25 novembro 2007

Poesia - Noite dos Morcegos

Nosso poeta nos traz a angústia que precede o raiar do dia, esta representada por tormentos físicos do plano sentimental.

NOITE DOS MORCEGOS

Na madrugada que parece não ter fim,
O forro da velha casa,
Já quase morta,
Afogada em goteiras,

Abriga o ruído de gambás,
Tentando recriar a vida,
Misturado ao lamento de eternos fantasmas,
Que habitam invisíveis
O úmido ar, que denso,
Enche cada cômodo da casa
Em desespero.

Dormindo seu sono invertido,
Pulguentos morcegos
Infestam os cantos
Mais escuros do porão,
Enquanto imperceptíveis
Teias de aranha,
Dispõem-se em uma cortina de proteção,
A uma atmosfera que também é sua.

Um esqueleto de cão
Coberto de sarnenta pele,
Impedido pela fraqueza de latir
Apenas geme,
Lamentando estar vivo.

No galinheiro, aves mortas,
Deixam escorrer pelos
Dilacerados pescoços
Um sangue negro,
Que espalha ao chão
Pedaços de coágulos.

É uma noite que se iniciou
Com a recusa da permanência do dia.
Há chuva, vento e frio,
Nessa madrugada
Que parece jamais ser vencida
Pelo sonhado amanhecer.

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

24 novembro 2007

Mulheres que Amo - Como acabar com um casamento

Todos nós imaginamos como uma mulher decide o fim de um casamento, quais são seus motivos. Irei contar uma pequena e esclarecedora estória, que não serve para todas as mulheres, mas para uma boa parte sim.

