27 julho 2008

Poesia - Purgando

Nosso poeta volta à toda, falando-nos do doloroso e lento processo da cura emocional.

PURGANDO

Recente-se das chagas
Dor que dela nasceste
Refúgio do sofrimento
Recanto da desilusão

Infiltra-se como câncer
Espalha-se como vírus,
Cianótica presença.


Nutre o sangue com veneno
Engrandece-se sobre a vida,
O corpo jaz dominado.
Ilumina-se com as trevas,
Apaga-se com a luz.


Grita alto seus horrores
Com o eco vai se alegrar
Fantasmas de um pesadelo
Noite que não tem fim.


Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Mulheres que Amo - Sociedade do Anel

Já perceberam como um pequeno objeto pode ter poderes mágicos? Esta é uma destas estórias que parecem absurdas, mas são verdadeiras e que nos fazem indagar, quando conseguiremos compreender as mulheres? Tentem!

Compreender as mulheres é uma arte obscura e perdida nas teias do tempo. Os homens não conseguem este feito hercúleo. Alguns ainda conseguem chegar aos princípios básicos do relacionamento com o ente feminino, mas é só este nível que alcançam. Existem, porém, aqueles que nem o botão de ligar do relacionamento conseguem descobrir. O Alberto era um destes casos.
Ele passou toda a sua adolescência sem ter um relacionamento. Ele não era 'gay' e nem assexuado, apenas não sabia como fazê-lo. Teve até oportunidades com meninas que eram uma 'gracinha', mas sua incompetência no jogo de atração, era algo digno de pena. Tentamos ajudá-lo por diversas vezes, sempre demos com os 'burros n'água'. Teve uma menina que veio nos perguntar se ele era 'bicha'. Nem isso pudemos garantir a ela, pois nunca o vimos com uma mulher e nem com um homem.
O tempo passou e, finalmente, Alberto conheceu uma garota. Todos nós apostamos que fora ela quem tomara a iniciativa e sustentava o relacionamento. Com certeza, estávamos corretos. Era legal ver a felicidade do casal. A frase: “Foram feitos um para o outro.” parecia caber 'certinho' para os dois 'pombinhos'. Tivemos até de parar de querer interferir no relacionamento deles, pois estávamos atrapalhando mais do que ajudando. Tudo estava indo às 'mil maravilhas'. Então...
Alberto e Lívia decidiram ficar noivos. Ele, nitidamente, queria garantir que aquela mulher louca, que decidira ficar com ele, não fugiria. Ela... acho que gostava de verdade dele! Sou francamente contra o casamento nos termos atuais, mas para Alberto, este parecia ser o passo mais acertado na sua vida. Ele nunca fora muito centrado em nada e nem realizava nada de excepcional com sua vida. Nada impedia este enlace. Até parece!
Alberto era um cara com ótima aparência. Tinha olhos verdes e era louro, não possuía físico atlético, mas a entrada no exército o ajudou a desenvolver alguns músculos. Nem assim, as mulheres olhavam para ele, apenas Lívia viu algo além de sua insignificância para o universo feminino. Ao ver algo além, colocou um sinal luminoso brilhante sobre ele. As meninas, quando os dois começaram a namorar, começaram a fazer perguntas sobre aquele 'desconhecido' que morava na esquina. Todas elas ficavam espantadas ao descobrir: ele morava ali há mais de 20 anos e era oficial do exército. Os olhares femininos começaram a investigar os detalhes, conseguiram descobrir coisas que nós, os amigos, nunca percebemos. Era o instinto feminino de caçadora entrando em ação. Mas, neste primeiro momento, não partiram para a ação. Esperaram!
Quando Alberto colocou o anel na mão direita de Lívia... tudo mudou. Elas atacaram! A rua parecia ter tido uma abdução em massa da espécie masculina, pois nenhuma mulher queria ouvir falar de outro homem que não fosse Alberto. Era o 'hit do momento'. Era 'up', falar no pobre coitado, que nem poderia imaginar a avalanche que desabaria sobre ele.
No dia seguinte da colocação do anel no dedo de Lívia, as perguntas e a proximidade feminina, cresceram exponencialmente para Alberto. Ele não podia ir até a padaria na esquina de sua casa, sem alguma garota pará-lo para 'bater um papinho'. Perguntavam de tudo e eram todas 'sorriso'. Os rostos ficavam iluminados enquanto falavam com ele. E ele... não estava nem aí! Não percebia absolutamente nada. Os homens são bem mais lentos nestes assuntos mesmo. Nós, os amigos, levamos quase uma semana para perceber o que estava acontecendo. Lívia... muito mais.
Os dois continuavam a levar sua vida de forma tranqüila, como antes. Nada havia mudado para eles, mas sim para o mundo em volta... o mundo feminino. Vieram, então, as primeiras cantadas. Alberto ficou assustado, pois não estava acostumado aquele assédio todo. Fugia na maioria das vezes e chegou mesmo a nos interpelar, pois acreditava que era alguma brincadeira de mau gosto nossa. Ledo engano.
O fim de tudo estava próximo. Havia uma grande amiga de sua irmã mais nova, que fraquentava regularmente a sua casa há mais de cinco anos. Era uma 'gata' muito gostosa e bonita. Ela nunca olhara nem para o rosto de Alberto naqueles últimos cinco anos. Acho que se alguém lhe perguntasse qual era a cor do cabelo dele, ela diria: preto. O anel mágico entrou no dedo dele, ela ficou completamente enfeitiçada por aquele novo Cavaleiro de Armadura Brilhante. Decidiu que seria a dama sortuda a ficar com o Cavaleiro. Preparou o 'bote', foi para a casa dele em um dia em que ninguém estaria na casa, somente ele. Pronto! Não foi preciso muito esforço para convencê-lo de ir para cama com ela. Ele nunca imaginou que poderia ter uma 'gata' daquelas na sua cama. Realizou um sonho! E o sonho virou pesadelo!
A mãe e a irmã pegaram os dois juntos na cama. Acho que era intenção dela desde o princípio. É claro, virou notícia de primeira página nas ruas do bairro, com um certo grau de 'aumentativo' na estória. Cheguei a ouvir versões em que ele estava com três mulheres ao mesmo tempo, mas isto não vem ao caso agora. Lívia soube de tudo e tomou a única atitude plausível. Terminou o noivado e o relacionamento. Alberto ainda envolto na euforia de ter ido para cama com uma 'gata' daquelas, fez pouco caso do fora da ex-noiva e nem tentou conversar com ela. Queia partir para novas 'paragens'.
As novas aventuras de Alberto não duraram. Ele caiu rapidamente na 'real'! A linda amiga de sua irmã, pivô de sua separação, lhe deu um fora no encontro seguinte. Os olhares cobiçosos de até então... desapareceram tão rapidamente quanto o anel em seu dedo. Ele ficou a 'ver navios'... solitário, chegou a pensar em voltar para Lívia, mas deu uma de forte e não deu o 'braço a torcer'. As aventuras de Alberto terminaram tão rapidamente quanto começaram. A Sociedade do Anel foi desfeita.

