Ciraldo é um cara muito nervoso, 'perde a cabeça' com muita facilidade e esta foi uma ocasião em que ele nos meteu em encrencas por causa disto. Discutiu na praia sobre um assunto irrelevante com um 'playboizinho' do Jardim Guanabara. Acabamos parando no Campo da Vila para uma partida de futebol entre nós e eles. A discussão ser resolvida em uma partida de futebol, foi uma decisão civilizada e inteligente das partes, pois acabou evitando a resolução do conflito via 'músculos'.
O Campo da Vila foi escolhido pela segurança da marinha, pois o campo pertence a esta divisão militar, e por ser o de mais fácil acesso para todos. Difícil acreditar que o Iate Clube Jardim Guanabara aceitaria nos receber para uma partida de futebol. Seríamos barrados na porta do clube, com certeza. O campo é bom, tamanho oficial e temos todo o material necessário para o jogo com facilidade guardado em um botequim do outro lado da rua. O jogo foi marcado para sábado de manhã, assim não atrapalharia os torneios que são realizados lá. Às sete e meia, todos já haviam chegado e a tensão começou a aumentar devido aos detalhes sem nenhuma importância. Enquanto a maioria de nós chegava a pé e descalço, os 'playboy' do jardim Guanabara chegava de carro ou moto. Traziam chuteiras e material próprio para o jogo, todo novinho em folha. Nós, por outro lado, vínhamos com roupas simples e inadequadas para o jogo, alguns de calções e a maioria de bermudas, principalmente, de jeans, nada adequado para a prática do futebol.
Os garotos do Jardim Guanabara trouxeram uma sacola, onde estavam uniformes numerados e com o nome de cada um deles grafado nas costas. Nós não tínhamos uniformes e usávamos um colete colorido sobre nossas camisas para poder nos diferenciar. Não havia números e nem identificação do jogador nas costas, apenas uma marca da loja que nos vendera o colete. As chuteiras eram o principal motivo de discórdia e inveja nossa, pois grande parte de nossa equipe jogaria descalça e poderia se machucar em qualquer choque mais duro entre os jogadores. Ciraldo tentou argumentar que todos deveriam jogar descalços, para igualar a situação, mas os 'playboy' não quiseram nem ouvir. Se tivessem que jogar descalços, não haveria jogo. Não iriam machucar seus 'delicados' pezinhos devido a nossa equipe não ter equipamento adequado. Era problema nosso.
Naldo foi enviado para arrumar tênis para todos que estavam descalço. Enquanto, os garotos da praia ligavam um rádio e começaram a se divertir e dançar antes do jogo. Chegaram algumas meninas para torcer por eles, a maioria era linda e criou um alvoroço entre nós, pois para torcer por nós só tínhamos os reservas de nossa equipe, como eu mesmo. Também, trouxeram com elas, sucos e sanduíches para comerem antes e depois do jogo. A maioria de nós, nem tinha tomado café da manhã ainda. Era um jogo de extremos, alguns pensaram em desistir, pois já estavam sendo humilhados antes mesmo da partida ter início. Ciraldo ficou irado e gritou com todo mundo: “Ninguém 'arreda' o pé daqui! Vamos ganhar desta 'playboizada' metida a besta. Vocês vão ver.” A exaltação melhorou um pouco a moral do grupo, mas olhar para o adversário era um motivo de desânimo e irritação entre todos.
Naldo voltou e conseguiu tênis para todos, apesar da maioria ser grande demais ou pequeno demais para quem iria ter de usá-los. O jogo poderia começar. Era um jogo de extremos, em que eles já começavam moralmente vencendo, seriam noventa minutos de um combate entre forças desiguais, que se colocassem os jogadores enfileirados, já daria para notar pela uniformidade da altura dos jogadores do Jardim Guanabara e a total falta de padrão dos jogadores do Boogie Woogie. Graças a Deus que no futebol o placar só gira com a bola rolando e com a bola rolando, todos são igualados pela técnica e capacidade física.
Com a bola nos pés, novos gigantes surgiram de ambos os lados. Entre os 'playbois', destacava o goleiro... excelente e salvou os garotos de uma derrota mais humilhante, enquanto de nosso lado, dois moleques franzinos e desnutridos davam um 'show'. Bucho e Gordo, dominaram e comandaram o jogo no meio do campo e não deram chance a equipe adversária. Era uma técnica completamente desigual e superior, contra um esforço dedicado e disciplinado. Técnica contra Força Física. Genialidade contra Tática. Era uma grande partida de futebol, em que a dedicação e a vontade de ambos os lados superava qualquer deficiência.
No terceiro gol da dupla endiabrada do Boogie Woogie, até as meninas do Jardim Guanabara já estavam aplaudindo o espetáculo que eles proporcionavam. Juntou, rapidamente, uma multidão para assistir. Aplausos e gritos de incentivo começaram a surgir de todos os lados, havia agora uma verdadeira torcida dividida participando ativamente do evento.
Aconteceram choques e discussões, mas ambos os lados escolheram respeitar o espetáculo e o público. Ficaram concentrados no jogo e deram uma lição de educação e ética. A partida acabou 4 a 2 pros garotos do Boogie Woogie. Fizeram festa e gritaram de felicidade para expor seus sentimentos de vitória, após terem começado a partida moralmente abatidos. Um gesto de Ciraldo marcou a comemoração, foi até o garoto com quem havia discutido e o chamou para participar da comemoração. Fomos todos para o Bar do Paulinho do outro lado da rua, compramos refrigerantes e sanduíches, improvisamos mesas com alguns entulhos deixados pela Light na rua e quando percebemos. Todos estavam confraternizando uns com os outros de forma alegre e feliz. Não havia vencidos, somente vencedores, felizes por terem superado suas diferenças e poderem realizar aquele evento juntos. Juntos e felizes.
11 agosto 2007
Boogie Woogie - A Partida
Conviver é um ato difícil de ser realizado. Quanto maior as diferenças, maiores os motivos de atrito e confusões. Esta é uma história de como uma situação assim pode descambar para violência ou para a amizade.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário