21 setembro 2007

Boogie Woogie - Tolerância

No Brasil, o sincretismo é muito mal visto, mas é uma forma de tolerância religiosa que traz um equilíbrio a imensa pressão que as seitas cristãs impõem a todas as pessoas e as suas subsequentes consequências. Neste conto, vemos uma amostra do sincretismo da Umbanda nos morros cariocas.

O som dos atabaques chegavam até a minha casa. Toda sexta e sábado eram invadidos pelo ritmo alucinado e perfeito do transe causado pela força das batidas dos ritmos africanos. Eu adorava! Sabia que lá, no Terreiro de Dona Castorina estava sendo realizada uma reunião pagã da Umbanda brasileira. Na época, cristã como minha família era, era um sinal de pecado e idolatria, mas não me importava, o que me importava era a música maravilhosa e a imensa curiosidade sobre o que acontecia lá dentro. O terreiro era o único do morro e era quase tão antigo quanto a Capela de Nossa Senhora das Graças, que dava nome ao morro.
Dona Castorina era a quarta geração a comandar o terreiro, o que me impressionava ainda mais, pois era uma mulher que comandava todas as ações, como todo sub-produto judaico-cristão, que eu era, não conseguia ver uma mulher no comando de nada. A visão machista da religião cristã, me impedia de perceber o poder feminino e sua imensa capacidade. Portanto, era mais uma das inúmeras maravilhas que o Terreiro apresentava. Além do mais, as roupas das pessoas que entravam no terreiro, me impressionavam pela riqueza dos detalhes e dos enfeites, usados por mulheres e homens. Os costumes, nada tinham a ver com o usado por todos no dia-a-dia das pessoas que conhecia. Era algo meio árabe, meio mil e uma noites, que atiçava ainda mais a minha já enorme curiosidade.
O Carlinhos era neto de Dona Castorina, provavelmente, assumiria o controle do Terreiro, quando Dona Castorina decide se aposentar das funções. Sabia que ele participava das festividades. Tomei coragem e um dia pedi para ele me levar, sem meus pais saberem de nada. Estava ansioso e temeroso do que viria acontecer naquele salão de magia e música. Quando o sábado chegou, fomos cedo para o Terreiro, pois Carlinhos me explicou que havia partes da cerimônia que não era acessível a todos, apenas aos iniciados na Umbanda. Ficamos no terreno próximo da entrada do salão, esperando os preparativos terminarem. Fascinado com os instrumentos em madeira e a enormidade de detalhes multi-coloridos que eram postos para dentro, por um grande quantidade de participantes, dos mais variados tipos físicos, sexo e idade. Sempre imaginei, que a Umbanda era um ritmo exclusivo de pessoas negras, mas vi uma multitude de pessoas lá. Brancos, loiros, morenos, ruivas e etc. Todos sorridentes e felizes.
O som dos atabaques começou e nós entramos. O centro do salão era ocupado por alguns grupos de homens, que já ensaiavam os primeiros passos, o som dos atabaques iniciavam mais lento e a dança era hipnótica. Saiam os homens e as mulheres assumiam o centro do salão, dançam, agora, em uma velocidade maior, com suas saias rodadas, seus lenços e miçangas esvoaçantes. Era um ato de total frenesi e êxtase. Pura e simplesmente, hipnótico. Não conseguia tirar meus olhos de todo aquele movimento caótico, mas ao mesmo tempo, completamente, organizado e estruturado. Todos sabendo exatamente o que deviam fazer e quando fazer, sem que houvesse a necessidade de ordens ou comandos de qualquer espécie. O salão estava repleto, agora, as pessoas acompanhavam os atabaques com batida nas palmas das mãos, incrívelmente, ritmados e perfeitos. Não perdiam nenhum compasso e não erravam a seqüencia da música, nem quando esta mudava de forma repentina.