20 julho 2008

Poesia - Longe dos Olhos

A tirania dos sentidos! Estes limitam o pensamento, apenas os 'criadores' conseguem quebrar estas amarras e viajar por lugares nunca dantes imaginados. É o que nos pede o nosso poeta em seu retorno à casa.

LONGE DOS OLHOS

Antes amadurecer
A vida esbarrando
Nos limites do universo,
Que apodrecer sufocado
Pelas estreitas cercanias
Das ilusões, que nos transmitem
Os olhos.

Universo sem fim,
Que como um vasto campo
Não impõe limites ao pensamento,
Desautoriza a ansiedade,
Asfixia a depressão.

Todo o pensamento é grande
Se escapa à estreita armadilha
Dos cinco sentidos.

Faz, porém perecer alma
E corpo
Ao deixarem-se prisioneiros
No estreito mundo
De um imaginário visual.

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Boogie-Woogie - HQ

Todos temos vícios! O meu, sempre me ajudou e muito na minha vida. Aprendi a ler com uma revista do Pato Donald! E esta, me trouxe o gosto pela leitura de livros, dos mais diversos assuntos. A multiplicidade de assuntos existentes nas HQs (Histórias em Quadrinhos) me permitia viajar para os mais diversos destinos: Comics, Mangas, Fumettis, Bandas Desenhadas, era tanta coisa e tantos lugares, que meu mundo se abriu. O suficiente para me interessar pela informação e pelo conhecimento, esta é uma pequena homengem que presto.

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Corria para o ônibus apressado pois, normalmente, este não parava para crianças indo para o colégio. Eu estudava em uma Escola Pública perto da minha casa: a Cuba. Praticamente, todas as crianças do Boogie Woogie estudavam lá. Foi lá que dei meus primeiros passos no mundo da minha escrita e matemática, tive ótimas e dedicadas professoras, lembro-me delas com carinho até hoje: Maria José, Ondina e Dona Júlia, de quem gostava tanto que fiquei grande amigo de seu filho mais novo.
Alcancei o ônibus e sentei no fundo antes do assento do trocador quando ainda havia lugares para as pessoas sentarem e esperarem para depois passarem na roleta, pagar passagem e buscar um lugar para sentar na frente do ônibus. Começava, então, um desafio visual entre eu e o trocador. Ele sabia minha intenção: sair por trás sem pagar a passagem. Era uma manobra arriscada, mas tinha de fazê-lo para economizar o dinheiro que meu pai me dava. Esperava até chegar perto do ponto da escola, como o ônibus passava por uns cinco pontos diferentes próximos à Escola, ficava fácil de aparecer uma oportunidade e cair fora por trás sem que ele me pegasse. Seria melhor se houvesse mais garotos do colégio comigo. Quando éramos muitos, os trocadores nem tentavam nada, pois temiam a reação da maioria, que nunca acontecia, é verdade.
Quando o ônibus chegou próximo à ponte da Colônia, entraram alguns passageiros no ônibus, quando o último passou pela porta e foi pagar a passagem. Dei um pulo da minha cadeira e fui para escada tentar sair, mas fui lento, o trocador conseguiu segurar na minha mochila e tentou me puxar, mas já estava bem lá fora e ele não teve forças suficientes. Então, optou por dar um murro em minha mochila, que me jogou no chão, quase caí dentro do mangue ao redor da Colônia.
