09 dezembro 2007

Mulheres que Amo - A Santa

Por séculos as mulheres sofreram uma total aniquilação de sua individualidade e existência própria. Aniquiladas pela fé em religiões patriarcais. Por dois mil anos foram aprisionadas em suas consciências e, infelizmente, ainda existem pessoas que desejam o retorno a tal estado de coisas. Esta é a história de uma mulher que se libertou dos grilhões da fé.

Rute nasceu e foi criada no interior do Estado do Rio. Seus pais eram cristãos fervorosos, que decidiram ensinar-lhe os preceitos da fé, uma vida de virtude e temor a Deus, principalmente, de temor a Deus. Sua infância foi solitária e isolada. Seus pais não deixavam-na brincar com outras crianças, a não ser seus parentes, quando estes visitavam sua casa. Seus primos a achavam estranha e introspectiva, sem nem saber o que era isto. Os irmãos do pai dela, diziam a ele, que não era saudável para uma menina ser criada daquela forma, pois um dia teria de enfrentar o mundo e eles não poderiam mantê-la afastada por toda a vida. Mas os pais não se importavam, a sua fé os protegeria, afirmavam.
A frequência aos cultos no domingo, era um dos poucos momentos que Rute podia sair de casa. Sem ter costume de fazê-lo, ficava assustada e arredia, chegando mesmo a se esconder de outras crianças que queriam brincar com ela. Os pais a mantiveram assim, ensinado-a em casa a palavra de Deus e as tarefas domésticas, como devia ser para uma menina. Matemática, geografia, história, a não ser a de Jesus Cristo, química, física e outras coisas mais, eram consideradas desnecessárias para uma menina.
Infelizmente, para os pais dela, a vida é bem mais cruel e Deus não tem tempo para olhar por todos, então, o sítio em que vivam quebrou devido a dívidas. O pai foi obrigado a vender e com que restou, vieram para a cidade grande em busca de uma nova vida. O renascimento não era uma tarefa fácil, pois nada sabia fazer, a não ser trabalhar a terra, e a esposa era uma Dona de Casa típica, que nem opinião tinha, a não ser sobre questões de Deus.
O pai arrumou um emprego de ajudante de pedreiro e a mãe de empregada doméstica, onde ficava a semana inteira morando na casa da patroa, levava com ela Rute. Compraram uma casinha em uma favela com que restou do dinheiro do sítio e a vida teve seu recomeço. Mas a patroa da mãe dela, vendo aquela criança dentro de casa todo dia sem ir à escola, começou a cobrar da mãe para arrumar um colégio para ela. A mãe se esquivava e dizia que não era preciso, tudo que ela devia aprender, ela e o marido ensinariam. Mas a patroa não aceitou, pressionou tanto, que Rute acabou sendo matriculada em uma escola pública.
Sem nunca ter ido à escola e sabendo apenas ler a Bíblia, Rute começou no primário, apesar de ter uma idade superior a das outras crianças. Penou! Foi chamada de retardada e mal-tratada pelas outras crianças que não aceitavam seu jeito arredio e seu tamanho. Misturada com a inocência, era uma cruz pesada demais para uma criança carregar. Mas nunca reclamava nem para mãe ou ao pai sobre seus problemas no colégio. Sofria em silêncio, como toda boa mulher temente a Deus, na visão deturpada dos pais cristãos. À noite, seu conforto era ler as sábias palavras de seu salvador.
A vida foi em frente, veio a adolescência e a juventude, sem nunca Rute conseguir se ajustar aquele mundo pagão que fora jogada. Feliz só se sentia na Igreja. Lá acabou conhecendo um outro devoto, Mário, filho de nordestinos e trabalhador duro como seu pai, conseguiu permissão para frequentar a casa dela. Iniciaram um namoro nos moldes de séculos atrás. Toques na mão era a única intimidade permitida e muito menos beijos. Mário estava apaixonado, aceitava tudo, e Rute assustada, não sabia o que devia fazer, mas seguia a opinião das únicas pessoas em quem confiava: os pais. Disseram que devia namorar o pio Mário. Depois deviam ficar noivos e por fim, casar. Rute seguiu todos os conselhos imaginando ter a vida perfeita de sua mãe e da mãe de Deus.