Quando as vozes das mulheres se uniram ao som das palmas e dos atabaques, era impossível não ser envolvido naquele clima de êxtase e frenesi. Quando percebi, estava dançando, acompanhando o movimento dos homens, que em nenhum memento permaneciam parados. Foi, quando percebi, que haviam pessoas como eu no salão, que não estavam vestidos de forma adequada para a celebração. Carlinhos me informou depois, que vinham se consultar com a avó dele, quando esta recebesse o espírito, ou quando algum outro fizesse a "cabeça". Não prestei muita atenção neles no inĩcio, mas não deixei de notar o quão bem estavam vestidos, nem pareciam pessoas da favela. Descobriria, depois, que não eram.
O canto, agora, tinha vozes femininas em primeiro plano e um suporte vocal de vozes masculinas. As mulheres estavam em primeiro plano na celebração, diferente da Igreja, onde ficavam no primeiro plano pela força de seu número, ali, ficavam pela força de sua importância. Todos eram iguais na celebração. Todos tinham a mesma importância. Todos cantavam, dançavam, trabalhavam e adoravam seu "Deus", da mesma forma. Sem preconceitos, sem separações ou sem alienação. Estavam plenamente cônscios do que estavam fazendo ali. Tudo ao som de uma música bela e envolvente.
Notei, então, um altar em um dos pontos do Terreiro, que estava mais vazio. parecia uma espécie de santa, cercada por diversos adornos e com estátuas de diversas formas e tipos, bastante diferenciados entre si. Todos envolvidos com enfeites de colares e miçangas, sobre uma mesa de diversos níveis, tendo ao centro a estátua daquela brilhante santa. Todos ficavam sobre uma toalha rendada extremamente branca. Haviam velas e alguns copos com bebida próximos. Senti, mas do que percebi, o cheiro do fumo que tomava o Terreiro, neste memento. Foi quando, as vozes do canto, assumiram um tom mais baixa, quase um sussurro. Uma mulher foi para o centro do salão e começou a fazer movimentos desconexos e irregulares com o corpo. Não era uma dança, parecia um ataque epiléptico. Estava recebendo um "santo". Ela dançou e moveu intermitente o corpo, até assumir uma determinada postura, ao falar sua voz estava alterada, como por magia. Pediu um charuto e um pouco de bebida. Falou com pessoas, que continuavam a cantar para ela, foi para um canto e continuou o culto.
Tudo era mágico para mim. Fantástico! Inacreditável! Vi diversas pessoas recebendo "santo" naquela noite. Pessoas fazendo movimentos que não acreditaria ser possível. de assustado a maravilhado em poucos segundos. A avó de Carlinhos, Dona Castorina, veio falar comigo. Passou a mão em minha cabeça e saiu para conversar com alguns homens bem vestidos que estavam do lado de fora do Terreiro, querendo entrar. Aqui e ali, Carlinhos me explicava alguma detalhe, seja da roupa, das bebidas, das danças, da música, dos cantos ou dos enfeites. Foi quando nos chamaram, para participar da mesa. Uma mesa lotada de comidas e bebidas, dos mais diversos tipos. Sabores do mais doce ao mais amargo. Alguns, eu odiei, e outros, eu amei. Foi uma noite incrível.
O mais incrível de tudo aquilo, é que Dona Castorina, era a mesma mulher, que na Igreja, organizava terços e grupos de orações. Ajudava a manter a Igreja de Nossa Senhora das Graças em perfeito estado. Organizava as procissões e rezava fervorosamente nos domingos, tanto que não havia reuniões no Terreiro aos Domingos. Aquela noite ficou em minha memória por anos a fio. ali aprendi sobre tolerância, alegria, música e trabalho. Aprendi sobre uma herança negra que nem sabia que existia. Ali aprendi que é impossível haver uma verdadeira fé... um verdadeiro Deus, na multitude de seres humanos e suas culturas diferentes neste mundo de meu Deus. Aprendi a amar sem distinções. Em suma, aprendi a viver.

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