05 julho 2008

Boogie Woogie - Respeito

Minimizamos bastate os fatos que geram as desgraças de nossa sociedade. Diminuímos os fatores e a importância dos valores da sociedade no caráter das pessoas. Sempre culpamos terceiros e nunca assumimos a nossa parcela de culpa por tudo de ruim que acontece em nosso dia-a-dia. Esta é uma estória que mostra as facetas de inverdades ou mitos que usamos para justificar a verdade dos fatos. Por este motivo, nunca conseguimos seguir adiante e consertar o que tem de ser consertado.

Vejo na TV um monte de gente teorizar os motivos que fazem uma criança entrar para o tráfico. A resposta óbvia sempre é: dinheiro. A falta dele, é claro! Mas, acho que a falta de dinheiro é apenas um dos componentes nesta intrincada estória. A grande maioria dos garotos, que se meteram no tráfico quando morava dentro do morro, não tinham problemas de dinheiro, como afirmado pelo rapper Falcão. Nem tinham problemas familiares, alguns tinham a família nuclear perfeita: pai, mãe, uma irmã, o pai trabalhava fora e sustentava a famíla e a mãe ficava em casa cuidando dos filhos. Ambos no colégio e sem problemas de agressões ou violações. Vou contar a vocês a estória do Diego.
Diego era um garoto com outro qualquer na favela. Era 'magrinho', cheio de espinhas na cara e não era bom em nada que fazia. Chegou a ser coroinha da igreja de Nossa Senhora das Graças, lá no Campinho, mas por imposição da mãe, do que vontade própria. Não tinha problema de relacionamento com ninguém. Brincava com todas as crianças, gostava de soltar pipa, rodar pião e, principalmente, de 'pera,uva, maçã e salada mista', era a sua chance de dar uma 'bitoquinhas' nas meninas. Sempre pareceu um garoto feliz e cheio de saúde. Todos adoravam o pai dele e a mãe, apesar de ser um pouco fofoqueira, era 'boa gente'. Então, quando ele apareceu com arma em punho junto com a 'galera' do tráfico, todos ficaram espantados. "Não tinha nada a ver!" foi o que todos disseram. Queríamos conversar com ele, para saber o porquê daquela súbita mudança. Ninguém se atrevia a chegar perto, enquanto ele estivesse com a 'galera' do tráfico. Na escola, o cercamos e fomos perguntar o porquê. Ele estava 'fissurado'. Falou do respeito que tinha conseguido entrando para o tráfico. As meninas passaram a olhar para ele. Podia comprar aquele tênis maneiro que tinha visto no comercial de TV e ninguém mais iria 'gozar' com a cara dele. Era muito pouco! Para ele era o suficiente.
Rapidamente, Diego comprou roupas maneiras e arrumou uma namorada 'super-gostosa', uma menina que nunca olhara para ele antes, quando não era 'ninguém'. Os pais ficaram desesperados com tudo aquilo. O pai tentou intimidá-lo, como qualquer pai faria, mas uma arma brandida em frente a seu nariz, desmotiva qualquer um. A mãe apelou para o lado emotivo e chorou 'cântaros', mas nada adiantou. O 'respeito' atingido por ele no morro era muito mais importante. Estava 'tirando onda' na 'maior'. Todos olhavam para ele agora... com temor, mas para ele não importava, pelo menos olhavam para ele. Desfilava com sua 'gata' por todo o canto. Não deixava sua pistola de lado, por motivo algum. Saiu até de casa e foi morar com alguns outros garotos do tráfico. A mãe ficou mais desesperada ainda e o pai deu 'graças a Deus', pois temia o que poderia acontecer no futuro.
O que poderia acontecer, começou uma semana depois, quando a polícia invadiu o morro e 'mandou bala' pra cima da 'molecada'. O chefe do morro foi preso, várias armas apreendidas, maconha e cocaína, também, muito dinheiro perdido. Além disso, dois 'buchas' mortos. Diego foi perseguido por dois policiais que 'soltaram o dedo' pra cima dele. As balas bateram nas paredes das casas do morro e soltaram lascas em seu rosto. Seu conhecimento de 'pique-bandeira' ajudou a fugir dos policiais, que logo se perderam no emaranhado de becos do morro. Sangue e dor espalhadas pelo morro. Os buchas tinham quinze anos os dois. Foram mortos pelos primeiros tiros dos policiais. As mães estavam inconsoláveis! A mãe de Diego... completamente insandecida.
A mãe de Diego correu o morro inteiro atrás dele, tentando descobrir onde ele estava escondido. Não conseguiu descobrir nada, mas acabou encontrando-o dentro do armário de sua própria casa. A mãe chorou de felicidade e gritou que nunca mais deixaria ele voltar para aquela vida. Ele reagiu na hora e voltou para aquela vida naquele mesmo momento. A mãe ficou ainda mais desconsolada. O pai não sabia o que devia ou podia fazer pelo filho. Diego foi juntar-se a seus companheiros e a vida voltou a ser o que era para ele. Não durou, é claro!