Temos relacionamentos com pessoas em decorrência de antigas amizades. Clara era uma destas pessoas! A conhecia desde o segundo grau, mas nunca fomos muito próximos, já que ela era uma das "dondocas" da época, hoje em dia chamam de populares, é só diferença semântica. Ela era uma porre total e uma completa "patricinha" de carteirinha, mas como eu era amigo de Ana Paula, acabava convivendo e participando de um relacionamento, pra mim emblemático da forma que muitas mulheres encaram o casamento.
Clara conheceu Marco Antônio quando estávamos na Faculdade. Ele era advogado e ela fazia estágio em seu escritório. Emendaram, rapidamente, um relacionamento. Quando nos reuníamos o assunto sempre era o "Homem Perfeito", como o havíamos apelidado, antes de conhecê-lo. "Ele é tudo de bom!" afirmava categoricamente. No início, acreditamos que era mais um caso de propaganda enganosa, devido ela "levantar a bola" dele para "subir a sua moral" frente as outras meninas. E nem precisava, pois era uma das mulheres mais bonitas que conheci em toda a minha vida, uma pena o "pacote" não vir completo, sempre havia um defeito de fábrica em algo tão belo. No caso dela... era a personalidade. Querendo ou não, ela nos incluiu em seu relacionamento, pois o mesmo não estaria completo sem platéia.
Conhecemos o cara e, apesar de tudo, descobrimos que não era propaganda enganosa. O cara era realmente muito legal. Um verdadeiro "gente boa", destoando completamente dela. Fizemos amizade fácil e passamos a conviver de bom grado, sem reclamar, mesmo tendo ela a tiracolo.
O relacionamento evoluiu e acabamos sendo convidados para o casamento. Bela festa e ótimo bufê, uma das poucas que gostei. Continuamos a nos ver, cada vez mais esporadicamente, até a formatura, quando cada um foi para seu lado construir sua vida. Fiquei muitos anos sem notícias da turma, pois não sou daqueles que ligam muito para o passado. Até me reunir com Ana Paula, novamente, em um restaurante no Centro do Rio. Convidamos alguns antigos colegas, mas poucos vieram. A "coisa" até que estava animada, mas tudo mudou quando vimos o marido de Clara, que não viera, com uma bela loira "dando uns amassos" em uma mesa do canto. Ana Paula ficou irada e queria dar "porradas" no "safardana canalha". Desaconselhamos e continuamos com a nossa própria festa.
É claro, que no dia seguinte, Ana Paula ligou para Clara e foi vê-la. Contou tudo que vira no restaurante, xingaram e juraram que iam matá-lo assim que o encontrassem. Ana Paula foi embora e Clara para casa. Mais tarde, descobrimos por um amigo que trabalhava com ela, que nada acontecera. A vida do casal 20 continuava na "maior paz"! Ana Paula não se conformou com aquilo, mas falamos para ela esquecer tudo, pois em briga de marido e mulher "ninguém põem a colher". Ficou o dito pelo não dito. Na verdade, o casal conversou e Marco Antonio acabou demitindo a secretária que estava com ele no restaurante, mas continuou encontrando com ela e arrumou um emprego melhor para ela no escritório de um amigo. Mas, ambos, haviam tomado uma atitude.
Alguns anos se passaram, fomos na festa de aniversário de um ano do primeiro filho deles: César. Era o estereótipo do casal perfeito e feliz. Muitos beijos, muitos abraços, muitos sorrisos e sempre um ao lado do outro o tempo todo. As mulheres foram para o jardim da bela casa onde viviam e ficaram "tricotando" coisas sobre: casa, filhos e casamentos. Os homens ficaram na cozinha e na sala, bebendo cerveja e conversando sobre: futebol, dinheiro e carros. Notamos o desaparecimento do Marco Antônio por uns momentos, pediram para que eu o encontrasse, já estávamos em cima da hora para cantar o parabéns e cortar o bolo. Fui até um cômodo no segundo andar e o encontrei dando uns amassos em uma adolescente, que não devia ter mais de 16 anos. Os dois fingiram estar apenas conversando e desceram. A festa correu feliz e perfeita.
Dias depois, fui a praia na Barra e adivinha quem encontro lá: Marco Antônio. Com quem? A bela adolescente da festa. Era uma verdadeira maravilha, principalmente, de biquíni. Sem mostrar embaraço, juntou-se a nós e ficamos bebendo e conversando. O relacionamento estava indo "de vento em popa", já tinha mais de seis meses que se encontravam. Clara não sabia de nada e nem podia saber, acrescentou ele. Como ali só haviam homens que o conheciam e nenhum grande amigo de Clara, todos resolvemos ficar de "bico fechado". Mas se alguém achou que algo assim é passível de ficar escondido... ledo engano. O problema estourou no dia dos namorados, quando Marco Antônio trocou os presentes. Entregou o da amante para a esposa e o da esposa para a amante. Foi um escândalo. Era "bola sete" a separação deles. Não "rolou"!
Ninguém conseguiu entender, mas o feliz casal superou as infidelidades do marido e seguiram em frente com a vida. Veio a segunda filha e cabelos brancos em Marco Antônio e os sinais da idade para Clara. Não era mais aquela mulher deslumbrante da juventude, apesar de ainda ter um charme e uma beleza marcantes. então, aconteceu o terceiro caso de infidelidade de Marco Antonio, desta vez, fora com uma sobrinha de Clara. Pior, a engravidou! Era o fim do casamento deles, certo? Nem pensar, novamente a bela e forte Clara deu um sinal de uma grandeza desconhecida por todos nós, continuou casada e fez o marido ajudar o filho de sua sobrinha, algo que não faria falta no orçamento da família, mas seria decisiva para a "pobre menina". Esta foi mandada para o interior e o caso, rapidamente, esquecido. Sem dúvida alguma, o respeito por Clara cresceu enormemente! Não conseguia acreditar em sua bondade e quanto devia amar aquela homem tão infiel.
Um ano depois, recebi um convite de casamento. Era de Clara! Estava se casando com um tal de Olacir alguma coisa, o nome era conhecido, mas não sabia de onde. Depois descobri que era um grande empresário do setor agropecuário. Foi um choque enorme! Como pode? Liguei para Ana Paula para perguntar se havia recebido o convite. Mas do que receber, ela já havia conhecido o novo consorte de Clara. Perguntei o que houve? Ana Paula foi curta e grossa: Marco Antônio faliu! No dia seguinte, a ter sido decretada a falência nos negócios, Clara decretou a falência do casamento.


18 novembro 2007

Poesia - Suave

Nosso poeta nos traz hoje, a lição de que devemos nos preparar com serenidade para as mudanças da vida... pois esta é uma das realidades do mundo.

SUAVE

Enquanto durar meu sofrimento,
Que eu tenha o corpo forte,
A alma apaziguada,
O espírito humilde

E uma serenidade no olhar
Que o faça produzir
Sua própria luz,

Para quando a tempestade
Que circunda o meu viver,
Romper suas comportas
E como uma avalanche
Iniciar seu ciclo de destruição,

Encontre em mim suavidade tanta,
Que ao contrário de lançar-me
Às rochosas margens de causas já perdidas,
Levar-me á flutuar incólume,

Até que a orientação do destino,
E, somente ela,
Faça-me conforme sua vontade.

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Boogie Woogie - A Venda

As mudanças sempre tem dois aspectos: um positivo e outro negativo, no conto de hoje teremos a história da transformação do comércio dentro do morro. Sua evolução e a antiga relação muito pessoal entre as pessoas e seu comerciante.

