29 dezembro 2007

Poesia - Mágica

O tempo é um eterno fantasma... um Deus obscuro e inescapável. Alquimista da vida, soluciona tudo... transmuta tudo. É o que nos conta nosso poeta hoje.


MÁGICA

Inefável mundo,
Que irremediavelmente
Desfaz-se
Por entre os dedos
Ávidos em detê-lo.

Trêmula mão que
Com o nervoso suor,
Vê escorrer por entre
Células, doce seiva
Que um dia alimentou
Com vida
O que hoje apenas existe.

Flashes esporádicos,
Que ferem a tela dos olhos
Com uma luz
Que cada vez mais pálida,
Insiste em iluminar lembranças,
Cujo presente
Obriga a sentir saudades.

Estéril da raiz
Às folhas,
Colho hoje uma atormentada morte,
Paradoxalmente nascida
De uma serena semente.

E a tímida luz que dá vida ao amanhecer,
Atinge sua plenitude
Até ser engolida pelas trevas.

É um exercício contínuo,
Que serve apenas para nos lembrar
Que o tempo é eterno,
E mágico, na química de transformar.

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Mulheres que Amo - Humildade

É difícil crer que uma mulher fique grávida de propósito, mas diversas vezes vi acontecer, nomrmalmente, da maneira mais estúpida possível e com o amante mais improvável ainda. Pior, é quando isto acontece com alguém muito próximo a você. Pior ainda, quando este alguém teve todo e qualquer tipo de apoio para não fazer esta imensa estupidez. É o que veremos no conto de hoje.

