29 setembro 2007

Poesia - Desbotado

A luz traz muitas vezes a verdade em seu bojo, mas esta verdade nem sempre é a desejada, nem sempre é segura e nem sempre é defensável, como nosso poeta nos mostra.

DESBOTADO


Graças ao enredo que fatiga a escuridão
Com a persistente luz,
Parte o envolvente calor,
Necessário à existência,

E a excitante existência,
Pintada em cores,
Que dão existência ao que existe,
E cores outras,
Que envolvem o inexistente
Por não existirem aos olhos.

Perdeste a cristalina transparência,
E com ela o rigor da consciência,
Queimada em amarelo fogo,
Transformada em invisível vapor.

Trapo desbotado de cor nenhuma.
Forma duvidosa
Que se molda a qualquer forma.
Plástica forma.

Submete-se a limites que não são seus,
Reflete tons que não existem,
Transitam em voláteis verdades,
Sonha sua fantasia negra
E é despertado pelo dourado,
Para iniciar seu pesadelo real.

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Mulheres que Amo - Fé demais cheira mal

É paradoxal que em pleno Século XXI, as pessoas estejam cada vez mais crédulas e acessíveis a toda sorte de assuntos místicos, com um pequeno senso de realidade. As mulheres, infelizmente, ainda seguem demais esta máxima sonhadora, como veremos a seguir.

O fascínio das mulheres por cartomantes, adivinhos e leitores do destino alheio, é uma incógnita para mim. Será possível acreditar que estas pessoas possam realmente ler o futuro ou o destino de alguém. Já vi programas no National Geographic sobre como as pessoas podem ser 'lidas' por estes tão propalados 'sobrenaturais'. Ser cético totalmente, às vezes nos impede de ser totalmente idiota. Mas existem ocasiões que nos vedam de ver fatos e acontecimentos sobre um novo prisma. Ter um meio-termo para este tipo de assunto é, terrivelmente, difícil.
Marina era uma grande amiga minha da faculdade. Não era uma garota muito bonita, apesar de ter um corpo fenomenal e ser bem inteligente. Mas era tímida ou insegura, não posso afirmar precisamente. Sei que tinha dificuldades em seus relacionamentos amorosos, isto quando ela permitia que existissem. Ficava petrificada quando qualquer homem se aproximava dela, mesmo que fosse para dar um alô ou perguntar as horas. Nem sei bem como fez amizades comigo e com alguns outros do nosso grupo, apesar de ter demorado um bocado para acontecer. Naquele ritmo de vida, ela levaria uma década para conseguir um namoro e pelo menos outra para pode casar, sabe-se lá quando conseguiria ter um filho.
As amigas, então, resolveram dar uma 'mãozinha' para ela. Cristiane, uma amiga da faculdade de direito, conhecia uma cartomante 'das boas', que poderia ajudá-la. Eu diria que o problema dela estava na alçada de um bom psicólogo, mas as mulheres do grupo nem deram ouvidos para isto. Levaram-na em uma sexta-feira, quando a requisitada cartomante tinha um horário vago em sua extensa agenda de clientes. Nem sabia que cartomante tinha agenda, imagina, então ela ser extensa. Sei que após a 'consulta', Marina voltou cheia de confiança, pois a cartomante garantiu que ela conseguiria um belo namorado naquela semana mesmo. Eficiente a mulher, brincamos todos. Mas, naquela semana, Marina acabou conhecendo um aluno novo, recém transferido de outro estado. No dizer das meninas: "Era um gato!" e adivinhe só a quem ele primeiro foi cumprimentar: Marina! Era um sinal dos céus, apontando para o novo namorado dela. "Era um presente de Papai Noel!" uma das garotas afirmou a 'boca pequena', mas Marina acreditou piamente na profecia da Cartomante e decidiu conquistar o 'Gato".
Tentou todas as artimanhas femininas, ajudada pelas amigas, para atrair a atenção do 'gato'. O máximo que conseguiu, foi que ele pedisse o caderno emprestado para copiar alguma matéria perdida de aulas passadas. Assim mesmo, Marina ficou como 'mosca de padaria' em volta do pobre rapaz, na vã esperança que a profecia fosse cumprida com ajuda dos Céus. É claro, que os Céus não estavam dispostas a tamanho esforço por algo tão insignificante. Marina deu com os 'burros n'água'.
voltou na cartomante e confrontou as previsões da mesma com a realidade. A cartomante, que 'não é boba nem nada', enrolou a pobre coitada, afirmando que ela não havia feito de forma correta sua aproximação ao 'gato' em questão. Passou uma 'receita' de coisas que ela deveria fazer para conquistar o objeto de seu desejo. Marina foi para casa e comprou todos os objetos e ingredientes para fazer o 'trabalho' mandado pela cartomante, que já estava parecendo mais uma 'macumbeira' de 'porta de esquina' do que uma profissional séria da arte da cartomancia.
Feito os 'trabalhos', Marina voltou a 'carga' sobre o garotão. Apenas, não conseguiu ajustar bem a mira e seus tiros caíram longe do alvo. O garotão já havia arrumado uma outra garota dentro da própria faculdade. Era uma decepção atrás da outra. Marina queria desistir de tudo, mas as amigas, principalmente, Cristiane que indicara a advinha, não queria passar por tola. Insistiram que algo devia estar errado, que Marina não devia ter seguido as ordens dela com atenção devida ou ter cometido algum erro no preparo dos 'ingredientes'. Reviram tudo que a cartomante mandara fazer e descobriram um pequeno erro. "Foi isso que deu errado!" concordaram todas. Tinham que voltar na cartomante e pedir que ela refizesse tudo de novo.
Sei que entre idas e vindas, a cartomante já começava a embolsar uma bela quantia nas 'consultas' e na venda de preparados e poções do amor. Chegaram a organizar uma 'vaquinha' para arrecadar fundos para a nobre causa de casar Marina. A certa altura, entre os homens, o caso já tinha se transformado em uma grande piada. Para Marina, era uma piada de muito mau gosto. É claro, que a fofoca chegou aos ouvidos do 'gato' e de sua namorada. O que gerou um grande 'barraco' no andar da faculdade. As duas quase se pegaram, mas não chegaram as 'vias de fato' porque a 'turma do deixa-disso' interferiu bem na hora. A cartomante, enfim, foi desacreditada, e as meninas tentaram recuperar o investimento feito, mas esta não é um serviço que restitua seus clientes, no caso de não funcionar Adequadamente. Ficaram a 'ver navios' todas elas.
A confusão esfriou e pensamos que elas haviam aprendido a lição, que lidar com o 'sobrenatural' não era tarefa fácil e, principalmente, dispendiosa. Mas 'qual nada', algumas semanas depois, estavam preparando uma 'simpatia' para atrair um novo amor para a pobre coitada da Marina, que eu já estava quase propondo, que se internasse em um convento, para poder se livrar das 'amigas' magas, que tentavam ajudá-la. Passaram, quase o ano inteiro, de 'mandinga' em 'mandinga' e nada acontecia. Marina ficou tão embaraçada com a situação criada, que decidiu trancar a matrícula por um período. Arrumou um emprego e sumiu por um semestre inteiro. Quando voltou, estava de casamento marcado com um cara que conhecera no emprego novo. Finalmente, as crendices funcionaram, pelo menos foi o que todas as 'amigas' acreditaram. Pois acreditar, não custa nada.

21 setembro 2007

Poesia - Perda

Trabalhamos duro a vida inteira, mas de repente tudo muda. Tudo se transforma! A vida que conhecemos deixa de existir em um suimples estalar de dedos. Nada é certo... nada é seguro. Nosso poeta vem nos mostrar a precariedade da vida emseus belos versos.


PERDA

SOBRE O TEMPO DE TIRARES O FRUTO
DA ÁRVORE QUE PLANTASTE,
PODEIS TU ESQUECER,
POIS ESTÁ PERDIDA A ESPERANÇA DE COLHEITA.

