Existe uma dicotomia Favela-Bairro, que põem as pessoas das favelas e morros em um campo adversário aos moradores das adjacências, mas a realidade é que todos são réfens do mesmo mal, não importando o local onde vivem, os perigos e os verdadeiros inimigos são os mesmos. Este conto da uma pequena amostra disto.
As ruas Central e Visconde Delamare são os eixos principais do morro, ficando perpendicular uma da outra. Apenas uma pequena travessa as une, formando o que todos os moradores apelidaram de: Largo do Telefone. Lá, ficavam os únicos "orelhões" do morro, para atendimento de todos os moradores em uma época onde telefone era artigo raro. Este local foi transformado em ponto de encontro de todos sendo moradores ou não. O comércio floresceu ali e retirou a importância do Largo do Campinho, antes o ponto central do morro.
Maria da Glória construiu sua casa no Largo do Telefone a mais de 30 anos atrás, logo após se casar com Joaquim Madeira, um alfaiate de ascendência portuguesa. A casa era modesta e pequena, com a chegada dos filhos, ficou ainda menor. A solução, como sempre no morro, foi o crescimento vertical da moradia. Hoje, a casa tem três pavimentos para abrigar uma família de seis membros: três filhos, o marido, o cunhado e ela.
Sábado era sempre um dia agitado e cansativo, em que Maria da Glória e Joaquim aproveitavam para cuidar das coisas da casa. À noite, ambos ficavam em frente da televisão curtindo a escassa programação familiar e relaxando da estafante semana. Mas aquele sábado seria diferente, seu sossego de sábado seria interrompido. O filho mais novo chegou da rua contando uma novidade, haviam fechado todos os acessos do Largo do Telefone com cavaletes e uns garotos do tráfico tomavam conta. Maria da Glória ficou preocupada, pois algum tempo atrás, o local foi escolhido como palco para a guerra entre quadrilhas rivais e policiais. Sua casa sempre sofreu com isto, não importando o dia que fosse. Havia até se acostumado, pois sua casa nunca fora atingida de forma séria que danificasse objetos ou ferisse pessoas da casa, mas era um motivo a mais de preocupação. O estranho era a presença de cavaletes, nunca fizeram parte das batalhas ali travadas. Mas ela ficou alerta e pediu a todos os membros da família para não saírem de dentro de casa naquela noite.
Lá pelas seis, apareceram uns caminhões e umas pessoas esquisitas. Subiram em um poste de luz e puxaram um fio de lá, logo haviam puxado diversos fios de diversos postes de luz e o Largo já estava ficando cheio daquele pessoal esquisito. Logo depois, um pequeno caminhão entrou na rua, tiraram os cavaletes e pararam logo na entrada do Largo. Abriram a traseira e diversos objetos eletrônicos, que Maria da Glória nunca vira antes, começaram a sair de lá. Ela decidiu não ficar olhando muito, pois alguns dos "garotos" poderiam cismar com ela. Entrou e fechou a janela do térreo.
Lá pelas oito, o filho mais novo, que tinha futuro como jornalista, entrou correndo e gritando para ela e o pai fossem até a janela do terceiro pavimento. Quando abriram, não conseguiram ver nada, pois havia uma espécie de muro tomando toda a janela. O menino gritava excitado: "São caixas de som, mãe! São caixas de som enormes!" Caixas de som!?!? O que iriam fazer ali no Largo aquela noite, se perguntava Maria da Glória. O marido queria sair para perguntar, mas ela o desencorajou, pois os "garotos" poderiam "levar a mau" a atitude dele e 'Sabe-se lá o que podem fazer estes meninos!', ponderou Maria da Glória.
O Largo começou a encher de gente jovem. Uma garotada vestida com roupas mínimas e alvoroçada, gritando a esmo. Logo abriram uma barraca de cachorro-quente e cerveja em uma esquina, ambulantes começaram a cruzar o Largo oferecendo diversos tipos de bebidas e alimentos. A barulheira crescia desesperadamente, Maria da Glória nem podia assistir a novela das oito na Globo. Aquilo a irritou: 'O que estes meninos vão fazer aí, hoje?'
De repente, a casa começou a balançar e um som ensurdecedor tomou toda a residência. Eram dez da noite, hora de gente de bem estar na cama, mas o som não deixaria ninguém nem ao menos ficar deitado. O marido enlouqueceu e começou a gritar pela janela para as pessoas do lado de fora, na rua, mas do que adiantava. Nem dentro de casa conseguiam ouvir o que ele gritava, imagine lá fora. Uma voz anunciou o evento da noite: um Baile Funk. Estavam organizando um baile funk em frente de sua casa, deixando a todos loucos e mal começara o tormento, pois estavam apenas testando o som.
Lá pelas onze horas, a festa começou. Maria da Glória que pensava em se deitar para dormir, não conseguia nem chegar perto do chuveiro, pois a água caia em todos os lugares do banheiro, menos em cima de quem estivesse tomando banho. O som agora reverberava por toda a casa e sacudia a todos, mesmo quem não estava interessado em dançar e muito menos ouvir o funk "rolando solto" na noite. O Dj anunciava a programação e a presença de um monte de moços com nome engraçado de MC disso e MC daquilo, nunca ouvira o nome de nenhum deles e muito menos sua música.