Minha sobrinha é uma idiota! Fico com raiva só de pensar! Conseguiu estragar sua vida, apesar de todos os avisos que recebeu para não fazer. Falamos das consequências de fazer. Mostramos os prós e contras. Vencemos tabus e até mesmo convencemos o pai dela a conversar com ela. E olha, tem duas irmãs que já haviam cometido a mesma estupidez. Mas é como digo, todo adolescente é um poço de estupidez. Nenhum tem um pingo de cérebro, conseguem estragar tudo aquilo que deveria ser o melhor memento da vida.
Ela, a estúpida, ficou grávida. Pior ainda, casou com o imbecil que a engravidou. Infelizmente, a estória não começou neste ponto. Os pais dela, os tios e até os avós resolveram não deixar acontecer a mesma desgraça com ela que havia acontecido com suas irmãs. Ser mãe adolescente, uma praga que definitivamente acaba com a vida da mãe, da criança, do marido e todos ao seu redor, mas, principalmente, da pobre criança que não pediu para vir ao mundo sendo fruto de um erro estúpido.
Ela não pode reclamar de nada saber, de nunca ter conversado com a sua mãe ou mesmo não saber da existência de formas de evitar este desastre. A mãe e o pai (contrariado) conversaram sobre sexo, informaram como evitar filhos, os perigos de uma gravidez em tenra idade, os riscos de doenças sexualmente transmissíveis e as consequências para a vida de qualquer mulher ser mãe na adolescência. Os exemplos eram vivos e próximos, as duas irmãs mais velhas. Todos achamos que esta não jogaria sua vida fora por burrice e desejos mal compreendidos. Ledo engano! A tristeza é saber que a culpa foi maior dela do que do próprio imbecil que a engravidou.
Ao contrário dela, o rapaz nunca havia conversado com ninguém sobre sexo. Seu conhecimento vinha de Playboys e Sexy da vida. Os clichês da rua alimentaram suas fantasias. Os especialistas consultados por ele, eram os virgens companheiros de primeira viagem do colégio. Tão imbecis quanto ele! Incrível, como um imbecil pode ser convencido por outro a fazer tamanha estupidez, que o conselheiro nunca conseguiu fazer. Mas sempre tem um otário. Também, graças a santíssima trindade, sexo tornou o produto mais vendável do mundo, até mesmo superando o amor.
Quando ambos deram a notícia (juntinhos de mãos dadas, tão bonitinhos... tão estupidozinhos) para a família, pareceu a todos que fora a minha sobrinha quem seduzira o pobre e tosco garoto. Foi uma chuva de acusações e xingamentos de toda a espécie. É claro, que a briga vazou para culpar os pais dela, que não sabiam criar as filhas, pois era o terceiro erro consecutivo. Só podia ser incompetência. E neste caso, tenho que concordar, apesar de terem feito tudo que era humanamente possível para aconselhar a filha. Tudo que é dito por especialistas na tevê, tudo o que os pais dizem fazer para ajudar seus filhos a não cometer estupidez tão grandes... infelizmente, nada funcionou. O pior de não funcionar, é a total desolação dos pais ao encarar mais um fracasso. Eles estavam arrasados, enquanto ela... radiante. Os dois queriam uma festa de casamento, mas, escolados pelos fracassos anteriores, os pais dela não concordaram com o casamento. Morariam juntos por alguns anos, caso o relacionamento ainda estivesse intenso, casavam-se. A idiota... perdão, minha sobrinha... gritou, esperneou, socou e resmungou. Chegou a ameaçar sair de casa, caso não houvesse um casamento. Os pais ficaram irredutíveis: sem casamento, por agora. Caso, quisessem se casar, ficariam por conta própria. Ela gritou que iria morar na casa dele com os pais dele, questão totalmente apoiada por seus próprios pais, pois a casa não tinha lugar para mais ninguém. Porém, os pais dele, percebendo que teriam de arcar com toda aquela brincadeira sozinho, resolveram brecar o irrequieto pinto de seu filho. Dizeram não.
Não houve casamento e a minha idi... digo, sobrinha, foi morar com os pais dele. Foram os meses do paraíso, em que ela foi alçada ao pedestal da Deusa da Feminilidade. Um mundo passou a girar em torno dela. Ela era o Centro do Universo das duas famílias. Tudo mais não tinha nenhuma importância! O nascimento do herdeiro, transferiu o cetro do poder para o Redentor recém-nascido. Agora, o culto era a Continuação da Vida, não mais a feminilidade, que seria, paulatinamente, colocada de lado para alocar o novo Deus nascido.
Embalados pela felicidade da chegada de uma nova vida dentro do seio familiar. O casal estava sempre sendo bem tratado e se aproximaram, vivendo um momento único em suas vidas, que fez a todos acreditarem que o casamento poderia realmente dar certo. Para tristeza do feliz casal, só durou até o dia em que trouxeram o bebê para casa. A primeira noite da criança na nova casa foi uma tortura. Gritou e chorou a noite inteira. A mãe e o pai de "primeira viagem" nem acordaram. Precisou a mãe dele, levantar de sua cama e acordar o "feliz casal". Brigaram naquela mesma noite, para saber quem era o responsável por cuidar da criança durante à noite, cada um apresentando as razões mais estapafúrdias para não ser o felizardo. Além disso, passaram a levar broncas o tempo todo da mãe dele, por não saberem cuidar de seu filho.
A vida não é um inferno contínuo... é quase, para quem escolhe o caminho errado, mas tem dias que se consegue apagar o fogo no rabo das estúpidas adolescentes e salvar uns dias para o bem da vida delas. Acabou acontecendo com a minha sobrinha, depois de entrarem no ritmo da criança... veio uma calmaria. Substituída, rapidamente, pelas brigas por poder entre ela e a mãe dele. A mãe dele nunca deixando-a esquecer, de quem era a dona da casa e quem morava de favor ali. Sofrendo todo tipo de escárnio e humilhação, resolveu dividir um pouco com sua mãe. Passou a reclamar diariamente no "ouvido" de sua mãe, pobre coitada. O pai ficou "com peninha" e disse que se acontecesse novamente, ele acolheria o "feliz casal" em casa. É claro que aconteceu, muito mais rápido que o pai gostaria.
Uma semana depois, marido e mulher desembarcavam de "mala e cuia" na casa dos pais dela. Ela pensou que tudo seria como antes, mas agora trazia consigo dois novos passageiros e por mais que os avós adorassem o novo membro da família, não podiam suportar que a sua filha permanecesse na mesma vida que tinha antes. As brigas recomeçaram, mudando apenas de contendor: sua mãe. As brigas eram ainda piores, pois uma de suas irmãs e a filha dela moravam na casa e o "feliz casal" era um incomodo muito "mal-vindo" naquele memento. As brigas ficaram ainda piores, apenas por um orgulho estúpido e injustificável, não voltaram para casa dos pais dele. Para o garoto, o difícil era suportar as constantes queixas de sua "companheira", as brigas ele não via, passava dia inteiro trabalhando com o pai e forçava cada vez mais a chegar bem tarde para não se envolver naquele gritaria absurda que o estava deixando louco.
A idio... minha sobrinha, para fugir das constantes brigas, passou a passear com o bebê todos os dias. Em consequência, encontrou antigas amigas e amigos do tempo de colégio. Ficou sabendo de todas as novidades, que ela não poderia compartilhar, e ficou com água na boca sobre os novos "points" e os novos "gatinhos" do colégio. Recebeu um "intensivão" sobre as fofocas para ficar em dia sobre tudo e todos, já que não mais podia participar daquilo tudo. As amigas adoravam encontrá-la e paparicavam o novo rebento o tempo todo, melhor dizendo por um mês inteiro, foi o quanto durou a novidade. Rapidamente, ficaram entediados dos "gu-gus-da-das", de ouvir falar em mamadeira, cocô na fralda e xixi no lençol, a vida era bem mais interessante que isso, todas elas pensavam.
Logo após o consequente desaparecimento das amigas, ela soube que haveria uma grande festa no colégio. Recebera convite e decidira que tinha que "voltar à vida". Pediu a sua mãe para ficar de babá, comprou um vestido de festa e convenceu o marido a ir. Este conseguiu até um carro emprestado para levá-los. Mas (a vida é cheia de "mas", não é?) no dia da festa, à tarde, o bebê, começou a ficar com febre, vomitar e sentir falta de ar. Foi ficando pior a cada minuto, não houve escolha e tiveram de levá-lo para o hospital. Até tudo ficar esclarecido e o garoto voltar a ficar bem, lá se fora a grande festa. A idio... minha sobrinha, ficou conformada que sua antiga vida não existia mais e nunca iria voltar. Decidiu investir tudo no seu casamento e em sua filha.
Os três anos se passaram, o pai do menino estava indo bem no trabalho. Ela resolveu voltar a falar em casamento e, principalmente, irem embora da casa dos pais de ambos. O garoto protelou o máximo que pode, mas foi empurrado para um casamento fadado ao total fiasco. Para sorte de ambos, uma semana antes do casamento, com tudo já pronto, o garoto deu uma de "macho" e "chutou o pau da barraca". "Não vou me casar com ninguém! Não tenho idade e nem sei se estou apaixonado. Não vou me casar!" E não se casou, cada um foi para seu lado. Apesar disso, cumpria com todas as obrigações com a criança.
A idio..., minha sobrinha, resolveu então, que definitivamente não era obrigada a ter uma vida própria e dedicou quase toda a sua juventude a infernizar o ex. Foram anos "boníssimos" para o ódio e a estupidez, muitos deles passados diretamente para a filha. Seu lema passou a ser: 'A vida é uma merda! Porquê os homens são uns canalhas!" Foi quando ela veio conversar comigo. Até então, nem nos falávamos direito, e eu era seu padrinho. Chorou, lamentou e falou o quanto era infeliz por culpa dos outros. Peraí?!?! 'Culpa de quem?' indaguei irritado. Ela citou praticamente o mundo todo, menos a única e verdadeira culpada de toda aquela desgraça que era a sua gravidez na adolescência, um ato de pessoas imbecis e sem cérebro, como são todos os adolescentes.
Segurei ela pelos ombros e gritei com enorme força, cuspindo em seu rosto: 'Foi você!' Ela ficou assustada e voltei a gritar, a única culpada ela era, pois tinha sido preparada para não fazer aquela estúpida coisa, que não era o sexo em si, mas sim não ter usado preservativo. 'O que custava usar uma camisinha?' 'Foi ele!' Quase disse um grande palavrão, a força em casos como este não está no homem, mas sim na mulher, caso ela recuse o homem não consegue fazer mais nada, ele se humilha para ter o mínimo possível dela. Ele poderia tê-la estuprada, alguns diriam, mas não foi o caso e qualquer um podia perceber, que era mais fácil ela estuprar ele do que o contrário acontecer. Fiz ela encarar a verdade, fizeram aquilo tudo por desejo próprio, por pura vaidade. Para mostrar que podia a terceiros que hoje em dia nem sabem que ela existe, pois vivem vidas felizes em algum lugar a "anos-luz" de distância dela. Só havia uma idiota, irremediavelmente idiota... 'você!'. Apontei bem no seu rosto. Ela deu um tapa na minha mão e foi embora correndo. Horas depois o pai dela apareceu para perguntar o porquê de eu ter batido na filha dele, olhei bem para ele que já sabia a verdade. Fomos tomar uma cerveja e não dissemos nada. No final, após ele pagar a conta, falou desolado: "Elas nunca irão aprender humildade!".