VIESTE EM DIA NEGRO
DURANTE O SONO DO JARDINEIRO
A DANINHA ERVA
QUE DE SÚBITO SUGOU COM SUAS RAÍZES,
ATÉ ENTÃO INVISÍVEIS,
A ESSENCIAL SEIVA
QUE NUTRIA DE VIDA
A ÁRVORE QUE HOJE APODRECE.

SOBRE A ACOLHEDORA PARAGEM
QUE COMEÇASTE A CONSTRUIR
NÃO LHE ACRESCENTE SE QUER UM TIJOLO,
POIS A BRISA QUE UM DIA LHE ATRAIU
TRANSFORMOU-SE EM AMEAÇADOR VENDAVAL
ARRASTANDO EM SEU DORSO NÃO SÓ A VIDA,
MAS, SOBRETUDO, A ESPERANÇA.

SOBRE A FRESCA ÁGUA
QUE DE NASCENTE PURA
FIZESTE BROTAR
E EM FARTURA ESCORRIA
DISTRIBUINDO VIDA
POR SUAS LARGAS MARGENS

NÃO TE SERVE HOJE
PARA ACALMAR-TE A SEDE,
NEM PARA FERTILIZAR OS CAMPOS,
POIS EM VENENO FOI TRANSFORMADA,
E SOMENTE A MORTE
GERMINA AO SEU REDOR.

Boogie Woogie - Tolerância

No Brasil, o sincretismo é muito mal visto, mas é uma forma de tolerância religiosa que traz um equilíbrio a imensa pressão que as seitas cristãs impõem a todas as pessoas e as suas subsequentes consequências. Neste conto, vemos uma amostra do sincretismo da Umbanda nos morros cariocas.

