24 agosto 2008

Boogie Woogie - Metal Pesado

Música, parece que todo mundo a ama... mas será verdade? Não acredito nisso. Acho que as pessoas gostam do 'evento música' e não da música em si. Sou um apaixonado por música e o grande responsável por isto é o Heavy Metal. Alguns perguntariam: Isto lá é música? eu digo só uma coisa: Ouça!

Quando meu pai comprou o primeiro aparelho de som lá de casa, nós só tínhamos dois discos, ambos do Roberto Carlos, de quem meu pai era um enorme fã. Sem opções, escutei aqueles dois discos até quase fazer um buraco nas faixas, na realidade, quem mais escutava os discos era eu. Meu pai, meus irmãos e minha mãe preferiam escutar o rádio, na maioria das vezes para ouvir os programas de notícias e de discussões dos mais diversos assuntos. Música não era um objetivo em si deles. Era o meu!
Sempre fiz bicos e desde que meu pai comprara o aparelho de som, decidi que juntaria uma 'graninha' para comprar outros discos. Sonhava em ter uma coleção de mais de 1,000 Lps dos mais diversos estilos. Sonhava em ter todo o tipo de música, até aquelas mais desconhecidas do mundo. Não tinha a noção da impossibilidade disso... mas queria. A primeira grana que juntei, decidi ir até o Centro do Rio para comprar algo, pois achava que meu bairro não teria nada de interessante, como era verdade.
Em uma sexta-feira, saí do Colégio fui até o morro e troquei de roupa. Falei para minha mãe que iria sair, mas não disse para onde e rumei para o Centro. Peguei o 324 Ribeira-Castelo e fui sonhando acordado com tudo que iria comprar. Meu objetivo principal era comprar alguma coisa dos Beatles. Meus ídolos até então. Quando cheguei lá, acabei me perdendo na maré imensa de discos que vi. Tinha de todo o tipo e formato, mas infelizmente meu dinheiro não esticava tanto. Percebi de cara, que só poderia comprar no máximo dois. Tentei procurar primeiro nas pontas de estoque. Havia muitos de discoteca, mas não era o que eu queria, pois já estava saindo de moda. Queria rock, por causa dos Beatles. Encontrei uma loja especializada na Rua São José. Havia coisas demais... escolhas demais... tipos demais. Percebi ali o quão pouco eu conhecia de música. Os nomes das bandas me davam idéias, as mais estapafúrdias possíveis. Até que encontrei um disco com uma capa que me chamou a atenção: “House of Holy”, do Led Zeppelin. Já havia ouvido falar do Led e conhecia umas duas músicas, mas no disco não tinha nenhuma delas. Fiquei em dúvida, tinha gostado mesmo da capa. Enquanto segurava o disco na mão pensando se o levaria ou não, minha atenção foi fisgada pela capa de outro disco. Era um disco de capa prateada, com fotos coloridas de uma banda no palco. O vendedor me disse que era um disco ao vivo. Não entendi! Para mim, todos os discos eram ao vivo, mas o vendedor me explicou o que significava. Fiquei fascinado!
A dúvida persistiu por um tempo, dei várias voltas no Centro e entrei em diversas lojas, tive até alguns discos dos Beatles na mão, mas aqueles dois não saíam do meu pensamento. Led Zeppelin e aquele outro ao vivo. O que escolher? Beatles! As capas deles não me 'pegaram'. Led Zeppelin, definitivamente. Era famoso, tinha músicas que eu conhecia e a capa era a mais bonita. Decisão tomada, fui até a loja decidido, segurei o disco na minha mão, mas em cima da hora troquei. Peguei o disco ao vivo: “Made in Europe”, de uma banda chamada Deep Purple. Não tinha a menor idéia do que queria dizer e muito menos o estilo de música, mas levei assim mesmo.
A viagem para casa foi excitante, não conseguia me agüentar de tanto tesão para ouvir minha nova aquisição. Infelizmente, cheguei em casa e já estava dando o Sítio do Pica-Pau Amarelo e começaria a novela das seis. Tentei convencer minha mãe a deixar escutar o disco que comprara, mas ela ficou irredutível. “Na hora da novela, não, senhor!” Fui dormir aquela noite apenas esperando a hora de levantar e ouvir o meu disco.