22 dezembro 2007

Poesia - Quase Bêbado

Para onde vamos, qual é o destino de cada um de nós nesta vida e ainda... como vamos chegar lá. Nosso poeta nos coloca as dúvidas em uma bela métafora.

QUASE BÊBADO

Sigo com passos vacilantes
A trajetória do improvável
Infinito.

Sem norte a cumprir,
Deixo ao vento a responsabilidade
Da aleatória rota.

Não temo a direção do vento,
Tampouco, sua velocidade,
Se sou atirado aos rochedos,
Ou se sou salvo por uma ilha.

Com o rigor do nada,
Contemplo as paisagens
Que me são impostas.

Respiro do vácuo
Que me é oferecido
Como sobra dos que souberam
Escolher,

E durmo com imagens
Sem parâmetro com o real,
Até acordar, e então sonhar
Que só o acaso me conduz.

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Boogie Woogie - Paz & Amor

Natal nos faz pensar em muitas coisas, principalemte, em como tratamos as pessoas à nossa volta. Este é um pequeno Conto de Natal que fala de como tudo podria ser bem melhor.

Sair de casa e não saber se voltará, transformou-se em uma rotina na vida diária do Rio de Janeiro. Todas as pessoas que vivem na chamada Cidade Maravilhosa, convivem com este medo. Este medo, porém, é bem mais presente na vida de um profissional: o Policial. Desde que inicia na profissão, uma sentença de morte paira sobre a sua cabeça. Todos os dias... todas as semanas... todos os meses, esta sentença está presente. Influencia as suas ações e de todos os que o amam.
César era policial a quase cinco anos, já não pensava mais neste fato. O hábito havia transformado o medo em apenas mais um detalhe do viver. Afetava-o mais, a rejeição que sentia das pessoas a sua volta: vizinhos, transeuntes, comerciantes e o povo em geral. Havia medo em seus olhos quando o encaravam... quando o encaravam! Machucava ver mães segurando mais firme o pulso de uma criança, quando ele se aproximava. Já não usava a farda quando saía de casa e sua esposa não contava para os vizinhos o que ele fazia. Dizia, sempre, que trabalhava no ramo da segurança. Haviam mudado de residência três vezes desde que ele entrara para a Corporação.
César nunca fez nada de desonesto ou tomou atitudes que pudessem trazer tamanha rejeição a sua pessoa... mas outros o fizeram e agora tinha de conviver com este fantasma da culpa alheia. Era como ser um pária, em meio a sua comunidade. Ficou pior, quando foi designado para trabalhar dentro de um DPO na favela do Boogie Woogie, na Ilha do Governador. Pois via acontecer "coisas erradas" concretizadas pelos dois lados da história: policiais e comunidade. Cumpria estritamente seu dever e sempre buscava manter uma certa distância de tudo e todos. Não envolver-se passou a ser uma regra de vida e esconder sua verdadeira face, passou a ser uma questão de sobrevivência. Só podia ser ele mesmo em sua residência... com seus familiares. Aquilo gerava uma enorme tensão em sua vida. Em muitos momentos, esta tensão acabava explodindo sobre seus entes mais queridos.
Era Natal, em anos anteriores, que César não chegou a conhecer, a comunidade dava presentes para os policiais do posto. Eram convidados para a ceia e recebidos nos lares das pessoas de bem. Comerciantes sempre organizavam uma "vaquinha" para presenteá-los. Nos dias de hoje, nem era bom que ficassem no posto, pois diversas vezes o feriado era comemorado dando tiros nos policiais de plantão. Atitudes de jovens inconseqüentes e sem nenhum tipo de respeito a vida. Mas, infelizmente, uma maioria que tinha o controle através do medo e da inação. César fora escalado para o plantão de Natal no posto. O novo comandante do Batalhão queria demonstrar força e decidiu não retirar nenhum policial do plantão dentro das favelas do bairro, para mostrar que seus policiais não tinham medo da "bandidagem".
César saiu de manhã, beijou esposa e filha como de costume, mas seu coração e alma não estavam normais. Eram 24 horas que passariam em um vagar menor que de costume. Seria a volta do medo que havia deixado de ter importância anos atrás. A esposa deu conselhos, alguns amigos do Batalhão, também. Mas que conselhos poderiam ser de alguma validade em uma situação extrema como aquela. Ninguém estaria vestindo aquela farda azul e servindo de uma alvo para pessoas beligerantes com desejo de demonstrar sua masculinidade e coragem colocando uma bala em sua cabeça.
Passou no Batalhão, trocou de roupa e pegou as ordens com o Oficial de Plantão. Encontrou seu parceiro desta longa noite de Véspera de Natal. Estava tão assustado quanto ele. Um apoiou o outro e seguirão na viatura 013 para o morro. Ao estacionarem no Campinho, foram fuzilados pelos olhares de todos: comerciantes e moradores. Há muito nenhum policial passava à noite de Natal no morro. Foram para o DPO e ficaram encastelados lá.
O Campinho fervilhava de movimento. Estavam preparando uma grande ceia para os moradores, instalaram até mesmo uma árvore de Natal com diversos presentes para todos. O relógio implacavelmente mostrava cada segundo de angústia e dúvida que ambos passavam ali. Às quatro horas da tarde, os sinos da Capela de Nossa Senhora das Graças bateu, anunciando a missa de Natal. César era católico e devoto, sempre ia as missas ao Domingo com a família. Sempre assistia a Missa do Galo quando podia. O sino batia insistentemente para chamar os fiéis. César tomou a sua mais ousada decisão. Iria assistir a Missa, seu parceiro tentou dissuadi-lo da idéia, mas ele ficou irredutível.
Desceu as escadas do Posto e foi para o Campinho sobre os olhares de moradores e comerciantes assustados. Entrou na Igreja, colocou a mão na pira de água benta e fez o sinal da cruz. Sentou ao lado de uma família, que assustada se afastou, mas a filha menor foi chegando perto e olhando fixamente para César, que lhe deu uma piscadinha e arrancou risos da menininha. Antes da comunhão, havia o cumprimento das pessoas da comunidade para desejar Feliz Natal. César estava preparado para que ninguém falasse com ele, apesar de todos o conhecerem. Mas a bela menininha quebrou todas as expectativas, não só o cumprimentou como fez questão de dar-lhe uma abraço. A família seguiu o exemplo e todos na Igreja também. À noite encheu-se de sorrisos de confraternização e felicidade.
O padre, que organizara a ceia, convidou César para participar. O medo ainda presente, o inclinava a recusar. Mas a menininha segurou em sua mão e o convidou. César não conseguiu recusar, mas resolveu não sentar a mesa e ficar em pé, comendo. Foram servidos os "comes e bebes", veio oi Coral de Crianças para cantar músicas natalinas. Abrirão os presentes e as crianças desembestaram alegremente a correr por todos os cantos. César estava feliz, sorria e ria despreocupadamente. Até que de repente, os "donos do morro" aparecerão! César não teve tempo de puxar seu revólver, que nada adiantaria, mas teria a oportunidade de se defender.
O prenderão! Um bandido de cada lado e bateram no seu rosto. O "patrão" decidiu matar aquele PM insolente, que se acha melhor do que os outros. Apanhou uma arma de grosso calibre e apontou para César. Foi quando, a pequena e delicada menininha, com toda a coragem conferida pela inocência dos seis anos de idade, puxou a camisa do "patrão" e pediu: 'Não machuca ele, não, seu moço! É Natal!' O patrão tentou empurrá-la para longe, mas ao ver os olhos cheios de lágrimas da menininha, não conseguiu atirar. Resolveu dar uma surra apenas para ensinar uma lição, mas o gesto de coragem e bondade daquela corajosa infante, fez com que os moradores cercassem César e o retirassem das mãos do "patrão" e seus asseclas. Não deixaram ninguém o tocar. Também, não deixaram que voltasse para o Posto. Chamaram seu parceiro e todos comeram e festejaram o Natal em paz. Sem tensão... sem morte. Feliz Natal à todos
.