A venda de "Seu" Mozart era um antigo armarinho, daqueles do tempo de nossos avós, em que penduravam carne seca, lingüiça e outros embutidos em uma espécie de varal feito de madeira, para os clientes colocarem a mão e sentirem se o embutido estava bom. Era um lugar de doces lembranças, pois ali descobri as delícias das guloseimas da infância. Muito açúcar! Tudo com muito açúcar como tinha que ser para encantar a criançada, sem contar o festival de cores. Lembro até do dia em que ele colocou na vitrina as marias-mole de diversas cores: rosa, marrom, verde e branca. Foi uma festa! Todos avançaram, combinação perfeita: açúcar e cores divertidas.
A venda de "Seu" Mozarto tinha uma peculiaridade, eram os horários da clientela. De manhã bem cedo, a mercearia ficava cheia de mães e donas de casa comprando café moído na hora, pão, manteiga (margarina era artigo de segunda) e leite para fazer o café da manhã da família. Depois, ainda de manhã, era a vez da garotada tomar conta. A maioria pegava os trocados que juntava e corria para a venda comprar doces ou brinquedos da antiga. Bolas de gude, pião, pipas e jogar no "furadinho", uma espécie de bingo em que você comprava um número e furava aquele número em um tabuleiro prateado, então, de acordo com o número que marcara, saia uma bola na parte de baixo, que indicava o prêmio que ganharia. Na maioria não se ganhava nada, o jogo sempre pertence à casa. Mas acho que o mais divertido era o sonho do que poderíamos fazer se ganhássemos um daqueles prêmios fascinantes expostos ao lado do "furadinho". Brincadeiras e sonhos compunham a manhã da venda. O horário do almoço, normalmente, era um horário morto. A venda ficava vazia e Mozart aproveitava para comer ali mesmo atrás do balcão a sua marmita, que Dona Zulmira trazia para ele. Nunca esqueci o cheiro daquela marmita, parecia plástico queimado, era horrível, me dava ânsias de vômito, enquanto ele devorava avidamente aqueles "petiscos" fedorentos. À tarde e à noite a venda passava a ser dominada pela confraria masculina, os homens enchiam a venda, seja para beber ou jogar conversa fora, muitos encostavam o cotovelo no balcão e ali ficavam por horas, bebendo e conversando. Tinha, é claro, aqueles que só ficavam com um copinho da "mardita" na mão sorvendo o líquido ácido aos poucos. Saíam carregados lá pela madrugada, mas era a sua "diversão".
Uma coisa que sempre me chamou a atenção foi o "Caderninho" de "Seu" Mozart. Anotava tudo que vendia e faturava no caderno. Grande parte dos moradores do morro tinham seu nome naquele "caderninho", no futuro, se alguém pudesse recuperá-lo, poderia fazer uma tese sobre o consumo das favelas naquela época, só examinando aquele "caderninho", que não importava se no início ou no fim do ano, sempre tinha uma aparência gasta e destruída, mas sempre mantido ao lado do balcão. Lembro bem que Mozart não deixava ninguém chegar perto dele, uma vez roubamos o "caderninho" e ele nos perseguiu o morro inteiro e chamou até os "guardas" do posto para nos pegar. Ele ficou, realmente, desesperado com o roubo do "caderninho". Era como sua vida estivesse ali dentro.
Mozart era folclórico, havia se transformado em um mito para os moradores, pois era o mais velho morador que todos ali lembravam. Parecia, para todos, que ele estava ali há anos, bem antes da chegada do primeiro morador. Na verdade, Mozart estava há 25 anos no morro, sendo que 23 tomando conta da venda. A venda tinha a aparência de estar do jeito que ele comprara. Meu pai me falou, que quando ele era pequeno, tudo na venda de "Seu" Mozart era exatamente igual a como está agora. Nada havia mudado! Mentira, ficara mais sujo e mais escuro. Era uma das muitas peculiaridades da venda, sempre parecia mal-iluminada, já não sabia se era escuro porque estava sujo ou se tinha a impressão de sujo pois sempre estava escuro. Era como o Tostines!
