18 novembro 2007

Boogie Woogie - A Venda

As mudanças sempre tem dois aspectos: um positivo e outro negativo, no conto de hoje teremos a história da transformação do comércio dentro do morro. Sua evolução e a antiga relação muito pessoal entre as pessoas e seu comerciante.

A venda de "Seu" Mozart era um antigo armarinho, daqueles do tempo de nossos avós, em que penduravam carne seca, lingüiça e outros embutidos em uma espécie de varal feito de madeira, para os clientes colocarem a mão e sentirem se o embutido estava bom. Era um lugar de doces lembranças, pois ali descobri as delícias das guloseimas da infância. Muito açúcar! Tudo com muito açúcar como tinha que ser para encantar a criançada, sem contar o festival de cores. Lembro até do dia em que ele colocou na vitrina as marias-mole de diversas cores: rosa, marrom, verde e branca. Foi uma festa! Todos avançaram, combinação perfeita: açúcar e cores divertidas.
A venda de "Seu" Mozarto tinha uma peculiaridade, eram os horários da clientela. De manhã bem cedo, a mercearia ficava cheia de mães e donas de casa comprando café moído na hora, pão, manteiga (margarina era artigo de segunda) e leite para fazer o café da manhã da família. Depois, ainda de manhã, era a vez da garotada tomar conta. A maioria pegava os trocados que juntava e corria para a venda comprar doces ou brinquedos da antiga. Bolas de gude, pião, pipas e jogar no "furadinho", uma espécie de bingo em que você comprava um número e furava aquele número em um tabuleiro prateado, então, de acordo com o número que marcara, saia uma bola na parte de baixo, que indicava o prêmio que ganharia. Na maioria não se ganhava nada, o jogo sempre pertence à casa. Mas acho que o mais divertido era o sonho do que poderíamos fazer se ganhássemos um daqueles prêmios fascinantes expostos ao lado do "furadinho". Brincadeiras e sonhos compunham a manhã da venda. O horário do almoço, normalmente, era um horário morto. A venda ficava vazia e Mozart aproveitava para comer ali mesmo atrás do balcão a sua marmita, que Dona Zulmira trazia para ele. Nunca esqueci o cheiro daquela marmita, parecia plástico queimado, era horrível, me dava ânsias de vômito, enquanto ele devorava avidamente aqueles "petiscos" fedorentos. À tarde e à noite a venda passava a ser dominada pela confraria masculina, os homens enchiam a venda, seja para beber ou jogar conversa fora, muitos encostavam o cotovelo no balcão e ali ficavam por horas, bebendo e conversando. Tinha, é claro, aqueles que só ficavam com um copinho da "mardita" na mão sorvendo o líquido ácido aos poucos. Saíam carregados lá pela madrugada, mas era a sua "diversão".
Uma coisa que sempre me chamou a atenção foi o "Caderninho" de "Seu" Mozart. Anotava tudo que vendia e faturava no caderno. Grande parte dos moradores do morro tinham seu nome naquele "caderninho", no futuro, se alguém pudesse recuperá-lo, poderia fazer uma tese sobre o consumo das favelas naquela época, só examinando aquele "caderninho", que não importava se no início ou no fim do ano, sempre tinha uma aparência gasta e destruída, mas sempre mantido ao lado do balcão. Lembro bem que Mozart não deixava ninguém chegar perto dele, uma vez roubamos o "caderninho" e ele nos perseguiu o morro inteiro e chamou até os "guardas" do posto para nos pegar. Ele ficou, realmente, desesperado com o roubo do "caderninho". Era como sua vida estivesse ali dentro.
Mozart era folclórico, havia se transformado em um mito para os moradores, pois era o mais velho morador que todos ali lembravam. Parecia, para todos, que ele estava ali há anos, bem antes da chegada do primeiro morador. Na verdade, Mozart estava há 25 anos no morro, sendo que 23 tomando conta da venda. A venda tinha a aparência de estar do jeito que ele comprara. Meu pai me falou, que quando ele era pequeno, tudo na venda de "Seu" Mozart era exatamente igual a como está agora. Nada havia mudado! Mentira, ficara mais sujo e mais escuro. Era uma das muitas peculiaridades da venda, sempre parecia mal-iluminada, já não sabia se era escuro porque estava sujo ou se tinha a impressão de sujo pois sempre estava escuro. Era como o Tostines!