15 dezembro 2007

Poesia - Não Quero

Sintonia, hoje teremos um poema de nosso grande amigo e colaborador que está em sintonia com o texto que apresento. As consequências de nossos atos por prazer e amor.


NÃO QUERO

Não quero que escorra
Das profundas artérias
Da tua prodigiosa história
O sagrado sangue com o qual
Me transfundi.

Não quero que sujas,
Minhas mãos
Que as tuas apoiaste,
Se ponham insanas
À depredar suas formas.

Não quero que teus ouvidos,
Que à minha voz
Escutaste em cantos e prantos,
Sejam arranhados com insensatas
Palavras de desprezo.

Não quero que seus braços
Que num abraço me acolheste,
Abrace agora a ingratidão do vazio,
Numa solidão que não merece.

Não quero que pensamentos
Que emanam do meu fracasso,
Macule a alvura da tua alma,
Que um dia foi minha luz.

Não quero que minhas pragas
Por vezes a ti rogadas,
Encontre em seu corpo santo
O eco da injustiça.

Não quero tê-lo coma algoz
De chagas que não abriste,
Muito menos o carrasco
De um suicídio que é só meu.

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Boogie Woogie - Família

Culpa e dor formam a tragédia que vou contar hoje, consequência de decisões tomadas sem pensar nos problemas que podem causar algumas poucas horas de prazer.

