: a criação de filhos.

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