Foi quando um grande rebuliço começou a acontecer na frente da venda, Mozart estava convidando à criançada para um jogo. O jogo era a demolição da imensa geladeira de madeira que ocupava metade da venda. Era uma imensa parede de madeira com algumas portinholas com alumínio no meio, onde ficava guardado tudo que era refrigerado. Aquilo era um imenso elefante, sujo e fedorento que diminuía o espaço e todos reclamavam do seu cheiro, quando Mozarto tirava uma cerveja ou um pedaço de presunto de dentro. A brincadeira seria um prêmio para a criança que conseguisse destruir seu lado da imensa geladeira primeiro, cada uma receberia uma pequena marreta e uma pá para encher o carrinho com o entulho retirado. Não podia perder aquilo, quantas vezes fiquei olhando para dentro daquela imensa geladeira, enquanto ele tirava o picolé que havia comprado de dentro, principalmente, o de milho verde, muitas vezes comprava o picolé ou o refri apenas para dar uma olhada lá dentro. Nós, as crianças, discutíamos por horas o que deveria existir lá dentro. Monstros, guloseimas, sujeira ou todo tipo de fantasia infantil percorria elétricos e agitados cérebros em crescimento, cada um com uma idéia mais estapafúrdia que a outra.
Fui selecionado para a demolição. Começaríamos por cima! Subimos uma escada e começamos a dar pancada, sem ter muita noção, não fazíamos estrago quase nenhum na imensa madeira escura da geladeira. Carlinhos, que era o mais forte, foi o primeiro a conseguir arrancar um pedaço e fez um barulho enorme na venda fazia de "Seu" Mozart. Vazia! Era a primeira vez que percebia que a venda estava completamente vazia, não tinha absolutamente nada dentro, nem mesmo os potes de vidro onde ele colocava os doces ou os imensos sacos de farinha abertos em cima para à venda no varejo. Marquinhos colocava mais um pedaço da geladeira no chão. Quando consegui arrancar o primeiro pedaço, a minha visão foi aturdida com o pedaço da parede totalmente mofado e de cheiro insuportável. O trabalho seria nojento! Apesar da brincadeira ser uma disputa com direito à prêmio, todos estavam se divertindo e provocando uns aos outros. A cada descoberta que fazíamos, seja na parede liberta, seja de dentro daquele imenso buraco negro que era a geladeira, um gritava para o outro informando o que descobrira. Todos queríamos partilhar aquele memento único, que não sabíamos ser o fim de uma era. A geladeira veio totalmente abaixo. Mozart deu o prêmio para o Carlinhos e nos mandou para casa, mas todos queríamos ajudar a retirar o entulho. Ninguém foi para casa, limpamos tudo em uma imensa brincadeira de criança. Lá pelas quatro estava tudo pronto. Mozart baixou a porta corrediça de alumínio, uma modernidade que se fez necessária com a mudança no perfil dos moradores. Fechou o trinco e deu um longo abraço nos amigos mais chegados, percebi que algumas das mulheres estavam chorando. Nós não entendíamos aquilo.
Mozart veio até nós e trouxe um monte dos doces que tinha na venda. Deu um bocado para cada menino e menina da rua, passou a mão nas nossas cabeças e sorriu docemente. Era um bom velhinho! Todos gostavam muito dele! Era parte do patrimônio e história do morro, a vida de quase todo morador poderia ser contada por ele. Foi testemunha ocular de tudo que havia acontecido no morro por quase três décadas. Mas, agora... estava se despedindo.
No dia seguinte, uns homens chegaram e derrubaram com marretas a porta de alumínio da venda. Corri para a casa e gritei para minha mãe que estavam arrombando a venda de "Seu" Mozart. Mamãe mandou eu me acalmar, ninguém estava roubando nada. "Seu" Mozart havia vendido a venda e aqueles "moços" com marreta eram empregados do novo dono. A porta e grande parte do interior da venda foi posto abaixo. Na verdade, ficou apenas as quatro paredes de sustentação. Colocaram uns tapumes na frente e começou um festival de "bateção" lá dentro, gerando todo tipo de especulação da criançada sobre o que seria. Esquecemos do velho Mozart em menos de uma semana. Quando os tapumes foram tirados, foi revelada uma moderna padaria em seu lugar. Clara e com balcão de vidro. Novos doces, novos pães e marcas que só víamos em supermercado. Parecia, a todos, que havia apenas benefícios. Tudo era muito limpo... muito perfeito. Mas algo me chamava a atenção... nunca mais senti o delicioso cheiro de café moído na hora, agora comprava um saquinho quadrado em que o café vinha à vácuo, do qual nunca conseguia sentir cheiro algum. Muito menos um cheiro delicioso. Os doces... nunca mais foram tão saborosos e nem tão diversificados, muitos desapareceram e nunca mais retornaram. Havia muita coisa boa... mas também havia seus pontos negativos.
No dia seguinte a inauguração, chegou a notícia: "Seu" Mozart havia falecido. Ninguém nuca soube o motivo... acho que à maioria nem foi no enterro, a casa dele não era no morro e ninguém sabia onde era. Sabíamos apenas que... uma era chegara ao fim!

10 novembro 2007

Poesia - Água da Neve

Há imagens que são únicas e expressam mais que palavras, é o assunto de nosso poeta em seu texto desta semana.

ÁGUA DA NEVE

PRECIPITA-SE AO SOL
COMO A CRISTALINA ÁGUA,
QUE SE LARGA DA NEVE
EXPULSA PELO CALOR.

FAZ-SE CONFIRMADA A SUA PRESENÇA,
E RETÉM OLHARES
QUE IMÓVEIS
PARECEM EMBALSAMADOS.

O FINO VENTO
QUE QUEBRA A ESTÁTICA
DO MOMENTO,
É APENAS AQUELE
QUE PRODUZES AO RESPIRAR.

E O CHEIRO IMAGINÁRIO
QUE EXALAS,
SÃO MOLÉCULAS DOMINANTES
QUE TOMAM O AR,
E LEVA-TE A ESTAR PRESENTE
ONDE AR HOUVER.

O RIGOROSO LIMITE DA PELE
QUE TE CONDUZ À POSSIBILIDADE DO VISÍVEL
ESPELHA-TE EM INCOMPARÁVEL IMAGEM
À QUAL SE RENDE O UNIVERSO.

E O DESENHO QUE LHE DA FORMA
E LHE ESCULPE EM TALHO ÚNICO,
AGASALHA TUA ALMA INDOMÁVEL,

QUE SERENAMENTE SELVAGEM
ESCAPA PELOS TEUS OLHOS,
E EMBEVECEM
AQUELES QUE A COMTEMPLAM.

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Mulheres que Amo - Sabedoria, substantivo feminino

Diferente dos contos anteriores, este falará de uma situação vivida por uma mulher, na qual pouca será dito sobre ela, pois o marcante na história é o marco das consequências que se seguiriam após os fatos relatados. O fato está romanceado, mas buscando ser o mais fiel possível da verdade, pois esta é a história da última intelectual mulher no período de mil anos do início do cristianismo, após sua morte, nenhuma mulher de real relevância histórica surgiu por mais de mil anos. Consequência do nascimento do Salvador dos Homens.

A turba se reúne no meio da cidade sob a liderança de Pedro. Nas sombras, o Patriarca Ciro indica o alvo e a vítima: o alvo será a Biblioteca, esta deverá ser totalmente queimada e nenhum livro deverá sobrar, tudo tem de virar cinzas; a vítima, a mulher demônio de nome Hypatia, não deverá mais ver a sua dourada luz solar. Portando as instruções de seu mestre terreno, Pedro volta para a multidão reunida, agora para realizar o trabalho de seu Senhor.
Freneticamente exorta a multidão contra o antro do demônio, que espalha mentiras sobre Nosso Senhor. Espalha veneno em forma de papéis sem importância e significado, deixando o mais sagrado de todos os livros relegado ao esquecimento. "Como uma mulher pode comandar homens?" grita para multidão. Inflama a indignação masculina frente a força feminina. A turba grita em aprovação e seu ódio destila o desejo de alcançar a Glória Divina. Tochas são acesas, paus e pedras, pequenos instrumentos de metal e uma raiva descontrolada são reunidas pelo ajuntamento de vingativos Homens de Deus.
Na Biblioteca, as Filhas da Biblioteca, lideradas por Hypatia, são avisadas sobre a reunião que acontece na cidade. Os motivos, os desejos e a motivação, são inexplicavelmente claros, mas o objetivo é incompreensível para todas. A destruição de um lugar sagrado do saber. A queima e destruição da reunião da inteligência humana por séculos! O que pretendem com isto? "A escuridão!" responde a filosofa e matemática. Ela está certa, apenas uma luz deverá iluminar a humanidade nos próximos séculos e não será o saber intelectual e nem mesmo a razão humana. Pois foi proclamada a Era das Trevas em nome da Iluminação Espiritual.
As Filhas da Biblioteca preparam para defender sua "fé" e seu "credo". O primeiro grande problema são as deserções dentro do quadro da Biblioteca, já que muitos homens não tem a força de caráter suficiente para enfrentar a própria morte em defesa de algo tão insubstancial como livros. Outros abandonam a Biblioteca, não por covardia, mas por não aceitarem ter um mestre de sexo feminino. "Elas deveriam estar tomando conta de seus maridos e filhos e não interferindo nos assuntos do Senhor!" O abandono é o caminho mais curto para aumentar a força da turba ignorante que ruma para destruir sua única salvação. Os únicos a prontificar-se a ajudar a defender a Biblioteca, são os sacerdotes de uma religião contrária, mas que sempre primou pela preservação da alma humana, através do saber.
As defesas são armadas, a turba chega e a luta pela defesa de ideais tão diversos tem início. As Filhas da Biblioteca defendem seus muros com todo o vigor possível, mas os representantes da intolerância crescem a cada memento. Os reforços da ignorância só tendem a crescer e crescer, enquanto os paladinos da razão desaparecem na mesma velocidade. Podemos dizer com toda certeza: Deus está do lado da ignorância! A primeira linha de defesa caí! As portas da imensa Biblioteca não resistem as constantes investidas cegas do inimigo. A venda nos olhos os ajudam a ser cada vez mais destemidos, principalmente, tendo seus líderes incentivando cada avanço de uma posição estrategicamente segura.
As defesas vão caindo uma a uma. Os Homens de Deus alcançam os primeiros tomos, que são imediatamente queimados sob gritos eufóricos: "Não deixem nenhum! Que tudo vire cinzas em nome de Deus!" Os livros rapidamente são reduzidos a uma massa disforme de cinzas escuras no chão e a fumaça da sabedoria da Luz do Mundo é transformada em névoa negra, que vaga pelos corredores e contamina a alma dos defensores da vida terrena, enquanto, destemidamente os incendiários sobem nível a nível dentro da Biblioteca, destruindo tudo e todos em seu caminho. A invasão do Templo de Oração ao lado da Biblioteca é rapidamente realizado, sacerdotes são assassinados, relíquias quebradas, tudo que contém algum valor é levado pelos fiéis da ignorância. Alguns já desistem de seu intento, pois alcançaram uma Graça mais relevante dentro do Templo e não podem esperar para "curtir" a tão sagrada graça alcançada.
As filhas da Biblioteca defendem seu lar e as salas de aula, Hypatia tenta manter suas "meninas" unidas e fortes, mas já sabe o desfecho desta cruel história. Para Hypatia, o pior é o sinal que está sendo emitido por todo o Império, é o fim da razão, o fim do sentimento, o fim do saber, o fim de uma vida voltada para o bem, não mais será propagada novas técnicas para curar os doentes, para construir edifícios e até mesmo falar sobre Deus. A Luz do Mundo está prestes a se apagar. O farol, que por séculos iluminou o mundo, deixará de existir em poucas horas, todas elas sabem disso. Não podem esperar ajuda externa, pois a nova religião conquistara corações e mentes das pessoas de maior poder na mais bela cidade do Egito. Hypatia olha ao seu redor, fumaça e destruição para todos os lados. Nunca mais terá alunos percorrendo aqueles corredores em busca de conhecimento e sabedoria. Nunca mais a mulher poderá sentar à mesa com homens do mesmo níveis para discutir os destinos da sociedade... da humanidade. Nunca mais a mulher terá voz no desenvolver da humanidade, nunca mais a mulher será o repositório da sabedoria da Terra. As mulheres serão a partir de agora, meras escravas do patriarcado. A Luz do Mundo está caindo pesada sobre todas as capitais do Mundo mediterrâneo!
O som das pancadas nas portas do último refúgio das Filhas da Biblioteca começa a ficar ensurdecedor. A primeira fissura já dá pra ser notada. Ela se alarga e cede, não há mais defesa... não há mais futuro... não há mais avanços... só existe a morte, decretada com o nascimento do Salvador dos Homens. O pecado original será punido com a morte, já que não soube qual era o seu lugar no plano de existência divino. Algumas das mulheres tentam se defender, mas não há como! São muitos... são fortes... são inspirados pelo ódio Sagrado. As mais belas e mais novas são tomadas pelos invasores, suas vestes são rasgadas e formam filas para expurgar de dentro delas o Pecado Original. Eles expurgam uma... duas... Três... cem vezes. Algumas já estão mortas pela humilhação sofrida, nada mais sentem em seus corpos abusados e torturados. As mias velha tem um destino melhor, são decapitadas de imediato, ou então, esfaqueadas. Morte instantânea!
Hypatia assiste a tudo, infelizmente, não de forma impassível, sofre ao ver tudo que construiu e produziu ao longo de sua vida ser tragado pelo ódio divino do Salvador do Mundo. A cada atrocidade sofrida por uma de suas irmãs, seu coração sofre e uma estaca é fincada em seu coração. Ela fica prostrada e pede misericórdia, não para ela, mas para suas irmãs. O divertimento não pode parar, pois o trabalho de Deus é incessante. O choro aflora com força, a última imagem da vida de Hypatia é o sofrimento físico e mental sem fim a que suas irmãs e companheiras são submetidas. O líder chega e a levanta do chão, puxa seu cabelo e força assistir a tudo. São horas de tormento, mas que estão apenas no início. O início para todas as mulheres da humanidade.
Após a morte e estupro da última das Filhas da Biblioteca, a levam para fora. Assiste a Biblioteca arder em chamas. Seus muros desabam nas águas mediterrâneas e a fumaça negra anuncia a morte do saber para a humanidade. Um símbolo vivo do que mais importante o homem havia realizado até ali... vira cinzas. Os gritos de júbilo ecoam pela noite. As tochas são erguidas e os homens começam a rezar em agradecimento a Deus por uma vitória esmagadora sobre os mentirosos que o negam. Pedro gargalha para o brilho rubro de seu trabalho sagrado. Chama alguns de seus homens mais chegados e pede os instrumentos para o ritual de respeito e humildade para com Deus.
Uma fogueira é acesa em frente da filosofa Hypatia. Suas roupas são arrancadas e jogadas nas chamas. Depois os livros que ela escreveu sobre matemática e filosofia, também. A deitam no chão e vários homens começam a estuprá-la seguidamente, sem dó e nem piedade, mas não há matam. Mantida viva para a seção de tortura continuar. Seus ossos são quebrados e seu corpo é mutilado com auxílio de conchas marinhas. A pele e a carne arrancadas são jogadas na fogueira do respeito. Os ossos são limpos e jogados ao mar. Quando o sol nasce. O trabalho sagrado está quase completo. Pedro vira para turba e ordena: "Agora, subam nos destroços deste lugar maldito e coloquem uma cruz, como símbolo vivo da infinita bondade de Deus para com os homens e do único e verdadeiro Deus, que trouxe a salvação para nossas almas. Ele que é a Luz do Mundo!"

