O Falcão mostrou que um dos principais motivos da entrada de crianças no crime são: a pobreza e as relações familiares deterioradas. Mas serão os únicos motivos? Na minha vida dentro da favela, vi muito poucos que se enquadravam neste perfil. Vi crianças entrarem nesta vida por N motivos, como veremos na estória abaixo.
Frederico, ou melhor Rico, era um garoto bem comum, quando o conheci. Bom aluno, jogador razoável de futebol, não tinha grandes problemas com os pais, pois ambos viviam juntos a mais de quinze anos, sem brigas ou grandes problemas aparentes, pelo menos que vazassem para a fofoca das “matronas”. Ele tinha um irmão mais novo, de nome Guilherme, já que seu pai era um entusiasta de história, principalmente, alemã. Na verdade, ele queria por o nome do filho de Bismarck, mas a esposa não deixou.
Era um pouco franzino e tinha que agüentar os “apuros” proporcionados pelos valentões mais avançados. Nunca reagia, aceitando as brincadeiras maldosas sem nunca reclamar. Em suma, era um garoto normal, de uma família normal, com uns doze anos. Mas, infelizmente, tudo mudou, quando ele viu um traficante impondo uma humilhação pública em um “vapor”, durante à noite. Percebeu o poder que tinha aquele garoto com uma arma na mão. O traficante em questão, não era muito mais velho que ele e nem mais forte. Apenas tinha “autoridade” e “respeito” do “vapor” submisso.
Rico começou a se interessar por aquele poder. Vigiou os garotos da escola que estavam ligados ao tráfico e quando estava no morro, sempre brincava próximo da “boca-de-fumo”, para descobrir o que faziam. Notou uma coisa, principalmente, a violência e a crueldade entre eles. O poder vindo da força de vontade e não da força física, simplesmente. Não demorou, Rico arrumou problema no colégio. Bateu em outro estudante e começou a aterrorizar os menores. Para não sofrer represálias de outros garotos, juntou uma turma, que o seguia para todo o lugar. Era muito inteligente, percebeu que poderia roubar lanches e dinheiro de garotos menores, pois estes nada diziam a seus pais em casa. Rapidamente, ganhou “respeito” e “autoridade” na escola.
Em uma das brigas que arrumava, quase diariamente, acabou sendo pego por um inspetor que o levou à diretoria. Mas como tinha boas notas, nunca havia se metido em encrencas, era branco e seus pais vinham a todas as reuniões de professores. O diretor mandou apenas uma advertência para ser assinada pelos pais e nada mais. Rico não entregou, é claro, assinou ele mesmo a advertência e continuou a agir com seu grupo, cada vez mais numeroso. Não demorou, um garoto, de uma série mais baixa que a dele, falou para os pais e estes ao diretor. Era uma rescindência. Chamou os pais de Rico e descobriu sobre a advertência. Pais e diretores, acharam que era uma ação de rebeldia normal da idade. Decidiram, apenas conversar com ele e não tomar nenhuma atitude mais forte.
Rico percebeu que deveria ser mais sútil na sua abordagem. Não parou com seus atos, passou a fazer vandalismo e a pichar muros, criando uma marca própria para seu grupo. O seu “respeito” cresceu, que até os garotos do “movimento” o conheciam. A soberba fez com que Rico vacilasse e acabasse fazendo uma besteira: bateu no sobrinho da namorada do “patrão” do morro. Avisado com antecedência que os garotos do “movimento” estavam atrás dele. Fugiu da escola e foi para a casa de uma tia na Baixada fluminense, onde ficou escondido por alguns dias, para desespero de seus pais.
Acabou sendo descoberto e repatriado para o morro, mas para a sua sorte, o “patrão” acabou se envolvendo em um tiroteio e acabaram esquecendo o que fizera. O diretor, porém, resolveu suspendê-lo. Passou a ficar na rua, com o pai e a mãe trabalhando, ninguém para vigiá-lo, acabou entrando para o tráfico. Acabou recebendo a sua primeira arma e atirou pela primeira vez contra uma pessoa. A adrenalina e o poder o contaminou. Ficou mais violento e intratável. Voltou para o colégio e agora, aterrorizava os professores e o próprio diretor. Furou os pneus do carro dele com tiros. Ninguém no colégio, ninguém na sua casa, agora tinham coragem para enfrentá-lo. O pai tentou, mas acabou levando uma coronhada e sendo expulso de casa. A mãe ficou para tentar “salvar” o seu menino. Mas para alguém ser salvo, ele tem que querer ser.
Logo, ganhou “respeito” do novo “patrão”. Ascendeu, rapidamente, na “organização”, mas não tinha paixão pelo dinheiro, mas sim o poder que este proporcionava. Gostava, realmente, de ver o olhar de medo em todos quando estava por perto. O novo “patrão” não durou e formou um vácuo de poder. Não veio um novo “patrão”, pois os que o escolhem, acharam que o morro não valia a pena. Rico percebeu isso e assumiu o morro ele mesmo. Com mão de ferro de um adolescente que ainda não havia se debruçado sobre o quê é a morte. Instigou medo em todos, bandidos ou pessoas inocentes. Sem interesse, propriamente, no dinheiro. Fazia pequenos roubos com seu grupo. Assaltava os próprios moradores, fato que nenhum outro “patrão” já havia feito.
Foi quando viu a Cláudia, uma mulher mais velha, com uns 22 anos e muito bonita. Por seu “respeito” alcançado, acreditou que a moça aceitaria ser sua namorada. A menina recusou. Ele descobriu que ela namorava um “playboy” do Jardim Guanabara, sua raiva cresceu e em uma noite, quando ela chegara de madrugada, trazida pelo namorado, ele e seu grupo a cercaram e a estupraram no meio da rua. Prática que passou a ser comum no morro, não importando a idade e nem de quem ela era filha. Foram doze meninas estupradas, algumas dentro da própria casa sob os olhos dos pais impossibilitados de defender as filhas. A polícia foi comunicada, mas como todos os crimes estavam acontecendo dentro da favela e o garoto não ganhava dinheiro suficiente para pagar subornos, ninguém se incomodou de ir fazer-lhe uma “visitinha de cortesia”, pelo menos.
O reinado de Rico já durava uns seis meses, quando os moradores, percebendo que nem traficantes e nem policiais, iriam tomar alguma atitude em relação ao garoto-marginal. Eles tomaram. Um grupo de pais se reuniu à noite, pegaram a mãe dele e a tiraram de casa. Um grupo de 20 pais entrou com paus na casa, agarram o adolescente e o mataram de pancadas. A mãe entrou em desespero gritando que ele era só um menino, mas todos o viam com a figura do próprio demônio.
Apesar de ter uma boa família, educação e estabilidade, Rico fora tomado pela sede de poder que nos é vendida a todo momento. Alguns saciam esta sede trabalhando, outros corrompendo ou sendo corrompidos, outros destruindo a vida de trabalhadores e empresários com falcatruas e atos de vigarice. Não importa, o motor é sempre o mesmo: poder.