07 setembro 2007

Boogie Woogie - Procissão

As favelas ainda sofrem com a enorme influência das religiões em seu meio. Primeiro, foi a Igreja Católica com seu poder secular sobre a ignorância, depois as religiões negras como Candomblé e Umbanda e até mesmo a combinação de ambas. Hoje o mal é continuado pelas Igrejas Evangélicas, Pentecoastais ou Cristãs de uma forma geral, como veremos no primeiro conto de uma pequena trilogia.

A partir de seis da manhã, elas se reuniam na Igreja de Nossa Senhora das Graças para começar os preparativos para a Procissão. Retiravam a imagem da santa de seu pedestal atrás do altar da missa e a colocavam no andador, que a levaria até a Igreja de Nossa Senhora da Conceição dos Navegantes, na colônia de pescadores Z-10, no bairro do Zumbi. Um percurso de mais ou menos 4 Km.
Após a imagem ser colocada em sua posição, era enfeitada com diversos tipos de flores: rosas, tulipas, margaridas e até girassóis. Era colocado um manto à sua volta, para indicar seu ar virginal. Alguns retoques na imagem, desgastada pelo tempo, se faziam necessários, mas estes eram cuidados que eram responsabilidade do Sr. Lucas. Assim que chegava, colocava uma escada e cuidava de tudo. Era uma máquina perfeita, nos seus mínimos detalhes.
Enquanto Lucas finalizava os seus detalhes, as mulheres iniciavam um terço, puxado por Dona Castorina. A seqüência iria durar até às nove, quando os moradores começava a se aglomerar na entrada da Igreja, no Largo do Campinho, no momento exato da chegada do pároco, Padre Marcolino. Ainda em roupas civis, segue direto para o fundo da Igreja, cumprimenta algumas de suas paroquianas e dá as últimas ordens para o início da missa, que antecede a partida da procissão.
A missa é campal, realizada sob um sol de verão de uma bela manhã. O Largo do Campinho já está lotado, sendo acompanhado de perto pelos comerciantes locais e pelos policiais da guarda do DPO. Algumas crianças brincam ao redor, enquanto suas mães participam da cerimônia religiosa. No momento da comunhão, alguns fiéis ajoelham no chão quente de asfalto, mostrando sua devoção a santa. O calor inclemente faz todos suarem, pois a maioria está vestindo roupas fechadas e compridas, homens de calças jeans ou tergal, enquanto as mulheres vestem vestidos com saias compridas e muitas colocam xales ou véus em suas cabeças, não para proteger do sol, mas para demonstrar sua fé.
A missa termina, o andador é posto para fora da Igreja. As mulheres começam a entoar cantos e alguns iniciam orações. Alguns homens de maior fé se aproximam para colocarem a santa em seus ombros e iniciarem a peregrinação pelas ruas do bairro. A grande maioria espera o início, as crianças acham tudo maravilhoso e divertido, sem saber que na metade do caminho já desejariam nem ter começado. Um policial passa a frente da multidão, coloca o capacete, sobe em sua moto e começa a acompanhar a procissão, abrindo caminho pelo trânsito. As pequenas ruas da favela ficam apinhadas de fiéis, curiosos e pessoas que repudiam tal ato religioso.
O padre continua na Igreja, dando ordens de preparação para a missa da noite, quando do retorno da santa para sua casa. Nem pensa em acompanhar a multidão de fiéis, seguirá em seu carro até a Colônia Z-10, onde esperará a chegada deles daqui uma hora. Famintos e cansados do esforço em prol de sua crença. Alguns comerciantes abandonam seus negócios para cumprirem suas penitências, devido a promessas feitas a santa, outros seguem por pura devoção, sem nada desejar a não ser demonstrar fé e religiosidade. Amor fraternal e terno pela mãe de Deus.
Acompanho a procissão, junto com minha mãe e meus irmãos menores. Rezando e cantando a cada passo dado. Estou presente por causa de minha mãe, mas rapidamente me distraio, descobrindo novos motivos para estar ali. Nenhum deles religioso ou envolvido com fé. O motivo é emocional, mas distante de ser dirigido a virginal imagem que nos guia. Sem saber bem o que fazer, prestar a atenção na oração, que repito sem nem saber o que significa, ou prestar atenção a imagem que prende meu coração. Uma imagem viva e bela, morena com olhos negros e cativantes. De certa forma, naquele momento, é a minha Santa. A Santa que me cativa e envolve. Um sorriso é suficiente para me colocar em êxtase.
Os homens se revezam no ato de suportar o peso da Santa. É impossível ficar naquela posição por todo o caminho, apesar de que muitos tentam, não entregam sua posição, sem reclamar ou demonstrar mais fé que seu vizinho de penitência. As mulheres aumentam o tom dos cantos, puxam um terço e Dona Castorina exorta a todos manterem a fé na provação do caminho e compara nossa pequena caminhada, com os tormentos sofridos por Jesus Cristo. Tudo parece meio distante e sem sentido, por escolha própria, dificilmente estaria ali. Sol, suor, cantos, orações, fé e reunião de um grupo de pessoas que nada tem em comum, a não ser sua religiosidade.
A distração de minha mãe é suficiente para me aproximar de minha”Santa”. Um sorriso, é a única coisa que peço, devoto que sou de ti. Ela me olha e reconhece, sorri. Estou no céu. Uma oração menciona o amor de Deus, neste exato momento em que estou propenso em acreditar em suas graças. Ela anda em minha direção e diz algo, inaudível naquela balbúrdia, gostaria ter uma bolha para nos separa daquilo tudo. O pai dela é um dos carregadores e a mãe, devota que é, nem percebe a “fuga” da filha. Nos damos as mãos e seguimos nosso caminho até a Colônia Z-10, para mim agora o paraíso. Começa a pedir que esta demonstração de fé não tenha fim.
O trânsito a nossa volta fica lento, alguns motoristas colocam a cabeça para fora de seus carros e xingam aqueles atrevidos a atrapalharem o “seu” caminho. Outros param e observam devotamente a procissão que segue inexorável a seu destino. A cada palmo do caminho, a procissão cresce com o acréscimo de novos fiéis que se juntam pelo caminho. Uma multidão é arrastada pela imagem da santa. A monotonia da reza/canto, só é quebrada pela “troca de guarda” da santa. Já avistando a Colônia Z-10, o passo aperta, não sei bem se devido a fé ou a necessidade de descansar, mas sei que vamos mais rápido, para meu infortúnio.
Entramos na Colônia Z-10 e a Santa é levada diretamente para a Igreja, onde o padre já a espera para iniciar a nova cerimônia, que nada difere da que iniciou a procissão. Não estando nada interessado na Santa da imagem carregada, mas sim na “santa” viva ao meu lado. A carrego para longe da cerimônia, sem culpa e nem recriminação. Quero apenas viver a minha verdadeira fé momentânea.


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