Fui para a escola, encontrei amigos, contei minha aventura e procurei minha sala de aula. Até o recreio, tudo sempre estava bem, mas quando o sinal do recreio tocava, sempre começava à tortura. Era hora de segurar a fome e ficar vendo o pessoal ir até a cantina da escola e gastar sua mesada. Eu não podia! Tinha que economizar se eu queria poupar meus trocados, meu pai sempre me dava algum no início do mês, mas sabia que não dava para grande coisa, por isso... me segurava, mas era uma tortura. Uma vez ou outra, conseguia 'filar' um doce ou um salgadinho de algum dos meus amigos. Empurrava tudo com água enferrujada do bebedouro. Tinha, é claro, a refeição preparada pelas merendeiras: macarrão à la “Ki-nojo” ou feijão aguado com alguma carne cozida que, invariavelmente, era músculo. Argh! Eu nem passava perto da porta. O negócio era agüentar calado. Às vezes, minha mãe me preparava algum lanche com pão de forma, mas ela cismava de colocar ovo frito em vários deles. Detestava ovo frito, sempre fazia uma permuta com alguém. Preferia creme de amendoim ou até mesmo pão com margarina. Os sucos ficavam quentes e intragáveis, jogava quase sempre fora, a não ser quando o Antônio estava comendo alguma 'gororoba' estranha que a mãe dele preparava, que ele tinha de empurrar com algum líquido e mesmo um suco quente servia. Era sempre minha cobaia!
Fim da aula, hora de voltar para casa. Normalmente, passava na casa de algum amigo, mas era muito 'enjoado', nunca comia nada na casa de ninguém, mesmo quando o cheiro era convidativo. As mães de meus amigos não me deixavam pegar o que queria e me serviam, fazendo misturas esdrúxulas de comida, que eu detestava. Já disse: sou enjoado. Brincávamos, contávamos estórias e mentíamos bastante. Criávamos fantasias de coisas fantásticas que faríamos e sonhávamos com o nosso futuro. Na época, meu maior desejo era ser motorista de ônibus e ir para um destino diferente todos os dias. Conhecer lugares diferentes e pessoas dos mais diversos tipos, se soubesse como era esta vida na realidade, ficaria longe dela.
Seguia sozinho para casa, olhava algumas vitrines. Em casa, almoçava, normalmente, comida requentada, pois minha mãe já fizera a comida há horas e já estava acostumada com meus horários malucos, portanto não me esperava. Não reclamava nunca, adorava o sabor da comida da minha mãe de qualquer jeito. Tomava um banho e ia contar minhas economias. Juntava as moedas sobre o sofá e fazia às contas. Hoje dava. Saia correndo e procurava um jornaleiro aberto. Lá ficava olhando aquelas maravilhas coloridas me chamando. Eram revistas em quadrinhos de todos os tipos. Queria poder comprar todas elas mas, infelizmente, não tinha dinheiro para isso. Meu objeto de desejo era aquela revista de capa colorida com um garoto com uniforme azul e vermelho, usando uma máscara que cobria todo seu rosto. O Homem Aranha! Juntava às moedas e entregava ao jornaleiro, que já me conhecia. Ele conferia às moedas, mas tinha certeza que estava certo, pois aquele ritual já durava quase um ano. Me entregava aquela revista com capa vermelha em que o Homem Aranha enfrentava um monstro com aparência de lagartixa, só que todo verde: o Lagarto.
Então, começava minha viagem semanal, que não durava mais do que 30 minutos. Antes mesmo de chegar em casa, já ia folheando o meu passaporte para a fantasia. Me via pulando de prédio em prédio, como um Tarzan urbano, junto daquele moleque ousado e franzino, cheio de problemas de 'grana', assim como eu. Sonhava em comprar uma máquina fotográfica para me sustentar e poder comprar mais daquelas aventuras no papel. O sacrifício valera à pena! Em todos os sentidos, pois se hoje escrevo estas mal traçadas linhas, é por causa de um americano que viveu por anos no mundo da fantasia: Stan Lee.

13 julho 2008

Aviso - Poesia

Infelizmente, poralgum tempo não poderemos contar com os inspirados versos de nosso poetinha, pois esta ocupada em suas tarefas e não poderá nos agraciar com suas inteligentes linhas, portanto, a partir desta semana começarei postar algum material traduzido sobre um novo assunto: Jesus Nunca Existiu! Serão textos do escritor e pesquisador americano Kenneth Humphreys sobre o assunto e de diversos autores que pesquisaram esta assunto por décadas, após a descoberta dos textos da Rag Hammadi, no Egito. Por este motivo, quem tiver interesse no assunto... aguarde!

Mulheres que Amo - Canalha

Sempre pensei que as mulheres odiassem os canalhas. Todas, sem exceção, dizem que odeiam. Mas será? Eu não acredito! Na verdade, acho que elas os amam. Esta é uma história do relacionamento de mulheres com um canalha. Divirtam-se!

É incrível, como uma mulher não consegue reconhecer um canalha, quando encontra com um! Eu, por exemplo, apenas de apertar a mão dele, já sei que é um canalha! Todos os meus amigos, também, reconhecem um logo de cara. Como, então, a mulher, muito mais sensível que o homem, não o consegue? Ou será que consegue e apenas não quer ver? É difícil dizer. Conheci uma mulher, que entregou até o apartamento, seu único bem, para o canalha com quem vivia, apesar de todas as pessoas dizerem para não fazê-lo. Ela fez e nunca mais entrou naquele apartamento de novo. Bem como, nunca mais sentiu o sabor dos lábios do 'seu homem', como ela enchia a boca para falar. Pior ainda, quando a mulher vê que o homem é canalha com alguém próximo a ela, mesmo assim continua a tentar, achando que: "Comigo vai ser diferente!" Não é e nunca vai ser. Pau que nasce torto, enverga até viga de aço. Vou contar esta estória.
A Kátia era uma amiga que conheci em um evento, nos encontravam de vez em quando para conversar ou sair em grupo. Tentando me recordar, não a via saindo muito com outros caras, nem lembro de algum namorado dela. Então, apresentei ela ao Luís Carlos, um canalha de 'carteirinha' e 'firma reconhecida'. Ele era extremamente simpático e tinha um enorme carisma, tanto que ninguém conseguia ficar com raiva dele, apesar de tudo que aprontava, mas sempre respeitou as mulheres de amigos próximos, acho que com medo de afastar os conhecidos. Mas amigas... eram outra história. Pediu que eu o apresentasse a Kátia, foi o que fiz. Ela caiu de amores por ele na primeira noite em que se falaram. Começaram a sair e o relacionamento começou a ficar sério rapidamente.
Então, pensei se deveria ou não contar-lhe que Luís Carlos era um tremendo canalha. Não sabia nem como começar a dizer-lhe algo assim. Alguns amigos próximos, me disseram para nem tentar, pois ela iria ficar com raiva de mim e ficaria ainda mais apaixonada por ele. Concordei! Mesmo assim, tentei dar uns pequenos 'toques' para ela, dizendo não ser uma boa idéia o relacionamento entre os dois ou que ambos não tinham muito em comum ou que ela sabia muito pouco sobre ele. Para cada questão levantada, ela tinha uma resposta pronta e imediata, todas baseadas no amor, não aberto a réplica. Decidi, então, conversar com a melhor amiga dela: Carmem.
Carmem e Kátia eram amigas desde pequenas, pelo que me haviam contado, estudaram juntas no Jardim de Infância, pois moravam no mesmo prédio. Até quando Kátia mudou de prédio, as amigas continuaram a se encontrar e conversar, mantiveram a amizade firme, apesar da distância entre elas. Carmem insistiu com seus pais de que queria ficar no mesmo colégio que a amiga, mesmo os pais tendo de se deslocar bem mais para levá-la. Venceu! Era uma amizade forte... sólida, pelo menos, é o que parecia.
Falei com Carmem: disse que a Kátia estava entrando em uma 'furada' e não havia como convencê-la do contrário. Ela estava apaixonada por ele, não havia forma de fazê-la desistir. Quem sabe, você sendo a melhor amiga dela, convença-a de 'sair dessa', antes que ele apronte alguma com ela. Carmem ouviu atentamente o que eu disse e foi conversar com outros caras do grupo que frequentávamos para saber se aquilo não era um surto de ciúmes meu. Logo percebeu que não. Foi conhecer o Luís Carlos, preparada para odiá-lo... infelizmente, o carisma e o charme dele a conquistaram tanto quanto à amiga. Na realidade, acabou apaixonada por ele também. Ao invés de convencer a amiga de desistir, deu força para o namoro, enquanto ele começou a 'dar em cima' dela mesma. Estava formado o triângulo amoroso.
Agora, todos apelidavam o trio de Luís e suas duas esposas. Kátia virou motivo de piada por toda a rua e em nosso grupo de amigos, pois o caso de Carmem com Luís era tão escancarado, que era absurdo ela não ver nada. "Cegueira do amor!", alguém brincou, mas começo a acreditar nisto. Tanto, que Kátia levou o Luís para morar com ela em seu apartamento, recentemente comprado. Soubemos, que enquanto Kátia trabalhava, Luís levava Carmem para o apartamento e ficavam juntos. Luís trabalhava como autônomo para algumas Corretoras de Imóveis, tinha muito tempo livre e horários que davam a ele uma ótima oportunidade para 'aprontar' todas.
O fato estava tão esdrúxulo, que uma sexta-feira, ocorreu o aniversário de um amigo comum, todos nós fomos convidados. Kátia foi com Luís e Carmem apareceu sem ninguém. Em determinado momento na festa, Luís e Carmem foram para uma sala de material de limpeza e 'mandaram ver'. Os gritos dela no armário dava para ouvir em todo o corredor e muita gente ouviu, menos Kátia. A pobre coitada andava pelo salão com todos rindo às suas costas quando passava. Ficou procurando o Luís metade da noite, quando ele voltou, estava desarrumado e cansado, deu uma desculpa esfarrapada, que, prontamente, ela aceitou. A piada da hora era a "Cegueira do Amor". Kátia brigou com duas amigas, que não aguentando mais a situação foram falar com ela. Ela respondeu: "Vocês estão com ciúmes!". Nunca mais falou com as duas.
A história entre ela e Luís só terminou, quando em uma tarde qualquer, voltou para casa para apanhar um documento que esquecera. É claro, encontrou o 'amor de sua vida' e a sua 'melhor amiga', na posição do frango assado. Deve ter sido uma visão tétrica! Mas não pode dizer que ninguém a avisou. Tudo bem, pelo menos, ela fez o certo. Pôs os dois para fora do seu apartamento e da sua vida. Infelizmente, não pediu desculpas a ninguém que ela tratou mal devido ao 'amor da sua vida'. Baixou a cabeça e entendeu o motivo das risadas às suas costas. Ficou humilhada e envergonhada, mas acho que aprendeu a lição: "Não existe o 'amor da sua vida', apenas amores em sua vida."
O incrível foi que Carmem, mesmo Luís tendo feito o que fez com a sua amiga, acreditou piamente que ele não faria o mesmo com ela. "Sou diferente dela! Sou melhor e mais esperta! Ele me ama!" Até parece! Uma coisa descobri com o passar do tempo, os canalhas tem um único e verdadeiro defeito: não sabem o que é o amor! Por este motivo, vivem a procurar algo que eles não conhecem e nem entendem. Então, nunca vão parar, não importa quem esteja ao seu lado. Foi o que acabou acontecendo com Carmem. Menos de um mês após o fim do relacionamento de Luís e Kátia e de ter assumido o relacionamento com ela, Luís conheceu uma mulher casada, para quem mostrou um imóvel. No imóvel mesmo, começou o novo relacionamento. Durou uns oito meses, até a 'esperta' Carmem descobrir no Hospital Miguel Couto, quando foi chamada às pressas, pois seu namorado havia sido baleado por um marido traído. A 'esperta' Carmem, percebeu, então, que os risos às suas costas eram para ela. Chegou a perdoá-lo e culpar a 'vaca' daquela mulher, pelo que ele havia feito. Não durou, duas semanas depois, descobriu uma nova amante dele e 'jogou a toalha'.