O som dos atabaques chegavam até a minha casa. Toda sexta e sábado eram invadidos pelo ritmo alucinado e perfeito do transe causado pela força das batidas dos ritmos africanos. Eu adorava! Sabia que lá, no Terreiro de Dona Castorina estava sendo realizada uma reunião pagã da Umbanda brasileira. Na época, cristã como minha família era, era um sinal de pecado e idolatria, mas não me importava, o que me importava era a música maravilhosa e a imensa curiosidade sobre o que acontecia lá dentro. O terreiro era o único do morro e era quase tão antigo quanto a Capela de Nossa Senhora das Graças, que dava nome ao morro.
Dona Castorina era a quarta geração a comandar o terreiro, o que me impressionava ainda mais, pois era uma mulher que comandava todas as ações, como todo sub-produto judaico-cristão, que eu era, não conseguia ver uma mulher no comando de nada. A visão machista da religião cristã, me impedia de perceber o poder feminino e sua imensa capacidade. Portanto, era mais uma das inúmeras maravilhas que o Terreiro apresentava. Além do mais, as roupas das pessoas que entravam no terreiro, me impressionavam pela riqueza dos detalhes e dos enfeites, usados por mulheres e homens. Os costumes, nada tinham a ver com o usado por todos no dia-a-dia das pessoas que conhecia. Era algo meio árabe, meio mil e uma noites, que atiçava ainda mais a minha já enorme curiosidade.
O Carlinhos era neto de Dona Castorina, provavelmente, assumiria o controle do Terreiro, quando Dona Castorina decide se aposentar das funções. Sabia que ele participava das festividades. Tomei coragem e um dia pedi para ele me levar, sem meus pais saberem de nada. Estava ansioso e temeroso do que viria acontecer naquele salão de magia e música. Quando o sábado chegou, fomos cedo para o Terreiro, pois Carlinhos me explicou que havia partes da cerimônia que não era acessível a todos, apenas aos iniciados na Umbanda. Ficamos no terreno próximo da entrada do salão, esperando os preparativos terminarem. Fascinado com os instrumentos em madeira e a enormidade de detalhes multi-coloridos que eram postos para dentro, por um grande quantidade de participantes, dos mais variados tipos físicos, sexo e idade. Sempre imaginei, que a Umbanda era um ritmo exclusivo de pessoas negras, mas vi uma multitude de pessoas lá. Brancos, loiros, morenos, ruivas e etc. Todos sorridentes e felizes.
O som dos atabaques começou e nós entramos. O centro do salão era ocupado por alguns grupos de homens, que já ensaiavam os primeiros passos, o som dos atabaques iniciavam mais lento e a dança era hipnótica. Saiam os homens e as mulheres assumiam o centro do salão, dançam, agora, em uma velocidade maior, com suas saias rodadas, seus lenços e miçangas esvoaçantes. Era um ato de total frenesi e êxtase. Pura e simplesmente, hipnótico. Não conseguia tirar meus olhos de todo aquele movimento caótico, mas ao mesmo tempo, completamente, organizado e estruturado. Todos sabendo exatamente o que deviam fazer e quando fazer, sem que houvesse a necessidade de ordens ou comandos de qualquer espécie. O salão estava repleto, agora, as pessoas acompanhavam os atabaques com batida nas palmas das mãos, incrívelmente, ritmados e perfeitos. Não perdiam nenhum compasso e não erravam a seqüencia da música, nem quando esta mudava de forma repentina.