Casaram-se! Houve festa e alegria, Rute se permitiu um sorriso, mas estranhou toda aquela gente tão próxima dela, pois não gostava daqueles exageros e desperdícios, Mário era só contentamento, pois finalmente poderia beijar, tocar e ter sua mulher por inteiro. Sua mãe, antes dela ir para a casa com o marido, a chamou para conversarem. Explicou que uma mulher deve obediência ao marido e deve realizar suas vontades e desejos, alguns pecaminosos, mas apenas no intuito de terem filhos, pois só assim é aceito por Deus. Nada mais disse. Não explicou absolutamente nada a filha, sobre a vida marital ou sobre sexo. Sobre corpo, moradia do pecado. Só afirmou que não poderia haver prazer na consumação do casamento. Rute não entendeu nada, mas silente seguiu com seu marido.
A noite de núpcias foi uma tortura! Nem ela e nem o marido tinham a mínima idéia de como fazer e o que fazer. O marido cheio de desejo e sem nunca ter sido ensinado a se importar com a mulher ao seu lado, acabou ferindo-a na primeira noite. Rute ficou desesperada com seu destino, o marido infeliz com sua primeira noite de prazer, pois fora rápida e sem alegrias. Assim como seria a vida de ambos dali pra frente. A vida dela era simplesmente cuidar da casa e preparar as coisas para a chegada do marido. Sozinha pela primeira vez na vida durante as horas de espera, passou a cultivar o hábito de assistir televisão. Foram seus primeiros ensinamentos reais da vida. Foi a primeira vez que descobriu existir uma vida diferente daquela lhe foi ensinada pela mãe. No início, acreditou ser coisa do demônio, tentando toda a gente, mas com o passar dos dias e o convívio mais próximo com outras pessoas no supermercado, na padaria, no cabeleireiro, na farmácia e mesmo na igreja, agora sem a presença dos pais. Acabou criando novas expectativas e descobriu que o marido, também, devia tê-las. Não sabia bem o que fazer a respeito, sentia apenas um aperto no peito.
As noites eram ainda mais terríveis, pois tinha de cumprir suas obrigações como esposa, era um ato de fé e abnegação. A dor era sempre presente e nada podia dizer e nem sentir, o marido uma vez a acusou de ser frígida, mas nem ele e nem ela sabiam o que significava aquilo. Ficou grávida no primeiro ano do casamento e teve uma linda menininha, que colocaram o nome de Madalena. Isto os deixou mais próximos e aqueceu um pouco o casamento, apesar de Mário desejar, e não escondia isso, que queria um filho homem para ajudá-lo quando crescesse. "Mulher não serve para nada!" afirmava ele. O garoto veio um ano depois e mais um dois anos após ele. Eram três filhos, mais três bocas para alimentar e mais trabalho na casa. O único alívio foi que as noites em que devia cumprir seu papel de esposa, passaram a ser mais espassadas, agora só dormiam juntos uma vez por semana. Havia dias em que Mário nem voltava para casa. Bem... um dia ele não voltou mais. Conhecera uma 'galega' na rua, que era "bem melhor na cama do que você". falou. Deixou a casa e a vida dela, com três crianças, nem ao menos dava dinheiro para cuidar dos filhos, pois ela nem sabia que existiam advogados para cuidar de casos assim.
Decidiu trabalhar fora para cuidar das crianças. Um pastor arrumou um emprego de empregada doméstica, como a mãe, em uma casa de fiéis da igreja e a vida de Rute recomeçou pela terceira vez. Os pais vieram dar-lhe conselhos e recriminá-la por ter perdido o marido. Vieram uma vez... vieram a segunda vez... vieram a terceira vez recriminá-la, foi quando Rute perdeu a paciência, culpou os pais por tudo de ruim que havia acontecido com ela e a falta de preparo que ela tinha para a vida. O pai quis gritar com ela e, então, fez o ato mais corajoso de toda a sua vida. Colocou-os para fora. Largou a igreja e voltou para a escola e decidiu que seus filhos nunca passariam por aquilo, principalmente, a primogênita. Finalmente, ela descobriu o verdadeiro caminho da fé: o conhecimento de si mesma.

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