Existem fatos que não conseguimos explicar como acontecem e nem porque, principalmente, quando as mudanças extinguem os motivos da existência de algo, até então vital para todos. Este é um caso destes.
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Furaram a calçada! Vários homens da CETEL, todos vestidos de amarelo, cercavam o buraco. Havia uma pequena caminhonete sem cobertura estacionada do outro lado da rua. Todos que passavam, tentavam dar uma 'espiadinha' para saber o que tanto mexiam aqueles homens de amarelo no chão. Terminado o buraco, foram até a caminhonete e retiraram algo grande de lá. Era amarelo, a cor da companhia de telefones, com uma haste de mais de metro e meio de altura. Um orelhão! O serviço levou quase todo o dia, pois era uma tal de mexer em fio para cá e depois para lá. Fios azuis, vermelhosa, brancos e pretos. Puxados do poste e do chão, até o cimento ser posto sobre o buraco e manter firme e erguido o orelhão.
Era o pioneiro! O primeiro orelhão do morro. Quase ninguém tinha telefone em casa naquela época, já que a posse de um telefone era um artigo de luxo, somente para pessoas abastadas. Um verdeiro investimento, valendo tanto quanto um carro, mas sem desvalorizar, pelo contrário. Acabado o serviço, a caminhonete e os homens de amarelo foram embora sem nada dizer a ninguém. Deixaram aquele orelhão em pé bem no cruzamento da Central com a Visconde Delamare. Um ponto central do morro, de fácil acesso para todos. A multidão logo se juntou para examinar o novo bem público exposto no morro. Os comentários eram os mais diversos possíveis. A grande maioria nem ao menos sabia usar o aparelho.
No dia seguinte, na venda do 'seu' Mozart surgiu uma placa amarela: “Fichas de Telefone: Cr$ 0,50 cada”. Fomos então apresentados as indefectíveis fichas cinzentas para usar no telefone. Tinham tamanho de uma moeda, apenas mais grossas e com umas ranhuras profundas no meio dela, sendo que havia nos dois lados da ficha. Todas eram iguais! Sempre me perguntei de que eram feitas, mas nunca soube e nem conheci ninguém que soubesse. Segredo! O Mozart ganhou muito dinheiro com elas, pois rapidamente o uso do telefone se tornou popular.
Dele, ligavam para os patrões para explicar porque não foram trabalhar ou para 'cantar' alguma menina que haviam conhecido. Às vezes, vendiam roupas e móveis por ele ou chamavam uma ambulância para atender alguém passando mal. Ele tinha 'mil e uma utilidades' para o morro. Descobriram que ele podia receber chamadas também. Então, marcavam um horário e ficavam esperando uma ligação acertada, como para saber a resposta para uma tentativa de emprego ou para saber a resposta de alguém sobre um determinado assunto. Ele fez a tristeza e a alegria de muitas pessoas do morro. Lembro bem, quando o Ricardo recebeu a notícia que seu filho nascera por ele. Chorou como um bebê, pois havia saído para trabalhar e não encontrara a sua esposa em casa quando voltara, então ligou para o hospital e soube que seu varão havia nascido saudável. Felicidade em 'dose cavalar', o pobre do Ricardo chorou como uma criança no meio da rua, sentou no meio-fio com as mãos no rosto e gritou bem alto: “Meu filho nasceu! Sou o homem mais feliz do mundo!” Saiu correndo e foi para o hospital ver sua família recém aumentada.