Quando as vozes das mulheres se uniram ao som das palmas e dos atabaques, era impossível não ser envolvido naquele clima de êxtase e frenesi. Quando percebi, estava dançando, acompanhando o movimento dos homens, que em nenhum memento permaneciam parados. Foi, quando percebi, que haviam pessoas como eu no salão, que não estavam vestidos de forma adequada para a celebração. Carlinhos me informou depois, que vinham se consultar com a avó dele, quando esta recebesse o espírito, ou quando algum outro fizesse a "cabeça". Não prestei muita atenção neles no inĩcio, mas não deixei de notar o quão bem estavam vestidos, nem pareciam pessoas da favela. Descobriria, depois, que não eram.
O canto, agora, tinha vozes femininas em primeiro plano e um suporte vocal de vozes masculinas. As mulheres estavam em primeiro plano na celebração, diferente da Igreja, onde ficavam no primeiro plano pela força de seu número, ali, ficavam pela força de sua importância. Todos eram iguais na celebração. Todos tinham a mesma importância. Todos cantavam, dançavam, trabalhavam e adoravam seu "Deus", da mesma forma. Sem preconceitos, sem separações ou sem alienação. Estavam plenamente cônscios do que estavam fazendo ali. Tudo ao som de uma música bela e envolvente.
Notei, então, um altar em um dos pontos do Terreiro, que estava mais vazio. parecia uma espécie de santa, cercada por diversos adornos e com estátuas de diversas formas e tipos, bastante diferenciados entre si. Todos envolvidos com enfeites de colares e miçangas, sobre uma mesa de diversos níveis, tendo ao centro a estátua daquela brilhante santa. Todos ficavam sobre uma toalha rendada extremamente branca. Haviam velas e alguns copos com bebida próximos. Senti, mas do que percebi, o cheiro do fumo que tomava o Terreiro, neste memento. Foi quando, as vozes do canto, assumiram um tom mais baixa, quase um sussurro. Uma mulher foi para o centro do salão e começou a fazer movimentos desconexos e irregulares com o corpo. Não era uma dança, parecia um ataque epiléptico. Estava recebendo um "santo". Ela dançou e moveu intermitente o corpo, até assumir uma determinada postura, ao falar sua voz estava alterada, como por magia. Pediu um charuto e um pouco de bebida. Falou com pessoas, que continuavam a cantar para ela, foi para um canto e continuou o culto.
Tudo era mágico para mim. Fantástico! Inacreditável! Vi diversas pessoas recebendo "santo" naquela noite. Pessoas fazendo movimentos que não acreditaria ser possível. de assustado a maravilhado em poucos segundos. A avó de Carlinhos, Dona Castorina, veio falar comigo. Passou a mão em minha cabeça e saiu para conversar com alguns homens bem vestidos que estavam do lado de fora do Terreiro, querendo entrar. Aqui e ali, Carlinhos me explicava alguma detalhe, seja da roupa, das bebidas, das danças, da música, dos cantos ou dos enfeites. Foi quando nos chamaram, para participar da mesa. Uma mesa lotada de comidas e bebidas, dos mais diversos tipos. Sabores do mais doce ao mais amargo. Alguns, eu odiei, e outros, eu amei. Foi uma noite incrível.
O mais incrível de tudo aquilo, é que Dona Castorina, era a mesma mulher, que na Igreja, organizava terços e grupos de orações. Ajudava a manter a Igreja de Nossa Senhora das Graças em perfeito estado. Organizava as procissões e rezava fervorosamente nos domingos, tanto que não havia reuniões no Terreiro aos Domingos. Aquela noite ficou em minha memória por anos a fio. ali aprendi sobre tolerância, alegria, música e trabalho. Aprendi sobre uma herança negra que nem sabia que existia. Ali aprendi que é impossível haver uma verdadeira fé... um verdadeiro Deus, na multitude de seres humanos e suas culturas diferentes neste mundo de meu Deus. Aprendi a amar sem distinções. Em suma, aprendi a viver.