Acordei às 08:00 h da manhã e corri para a estante, liguei o som e preparei para colocar o disco para tocar, mas minha mãe me deu uma bronca enorme: “Isso lá são horas de acordar os outros.” Tive que esperar até dez horas. Meus irmãos acordaram e correram para brincar na rua, meu pai foi trabalhar e o beco ganhou vida com a luz do sol aumentando sua força. Então, finalmente, escutei! Era uma banda de metal pesado, Heavy Metal se preferir. Era ao vivo e nunca havia escutado nada igual aquilo. Os solos de guitarra me pegaram de todas as formas possíveis. O vocal era vibrante e forte. Tudo era novo diferente e... barulhento. Minha mãe ficou irritada nos primeiros acordes e pediu para diminuir o som da 'vitrola'. Algo que não fiz, pelo contrário, aumentei quase a explodir as caixas de som. Fiquei hipnotizado pela música.
O lado A do LP tinha apenas 3 músicas, bem diferente do disco do Roberto que tinha 7. Uma das músicas tinha mais de 12 minutos de duração e era interpolada por outra sem perder ritmo e harmonia. Fascinante. No lado B, descobri que existia um instrumento chamado balalaica, que era russo e usado para tocar uma música chamada Polka. Era a introdução de uma música que nunca mais sairia de meus ouvidos. Misturada a balalaica, havia um piano, um órgão Moog, Guitarras e Baixo, com um vocal irado. Era a minha música. Entrei para o grupo dos metaleiros. Minha vida mudou dali em diante, tanto musicalmente como no geral. O mundo se abriu para mim.
Enquanto o mundo era aberto para os meus sentidos, o morro iria se fechar. A música não era novidade apenas para mim, o morro inteiro nunca ouvira algo assim. Os primeiros comentários que era a música dos infernos, composta pelo próprio Satã em pessoa. Coisa de maluco ou retardado mental. “Ele vai ficar surdo ouvindo algo assim!” Fui transformado de um garoto inteligente em o ser mais estranho do morro. Todos diziam que eu estava possuído por alguma força do mal. Eu era maléfico! Era uma má influência para todas as crianças. Conclusão: fui incluído na lista negra de cada mãe e pai de família do morro. Ninguém queria que seus filhos andasse com aquele esquisito adorador do demônio. Foram até falar com minha mãe, que apesar de odiar aquela música, me deu todo apoio e mandou todo mundo 'pastar', para não dizer outra coisa.
Eu era apontado na rua e tinha gente que mudava de calçada quando me via. No início, pensei que tinha alguma doença contagiosa, depois pensei em até parar de ouvir o meu disco, para agradar a todo mundo e voltar a ser aceito nos meios sociais do morro. Qualé? Passei a ouvir, também, foi mais Metal Pesado: Black Sabbath, Led Zeppelin, AC/DC, Iron Maiden e tantos outros. Passei a tentar conhecer mais sobre aquela música segregadora, acabei descobrindo o progressivo, o blues, o soul e o jazz. Me afastando cada vez mais do samba e da MPB. Nunca aprendi a sambar, apesar de ter vivido quase toda a minha vida no morro. Fui rejeitado por minha escolha musical, então, rejeitei a deles.
A segregação acabou me ajudando a encontrar pessoas diferentes, de diferentes círculos, gostos, cores e pensamentos. A rejeição me ajudou a expandir meus conhecimentos e meu aprendizado sobre a vida. Minha segregação da sociedade dentro do morro foi uma benção. Uma transformação! Minha vida não poderia ter sido melhor sem o Rock Pesado das bandas de Heavy Metal.
Anos mais tarde, Rock in Rio, o primeiro, aconteceu. O rejeitado era o único do morro que conhecia alguma coisa do que iria se apresentar nos palcos do maior show da Terra. Ninguém sabia o que era um Iron Maiden, Whitesnake ou Yes. Ninguém conhecia o mundo, apenas as fronteiras do morro. Acabei escolhido para mostrar este caminho diferente a todos, que acabaram muitos seguindo pelos mais diversos motivos. De esquisito fui transformado em sábio, de um show para outro.

Nenhum comentário: