29 março 2008

Boogie Woogie - O Sonho da Casa Própria

Um dos sonhos mais comuns de toda família é possuir sua Casa Própria. Por este motivo, o Brasil, o reino dos trambiqueiros e "Gersons" da vida, sempre busca oferecer formas diferentes de proporcionar este sonho aos crédulos de plantão.

Eram nove e meia da noite, a novela das oito já havia começado, quando a Kombi encostou ao lado do terreno baldio no topo do morro. De dentro dela saíram vários homens, com roupas de operários da Prefeitura. Começaram a tirar ferramentas de dentro da Kombi. Eram enxadas, marretas, estacas, cortadores de arame, plainas, socadores, pás dentre outros. Foram dispostos na entrada do terrenos baldio que estava coberto de mato alto. Surgiu, então, uma foice e dois deles a carregavam. Foram para o terreno e começaram a cortar o mato fora. Dois outros pegaram ancinhos e puxavam a grama cortada para fora do terreno.
Enquanto trabalhavam cortando a grama, um terceiro homem fixava uma placa de Obras da Prefeitura do Rio de Janeiro. O terreno havia sido reservado pela administração anterior, no intuito de construir uma área de lazer para o recém-inaugurado Conjunto habitacional do BNH da Pitangueiras, que recebera o carinhoso apelido de "Tijolinho", pois possuía em sua arquitetura, a peculiaridade de deixar, na sua parte inferior, os tijolos maciços vermelhos amostra, como eles eram bem pequenos, assim surgiu o nome popular do Conjunto habitacional.
O serviço estava indo de 'vento em popa', com a metade da área já tendo sido 'capinada' pelos homens. O lixo que estava sendo acumulado, foi reunido em três montes de grama. Neste memento, surgiu um caminhão, sem nenhuma indicação de pertencer à Prefeitura e encostou. Os homens com ancinho começaram a colocar o 'mato' alto cortado para a caçamba do caminhão. Um novo carro, também, estacionou e dois homens, com roupas inadequadas para o trabalho braçal no terreno baldio, desceram e ficaram conversando, apontando em várias direções do terreno. Ninguém pareceu ficar incomodado com aquele súbito movimento no terreno baldio, apesar de ninguém tê-lo limpo nos últimos 3 anos, desde que a nova administração assumiu. Muitos diziam que, a nova administração não iria alimentar uma boa idéia da administração anterior, apesar de ser uma boa idéia. Outros, no entanto, acreditavam que apenas haviam esquecido do projeto. Porém, a maioria achava que o problema seria a falta de verbas, o crônico problema da Administração Pública brasileira. "Deixaram o cofre vazio para ele (Novo Prefeito)! Fizeram a limpa antes de se mandar!" Eram o que todos diziam.
Por volta das onze, o mato já estava todo cortado. Todos se empenharam na limpeza do terreno e o carregamento do lixo acumulado. Antes da meia-noite, não havia mais uma réstia de verde no imenso terreno. O grupo, então, apanhou pá e enxada e os socadores. Começaram a aplainar o terreno e 'afofá-lo'. O serviço era bem mais duro e demorado que o corte do 'mato'. O grupo pegou pesado e o serviço andou bem depressa, apesar da parada para o 'cafezinho' e para beberem água. O horário ajudava bastante, pois sem o calor inclemente do sol, o trabalho ficava mais fácil e rápido para ser realizado.
Um grupo de rapazes que chegava da 'farra' diminuiu o passo para apreciar o trabalho alheio. Ficaram alguns minutos observando, foi quando um dos homens que chegaram no carro, se aproximou e mandou 'seguirem seu caminho', pois não havia nada ali de seu interesse. Os jovens não gostaram e iniciaram uma reclamação, mas um deles percebeu uma arma pendurada na cintura do homem e fez um sinal para que todos se calassem e fossem embora rapidinho. Ninguém mais apareceu para acompanhar o trabalho dos operários da 'Prefeitura'.