15 setembro 2007

Poesia - Tempo de Temer

Nosso poeta nos traz suas desventuras com o tempo. Nesta é a perspectiva do presente que o preocupa e assola. Vamos ouvir seus pensamentos.

TEMPO DE TEMER

Não temo o indefectível destino
Que vem no dorso do tempo.
Nem o desconhecido acaso
Que aleatoriamente nos acomete,
Dando-nos a impressão
De sermos o único escolhido.

Não temo o escuro, que fugindo à luz,
Coloca-nos mais armadilhas que presentes
Estes em única Noite de Natal.

Não temo as mudanças
Que apavoram com o novo
A vida do acomodado velho.

Temo, sim, o presente.
E este temo a cada fração
Mensurável ou não do tempo.

Temo-o, portanto, continuamente,
Sem sequer dar chance ou espaço
De deixar-me temer o futuro.

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Mulheres que Amo - Verdadeiro Deus

A religião é uma parte importante de nossas vidas, para o bem ou para o mal. Esta é uma história da influência de um aspecto da religião em nossas vidas.

Ah, Elisa, Elisa! O tempo é um Deus cruel. Nos melhora e, às vezes, nos piora. Para ela, mudou de forma radical e completa os rumos de sua vida. Pois sua adolescência foi vivaz e feliz, mas ao alcançar a maturidade, assumiu responsabilidades para as quais não estava preparada, nem psicologicamente e, muito menos, fisicamente. Seu corpo cobrou um preço alto. Adoeceu de uma forma radical, devorando sua própria força de vontade e desejo de viver.
Elisa foi a médicos, diversos especialistas para tentar descobrir o que estava a derrotá-la em vida. Mas ninguém pareceu saber, ou pelo menos dar-lhe um pouco de esperança. A doença só piorava. Acabaram os caminhos ortodoxos e chegou o memento de seguir por estradas heterodoxas. Primeiro, homeopatia e depois medicina oriental d diversos tipos, cores e sabores. Nada funcionava.
A mãe de Elisa era fervorosamene religiosa, acompanhava peregrinações e procissões. Nunca deixava de guardar os domingos ou ouvir as missas. Confessava e comungava uma vez por ano. Insistiu que o problema da filha era de ordem espiritual, já que Elisa, apesar de cumprir suas obrigações católicas, nunca fora uma verdadeira Crente. A mãe bateu tantas vezes na tecla que Elisa decidiu tentar. Voltou para o seio da Mãe Igreja, mas esta não retornou na mesma medida. Elisa permanecia doente, mesmo que mantendo todos os tratamentos a ela prescritos pelos médicos que consultara. Todos lhe diziam que logo fariam efeito e estaria recuperada. Mas uma mulher jovem e bonita, que tem sua plenitude roubada de si, não consegue ter paciência para tanto.
Não resolvido na Igreja Católica, Elisa foi com uma amiga para uma Pentecoastal. Ritos estranhos e comportamento parecido com os da umbanda, com seus passes e descapetizações, fizeram com que Elisa duvidasse da eficácia desta nova terapia. A amiga insistiu que ela deveria ter fé. Ela teve! Meses depois a moléstia perdeu sua força e Elisa recuperou a vontade de viver. Seu rosto, seu corpo e sua alma estavam renovadas. Ou pelo menos, é o que parecia ter acontecido.
Na verdade, o que aconteceu foi uma radical transformação da pessoa. Uma mudança na identidade e na forma de viver. Uma jovem e feliz mulher, foi alterada para uma rigorosa e fiel servidora de Deus. Mudou seu visual, abandonou família e amigos. Seus objetivos passaram a servir a Deus incondicionalmente. tudo em sua vida era voltado para a Graça de Deus. Um Deus Cristão, é verdade, mas um Deus. Ela. que antes, nunca havia demonstrado reprovação a nada ou a ninguém, agora só aceitava aqueles que abraçavam os preceitos divinos do Criador. Sua vida e a de todos ao seu redor deviam a servir a um único propósito: Jesus Cristo.
Encontrávamos na rua, mal ela me cumprimentava. Andava sempre com meninas que eram da mesma seita que ela. Mulheres que professavam a mesma fé e crença. Espalhava a palavra de Deus a todos os homens, de forma agressiva, muitas vezes. Não aceitava um não e sempre utilizava o que acontecera a ela como a prova do bondoso coração de Deus. Era, agora, uma evangelizadora do enorme rebanho humano. Era seu dever sagrado e supremo.
Os pais tentaram convencê-la que tudo isto não era o que ela achava, mas a própria mãe tinha dificuldade de reprimir o comportamento da filha, pois estaria indo contra a própria fé. Mesmo estando em uma Igreja de nome diferente, os preceitos eram os mesmos e o nome do Deus era o mesmo. Como, então, poderia recriminar a filha daquilo que ela própria fizera por tantos anos? Nós, os amigos mais próximos, não mais conseguíamos conversar com ela, sem uma acalorada discussão sobre nosso comportamento, modo de vestir, de falar e de agir. A única salvação para nossa alma era a total submissão a Deus e a Igreja. Algo impensável para a maioria de nós. Ela passou a atravessar para o outro lado da rua, quando nos via.
Denise, sua melhor amiga, chegou a ir em um culto, mas ficou tão pasma com o que ocorria lá dentro. O frenesi, a loucura, os delírios e a gritaria insana, que desistiu de tentar alcançar a mente perdida de Elisa. Ela não estava mais lá, havia outra em seu lugar. chegamos a discutir se a "cura" ou "graça" alcançada, não havia se tornado na morte da antiga Elisa para o renascimento de uma nova em seu lugar. Uma, em que nós não nos identificávamos e nem entendíamos. Nenhum de nós sabia dizer, apenas não mais queríamos sua proximidade, bem como ela.
As guinadas do tempo são imprevistas e incertas. A doença de Elisa voltou! Ela piorou bem mais rápido do que da primeira vez. Os médicos queriam fazer baterias de exames, pois acreditavam que desta vez estavam melhor equipados e com um conhecimento maior do que houvera com ela. A possibilidade de cura era grande desta vez. Mas, desta vez, era Deus quem não queria. Elisa recusou todo e qualquer tipo de tratamento que não fosse o espiritual. Rezar era o único método de curar a doença que vinha de um espírito fraco e impuro. Culpou os pais pelos pecados que lhe passaram. Culpou a vida desregrada e pagã que levara nos anos de juventude. Culpara a tudo e a todos, menos a Deus. era uma provação a sua fé. Ela iria superá-la. Ela tinha que superá-la!
A fé dela não foi grande o bastante! Afirmou seu pastor. Elisa morreu aos vinte e oito anos de idade. Sem filhos, sem casar, sem vida e completamente desorientada do que fizera a si mesma. Não só a si mesma, mas também, a todos que verdadeiramente a amavam. O tempo é cruel, o destino certo e não podemos brincar com ele, mesmo que falsos profetas nos instiguem a acreditar que podemos pela força da fé.

07 setembro 2007

Poesia - Quisera

Traz-nos, nosso poeta, um embate entre desejo e realidade, justiça e verdade. Nem sempre o resultado é o que desejamos. Temos que nos conformar ou assumir uma nova postura frente a vida como conhecemos. Pense bem! Leia.