Muito se discute sobre a influência dos pais sobre a vida futura de seus filhos. Tereza e Adílson foram os responsáveis pela destruição da vida de seus filhos? Foram uma imagem ruim a seguir? Apesar do casamento ter iniciado com um grande amor entre eles, ambos tiveram que 'mover mundos e fundos' para poderem ficarem juntos. Abriram mão de muita coisa para isto. Em algum memento, teriam de pagar o preço por esta escolha.
O casal foi morar junto muito jovem, ela tinha 17 anos e ele 21. Um ano depois de terem saído da casa de seus pais, Tereza ficou grávida do primeiro filho: Robson. O nascimento trouxe os primeiros problemas para o casal. Como moravam em uma casa de apenas um cômodo, o bebê teve de ficar na mesma cama do casal. O constante choro de Robson, irritava profundamente Adilson, que tinha de ir trabalhar na manhã seguinte para pagar as contas. Ao mesmo tempo, Tereza, que havia perdido seu emprego devido a gravidez, tinha que cuidar sozinha da casas e de Robson. Em nenhum memento, Adilson 'levantava um dedo' para colaborar no serviço da casa ou de cuidar do menino. Os domingos, então, desaparecia de manhã bem cedo e só retornava para dormir.
Os atritos cresceram, mas foram amainados com o nascimento de Tadeu, o segundo filho. Todas as diferenças foram postas de lado para cuidar do novo rebento. Tereza teve uma gravidez difícil, o que a deixou extremamente nervosa, passou a comer alucinadamente e engordar. O nascimento foi por cesaria e Tadeu nasceu muito bem de saúde, o mesmo não podendo ser dito da mãe. Ao sair do hospital, Tereza teve de ir para a casa da mãe, ficar aos cuidados dela até o fim do resguardo. As brigas com a mãe, faziam com que Tereza descontasse em Adílson, irritando-o tanto, que este passava até duas semanas sem visitar a esposa na casa dos sogros.
Os problemas foram ficando piores, pois as despesas só faziam aumentar e Tereza quase nunca conseguia trabalho. Dois filhos pequenos para cuidar e pouca experiência profissional, fez ela perceber que as portas estavam fechadas para ela. Tentou o trabalho informal, mas ganhava muito mal. Para completar a tragédia, Tereza ficou grávida pela terceira vez. Porém, desta vez, Adílson não aceitou nada bem e saiu de casa, por um período curto, mas saiu.
A casa era um pandemônio total, três crianças pequenas e um casal adulto em uma casa de um cômodo. Foi o fim do sexo! Foi o fim do casal! Viviam sob o mesmo teto, mas já não eram nada um para o outro... minto, eram inimigos que dormiam lado a lado. As brigas agora eram diárias e cada vez mais violentas. As crianças ficavam no fogo cruzado, assistindo tudo de camarote. Estas brigas deixaram Adilson tão nervoso, que brigou no trabalho com seu chefe e foi demitido por justa causa. A partir de então, não conseguia arrumar nenhum trabalho de carteira assinada. Era o fim da renda familiar!
Adilson começou a beber e a sair com diversas mulheres. Tereza não ficou atrás e, apesar das crianças, saía sempre que podia com um cara diferente. O morro todo sabia... o morro todo comentava. A família dos dois estava mais horrorizada ainda do que na época em que se casaram. O pior ainda estava por vir, o filho do meio, Tadeu, começou apresentar um quadro de distúrbio mental. Ele dizia que via a avó morta flutuando na casa deles. Um dia, inclusive, para fugir da avó fantasma, pulou gritando pela janela e mergulhou dentro de um barril cheio de água, onde mesmo quase se afogando, recusava-se a sair. Levaram anos para convencê-lo que sua avó não estava vigiando a família.
Adilson, como não conseguia arrumar emprego, começou a fazer 'bicos' e depois entrou para o ramo do trambique. Aplicava diversos golpes, todos de pequena monta nas pessoas. Passou a usar os filhos Robson e Washington em seus golpes, ensinando todo o tipo de forma para enganar as pessoas. Os dois viriam a se transformar em craques no assunto, apesar de não ser pelo exemplo do pai em ação. Adílson foi preso! Em um dos golpes, acabou exagerando e a polícia o agarrou e levou-o preso. Se as coisas já eram ruins na casa deles, ficaram ainda pior quando Tereza teve que 'se virar' para sustentar três crianças.
Tereza até que conseguiu sustentar a família, com três empregos diferentes e trabalhando de segunda a segunda. Quase não via os filhos e nem tinha uma clara idéia do que faziam. Foram criados nas ruas do morro, vivendo em casa de amigos e dependendo da caridade de terceiros para comer e vestir. Tadeu era o que mais penou neste período, pois era um menino sensível... eufemismo para gay mesmo. Acabou sendo envolvido por outros garotos mais velhos que o usavam de forma que não interessa comentarmos aqui neste texto. Se não tinha uma 'cabeça' muito boa, o aliciamento por garotos mais velhos, piorou bastante seu equilíbrio. Robson e Washington passavam as manhãs no colégio e à tarde brincavam como qualquer criança normal. À noite, porém saiam para dar pequenos golpes, fazer roubos na casa dos vizinhos e até mesmo a trabalhar carregando caixas para os comerciantes em troca de comida e roupa. Ficaram muito bons em sobreviver nas ruas.
Envelheceram e chegaram à maioridade, cada um vivendo seus próprios caminhos. O pai saiu da cadeia e tentou voltar para casa, mas Tereza, calejada da convivência com os homens, botou ele pra correr. Tadeu afastou-se da família, conseguiu um emprego e ninguém mais o viu por um bom tempo. Robson e Washington continuaram a dar golpes e a fazer assaltos à residências dos bairros nobres da Ilha do Governador. Em um destes golpes, acabaram fazendo um 'ganho' de quase dois milhões, ficando ricos da noite para o dia. Infelizmente, nada é tão fácil assim. O dinheiro e a casa pertenciam a um presidente de escola de samba e bicheiro, com uma fama de matador do cacete. Tinham que arrumar um bode expiatório para não serem pegos e depois sumir. O bode, era óbvio, não podia ser outro, senão seu próprio pai. Armaram para o velho e o bicheiro mandou pegá-lo na casa dos pais dele, onde vivia naqueles dias, foi levado à força e nunca mais foi visto. Ao mesmo tempo, ambos foram embora do morro e a reapareceram em Villar dos Telles dois anos depois, com uma fábrica de calças jeans.
O negócio não deu certo! Os dois não eram comerciantes, mal conseguiam fazer contas de aritmética, imagine controlar um patrimônio de alguns milhões. A falência os levou de volta para a casa de sua mãe, Tereza. Washington, o mais novo, voltou a conviver no morro, entrou para o tráfico de drogas e ascendeu rapidamente na cadeia de comando da quadrilha. Era ambicioso e descontrolado, passou a usar a cocaína e não pagar, com os débitos acumulando rapidamente. Chegou a um ponto insuportável, o chefão mandou 'apagar' ele. Morreu na véspera de seu aniversário de 21 anos.
Robson, que não tinha a coragem e nem a disposição do irmão, continuou a dar trambiques na praça. Em um deles, roubou dinheiro de uma aposentada que morreu por não ter dinheiro para comprar seus remédios. Os filhos dela descobriram tudo e foram atrás de Robson, que conseguiu fugir... sua mãe não teve a mesma sorte. Tereza tentou defender o filho, o que irritou enormente os agressores, deram-lhe uma surra tão grande, que ela ficou em coma por mais de 20 dias.
Robson esperou o tempo passar e depois de alguns meses, resolveu voltar para a casa. Os primeiros dias, foi cuidadoso, mas depois relaxou e quando se preparava para dar mais um golpe na praça. Os filhos da aposentada o acharam, desta vez, não pararam de bater até que o corpo fosse uma massa disforme, tiveram que fazer a identificação pelas digitais.
Tereza saiu do hospital, quase sem conseguir andar. Voltou para a casa, agora com apenas um único filho, que não tinha a menor idéia de onde estava. Mas o destino foi cruel, Tadeu apareceu na casa de sua mãe algumas semanas depois. Veio dar uma notícia para a mãe. Ele iria morrer! Estava com AIDS, transmitida para ele por um parceiro soro positivo. Queria voltar para a casa da mãe para ficar com ela os últimos momentos da vida. Na época, o coquetel de remédios não eram distribuídos. Tereza o recebeu e cuidou do filho até sua morte aos 25 anos, o que morreu mais velho. Marido, primogênito, o do meio e o caçula nenhum deles sobreviveu a um casamento errado e fadado ao fracasso, motivado única e exclusivamente na vontade férrea dos 'pombinhos'.