05 julho 2008

Poesia - Redonda

Partidas são dolorosas! Para quem parte e para quem fica. Nosso poeta nos fala de sua dor e em sua perspectiva em partir.

REDONDA

Parto agora,
Deixo-te já
Ó defectível espera,

Incômodo chumbo
Denso chumbo,
Chumbo da minha costela.

Desagrega-te em pedaços
Fragmentos de granada,
Explode antes a si.

Jorra o fervente enxofre,
Polui o que lhe circunda,
Esférica forma.

Rola-te agora ao abismo
Pois com perseverança
Destruíste cega, seus sustentáculos
De arestas.

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Boogie Woogie - Respeito

Minimizamos bastate os fatos que geram as desgraças de nossa sociedade. Diminuímos os fatores e a importância dos valores da sociedade no caráter das pessoas. Sempre culpamos terceiros e nunca assumimos a nossa parcela de culpa por tudo de ruim que acontece em nosso dia-a-dia. Esta é uma estória que mostra as facetas de inverdades ou mitos que usamos para justificar a verdade dos fatos. Por este motivo, nunca conseguimos seguir adiante e consertar o que tem de ser consertado.

Vejo na TV um monte de gente teorizar os motivos que fazem uma criança entrar para o tráfico. A resposta óbvia sempre é: dinheiro. A falta dele, é claro! Mas, acho que a falta de dinheiro é apenas um dos componentes nesta intrincada estória. A grande maioria dos garotos, que se meteram no tráfico quando morava dentro do morro, não tinham problemas de dinheiro, como afirmado pelo rapper Falcão. Nem tinham problemas familiares, alguns tinham a família nuclear perfeita: pai, mãe, uma irmã, o pai trabalhava fora e sustentava a famíla e a mãe ficava em casa cuidando dos filhos. Ambos no colégio e sem problemas de agressões ou violações. Vou contar a vocês a estória do Diego.
Diego era um garoto com outro qualquer na favela. Era 'magrinho', cheio de espinhas na cara e não era bom em nada que fazia. Chegou a ser coroinha da igreja de Nossa Senhora das Graças, lá no Campinho, mas por imposição da mãe, do que vontade própria. Não tinha problema de relacionamento com ninguém. Brincava com todas as crianças, gostava de soltar pipa, rodar pião e, principalmente, de 'pera,uva, maçã e salada mista', era a sua chance de dar uma 'bitoquinhas' nas meninas. Sempre pareceu um garoto feliz e cheio de saúde. Todos adoravam o pai dele e a mãe, apesar de ser um pouco fofoqueira, era 'boa gente'. Então, quando ele apareceu com arma em punho junto com a 'galera' do tráfico, todos ficaram espantados. "Não tinha nada a ver!" foi o que todos disseram. Queríamos conversar com ele, para saber o porquê daquela súbita mudança. Ninguém se atrevia a chegar perto, enquanto ele estivesse com a 'galera' do tráfico. Na escola, o cercamos e fomos perguntar o porquê. Ele estava 'fissurado'. Falou do respeito que tinha conseguido entrando para o tráfico. As meninas passaram a olhar para ele. Podia comprar aquele tênis maneiro que tinha visto no comercial de TV e ninguém mais iria 'gozar' com a cara dele. Era muito pouco! Para ele era o suficiente.
Rapidamente, Diego comprou roupas maneiras e arrumou uma namorada 'super-gostosa', uma menina que nunca olhara para ele antes, quando não era 'ninguém'. Os pais ficaram desesperados com tudo aquilo. O pai tentou intimidá-lo, como qualquer pai faria, mas uma arma brandida em frente a seu nariz, desmotiva qualquer um. A mãe apelou para o lado emotivo e chorou 'cântaros', mas nada adiantou. O 'respeito' atingido por ele no morro era muito mais importante. Estava 'tirando onda' na 'maior'. Todos olhavam para ele agora... com temor, mas para ele não importava, pelo menos olhavam para ele. Desfilava com sua 'gata' por todo o canto. Não deixava sua pistola de lado, por motivo algum. Saiu até de casa e foi morar com alguns outros garotos do tráfico. A mãe ficou mais desesperada ainda e o pai deu 'graças a Deus', pois temia o que poderia acontecer no futuro.
O que poderia acontecer, começou uma semana depois, quando a polícia invadiu o morro e 'mandou bala' pra cima da 'molecada'. O chefe do morro foi preso, várias armas apreendidas, maconha e cocaína, também, muito dinheiro perdido. Além disso, dois 'buchas' mortos. Diego foi perseguido por dois policiais que 'soltaram o dedo' pra cima dele. As balas bateram nas paredes das casas do morro e soltaram lascas em seu rosto. Seu conhecimento de 'pique-bandeira' ajudou a fugir dos policiais, que logo se perderam no emaranhado de becos do morro. Sangue e dor espalhadas pelo morro. Os buchas tinham quinze anos os dois. Foram mortos pelos primeiros tiros dos policiais. As mães estavam inconsoláveis! A mãe de Diego... completamente insandecida.
