Sofia era minha amiga desde que éramos pequenos. Era vizinha de muro da minha família e minha mãe adorava a mãe dela. Crescemos juntos, brincamos juntos e conversávamos muito juntos. Formamos uma personalidade parecida, mas Sofia sempre foi mais determinada e bem sucedida em tudo que quis. Desde cedo, organizava as festas juninas, arrecadava dinheiro paras as quermesses da Igreja Nossa Senhora e ajudava à sua irmã mais velha no salão de cabeleireiro em que ela trabalhava, bem na rua em que morávamos.
Estudante de primeira, com uma enorme vantagem sobre mim, tinha muita iniciativa. Era uma realizadora. Uma construtora. Escolheu, como eu, Administração de Empresas como sua profissão. Entrou na faculdade e conseguiu um estágio no inicio do terceiro período. Foi um sucesso e em menos de um ano, estava efetivada. Juntou dinheiro, rapidamente, e ao invés de procurar marido, como à maioria das suas amigas, decidiu criar um negócio próprio e construir sua independência financeira, sem depender de nada e nem de ninguém.
Em cinco anos, fundou sua empresa. “Ralou” muito no primeiro ano e viveu das reservas que tinha guardado de seu primeiro emprego. Firme e resoluta, agüentou os momentos mais difíceis da vida de um empreendedor, mas ao lado de seus três funcionários... venceu. Sua empresa cresceu e estabeleceu no mercado a sua marca e seu nome. Deveria ser um motivo de orgulho para toda a família, mas foi neste momento que seus problemas realmente começaram.
Dentro da sua família, apesar de nem ter uma residência própria ainda, era considerada rica. Tinha carro e morava em um bairro de classe média, próximo ao morro, apesar do apartamento ser alugado. Sua mãe, então, pediu que ela arrumasse um emprego para um primo. Sofia, como boa administradora que era, disse à sua mãe que estudaria o caso. Recebeu o primo para conversar e estudou suas referências e suas capacidades. Era um 'zero à esquerda', que não sabia nada e não queria nada desde a adolescência. Sofia recusou a arrumar o emprego, mas sua mãe insistiu, pois não podia decepcionar a irmã. Os irmãos insinuaram que ela estava ficando egoísta. “O que era um emprego afinal? Não vai custar nada, você ganha muito mais por mês do que vai pagar a ele!” afirmavam todos. Sofia ficou firme e não arrumou o emprego para ele em sua companhia, mas, por seus contatos, arrumou o emprego na empresa de um fornecedor.
Não demorou muito para o “favor”, se transformar em uma grande dor de cabeça. O primo era um vagabundo assumido e não gostou de ser imposto “trabalho” para ele, já que era parente de uma das principais clientes da empresa. O gerente engoliu o desaforo e agüentou um pouco mais, mas o primo acabou se envolvendo em uma greve, meio inexplicável, já que ele não trabalhava mesmo. Foi demitido. A família foi cobrar de Sofia a “injustiça” sofrida pelo “pobre coitado”, que estava defendendo os seus “direitos”, como todo trabalhador deveria fazer. Apenas esqueceu de dizer, que nunca havia trabalhado, até então, não poderia ser chamado de “trabalhador”, por conseqüência.
O incidente criou um racha na família, por “culpa” de Sofia, que não deu um emprego para o “pobre coitado”. É assim mesmo, de culpado a vítima, depende bem mais da lábia e de um bom sorriso do que da verdade. Embora, a experiência sirva para nos ensinar duras lições, Sofia parecia ter algumas ainda para aprender, infelizmente. Dias depois, seu irmão trouxe um ex-amigo do colégio, que estava trabalhado para uma empresa que fornecia itens para a empresa dela. Seu irmão queria que ela “desse uma força” pra ele, comprando em suas mãos alguns itens novos. O problema estava que a empresa em que ele trabalhava era uma grande porcaria e tinha baixos padrões de qualidade. Sofia ainda aceitou receber uma primeira remessa, mas os prejuízos causados a fizeram mudar de idéia. O irmão e a família inteira brigaram com ela, passou mais de um mês sem poder ir na casa dos pais, pois ninguém a olhava na cara. Ela era soberba e injusta. “Não gostava de pobres.” diziam todos. Esqueciam que ela havia arrumado e comprado imóveis para a maioria ali, inclusive a casa em que viviam.
Para fazer as pazes, Sofia aceitou contratar a namorada de um outro irmão. A garota tinha um bom histórico e as referências do emprego anterior era muito boas. Falou com o chefe dela e só recebeu elogios. Era uma forma segura de voltar “as boas” com a família. Contratou e fez um ótimo negócio, pois a menina era uma ótima funcionária mesmo. O problema agora era que ela... era boa demais. Muito bonita e com um belo corpo, acabou tendo um caso com o gerente de produção de Sofia, sem que ela soubesse de nada. O inevitável chute no irmão veio! A família inconformada, queria que Sofia despedisse os dois “vagabundos” e “traidores”, já que o irmão estava em depressão pela perda afetiva. Sofia ficava entre a “cruz e o caldeirão”. Os dois eram ótimos funcionários e o gerente estava com ela desde o princípio, sendo a pessoa de maior confiança que tinha dentro da empresa... mais do que na própria família. A pressão foi tanta que acabou cedendo.
Depois de tanto infortúnio, era de esperar que viria uma certa calmaria. Infelizmente, o ditado não estava servindo para Sofia. O mesmo irmão bonzinho, comprou um carro e usou papéis falsificados com a assinatura de Sofia. Não pagou a dívida, sumiu e deixou o “barulho” para irmã “egoísta” e “metida”, como todos eles diziam, para pagar. Sofia assumiu mais um prejuízo, percebendo que não haveria como viver tranqüilamente de seu sucesso, que não era valorizado. Encontrou um comprador para sua empresa, entrou em contato com um amigo que tinha uma pequena empresa em Miami, nos Estados Unidos e pegou um passaporte, sem que ninguém soubesse, e foi embora do Brasil.
Longe da família e amigos, Sofia cresceu profissionalmente. Ficou, realmente, rica. Casou e teve dois filhos. Agora, quando vem ao Brasil, é tratada por todos como uma vencedora e com reverência. Agora!
31 agosto 2007
Mulhers que Amo - Vencedora
Ser um empreendedor e uma pessoa vitoriosa no Brasil é muito difícil, até mesmo a família, muitas vezes fica no caminho de sucesso, como veremos abaixo:
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