09 dezembro 2007

Poesia - Arquétipos

Nossa poeta nos fala da prisão que nos mesmos criamos e que vivemos em função de acreditar em fatos e idéias preconcebidas por outrem, necessitando o pensamento próprio e personalista para nos libertar.

ARQUÉTIPOS

Ignoto estigma
Que assombra mentes
Confundindo a ilusão
Com o real.

Invisível aura que dá fé
À visões,
Substancia sonhos
E materializa imagens.

Recorre a arquivos do inconsciente,
Ressuscitando etéreas moléculas
De uma história escrita talvez,
Por um irrecuperável vento.

Desperta o sono de antigos arquétipos,
E os defronta com a suposta luz
De uma presunçosa consciência.

Instala-se então uma guerra
Entre mundos opostos,
Sem escrúpulos,
Trava-se a luta
Usando mente e corpo
Como campo de batalha.


Sem piedade escraviza o espírito,
Que ora respira dos ares da consciência
Ora submerge nas trevas do inconsciente.
Sem parâmetros, e destroçado pela
Disputa interna,
Refugia-se para amenizar o sofrimento,
O espírito, na loucura.

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Mulheres que Amo - A Santa

Por séculos as mulheres sofreram uma total aniquilação de sua individualidade e existência própria. Aniquiladas pela fé em religiões patriarcais. Por dois mil anos foram aprisionadas em suas consciências e, infelizmente, ainda existem pessoas que desejam o retorno a tal estado de coisas. Esta é a história de uma mulher que se libertou dos grilhões da fé.

Rute nasceu e foi criada no interior do Estado do Rio. Seus pais eram cristãos fervorosos, que decidiram ensinar-lhe os preceitos da fé, uma vida de virtude e temor a Deus, principalmente, de temor a Deus. Sua infância foi solitária e isolada. Seus pais não deixavam-na brincar com outras crianças, a não ser seus parentes, quando estes visitavam sua casa. Seus primos a achavam estranha e introspectiva, sem nem saber o que era isto. Os irmãos do pai dela, diziam a ele, que não era saudável para uma menina ser criada daquela forma, pois um dia teria de enfrentar o mundo e eles não poderiam mantê-la afastada por toda a vida. Mas os pais não se importavam, a sua fé os protegeria, afirmavam.
A frequência aos cultos no domingo, era um dos poucos momentos que Rute podia sair de casa. Sem ter costume de fazê-lo, ficava assustada e arredia, chegando mesmo a se esconder de outras crianças que queriam brincar com ela. Os pais a mantiveram assim, ensinado-a em casa a palavra de Deus e as tarefas domésticas, como devia ser para uma menina. Matemática, geografia, história, a não ser a de Jesus Cristo, química, física e outras coisas mais, eram consideradas desnecessárias para uma menina.
Infelizmente, para os pais dela, a vida é bem mais cruel e Deus não tem tempo para olhar por todos, então, o sítio em que vivam quebrou devido a dívidas. O pai foi obrigado a vender e com que restou, vieram para a cidade grande em busca de uma nova vida. O renascimento não era uma tarefa fácil, pois nada sabia fazer, a não ser trabalhar a terra, e a esposa era uma Dona de Casa típica, que nem opinião tinha, a não ser sobre questões de Deus.
O pai arrumou um emprego de ajudante de pedreiro e a mãe de empregada doméstica, onde ficava a semana inteira morando na casa da patroa, levava com ela Rute. Compraram uma casinha em uma favela com que restou do dinheiro do sítio e a vida teve seu recomeço. Mas a patroa da mãe dela, vendo aquela criança dentro de casa todo dia sem ir à escola, começou a cobrar da mãe para arrumar um colégio para ela. A mãe se esquivava e dizia que não era preciso, tudo que ela devia aprender, ela e o marido ensinariam. Mas a patroa não aceitou, pressionou tanto, que Rute acabou sendo matriculada em uma escola pública.
Sem nunca ter ido à escola e sabendo apenas ler a Bíblia, Rute começou no primário, apesar de ter uma idade superior a das outras crianças. Penou! Foi chamada de retardada e mal-tratada pelas outras crianças que não aceitavam seu jeito arredio e seu tamanho. Misturada com a inocência, era uma cruz pesada demais para uma criança carregar. Mas nunca reclamava nem para mãe ou ao pai sobre seus problemas no colégio. Sofria em silêncio, como toda boa mulher temente a Deus, na visão deturpada dos pais cristãos. À noite, seu conforto era ler as sábias palavras de seu salvador.
A vida foi em frente, veio a adolescência e a juventude, sem nunca Rute conseguir se ajustar aquele mundo pagão que fora jogada. Feliz só se sentia na Igreja. Lá acabou conhecendo um outro devoto, Mário, filho de nordestinos e trabalhador duro como seu pai, conseguiu permissão para frequentar a casa dela. Iniciaram um namoro nos moldes de séculos atrás. Toques na mão era a única intimidade permitida e muito menos beijos. Mário estava apaixonado, aceitava tudo, e Rute assustada, não sabia o que devia fazer, mas seguia a opinião das únicas pessoas em quem confiava: os pais. Disseram que devia namorar o pio Mário. Depois deviam ficar noivos e por fim, casar. Rute seguiu todos os conselhos imaginando ter a vida perfeita de sua mãe e da mãe de Deus.
Casaram-se! Houve festa e alegria, Rute se permitiu um sorriso, mas estranhou toda aquela gente tão próxima dela, pois não gostava daqueles exageros e desperdícios, Mário era só contentamento, pois finalmente poderia beijar, tocar e ter sua mulher por inteiro. Sua mãe, antes dela ir para a casa com o marido, a chamou para conversarem. Explicou que uma mulher deve obediência ao marido e deve realizar suas vontades e desejos, alguns pecaminosos, mas apenas no intuito de terem filhos, pois só assim é aceito por Deus. Nada mais disse. Não explicou absolutamente nada a filha, sobre a vida marital ou sobre sexo. Sobre corpo, moradia do pecado. Só afirmou que não poderia haver prazer na consumação do casamento. Rute não entendeu nada, mas silente seguiu com seu marido.
A noite de núpcias foi uma tortura! Nem ela e nem o marido tinham a mínima idéia de como fazer e o que fazer. O marido cheio de desejo e sem nunca ter sido ensinado a se importar com a mulher ao seu lado, acabou ferindo-a na primeira noite. Rute ficou desesperada com seu destino, o marido infeliz com sua primeira noite de prazer, pois fora rápida e sem alegrias. Assim como seria a vida de ambos dali pra frente. A vida dela era simplesmente cuidar da casa e preparar as coisas para a chegada do marido. Sozinha pela primeira vez na vida durante as horas de espera, passou a cultivar o hábito de assistir televisão. Foram seus primeiros ensinamentos reais da vida. Foi a primeira vez que descobriu existir uma vida diferente daquela lhe foi ensinada pela mãe. No início, acreditou ser coisa do demônio, tentando toda a gente, mas com o passar dos dias e o convívio mais próximo com outras pessoas no supermercado, na padaria, no cabeleireiro, na farmácia e mesmo na igreja, agora sem a presença dos pais. Acabou criando novas expectativas e descobriu que o marido, também, devia tê-las. Não sabia bem o que fazer a respeito, sentia apenas um aperto no peito.
As noites eram ainda mais terríveis, pois tinha de cumprir suas obrigações como esposa, era um ato de fé e abnegação. A dor era sempre presente e nada podia dizer e nem sentir, o marido uma vez a acusou de ser frígida, mas nem ele e nem ela sabiam o que significava aquilo. Ficou grávida no primeiro ano do casamento e teve uma linda menininha, que colocaram o nome de Madalena. Isto os deixou mais próximos e aqueceu um pouco o casamento, apesar de Mário desejar, e não escondia isso, que queria um filho homem para ajudá-lo quando crescesse. "Mulher não serve para nada!" afirmava ele. O garoto veio um ano depois e mais um dois anos após ele. Eram três filhos, mais três bocas para alimentar e mais trabalho na casa. O único alívio foi que as noites em que devia cumprir seu papel de esposa, passaram a ser mais espassadas, agora só dormiam juntos uma vez por semana. Havia dias em que Mário nem voltava para casa. Bem... um dia ele não voltou mais. Conhecera uma 'galega' na rua, que era "bem melhor na cama do que você". falou. Deixou a casa e a vida dela, com três crianças, nem ao menos dava dinheiro para cuidar dos filhos, pois ela nem sabia que existiam advogados para cuidar de casos assim.
Decidiu trabalhar fora para cuidar das crianças. Um pastor arrumou um emprego de empregada doméstica, como a mãe, em uma casa de fiéis da igreja e a vida de Rute recomeçou pela terceira vez. Os pais vieram dar-lhe conselhos e recriminá-la por ter perdido o marido. Vieram uma vez... vieram a segunda vez... vieram a terceira vez recriminá-la, foi quando Rute perdeu a paciência, culpou os pais por tudo de ruim que havia acontecido com ela e a falta de preparo que ela tinha para a vida. O pai quis gritar com ela e, então, fez o ato mais corajoso de toda a sua vida. Colocou-os para fora. Largou a igreja e voltou para a escola e decidiu que seus filhos nunca passariam por aquilo, principalmente, a primogênita. Finalmente, ela descobriu o verdadeiro caminho da fé: o conhecimento de si mesma.