A mãe de Diego correu o morro inteiro atrás dele, tentando descobrir onde ele estava escondido. Não conseguiu descobrir nada, mas acabou encontrando-o dentro do armário de sua própria casa. A mãe chorou de felicidade e gritou que nunca mais deixaria ele voltar para aquela vida. Ele reagiu na hora e voltou para aquela vida naquele mesmo momento. A mãe ficou ainda mais desconsolada. O pai não sabia o que devia ou podia fazer pelo filho. Diego foi juntar-se a seus companheiros e a vida voltou a ser o que era para ele. Não durou, é claro!
Duas semanas depois, foi a vez de uma facção rival invadir o morro, aproveitando que o chefe havia sido preso. O tiroteio durou a noite inteira, desta vez foram encontrados oito mortos. Diego fora perseguido, novamente, por membros da gangue rival, pensando que conseguiria despistá-los, assim como fez com os policiais, mas um dos membros da gangue rival, era um antigo morador. Diego ficou cansado e caiu. Os dois membros da gangue o alcançaram e iriam matá-lo, quando tiros perto deles o distraíram e permitiram que Diego pudesse fugir. Sua facção ganhou a batalha daquela noite e Diego percebeu que os truques da infância não serviam mais. Ficou escondido por três dias em uma lixeira, comendo os restos. Foi encontrado pelos lixeiros que o expulsaram dali. Não tinha mais sua pistola, perdida na fuga desesperada. Sondou nas bordas do morro para saber quem havia vencido, quando soube que era a sua própria facção, decidiu voltar para casa.... a sua casa!
Chegou em casa, pediu perdão à sua mãe e a seu pai. O aceitaram na mesma hora e voltaram a ser uma família feliz, assim pensaram. Nada feito, dias depois os membros remanescentes estavam recrutando novamente e o foram buscar em casa. Ele falou que não queria voltar, mas não tinha escolha... ou estava com eles... ou estava contra eles... e se estivesse contra... ele já sabia o destino. Não houve jeito, falou com seu pai e sua mãe e voltou para o tráfico. Sempre buscando fugir de qualquer confronto ou ação explosiva. Às vezes, nem ia buscar o pagamento e ficava horrorizado, quando aparecia aqueles garotos 'vibradores' com o perigo e a morte. Percebeu que tinha um grande medo de morrer. Percebeu que o amor da sua 'super-gata' era tão falso quanto nota de dois mil reais. Queria sair, mas agora não sabia como.
A polícia invadiu novamente o morro, desta vez Diego se deixou capturar. Os policiais o prenderam, o interrogaram com os punhos, mas Diego não disse nada. Na verdade, não sabia nada que servisse para os policiais ou que eles houvessem perguntado. Diego foi parar em uma delegacia antiga, onde as celas estavam super-lotadas. Passou uma noite infernal, onde dormiu apenas duas horas em pé, encostado em dois outros presos, que a cada momento davam beliscões em sua bunda. Foi apertado nas coxas, na bunda, nos mamilos e no dia seguinte, um dos presos com uns trinta anos, o agarrou e o beijou na boca, enquanto apertava seu pênis com força. Pegou a mão dele e o fez bater uma 'bronha' nele. O cara gozou na mão de Diego, que teve de limpar o esperma na camisa que vestia. O cara prometeu a Diego que teriam umas noites maravilhosas juntas dali por diante. O respeito havia ido embora e começara o pesadelo. Diego começou a imaginar os pesadelos que viveria naquela cela. Sabia que não sairia tão cedo dali. Nunca ficara tão arrependido na vida! Era um completo idiota e imbecil por ter se metido naquela vida. Nada valeria a pena, passar pelo que estava passando. Foi violentado diversas vezes na cadeia, algumas vezes os policiais vinham vê-lo gritar.
Dias depois, um advogado da sua facção criminosa conseguiu tirá-lo da cadeia. Diego não sabia como e nem queria saber. voltou para casa, mas sabia que os membros da facção viriam atrás dele. Sua vida estava acabada! Morreria em um tiroteio ou cometeria suicídio na prisão para não virar mulher de ninguém. Não queria contar nada para seus pais. Vergonha e dor estavam profundamente misturados. Queria tê-los escutado antes. Antes de tudo aquilo. Uma 'boceta' não valia aquela encrenca toda. Aquele sofrimento todo.
Os pais de Diego o pressionaram até ele falar. Ele contou tudo. A mãe chorou copiosamente por horas e o pai saiu para tomar um porre daqueles. Quando o sol começou a surgir no horizonte, Diego estava se preparando para voltar para a gangue. De repente, seu pai chegou com um caminhão na porta. Retiraram todos os móveis e pertences que davam para carregar e colocaram dentro do caminhão. Muita coisa ficou para trás, em menos de 30 minutos carregaram tudo e desapareceram, para nunca mais ninguém saber de seu paradeiro.