O filho mais novo trocou de roupa e queria ir lá pra fora para: "Curtir a balada!" Maria da Glória respondeu: se você quer badalar não precisa sair e só ficar parado na sala que o som balança você e a casa inteira. Os primeiros gritadores, ops, cantores iniciaram o programa daquela noite. O som, que seria o mesmo a tocar por toda a noite, era um bate-estacas na cabeça de Maria da Glória e Joaquim, que já haviam desistido de tentar dormir. Rezavam para aquele balanço infernal não destruir as janelas e nem um objeto cair devido a potência daquelas caixas monstros lá fora.
Além do som ser ensurdecedor, a música monótona e repetitiva, as letras das músicas eram ainda piores. Eram sobre crime ou sexo, sexo ou crime, a única coisa que mudava eram os locais citados pelos tais de MCs. Maria da Glória fez um passeio forçado por todos os pontos da periferia do Rio e Niterói, e ouviu falar sobre lugares que nem ao menos sabia que existiam. Os gritadores, digo, os cantores falavam da sua realidade dos morros e favelas, mas principalmente, faziam apologia ao crime. As meninas que cantavam, diziam coisas que deixariam sua avó ruborizada de vergonha, além do mais, depreciavam a si mesmas com letras em que se ofereciam para fazer coisas, que toda a mulher odiava, mas os garotos amavam.
A tortura durou horas, os MCs se revezavam no papel de carrasco e seu aprendizado forçado da nova realidade da juventude carioca, a deixou horrorizada e envergonhada. Maria da Glória não conseguia compreender o amor dos jovens lá fora por aquela balbúrdia sonora e por sentimentos confusos. Os gritos atravessaram a noite e a madrugada inteira. Sem participar da festa em pessoa, Maria da Glória teve a festa entrando por sua porta em bom som.
Quatro da manhã pareceu ser a hora da libertação, mas foi apenas um ledo engano, pois ainda faltavam recolher todo o equipamento e ir embora. Quando o sol já estava caminhando para o nascimento, Maria da Glória conseguiu ver novamente o Largo do Telefone. Havia sujeira para todo o lado, um cheiro fétido de urina e "otras cositas más" tomavam o ar. O fedor era semelhante a um grande depósito de lixo. Ninguém ficou ali para limpar, fizeram o que quiseram e se mandaram.
Noite sem dormir, mau cheiro e um saber, que a partir daquela data, ensinaria a amar a Funk Music ou então o caminho mais rápido para mudar de residência, pois os sábados nunca mais seriam os mesmos.
As ruas Central e Visconde Delamare são os eixos principais do morro, ficando perpendicular uma da outra. Apenas uma pequena travessa as une, formando o que todos os moradores apelidaram de: Largo do Telefone. Lá, ficavam os únicos "orelhões" do morro, para atendimento de todos os moradores em uma época onde telefone era artigo raro. Este local foi transformado em ponto de encontro de todos sendo moradores ou não. O comércio floresceu ali e retirou a importância do Largo do Campinho, antes o ponto central do morro.
Maria da Glória construiu sua casa no Largo do Telefone a mais de 30 anos atrás, logo após se casar com Joaquim Madeira, um alfaiate de ascendência portuguesa. A casa era modesta e pequena, com a chegada dos filhos, ficou ainda menor. A solução, como sempre no morro, foi o crescimento vertical da moradia. Hoje, a casa tem três pavimentos para abrigar uma família de seis membros: três filhos, o marido, o cunhado e ela.
Sábado era sempre um dia agitado e cansativo, em que Maria da Glória e Joaquim aproveitavam para cuidar das coisas da casa. À noite, ambos ficavam em frente da televisão curtindo a escassa programação familiar e relaxando da estafante semana. Mas aquele sábado seria diferente, seu sossego de sábado seria interrompido. O filho mais novo chegou da rua contando uma novidade, haviam fechado todos os acessos do Largo do Telefone com cavaletes e uns garotos do tráfico tomavam conta. Maria da Glória ficou preocupada, pois algum tempo atrás, o local foi escolhido como palco para a guerra entre quadrilhas rivais e policiais. Sua casa sempre sofreu com isto, não importando o dia que fosse. Havia até se acostumado, pois sua casa nunca fora atingida de forma séria que danificasse objetos ou ferisse pessoas da casa, mas era um motivo a mais de preocupação. O estranho era a presença de cavaletes, nunca fizeram parte das batalhas ali travadas. Mas ela ficou alerta e pediu a todos os membros da família para não saírem de dentro de casa naquela noite.
Lá pelas seis, apareceram uns caminhões e umas pessoas esquisitas. Subiram em um poste de luz e puxaram um fio de lá, logo haviam puxado diversos fios de diversos postes de luz e o Largo já estava ficando cheio daquele pessoal esquisito. Logo depois, um pequeno caminhão entrou na rua, tiraram os cavaletes e pararam logo na entrada do Largo. Abriram a traseira e diversos objetos eletrônicos, que Maria da Glória nunca vira antes, começaram a sair de lá. Ela decidiu não ficar olhando muito, pois alguns dos "garotos" poderiam cismar com ela. Entrou e fechou a janela do térreo.
