20 julho 2008

Boogie-Woogie - HQ

Todos temos vícios! O meu, sempre me ajudou e muito na minha vida. Aprendi a ler com uma revista do Pato Donald! E esta, me trouxe o gosto pela leitura de livros, dos mais diversos assuntos. A multiplicidade de assuntos existentes nas HQs (Histórias em Quadrinhos) me permitia viajar para os mais diversos destinos: Comics, Mangas, Fumettis, Bandas Desenhadas, era tanta coisa e tantos lugares, que meu mundo se abriu. O suficiente para me interessar pela informação e pelo conhecimento, esta é uma pequena homengem que presto.

-->
Corria para o ônibus apressado pois, normalmente, este não parava para crianças indo para o colégio. Eu estudava em uma Escola Pública perto da minha casa: a Cuba. Praticamente, todas as crianças do Boogie Woogie estudavam lá. Foi lá que dei meus primeiros passos no mundo da minha escrita e matemática, tive ótimas e dedicadas professoras, lembro-me delas com carinho até hoje: Maria José, Ondina e Dona Júlia, de quem gostava tanto que fiquei grande amigo de seu filho mais novo.
Alcancei o ônibus e sentei no fundo antes do assento do trocador quando ainda havia lugares para as pessoas sentarem e esperarem para depois passarem na roleta, pagar passagem e buscar um lugar para sentar na frente do ônibus. Começava, então, um desafio visual entre eu e o trocador. Ele sabia minha intenção: sair por trás sem pagar a passagem. Era uma manobra arriscada, mas tinha de fazê-lo para economizar o dinheiro que meu pai me dava. Esperava até chegar perto do ponto da escola, como o ônibus passava por uns cinco pontos diferentes próximos à Escola, ficava fácil de aparecer uma oportunidade e cair fora por trás sem que ele me pegasse. Seria melhor se houvesse mais garotos do colégio comigo. Quando éramos muitos, os trocadores nem tentavam nada, pois temiam a reação da maioria, que nunca acontecia, é verdade.
Quando o ônibus chegou próximo à ponte da Colônia, entraram alguns passageiros no ônibus, quando o último passou pela porta e foi pagar a passagem. Dei um pulo da minha cadeira e fui para escada tentar sair, mas fui lento, o trocador conseguiu segurar na minha mochila e tentou me puxar, mas já estava bem lá fora e ele não teve forças suficientes. Então, optou por dar um murro em minha mochila, que me jogou no chão, quase caí dentro do mangue ao redor da Colônia.
Fui para a escola, encontrei amigos, contei minha aventura e procurei minha sala de aula. Até o recreio, tudo sempre estava bem, mas quando o sinal do recreio tocava, sempre começava à tortura. Era hora de segurar a fome e ficar vendo o pessoal ir até a cantina da escola e gastar sua mesada. Eu não podia! Tinha que economizar se eu queria poupar meus trocados, meu pai sempre me dava algum no início do mês, mas sabia que não dava para grande coisa, por isso... me segurava, mas era uma tortura. Uma vez ou outra, conseguia 'filar' um doce ou um salgadinho de algum dos meus amigos. Empurrava tudo com água enferrujada do bebedouro. Tinha, é claro, a refeição preparada pelas merendeiras: macarrão à la “Ki-nojo” ou feijão aguado com alguma carne cozida que, invariavelmente, era músculo. Argh! Eu nem passava perto da porta. O negócio era agüentar calado. Às vezes, minha mãe me preparava algum lanche com pão de forma, mas ela cismava de colocar ovo frito em vários deles. Detestava ovo frito, sempre fazia uma permuta com alguém. Preferia creme de amendoim ou até mesmo pão com margarina. Os sucos ficavam quentes e intragáveis, jogava quase sempre fora, a não ser quando o Antônio estava comendo alguma 'gororoba' estranha que a mãe dele preparava, que ele tinha de empurrar com algum líquido e mesmo um suco quente servia. Era sempre minha cobaia!
Fim da aula, hora de voltar para casa. Normalmente, passava na casa de algum amigo, mas era muito 'enjoado', nunca comia nada na casa de ninguém, mesmo quando o cheiro era convidativo. As mães de meus amigos não me deixavam pegar o que queria e me serviam, fazendo misturas esdrúxulas de comida, que eu detestava. Já disse: sou enjoado. Brincávamos, contávamos estórias e mentíamos bastante. Criávamos fantasias de coisas fantásticas que faríamos e sonhávamos com o nosso futuro. Na época, meu maior desejo era ser motorista de ônibus e ir para um destino diferente todos os dias. Conhecer lugares diferentes e pessoas dos mais diversos tipos, se soubesse como era esta vida na realidade, ficaria longe dela.
Seguia sozinho para casa, olhava algumas vitrines. Em casa, almoçava, normalmente, comida requentada, pois minha mãe já fizera a comida há horas e já estava acostumada com meus horários malucos, portanto não me esperava. Não reclamava nunca, adorava o sabor da comida da minha mãe de qualquer jeito. Tomava um banho e ia contar minhas economias. Juntava as moedas sobre o sofá e fazia às contas. Hoje dava. Saia correndo e procurava um jornaleiro aberto. Lá ficava olhando aquelas maravilhas coloridas me chamando. Eram revistas em quadrinhos de todos os tipos. Queria poder comprar todas elas mas, infelizmente, não tinha dinheiro para isso. Meu objeto de desejo era aquela revista de capa colorida com um garoto com uniforme azul e vermelho, usando uma máscara que cobria todo seu rosto. O Homem Aranha! Juntava às moedas e entregava ao jornaleiro, que já me conhecia. Ele conferia às moedas, mas tinha certeza que estava certo, pois aquele ritual já durava quase um ano. Me entregava aquela revista com capa vermelha em que o Homem Aranha enfrentava um monstro com aparência de lagartixa, só que todo verde: o Lagarto.
Então, começava minha viagem semanal, que não durava mais do que 30 minutos. Antes mesmo de chegar em casa, já ia folheando o meu passaporte para a fantasia. Me via pulando de prédio em prédio, como um Tarzan urbano, junto daquele moleque ousado e franzino, cheio de problemas de 'grana', assim como eu. Sonhava em comprar uma máquina fotográfica para me sustentar e poder comprar mais daquelas aventuras no papel. O sacrifício valera à pena! Em todos os sentidos, pois se hoje escrevo estas mal traçadas linhas, é por causa de um americano que viveu por anos no mundo da fantasia: Stan Lee.

Nenhum comentário: