10 novembro 2007

Mulheres que Amo - Sabedoria, substantivo feminino

Diferente dos contos anteriores, este falará de uma situação vivida por uma mulher, na qual pouca será dito sobre ela, pois o marcante na história é o marco das consequências que se seguiriam após os fatos relatados. O fato está romanceado, mas buscando ser o mais fiel possível da verdade, pois esta é a história da última intelectual mulher no período de mil anos do início do cristianismo, após sua morte, nenhuma mulher de real relevância histórica surgiu por mais de mil anos. Consequência do nascimento do Salvador dos Homens.

A turba se reúne no meio da cidade sob a liderança de Pedro. Nas sombras, o Patriarca Ciro indica o alvo e a vítima: o alvo será a Biblioteca, esta deverá ser totalmente queimada e nenhum livro deverá sobrar, tudo tem de virar cinzas; a vítima, a mulher demônio de nome Hypatia, não deverá mais ver a sua dourada luz solar. Portando as instruções de seu mestre terreno, Pedro volta para a multidão reunida, agora para realizar o trabalho de seu Senhor.
Freneticamente exorta a multidão contra o antro do demônio, que espalha mentiras sobre Nosso Senhor. Espalha veneno em forma de papéis sem importância e significado, deixando o mais sagrado de todos os livros relegado ao esquecimento. "Como uma mulher pode comandar homens?" grita para multidão. Inflama a indignação masculina frente a força feminina. A turba grita em aprovação e seu ódio destila o desejo de alcançar a Glória Divina. Tochas são acesas, paus e pedras, pequenos instrumentos de metal e uma raiva descontrolada são reunidas pelo ajuntamento de vingativos Homens de Deus.
Na Biblioteca, as Filhas da Biblioteca, lideradas por Hypatia, são avisadas sobre a reunião que acontece na cidade. Os motivos, os desejos e a motivação, são inexplicavelmente claros, mas o objetivo é incompreensível para todas. A destruição de um lugar sagrado do saber. A queima e destruição da reunião da inteligência humana por séculos! O que pretendem com isto? "A escuridão!" responde a filosofa e matemática. Ela está certa, apenas uma luz deverá iluminar a humanidade nos próximos séculos e não será o saber intelectual e nem mesmo a razão humana. Pois foi proclamada a Era das Trevas em nome da Iluminação Espiritual.
As Filhas da Biblioteca preparam para defender sua "fé" e seu "credo". O primeiro grande problema são as deserções dentro do quadro da Biblioteca, já que muitos homens não tem a força de caráter suficiente para enfrentar a própria morte em defesa de algo tão insubstancial como livros. Outros abandonam a Biblioteca, não por covardia, mas por não aceitarem ter um mestre de sexo feminino. "Elas deveriam estar tomando conta de seus maridos e filhos e não interferindo nos assuntos do Senhor!" O abandono é o caminho mais curto para aumentar a força da turba ignorante que ruma para destruir sua única salvação. Os únicos a prontificar-se a ajudar a defender a Biblioteca, são os sacerdotes de uma religião contrária, mas que sempre primou pela preservação da alma humana, através do saber.
As defesas são armadas, a turba chega e a luta pela defesa de ideais tão diversos tem início. As Filhas da Biblioteca defendem seus muros com todo o vigor possível, mas os representantes da intolerância crescem a cada memento. Os reforços da ignorância só tendem a crescer e crescer, enquanto os paladinos da razão desaparecem na mesma velocidade. Podemos dizer com toda certeza: Deus está do lado da ignorância! A primeira linha de defesa caí! As portas da imensa Biblioteca não resistem as constantes investidas cegas do inimigo. A venda nos olhos os ajudam a ser cada vez mais destemidos, principalmente, tendo seus líderes incentivando cada avanço de uma posição estrategicamente segura.
As defesas vão caindo uma a uma. Os Homens de Deus alcançam os primeiros tomos, que são imediatamente queimados sob gritos eufóricos: "Não deixem nenhum! Que tudo vire cinzas em nome de Deus!" Os livros rapidamente são reduzidos a uma massa disforme de cinzas escuras no chão e a fumaça da sabedoria da Luz do Mundo é transformada em névoa negra, que vaga pelos corredores e contamina a alma dos defensores da vida terrena, enquanto, destemidamente os incendiários sobem nível a nível dentro da Biblioteca, destruindo tudo e todos em seu caminho. A invasão do Templo de Oração ao lado da Biblioteca é rapidamente realizado, sacerdotes são assassinados, relíquias quebradas, tudo que contém algum valor é levado pelos fiéis da ignorância. Alguns já desistem de seu intento, pois alcançaram uma Graça mais relevante dentro do Templo e não podem esperar para "curtir" a tão sagrada graça alcançada.
As filhas da Biblioteca defendem seu lar e as salas de aula, Hypatia tenta manter suas "meninas" unidas e fortes, mas já sabe o desfecho desta cruel história. Para Hypatia, o pior é o sinal que está sendo emitido por todo o Império, é o fim da razão, o fim do sentimento, o fim do saber, o fim de uma vida voltada para o bem, não mais será propagada novas técnicas para curar os doentes, para construir edifícios e até mesmo falar sobre Deus. A Luz do Mundo está prestes a se apagar. O farol, que por séculos iluminou o mundo, deixará de existir em poucas horas, todas elas sabem disso. Não podem esperar ajuda externa, pois a nova religião conquistara corações e mentes das pessoas de maior poder na mais bela cidade do Egito. Hypatia olha ao seu redor, fumaça e destruição para todos os lados. Nunca mais terá alunos percorrendo aqueles corredores em busca de conhecimento e sabedoria. Nunca mais a mulher poderá sentar à mesa com homens do mesmo níveis para discutir os destinos da sociedade... da humanidade. Nunca mais a mulher terá voz no desenvolver da humanidade, nunca mais a mulher será o repositório da sabedoria da Terra. As mulheres serão a partir de agora, meras escravas do patriarcado. A Luz do Mundo está caindo pesada sobre todas as capitais do Mundo mediterrâneo!
O som das pancadas nas portas do último refúgio das Filhas da Biblioteca começa a ficar ensurdecedor. A primeira fissura já dá pra ser notada. Ela se alarga e cede, não há mais defesa... não há mais futuro... não há mais avanços... só existe a morte, decretada com o nascimento do Salvador dos Homens. O pecado original será punido com a morte, já que não soube qual era o seu lugar no plano de existência divino. Algumas das mulheres tentam se defender, mas não há como! São muitos... são fortes... são inspirados pelo ódio Sagrado. As mais belas e mais novas são tomadas pelos invasores, suas vestes são rasgadas e formam filas para expurgar de dentro delas o Pecado Original. Eles expurgam uma... duas... Três... cem vezes. Algumas já estão mortas pela humilhação sofrida, nada mais sentem em seus corpos abusados e torturados. As mias velha tem um destino melhor, são decapitadas de imediato, ou então, esfaqueadas. Morte instantânea!
Hypatia assiste a tudo, infelizmente, não de forma impassível, sofre ao ver tudo que construiu e produziu ao longo de sua vida ser tragado pelo ódio divino do Salvador do Mundo. A cada atrocidade sofrida por uma de suas irmãs, seu coração sofre e uma estaca é fincada em seu coração. Ela fica prostrada e pede misericórdia, não para ela, mas para suas irmãs. O divertimento não pode parar, pois o trabalho de Deus é incessante. O choro aflora com força, a última imagem da vida de Hypatia é o sofrimento físico e mental sem fim a que suas irmãs e companheiras são submetidas. O líder chega e a levanta do chão, puxa seu cabelo e força assistir a tudo. São horas de tormento, mas que estão apenas no início. O início para todas as mulheres da humanidade.
Após a morte e estupro da última das Filhas da Biblioteca, a levam para fora. Assiste a Biblioteca arder em chamas. Seus muros desabam nas águas mediterrâneas e a fumaça negra anuncia a morte do saber para a humanidade. Um símbolo vivo do que mais importante o homem havia realizado até ali... vira cinzas. Os gritos de júbilo ecoam pela noite. As tochas são erguidas e os homens começam a rezar em agradecimento a Deus por uma vitória esmagadora sobre os mentirosos que o negam. Pedro gargalha para o brilho rubro de seu trabalho sagrado. Chama alguns de seus homens mais chegados e pede os instrumentos para o ritual de respeito e humildade para com Deus.
Uma fogueira é acesa em frente da filosofa Hypatia. Suas roupas são arrancadas e jogadas nas chamas. Depois os livros que ela escreveu sobre matemática e filosofia, também. A deitam no chão e vários homens começam a estuprá-la seguidamente, sem dó e nem piedade, mas não há matam. Mantida viva para a seção de tortura continuar. Seus ossos são quebrados e seu corpo é mutilado com auxílio de conchas marinhas. A pele e a carne arrancadas são jogadas na fogueira do respeito. Os ossos são limpos e jogados ao mar. Quando o sol nasce. O trabalho sagrado está quase completo. Pedro vira para turba e ordena: "Agora, subam nos destroços deste lugar maldito e coloquem uma cruz, como símbolo vivo da infinita bondade de Deus para com os homens e do único e verdadeiro Deus, que trouxe a salvação para nossas almas. Ele que é a Luz do Mundo!"

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