QUISERA

Quisera um tempo sempre coerente
A transformar a latente semente
No correspondente fruto.

Quisera uma natureza a regar com a vida
A semente de luz
E a oferecer ao ardente sol
A semente de espinhos.

Quisera um Deus justo
A conduzir o bom jardineiro
Ao fruto do seu labor,
E ao jardineiro mau
As daninhas ervas
Que sem suor cultivou.

Quisera a vida como um raio
Que, após lançar suas águas
Em precipícios e rochedos,
As conduz com serenidade
À certeza do mar.

Cultivaste por fim
O sonho do bem pelo bem,
E o mal pelo mal.
Encharcaste, porém, de esperança
Não só tua consciência,
Mas também teu caminhar.

Fartas decepções,
Enganosas colheitas.
Ilusões que se desmancham
Sob o poder do real.
Sonhos que, sob a rotina,
São lançados sob abismáticos
E concretos pesadelos.

A falsa metamorfose de tua vida
Excomunga-lhe dos códigos da natureza,
E põe-lhe a descer pela garganta
Os amargos frutos quer jamais cultivaste.

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Boogie Woogie - Procissão

As favelas ainda sofrem com a enorme influência das religiões em seu meio. Primeiro, foi a Igreja Católica com seu poder secular sobre a ignorância, depois as religiões negras como Candomblé e Umbanda e até mesmo a combinação de ambas. Hoje o mal é continuado pelas Igrejas Evangélicas, Pentecoastais ou Cristãs de uma forma geral, como veremos no primeiro conto de uma pequena trilogia.