Lá pelas oito, o filho mais novo, que tinha futuro como jornalista, entrou correndo e gritando para ela e o pai fossem até a janela do terceiro pavimento. Quando abriram, não conseguiram ver nada, pois havia uma espécie de muro tomando toda a janela. O menino gritava excitado: "São caixas de som, mãe! São caixas de som enormes!" Caixas de som!?!? O que iriam fazer ali no Largo aquela noite, se perguntava Maria da Glória. O marido queria sair para perguntar, mas ela o desencorajou, pois os "garotos" poderiam "levar a mau" a atitude dele e 'Sabe-se lá o que podem fazer estes meninos!', ponderou Maria da Glória.
O Largo começou a encher de gente jovem. Uma garotada vestida com roupas mínimas e alvoroçada, gritando a esmo. Logo abriram uma barraca de cachorro-quente e cerveja em uma esquina, ambulantes começaram a cruzar o Largo oferecendo diversos tipos de bebidas e alimentos. A barulheira crescia desesperadamente, Maria da Glória nem podia assistir a novela das oito na Globo. Aquilo a irritou: 'O que estes meninos vão fazer aí, hoje?'
De repente, a casa começou a balançar e um som ensurdecedor tomou toda a residência. Eram dez da noite, hora de gente de bem estar na cama, mas o som não deixaria ninguém nem ao menos ficar deitado. O marido enlouqueceu e começou a gritar pela janela para as pessoas do lado de fora, na rua, mas do que adiantava. Nem dentro de casa conseguiam ouvir o que ele gritava, imagine lá fora. Uma voz anunciou o evento da noite: um Baile Funk. Estavam organizando um baile funk em frente de sua casa, deixando a todos loucos e mal começara o tormento, pois estavam apenas testando o som.
Lá pelas onze horas, a festa começou. Maria da Glória que pensava em se deitar para dormir, não conseguia nem chegar perto do chuveiro, pois a água caia em todos os lugares do banheiro, menos em cima de quem estivesse tomando banho. O som agora reverberava por toda a casa e sacudia a todos, mesmo quem não estava interessado em dançar e muito menos ouvir o funk "rolando solto" na noite. O Dj anunciava a programação e a presença de um monte de moços com nome engraçado de MC disso e MC daquilo, nunca ouvira o nome de nenhum deles e muito menos sua música.
O filho mais novo trocou de roupa e queria ir lá pra fora para: "Curtir a balada!" Maria da Glória respondeu: se você quer badalar não precisa sair e só ficar parado na sala que o som balança você e a casa inteira. Os primeiros gritadores, ops, cantores iniciaram o programa daquela noite. O som, que seria o mesmo a tocar por toda a noite, era um bate-estacas na cabeça de Maria da Glória e Joaquim, que já haviam desistido de tentar dormir. Rezavam para aquele balanço infernal não destruir as janelas e nem um objeto cair devido a potência daquelas caixas monstros lá fora.
Além do som ser ensurdecedor, a música monótona e repetitiva, as letras das músicas eram ainda piores. Eram sobre crime ou sexo, sexo ou crime, a única coisa que mudava eram os locais citados pelos tais de MCs. Maria da Glória fez um passeio forçado por todos os pontos da periferia do Rio e Niterói, e ouviu falar sobre lugares que nem ao menos sabia que existiam. Os gritadores, digo, os cantores falavam da sua realidade dos morros e favelas, mas principalmente, faziam apologia ao crime. As meninas que cantavam, diziam coisas que deixariam sua avó ruborizada de vergonha, além do mais, depreciavam a si mesmas com letras em que se ofereciam para fazer coisas, que toda a mulher odiava, mas os garotos amavam.
A tortura durou horas, os MCs se revezavam no papel de carrasco e seu aprendizado forçado da nova realidade da juventude carioca, a deixou horrorizada e envergonhada. Maria da Glória não conseguia compreender o amor dos jovens lá fora por aquela balbúrdia sonora e por sentimentos confusos. Os gritos atravessaram a noite e a madrugada inteira. Sem participar da festa em pessoa, Maria da Glória teve a festa entrando por sua porta em bom som.
Quatro da manhã pareceu ser a hora da libertação, mas foi apenas um ledo engano, pois ainda faltavam recolher todo o equipamento e ir embora. Quando o sol já estava caminhando para o nascimento, Maria da Glória conseguiu ver novamente o Largo do Telefone. Havia sujeira para todo o lado, um cheiro fétido de urina e "otras cositas más" tomavam o ar. O fedor era semelhante a um grande depósito de lixo. Ninguém ficou ali para limpar, fizeram o que quiseram e se mandaram.
Noite sem dormir, mau cheiro e um saber, que a partir daquela data, ensinaria a amar a Funk Music ou então o caminho mais rápido para mudar de residência, pois os sábados nunca mais seriam os mesmos.
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