04 novembro 2007

Poesia - Dicotomia

Máscaras, quem não as usa no seu viver diário? Quem de nós não esconde algo que não deseja ver revelado. É uma dura batalha manter na superfície aquilo que desejamos mostrar para o mundo à nossa volta. Não nosso verdadeiro interior, mas apenas a máscara que usamos em sociedade, para fazer o convívio ser mais fácil e confortável, não importando quão desconfortável é usar a máscara. Nosso poeta nos fala deste díficil convívio com a máscara do dia-a-dia.

DICOTOMIA

Melhor talvez se vestisses de negra fuligem,
A repugnante aparência,
Sem a incomoda mesclagem
Que o conduz à fatal dicotomia.

Em conforto viveria,
Pois a falsa esperança
Por ti nutrida, não lhe exporia
Em constante ridículo
De renegar parte sua
Tão desnuda e visível.

Salvo estaria do desgastante embate
Contra a outra metade de si próprio,
Metade que suportas,
E desesperadamente tenta ocultar,
Até mesmo do frio espelho,
Que cruelmente
Aponta-lhe sempre
A porção que não queres ver.

Corre por todas as suas longas noites
Em busca da confirmação
Da sua segunda metade,
Que lhe sobrevém em sonhos
E lhe desperta em pesadelos.

Quer lhe dar corpo,
Quer que a suave luz da branca neve
Que vos é um inalcançável objetivo,
Apague a cinzenta mescla que lhe
Cobre a existência,
E transborda-te de vergonha.

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

03 novembro 2007

Boogie Woogie - Baile Funk

Existe uma dicotomia Favela-Bairro, que põem as pessoas das favelas e morros em um campo adversário aos moradores das adjacências, mas a realidade é que todos são réfens do mesmo mal, não importando o local onde vivem, os perigos e os verdadeiros inimigos são os mesmos. Este conto da uma pequena amostra disto.