A partir de seis da manhã, elas se reuniam na Igreja de Nossa Senhora das Graças para começar os preparativos para a Procissão. Retiravam a imagem da santa de seu pedestal atrás do altar da missa e a colocavam no andador, que a levaria até a Igreja de Nossa Senhora da Conceição dos Navegantes, na colônia de pescadores Z-10, no bairro do Zumbi. Um percurso de mais ou menos 4 Km.
Após a imagem ser colocada em sua posição, era enfeitada com diversos tipos de flores: rosas, tulipas, margaridas e até girassóis. Era colocado um manto à sua volta, para indicar seu ar virginal. Alguns retoques na imagem, desgastada pelo tempo, se faziam necessários, mas estes eram cuidados que eram responsabilidade do Sr. Lucas. Assim que chegava, colocava uma escada e cuidava de tudo. Era uma máquina perfeita, nos seus mínimos detalhes.
Enquanto Lucas finalizava os seus detalhes, as mulheres iniciavam um terço, puxado por Dona Castorina. A seqüência iria durar até às nove, quando os moradores começava a se aglomerar na entrada da Igreja, no Largo do Campinho, no momento exato da chegada do pároco, Padre Marcolino. Ainda em roupas civis, segue direto para o fundo da Igreja, cumprimenta algumas de suas paroquianas e dá as últimas ordens para o início da missa, que antecede a partida da procissão.
A missa é campal, realizada sob um sol de verão de uma bela manhã. O Largo do Campinho já está lotado, sendo acompanhado de perto pelos comerciantes locais e pelos policiais da guarda do DPO. Algumas crianças brincam ao redor, enquanto suas mães participam da cerimônia religiosa. No momento da comunhão, alguns fiéis ajoelham no chão quente de asfalto, mostrando sua devoção a santa. O calor inclemente faz todos suarem, pois a maioria está vestindo roupas fechadas e compridas, homens de calças jeans ou tergal, enquanto as mulheres vestem vestidos com saias compridas e muitas colocam xales ou véus em suas cabeças, não para proteger do sol, mas para demonstrar sua fé.
A missa termina, o andador é posto para fora da Igreja. As mulheres começam a entoar cantos e alguns iniciam orações. Alguns homens de maior fé se aproximam para colocarem a santa em seus ombros e iniciarem a peregrinação pelas ruas do bairro. A grande maioria espera o início, as crianças acham tudo maravilhoso e divertido, sem saber que na metade do caminho já desejariam nem ter começado. Um policial passa a frente da multidão, coloca o capacete, sobe em sua moto e começa a acompanhar a procissão, abrindo caminho pelo trânsito. As pequenas ruas da favela ficam apinhadas de fiéis, curiosos e pessoas que repudiam tal ato religioso.
O padre continua na Igreja, dando ordens de preparação para a missa da noite, quando do retorno da santa para sua casa. Nem pensa em acompanhar a multidão de fiéis, seguirá em seu carro até a Colônia Z-10, onde esperará a chegada deles daqui uma hora. Famintos e cansados do esforço em prol de sua crença. Alguns comerciantes abandonam seus negócios para cumprirem suas penitências, devido a promessas feitas a santa, outros seguem por pura devoção, sem nada desejar a não ser demonstrar fé e religiosidade. Amor fraternal e terno pela mãe de Deus.
Acompanho a procissão, junto com minha mãe e meus irmãos menores. Rezando e cantando a cada passo dado. Estou presente por causa de minha mãe, mas rapidamente me distraio, descobrindo novos motivos para estar ali. Nenhum deles religioso ou envolvido com fé. O motivo é emocional, mas distante de ser dirigido a virginal imagem que nos guia. Sem saber bem o que fazer, prestar a atenção na oração, que repito sem nem saber o que significa, ou prestar atenção a imagem que prende meu coração. Uma imagem viva e bela, morena com olhos negros e cativantes. De certa forma, naquele momento, é a minha Santa. A Santa que me cativa e envolve. Um sorriso é suficiente para me colocar em êxtase.
Os homens se revezam no ato de suportar o peso da Santa. É impossível ficar naquela posição por todo o caminho, apesar de que muitos tentam, não entregam sua posição, sem reclamar ou demonstrar mais fé que seu vizinho de penitência. As mulheres aumentam o tom dos cantos, puxam um terço e Dona Castorina exorta a todos manterem a fé na provação do caminho e compara nossa pequena caminhada, com os tormentos sofridos por Jesus Cristo. Tudo parece meio distante e sem sentido, por escolha própria, dificilmente estaria ali. Sol, suor, cantos, orações, fé e reunião de um grupo de pessoas que nada tem em comum, a não ser sua religiosidade.
A distração de minha mãe é suficiente para me aproximar de minha”Santa”. Um sorriso, é a única coisa que peço, devoto que sou de ti. Ela me olha e reconhece, sorri. Estou no céu. Uma oração menciona o amor de Deus, neste exato momento em que estou propenso em acreditar em suas graças. Ela anda em minha direção e diz algo, inaudível naquela balbúrdia, gostaria ter uma bolha para nos separa daquilo tudo. O pai dela é um dos carregadores e a mãe, devota que é, nem percebe a “fuga” da filha. Nos damos as mãos e seguimos nosso caminho até a Colônia Z-10, para mim agora o paraíso. Começa a pedir que esta demonstração de fé não tenha fim.
O trânsito a nossa volta fica lento, alguns motoristas colocam a cabeça para fora de seus carros e xingam aqueles atrevidos a atrapalharem o “seu” caminho. Outros param e observam devotamente a procissão que segue inexorável a seu destino. A cada palmo do caminho, a procissão cresce com o acréscimo de novos fiéis que se juntam pelo caminho. Uma multidão é arrastada pela imagem da santa. A monotonia da reza/canto, só é quebrada pela “troca de guarda” da santa. Já avistando a Colônia Z-10, o passo aperta, não sei bem se devido a fé ou a necessidade de descansar, mas sei que vamos mais rápido, para meu infortúnio.
Entramos na Colônia Z-10 e a Santa é levada diretamente para a Igreja, onde o padre já a espera para iniciar a nova cerimônia, que nada difere da que iniciou a procissão. Não estando nada interessado na Santa da imagem carregada, mas sim na “santa” viva ao meu lado. A carrego para longe da cerimônia, sem culpa e nem recriminação. Quero apenas viver a minha verdadeira fé momentânea.