As fichas aumentaram o valor, mas o movimento não caía, ao contrário, sempre crescia muito mais. Havia dias em que o Mozart não conseguia repor na mesma velocidade que o consumo. Assim, surgiram os seus concorrentes e a venda de fichas de telefone se espalhou por todo o morro. Ninguém mais ficaria sem ligar. O movimento era tanto, que a Cetel, aproveitando a estrutura instalada e colocou um irmão gêmeo amarelo no lugar. A partir de então, as filas tão comuns, desapareceram e todos ficaram felizes com a novidade. Apesar de muitos não gostarem de conversar no orelhão quando havia outra pessoa esperando. Era porquê a pessoa podia ficar bisbilhotando o assunto alheio. Sabe como é que é, quem não ama uma fofoquinha de vez em quando? Assim mesmo, foi um grande sucesso, ajudou e muito as coisas no morro a melhorarem. Foi uma das ações sociais de maior impacto que eu já presenciei lá. Até eu usava o orelhão de vez em quando para conversar com o pessoal do colégio!
O tempo passou e novos orelhões foram instalados no morro, mas o orelhão da Central sempre foi o favorito do morro. Todo mundo usava e até o local onde ele estava instalado ganhou o apelido de: “Praça do Orelhão”, apesar de não haver praça nenhuma lá. O Mozart foi o mais beneficiado por isso, pois seu bar era ao lado do orelhão e, além da venda de fichas, ele podia vender bebidas e outras coisas mais para quem esperava sua vez de telefonar. Negócio que ia de vento em popa. Virou até ponto de referência para quem entrava no morro. Qualquer pessoa quando comprava um móvel na Ultralar do Cacuia, dava o orelhão da Central como referência para a entrega. Passou a fazer parte da vida de quase todo mundo que morava por ali.
Então, quando a CETEL virou TELERJ e depois foi privatizada, começou o boato de que começariam a vender 'telefones' para serem instalados no morro. Muita gente dizia que aquilo era mentira e outros falavam, que ninguém teria condições de comprar, pois um telefone era mais caro que uma casa no Campinho, o local mais caro dentro do morro. As especulações eram tantas e tamanhas, que nada escapava e todos diziam: “Para que preciso de telefone em casa, tem o Orelhão da Central pra gente!” Tratavam-no como uma entidade que tivesse vida e personalidade. Houve até o caso do bêbado “Pudim de Cachaça” que dormia sob ele, mas antes tinha um papo animado com o orelhão, explicando as mazelas da vida que o levaram-no a 'encher o pote'.
Houve então o cadastramento dos moradores para a compra do telefone. Seria, um aparelho por casa e somente um. Mas as coisas atropelaram os eventos na velocidade da luz. Após a privatização, os telefones começaram a ser instalados do dia para noite. Houve casas, como a minha, que foram instalados dois aparelhos. De repente, mais de 50% das residências do morro tinham aparelho. No entanto, o 'amarelinho' da Central permanecia intocável e útil. Muitos continuavam a usá-lo como forma de conexão com o mundo externo. Saíram as fichas de circulação e substituíram pelos cartões telefônicos.
Mas as mudanças continuaram de forma acelerada. Inúmeros orelhões foram instalados por todo morro, na Vila Panamericana, na Visconde Delamare e no Campinho. Os telefones não paravam de chegar as casa dos moradores e o preço dos cartões subia muito rapidamente. A 'pá de cal' foram a popularização dos celulares. No início, o preço absurdo cobrado por eles, ainda tornava o uso restritivo, mas a criação dos celulares pré-pagos, foram uma revolução para classe D e E do Brasil, principalmente, nas favelas. De repente, todos tinham celulares. Até os adolescentes recebiam de seus pais celulares como presente de aniversário ou de Natal. Os orelhões, finalmente, começaram a ser esquecidos. O da Central começou a encher de poeira. Roubaram o aparelho e depois os cabos. A Oi até instalou novos, agora na cor azul, mas não durou muito. Ninguém os usava e agora eram murais para os anúncios mais esdrúxulos, como o da 'Ritinha', um travesti que fazia programas no Jardim Guanabara. Foi o fim, quando em um tiroteio entre gangues rivais, acertaram mais balas nele do que um no outro. O orelhão caiu e ficou dias jogado na Central. Lá no chão, esparramado e destruído... sem uso. O fim de uma era. A única coisa que sobrou daquele tempo, foi o nome do lugar: Praça do Orelhão, continua até hoje.