02 dezembro 2007

Poesia - Noites sem Sol

Nosso poeta traz sua fascinação pelo horário amado por todos os escritores: a noite. Tanto para o bem quanto para o mal.

NOITES SEM SOL

Não, não são iguais todas as noites.
Há noites cheias de luz,
De uma sublime luz,

Imperceptível aos limitados olhos,
Emite suas ondas numa freqüência divina,
Que só à alma atinge.

Há também noites sem luz,
Mesmo quando ensolaradas de tanta luz.
Igualmente furta-se esta, à míope
Percepção do olhar.

Esta semeia a peste,
A dor e o ranger de dentes,
Sangra a alma e tortura o corpo,
Faz-lhe faltar o ar.

Pode haver nessas noites a luz,
Mas não a que clareia o caminho,
Não a que conduz à luz.

Com o horizonte à distância dos pés
E a verdadeira luz tragada pelas trevas,
Fica apenas a certeza desta alma
E deste corpo
Estarem incondicionalmente aprisionados
Pela vida das noites sem luz.

Maurício Granzinolli
mgran@urbi.com.br

Boogie Woogie - Passagem do Bastão

Sou como muitos, acho o funk carioca horrível. Péssimos cantores, batida repetitiva e temas nem sempre interessantes, mas tenho de admitir, é uma forma de expressão das ruas, principalmente, das favelas, como um dia foi o samba. Esta é a história da troca de guarda.