O terreno ficou limpo e aplainado por volta das três da manhã. Então, foi a vez das estacas de madeira e do barbante. Barbante?!?! As estacas foram fixadas a partir do fundo do terreno formando quadrados ou retângulos e entre elas foi amarrado barbante, que as unia. Foi deixado, porém uma área livre em forma de corredor entre as marcações das estacas, sendo dois corredores começado na rua e seguindo até o final do terreno e mais dois corredores cortando o terreno em três partes na sua largura. Antes das seis horas da manhã estava tudo pronto. Foi colocado alguns tapumes para ninguém olhar o conteúdo do serviço dos operários da 'Prefeitura'. O sol surgiu e os trabalhadores se retiraram, tão furtivamente quanto chegaram.
Os moradores passaram na frente do terreno e ficaram impressionados com a eficiência dos homens da 'Prefeitura', tecendo altos elogios a um trabalho tão bem feito. O terreno da forma como estava somente servia para acúmulo de lixo e de animais. Os elogios vieram de todos os lados e a satisfação foi total. Naquela noite, o serviço continuou na velocidade da luz da noite anterior. Agora, surgiram vários caminhões com areia, cimento e pedra. Também, havia mais homens trabalhando na 'área de lazer' para entregar para a população. Mas houve um incidente, um senhor de meia-idade já aposentado, servidor Público, resolveu conversar com os homens da 'Prefeitura' para saber o prazo da entrega da 'área de lazer' aos moradores. Foi sumariamente 'enxotado' de lá pelos seguranças da 'Prefeitura'. Reclamou, xingou e até quis briga, mas quando lhe apresentaram o Senhor .45, resolveu 'tirar seu time de campo', mas não se conformava com a falta de educação dos servidores públicos da 'Prefeitura'. Poxa, ele, também, era um servidor Público e nunca havia tratado ninguém assim em seu local de trabalho. "E, olha que tem uma porrada de camarada ruim de onda por aí para te pentelhar!"
Depois do incidente, ninguém mais se aproximou da obra, deixaram para lá. Passada uma semana, algumas estruturas de concreto e cimento já estavam de pé, o estranho era que estavam ocupando toda a extensão do terreno. Alguns moradores estavam se perguntando se não haveria nenhuma área verde para as crianças brincarem. Mas, muitos achavam bom, pois Altas assim gerariam mais sombra e, além do mais, quem quer saber de ver afinal de contas? Alguns dos homens de carro sempre estavam presentes no trabalho noturno da 'Prefeitura'. A obra funcionava todos os dias, inclusive domingo e feriados. O estranho era que só trabalhavam à noite, das 9 às 6 da manhã. Era o sol levantar e todos se retiravam.
Foi um domingo de manhã que os moradores descobriram que aquela não era uma obra da 'Prefeitura'. Os tapumes foram retirados e casas surgiram onde devia haver uma 'área de lazer'. Caminhões de mudança, Kombis e até carrinhos de mão chegaram com os pertences de dezenas de família que ocuparam o terreno no domingo. Era uma nova área de favela, dentro da própria favela. O serviço foi feito rapidamente e ninguém percebeu qual era o verdadeiro motivo. Também, receberam um aviso: "Não falem nada! Fiquem de boquinha fechada, tão me entendendo?" Foi a mensagem que percorreu toda a comunidade. Ninguém avisou polícia e nem Prefeitura. Todos ficaram calados... com medo. Demorou anos para alguém da Prefeitura descobrir que o terreno à ela pertencente, havia sido ocupado. As família já estavam instaladas a muito tempo e era ano eleitoral. Não ficaria nada bem para o Prefeito mandar expulsar famílias de sua casa para a construção de parques e jardins. A Prefeitura decidiu fechar os olhos, os moradores resolveram ficar de 'bico fechado' e os moradores ilegais gritaram por seus direitos à moradia e a uma vida decente. Os únicos que já estavam satisfeitos e longe de toda a confusão armada eram os vendedores dos terrenos, os operários da 'Prefeitura' e os seguranças.

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