Duas semanas depois, foi a vez de uma facção rival invadir o morro, aproveitando que o chefe havia sido preso. O tiroteio durou a noite inteira, desta vez foram encontrados oito mortos. Diego fora perseguido, novamente, por membros da gangue rival, pensando que conseguiria despistá-los, assim como fez com os policiais, mas um dos membros da gangue rival, era um antigo morador. Diego ficou cansado e caiu. Os dois membros da gangue o alcançaram e iriam matá-lo, quando tiros perto deles o distraíram e permitiram que Diego pudesse fugir. Sua facção ganhou a batalha daquela noite e Diego percebeu que os truques da infância não serviam mais. Ficou escondido por três dias em uma lixeira, comendo os restos. Foi encontrado pelos lixeiros que o expulsaram dali. Não tinha mais sua pistola, perdida na fuga desesperada. Sondou nas bordas do morro para saber quem havia vencido, quando soube que era a sua própria facção, decidiu voltar para casa.... a sua casa!
Chegou em casa, pediu perdão à sua mãe e a seu pai. O aceitaram na mesma hora e voltaram a ser uma família feliz, assim pensaram. Nada feito, dias depois os membros remanescentes estavam recrutando novamente e o foram buscar em casa. Ele falou que não queria voltar, mas não tinha escolha... ou estava com eles... ou estava contra eles... e se estivesse contra... ele já sabia o destino. Não houve jeito, falou com seu pai e sua mãe e voltou para o tráfico. Sempre buscando fugir de qualquer confronto ou ação explosiva. Às vezes, nem ia buscar o pagamento e ficava horrorizado, quando aparecia aqueles garotos 'vibradores' com o perigo e a morte. Percebeu que tinha um grande medo de morrer. Percebeu que o amor da sua 'super-gata' era tão falso quanto nota de dois mil reais. Queria sair, mas agora não sabia como.
A polícia invadiu novamente o morro, desta vez Diego se deixou capturar. Os policiais o prenderam, o interrogaram com os punhos, mas Diego não disse nada. Na verdade, não sabia nada que servisse para os policiais ou que eles houvessem perguntado. Diego foi parar em uma delegacia antiga, onde as celas estavam super-lotadas. Passou uma noite infernal, onde dormiu apenas duas horas em pé, encostado em dois outros presos, que a cada momento davam beliscões em sua bunda. Foi apertado nas coxas, na bunda, nos mamilos e no dia seguinte, um dos presos com uns trinta anos, o agarrou e o beijou na boca, enquanto apertava seu pênis com força. Pegou a mão dele e o fez bater uma 'bronha' nele. O cara gozou na mão de Diego, que teve de limpar o esperma na camisa que vestia. O cara prometeu a Diego que teriam umas noites maravilhosas juntas dali por diante. O respeito havia ido embora e começara o pesadelo. Diego começou a imaginar os pesadelos que viveria naquela cela. Sabia que não sairia tão cedo dali. Nunca ficara tão arrependido na vida! Era um completo idiota e imbecil por ter se metido naquela vida. Nada valeria a pena, passar pelo que estava passando. Foi violentado diversas vezes na cadeia, algumas vezes os policiais vinham vê-lo gritar.
Dias depois, um advogado da sua facção criminosa conseguiu tirá-lo da cadeia. Diego não sabia como e nem queria saber. voltou para casa, mas sabia que os membros da facção viriam atrás dele. Sua vida estava acabada! Morreria em um tiroteio ou cometeria suicídio na prisão para não virar mulher de ninguém. Não queria contar nada para seus pais. Vergonha e dor estavam profundamente misturados. Queria tê-los escutado antes. Antes de tudo aquilo. Uma 'boceta' não valia aquela encrenca toda. Aquele sofrimento todo.
Os pais de Diego o pressionaram até ele falar. Ele contou tudo. A mãe chorou copiosamente por horas e o pai saiu para tomar um porre daqueles. Quando o sol começou a surgir no horizonte, Diego estava se preparando para voltar para a gangue. De repente, seu pai chegou com um caminhão na porta. Retiraram todos os móveis e pertences que davam para carregar e colocaram dentro do caminhão. Muita coisa ficou para trás, em menos de 30 minutos carregaram tudo e desapareceram, para nunca mais ninguém saber de seu paradeiro.

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