Os morros mais antigos e tradicionais foram formadores de Escolas de Samba, no Rio de Janeiro. A existência de uma sempre esteve intimamente ligada a outra. Grandes agremiações como a Mangueira ou Escolas totalmente desconhecidas como a Unidos do Cabuçu. As comunidades sempre forneceram a alma e a criatividade para as Escolas, assim como seus compositores e as famosas baianas, escolhidas entre as mais tradicionais famílias moradoras das favelas que compõem a área da agremiação. O Boogie Woogie como toda a favela da cidade do Rio de Janeiro, também, participava de uma Escola de Samba: a União da Ilha do Governador.
A Escola já esteve entre as grandes do Rio de Janeiro, como sambas históricos como: O que será?, Domingo e Festa Profana. Alguns dos sambas enredos chegaram a ser gravados por grandes nomes da música popular brasileira, como: Caetano Veloso e Simone. Este passado de sucesso sempre foi mantido por duas grandes instituições da agremiação: a bateria e seus compositores. Os compositores, em sua maioria, eram da comunidade e seguiam tradições familiares dentro do samba. Assim era a família Moreira, em que o patriarca da família tinha sido compositor da União da Ilha e seu filho. além de compositor, foi, também puxador da Escola. O que tudo indicava que a terceira geração seguiria os passos de sucesso dos antepassados. Lucas Moreira, quando tinha seis anos, já acompanhava o pai nas rodas de samba. Tocava tamborim como ninguém e reservaram um lugar de destaque para ele em um bloco de rua, formado apenas por crianças. Pai e avô consideravam-no um legítimo sucessor das tradições sambistas da família.
Faziam tudo para convencê-lo a seguir os passos da família. O avô sempre repetia, mostrando uma antiga fotografia, que havia composto um samba para o Chico Buarque e tinha até mesmo tirado uma fotografia com ele. Logo depois de exibir a foto pela milésima vez, o avô cantava o samba que tinha composto para o Chico. O pai mostrava, então, a gravação e sua participação no disco do Dominguinhos do Estácio, um famoso puxador de samba carioca. Além dos pais, as mães, também, influenciavam Lucas a tomar a mesma direção do pai e do avô. Acreditavam que ele poderia ir ainda mais longe que os dois.
Lucas foi bem mais longe do que eles, mas não na direção que a família desejava. Lucas descobriu no colégio o funk. Conheceu alguns garotos mais velhos que iam a bailes e seguiu com eles a trilha desta nova experiência. Tentou conversar com o pai e o avô sobre aquele som inusitado e com uma batida tão dançante quanto o samba deles. Mas o pai e o avô não quiseram ouvir nada a respeito desta "gritaria" que nem podemos chamar de música. A atitude deles acabou jogando o garoto Lucas para mais próximo do funk. Começou a escutar os MCs e a ouvir os discos das equipes de som como: Furacão 2000 e Cash Box. Adorou aquela batida contagiante. Ficou ainda mais fascinado quando foi a uma festa com participação do DJ Marlboro. O som, as luzes, as meninas, tudo dentro do baile o enfeitiçou e encantou de forma irremediável. Ele seria um MC, foi a decisão que tomou naquela noite.
Lucas foi até um amigo que tinha tudo sobre funk, pegou alguns CDs, revistas e roupas emprestadas. Começou a ouvir tudo e experimentar tudo relacionado ao funk. Conheceu garotos e garotas do colégio fascinados pela sonoridade funk. Conheceu material da antiga e sangue novo das carrapetas. Estudou sintetizadores e batidas eletrônicas. Colocou todo o purismo de lado e percebeu a forma como os garotos do morro ficavam fascinados por aquela música, cantando-a em todas as esquinas. Os temas das músicas eram mais próximas da realidade dos meninos e meninas do morro, falavam de coisas que se via todos os dias nas ruas da favela. Seja sobre violência ou seja sobre sexo. Mesmo quando as músicas falavam sobre o amor, eram marcadas por uma leitura totalmente particular que falava diretamente aos novos anseios e dúvidas dos adolescente do morro. O funk estava substituindo o samba como linguagem das ruas dentro das favelas. Lucas sentiu isto dentro da alma e do corpo.
Lucas compôs um funk falando da transição do samba para o funk nas ruas do morro onde morava. Preparou a roupa, conseguiu o equipamento e convidou algumas amigas de corpo bonito para serem suas dançarinas. Quando aconteceu uma festa na própria União da Ilha para apresentação de novos talentos da comunidade. Lucas achou a oportunidade perfeita para mostrar seu futuro aos pais e aos avôs. Convidou-os a todos para a apresentação, sem mencionar o que iria fazer. Todos foram pensando que ele cantaria algum samba que compôs, como toda a família antes fizera.
Acomodaram-se na primeira fila e pacientemente esperaram o mais novo Moreira entrar oficialmente para o mundo do samba. Quando chegou a vez de Lucas, a família estranhou, pois não viu tantans e nenhum instrumento de percussão, nem mesmo um violão. Como pode? Ele vai cantar à capela? Será? Todos se perguntavam. O pior veio a seguir quando carregaram para o palco uma estranha mesa com toca-discos em cima. Ligaram aquela parafernália eletrônica, luzes se acenderam e uma batida sintetizada começou a soar pela quadra. Duas meninas dançando de forma provocativa entraram no palco e ficaram dançando por alguns segundos, parecendo que iriam fazer sexo uma com a outra dentro de alguns segundos. Foi quando Lucas entrou no palco, cheio de cordões e com um óculos escuro anos sessenta e um boné de equipe de basquete americana. Ele começou a cantar aquela música ofensiva e agressiva, acompanhando a ritmada e constante batida sintetizada do funk.
Primeiro, houve uma certa revolta. O avô queria ir embora e começou a gritar palavrões e insultos para todas as direções. O pai ficou perplexo e não queria acreditar naquilo tudo. Como podia ser verdade? Mas a mãe e avó prestaram a atenção no que o menino estava fazendo. Prestaram a atenção na música, na letra, nas roupas e no show muito bem realizado. Era bem profissional e correto. A música podia não agradar aos ouvidos da família, mas a letra da música era inteligente e bem feita. O garoto sabia cantar, também! Não desafinava e nem berrava, tudo estava no perfeito andamento e ritmo. O trabalho era "digno de nota". Elas seguraram o braço de seus respectivos companheiros, fizeram-nos sentar e ouvir até o fim.
Lucas não ficou abalado nem quando o avô começou a gritar e xingar. Profissionalmente, continuou a cantar e dançar. Sua equipe permaneceu perfeita, sem pestanejar nem por um memento. Nada falhou ou deu errado. Cada memento ficava mais seguro do que queria fazer. Quando viu seu pai e seu avô sentando-se para assistir o final da apresentação, ganhou ainda mais confiança e teve vontade de chorar. Não fazia aquilo como afronta a eles, mas fazia aquilo porque sabia que aquela era a nova linguagem das ruas da favela onde morava. Era a nova forma de comunicação dos jovens moradores das favelas de falarem sobre si mesmos, de seus desejos, suas vontades e sonhos, como um dia foi com o samba.