As ruas Central e Visconde Delamare são os eixos principais do morro, ficando perpendicular uma da outra. Apenas uma pequena travessa as une, formando o que todos os moradores apelidaram de: Largo do Telefone. Lá, ficavam os únicos "orelhões" do morro, para atendimento de todos os moradores em uma época onde telefone era artigo raro. Este local foi transformado em ponto de encontro de todos sendo moradores ou não. O comércio floresceu ali e retirou a importância do Largo do Campinho, antes o ponto central do morro.
Maria da Glória construiu sua casa no Largo do Telefone a mais de 30 anos atrás, logo após se casar com Joaquim Madeira, um alfaiate de ascendência portuguesa. A casa era modesta e pequena, com a chegada dos filhos, ficou ainda menor. A solução, como sempre no morro, foi o crescimento vertical da moradia. Hoje, a casa tem três pavimentos para abrigar uma família de seis membros: três filhos, o marido, o cunhado e ela.
Sábado era sempre um dia agitado e cansativo, em que Maria da Glória e Joaquim aproveitavam para cuidar das coisas da casa. À noite, ambos ficavam em frente da televisão curtindo a escassa programação familiar e relaxando da estafante semana. Mas aquele sábado seria diferente, seu sossego de sábado seria interrompido. O filho mais novo chegou da rua contando uma novidade, haviam fechado todos os acessos do Largo do Telefone com cavaletes e uns garotos do tráfico tomavam conta. Maria da Glória ficou preocupada, pois algum tempo atrás, o local foi escolhido como palco para a guerra entre quadrilhas rivais e policiais. Sua casa sempre sofreu com isto, não importando o dia que fosse. Havia até se acostumado, pois sua casa nunca fora atingida de forma séria que danificasse objetos ou ferisse pessoas da casa, mas era um motivo a mais de preocupação. O estranho era a presença de cavaletes, nunca fizeram parte das batalhas ali travadas. Mas ela ficou alerta e pediu a todos os membros da família para não saírem de dentro de casa naquela noite.
Lá pelas seis, apareceram uns caminhões e umas pessoas esquisitas. Subiram em um poste de luz e puxaram um fio de lá, logo haviam puxado diversos fios de diversos postes de luz e o Largo já estava ficando cheio daquele pessoal esquisito. Logo depois, um pequeno caminhão entrou na rua, tiraram os cavaletes e pararam logo na entrada do Largo. Abriram a traseira e diversos objetos eletrônicos, que Maria da Glória nunca vira antes, começaram a sair de lá. Ela decidiu não ficar olhando muito, pois alguns dos "garotos" poderiam cismar com ela. Entrou e fechou a janela do térreo.
Lá pelas oito, o filho mais novo, que tinha futuro como jornalista, entrou correndo e gritando para ela e o pai fossem até a janela do terceiro pavimento. Quando abriram, não conseguiram ver nada, pois havia uma espécie de muro tomando toda a janela. O menino gritava excitado: "São caixas de som, mãe! São caixas de som enormes!" Caixas de som!?!? O que iriam fazer ali no Largo aquela noite, se perguntava Maria da Glória. O marido queria sair para perguntar, mas ela o desencorajou, pois os "garotos" poderiam "levar a mau" a atitude dele e 'Sabe-se lá o que podem fazer estes meninos!', ponderou Maria da Glória.
O Largo começou a encher de gente jovem. Uma garotada vestida com roupas mínimas e alvoroçada, gritando a esmo. Logo abriram uma barraca de cachorro-quente e cerveja em uma esquina, ambulantes começaram a cruzar o Largo oferecendo diversos tipos de bebidas e alimentos. A barulheira crescia desesperadamente, Maria da Glória nem podia assistir a novela das oito na Globo. Aquilo a irritou: 'O que estes meninos vão fazer aí, hoje?'
De repente, a casa começou a balançar e um som ensurdecedor tomou toda a residência. Eram dez da noite, hora de gente de bem estar na cama, mas o som não deixaria ninguém nem ao menos ficar deitado. O marido enlouqueceu e começou a gritar pela janela para as pessoas do lado de fora, na rua, mas do que adiantava. Nem dentro de casa conseguiam ouvir o que ele gritava, imagine lá fora. Uma voz anunciou o evento da noite: um Baile Funk. Estavam organizando um baile funk em frente de sua casa, deixando a todos loucos e mal começara o tormento, pois estavam apenas testando o som.
Lá pelas onze horas, a festa começou. Maria da Glória que pensava em se deitar para dormir, não conseguia nem chegar perto do chuveiro, pois a água caia em todos os lugares do banheiro, menos em cima de quem estivesse tomando banho. O som agora reverberava por toda a casa e sacudia a todos, mesmo quem não estava interessado em dançar e muito menos ouvir o funk "rolando solto" na noite. O Dj anunciava a programação e a presença de um monte de moços com nome engraçado de MC disso e MC daquilo, nunca ouvira o nome de nenhum deles e muito menos sua música.
O filho mais novo trocou de roupa e queria ir lá pra fora para: "Curtir a balada!" Maria da Glória respondeu: se você quer badalar não precisa sair e só ficar parado na sala que o som balança você e a casa inteira. Os primeiros gritadores, ops, cantores iniciaram o programa daquela noite. O som, que seria o mesmo a tocar por toda a noite, era um bate-estacas na cabeça de Maria da Glória e Joaquim, que já haviam desistido de tentar dormir. Rezavam para aquele balanço infernal não destruir as janelas e nem um objeto cair devido a potência daquelas caixas monstros lá fora.
Além do som ser ensurdecedor, a música monótona e repetitiva, as letras das músicas eram ainda piores. Eram sobre crime ou sexo, sexo ou crime, a única coisa que mudava eram os locais citados pelos tais de MCs. Maria da Glória fez um passeio forçado por todos os pontos da periferia do Rio e Niterói, e ouviu falar sobre lugares que nem ao menos sabia que existiam. Os gritadores, digo, os cantores falavam da sua realidade dos morros e favelas, mas principalmente, faziam apologia ao crime. As meninas que cantavam, diziam coisas que deixariam sua avó ruborizada de vergonha, além do mais, depreciavam a si mesmas com letras em que se ofereciam para fazer coisas, que toda a mulher odiava, mas os garotos amavam.
A tortura durou horas, os MCs se revezavam no papel de carrasco e seu aprendizado forçado da nova realidade da juventude carioca, a deixou horrorizada e envergonhada. Maria da Glória não conseguia compreender o amor dos jovens lá fora por aquela balbúrdia sonora e por sentimentos confusos. Os gritos atravessaram a noite e a madrugada inteira. Sem participar da festa em pessoa, Maria da Glória teve a festa entrando por sua porta em bom som.
Quatro da manhã pareceu ser a hora da libertação, mas foi apenas um ledo engano, pois ainda faltavam recolher todo o equipamento e ir embora. Quando o sol já estava caminhando para o nascimento, Maria da Glória conseguiu ver novamente o Largo do Telefone. Havia sujeira para todo o lado, um cheiro fétido de urina e "otras cositas más" tomavam o ar. O fedor era semelhante a um grande depósito de lixo. Ninguém ficou ali para limpar, fizeram o que quiseram e se mandaram.
Noite sem dormir, mau cheiro e um saber, que a partir daquela data, ensinaria a amar a Funk Music ou então o caminho mais rápido para mudar de residência, pois os sábados nunca mais seriam os mesmos.