Foi quando um grande rebuliço começou a acontecer na frente da venda, Mozart estava convidando à criançada para um jogo. O jogo era a demolição da imensa geladeira de madeira que ocupava metade da venda. Era uma imensa parede de madeira com algumas portinholas com alumínio no meio, onde ficava guardado tudo que era refrigerado. Aquilo era um imenso elefante, sujo e fedorento que diminuía o espaço e todos reclamavam do seu cheiro, quando Mozarto tirava uma cerveja ou um pedaço de presunto de dentro. A brincadeira seria um prêmio para a criança que conseguisse destruir seu lado da imensa geladeira primeiro, cada uma receberia uma pequena marreta e uma pá para encher o carrinho com o entulho retirado. Não podia perder aquilo, quantas vezes fiquei olhando para dentro daquela imensa geladeira, enquanto ele tirava o picolé que havia comprado de dentro, principalmente, o de milho verde, muitas vezes comprava o picolé ou o refri apenas para dar uma olhada lá dentro. Nós, as crianças, discutíamos por horas o que deveria existir lá dentro. Monstros, guloseimas, sujeira ou todo tipo de fantasia infantil percorria elétricos e agitados cérebros em crescimento, cada um com uma idéia mais estapafúrdia que a outra.
Fui selecionado para a demolição. Começaríamos por cima! Subimos uma escada e começamos a dar pancada, sem ter muita noção, não fazíamos estrago quase nenhum na imensa madeira escura da geladeira. Carlinhos, que era o mais forte, foi o primeiro a conseguir arrancar um pedaço e fez um barulho enorme na venda fazia de "Seu" Mozart. Vazia! Era a primeira vez que percebia que a venda estava completamente vazia, não tinha absolutamente nada dentro, nem mesmo os potes de vidro onde ele colocava os doces ou os imensos sacos de farinha abertos em cima para à venda no varejo. Marquinhos colocava mais um pedaço da geladeira no chão. Quando consegui arrancar o primeiro pedaço, a minha visão foi aturdida com o pedaço da parede totalmente mofado e de cheiro insuportável. O trabalho seria nojento! Apesar da brincadeira ser uma disputa com direito à prêmio, todos estavam se divertindo e provocando uns aos outros. A cada descoberta que fazíamos, seja na parede liberta, seja de dentro daquele imenso buraco negro que era a geladeira, um gritava para o outro informando o que descobrira. Todos queríamos partilhar aquele memento único, que não sabíamos ser o fim de uma era. A geladeira veio totalmente abaixo. Mozart deu o prêmio para o Carlinhos e nos mandou para casa, mas todos queríamos ajudar a retirar o entulho. Ninguém foi para casa, limpamos tudo em uma imensa brincadeira de criança. Lá pelas quatro estava tudo pronto. Mozart baixou a porta corrediça de alumínio, uma modernidade que se fez necessária com a mudança no perfil dos moradores. Fechou o trinco e deu um longo abraço nos amigos mais chegados, percebi que algumas das mulheres estavam chorando. Nós não entendíamos aquilo.
Mozart veio até nós e trouxe um monte dos doces que tinha na venda. Deu um bocado para cada menino e menina da rua, passou a mão nas nossas cabeças e sorriu docemente. Era um bom velhinho! Todos gostavam muito dele! Era parte do patrimônio e história do morro, a vida de quase todo morador poderia ser contada por ele. Foi testemunha ocular de tudo que havia acontecido no morro por quase três décadas. Mas, agora... estava se despedindo.
No dia seguinte, uns homens chegaram e derrubaram com marretas a porta de alumínio da venda. Corri para a casa e gritei para minha mãe que estavam arrombando a venda de "Seu" Mozart. Mamãe mandou eu me acalmar, ninguém estava roubando nada. "Seu" Mozart havia vendido a venda e aqueles "moços" com marreta eram empregados do novo dono. A porta e grande parte do interior da venda foi posto abaixo. Na verdade, ficou apenas as quatro paredes de sustentação. Colocaram uns tapumes na frente e começou um festival de "bateção" lá dentro, gerando todo tipo de especulação da criançada sobre o que seria. Esquecemos do velho Mozart em menos de uma semana. Quando os tapumes foram tirados, foi revelada uma moderna padaria em seu lugar. Clara e com balcão de vidro. Novos doces, novos pães e marcas que só víamos em supermercado. Parecia, a todos, que havia apenas benefícios. Tudo era muito limpo... muito perfeito. Mas algo me chamava a atenção... nunca mais senti o delicioso cheiro de café moído na hora, agora comprava um saquinho quadrado em que o café vinha à vácuo, do qual nunca conseguia sentir cheiro algum. Muito menos um cheiro delicioso. Os doces... nunca mais foram tão saborosos e nem tão diversificados, muitos desapareceram e nunca mais retornaram. Havia muita coisa boa... mas também havia seus pontos negativos.
No dia seguinte a inauguração, chegou a notícia: "Seu" Mozart havia falecido. Ninguém nuca soube o motivo... acho que à maioria nem foi no enterro, a casa dele não era no morro e ninguém sabia onde era. Sabíamos apenas que... uma era chegara ao fim!

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