22 dezembro 2007

Boogie Woogie - Paz & Amor

Natal nos faz pensar em muitas coisas, principalemte, em como tratamos as pessoas à nossa volta. Este é um pequeno Conto de Natal que fala de como tudo podria ser bem melhor.

Sair de casa e não saber se voltará, transformou-se em uma rotina na vida diária do Rio de Janeiro. Todas as pessoas que vivem na chamada Cidade Maravilhosa, convivem com este medo. Este medo, porém, é bem mais presente na vida de um profissional: o Policial. Desde que inicia na profissão, uma sentença de morte paira sobre a sua cabeça. Todos os dias... todas as semanas... todos os meses, esta sentença está presente. Influencia as suas ações e de todos os que o amam.
César era policial a quase cinco anos, já não pensava mais neste fato. O hábito havia transformado o medo em apenas mais um detalhe do viver. Afetava-o mais, a rejeição que sentia das pessoas a sua volta: vizinhos, transeuntes, comerciantes e o povo em geral. Havia medo em seus olhos quando o encaravam... quando o encaravam! Machucava ver mães segurando mais firme o pulso de uma criança, quando ele se aproximava. Já não usava a farda quando saía de casa e sua esposa não contava para os vizinhos o que ele fazia. Dizia, sempre, que trabalhava no ramo da segurança. Haviam mudado de residência três vezes desde que ele entrara para a Corporação.
César nunca fez nada de desonesto ou tomou atitudes que pudessem trazer tamanha rejeição a sua pessoa... mas outros o fizeram e agora tinha de conviver com este fantasma da culpa alheia. Era como ser um pária, em meio a sua comunidade. Ficou pior, quando foi designado para trabalhar dentro de um DPO na favela do Boogie Woogie, na Ilha do Governador. Pois via acontecer "coisas erradas" concretizadas pelos dois lados da história: policiais e comunidade. Cumpria estritamente seu dever e sempre buscava manter uma certa distância de tudo e todos. Não envolver-se passou a ser uma regra de vida e esconder sua verdadeira face, passou a ser uma questão de sobrevivência. Só podia ser ele mesmo em sua residência... com seus familiares. Aquilo gerava uma enorme tensão em sua vida. Em muitos momentos, esta tensão acabava explodindo sobre seus entes mais queridos.
Era Natal, em anos anteriores, que César não chegou a conhecer, a comunidade dava presentes para os policiais do posto. Eram convidados para a ceia e recebidos nos lares das pessoas de bem. Comerciantes sempre organizavam uma "vaquinha" para presenteá-los. Nos dias de hoje, nem era bom que ficassem no posto, pois diversas vezes o feriado era comemorado dando tiros nos policiais de plantão. Atitudes de jovens inconseqüentes e sem nenhum tipo de respeito a vida. Mas, infelizmente, uma maioria que tinha o controle através do medo e da inação. César fora escalado para o plantão de Natal no posto. O novo comandante do Batalhão queria demonstrar força e decidiu não retirar nenhum policial do plantão dentro das favelas do bairro, para mostrar que seus policiais não tinham medo da "bandidagem".
César saiu de manhã, beijou esposa e filha como de costume, mas seu coração e alma não estavam normais. Eram 24 horas que passariam em um vagar menor que de costume. Seria a volta do medo que havia deixado de ter importância anos atrás. A esposa deu conselhos, alguns amigos do Batalhão, também. Mas que conselhos poderiam ser de alguma validade em uma situação extrema como aquela. Ninguém estaria vestindo aquela farda azul e servindo de uma alvo para pessoas beligerantes com desejo de demonstrar sua masculinidade e coragem colocando uma bala em sua cabeça.
Passou no Batalhão, trocou de roupa e pegou as ordens com o Oficial de Plantão. Encontrou seu parceiro desta longa noite de Véspera de Natal. Estava tão assustado quanto ele. Um apoiou o outro e seguirão na viatura 013 para o morro. Ao estacionarem no Campinho, foram fuzilados pelos olhares de todos: comerciantes e moradores. Há muito nenhum policial passava à noite de Natal no morro. Foram para o DPO e ficaram encastelados lá.
O Campinho fervilhava de movimento. Estavam preparando uma grande ceia para os moradores, instalaram até mesmo uma árvore de Natal com diversos presentes para todos. O relógio implacavelmente mostrava cada segundo de angústia e dúvida que ambos passavam ali. Às quatro horas da tarde, os sinos da Capela de Nossa Senhora das Graças bateu, anunciando a missa de Natal. César era católico e devoto, sempre ia as missas ao Domingo com a família. Sempre assistia a Missa do Galo quando podia. O sino batia insistentemente para chamar os fiéis. César tomou a sua mais ousada decisão. Iria assistir a Missa, seu parceiro tentou dissuadi-lo da idéia, mas ele ficou irredutível.
Desceu as escadas do Posto e foi para o Campinho sobre os olhares de moradores e comerciantes assustados. Entrou na Igreja, colocou a mão na pira de água benta e fez o sinal da cruz. Sentou ao lado de uma família, que assustada se afastou, mas a filha menor foi chegando perto e olhando fixamente para César, que lhe deu uma piscadinha e arrancou risos da menininha. Antes da comunhão, havia o cumprimento das pessoas da comunidade para desejar Feliz Natal. César estava preparado para que ninguém falasse com ele, apesar de todos o conhecerem. Mas a bela menininha quebrou todas as expectativas, não só o cumprimentou como fez questão de dar-lhe uma abraço. A família seguiu o exemplo e todos na Igreja também. À noite encheu-se de sorrisos de confraternização e felicidade.
O padre, que organizara a ceia, convidou César para participar. O medo ainda presente, o inclinava a recusar. Mas a menininha segurou em sua mão e o convidou. César não conseguiu recusar, mas resolveu não sentar a mesa e ficar em pé, comendo. Foram servidos os "comes e bebes", veio oi Coral de Crianças para cantar músicas natalinas. Abrirão os presentes e as crianças desembestaram alegremente a correr por todos os cantos. César estava feliz, sorria e ria despreocupadamente. Até que de repente, os "donos do morro" aparecerão! César não teve tempo de puxar seu revólver, que nada adiantaria, mas teria a oportunidade de se defender.
O prenderão! Um bandido de cada lado e bateram no seu rosto. O "patrão" decidiu matar aquele PM insolente, que se acha melhor do que os outros. Apanhou uma arma de grosso calibre e apontou para César. Foi quando, a pequena e delicada menininha, com toda a coragem conferida pela inocência dos seis anos de idade, puxou a camisa do "patrão" e pediu: 'Não machuca ele, não, seu moço! É Natal!' O patrão tentou empurrá-la para longe, mas ao ver os olhos cheios de lágrimas da menininha, não conseguiu atirar. Resolveu dar uma surra apenas para ensinar uma lição, mas o gesto de coragem e bondade daquela corajosa infante, fez com que os moradores cercassem César e o retirassem das mãos do "patrão" e seus asseclas. Não deixaram ninguém o tocar. Também, não deixaram que voltasse para o Posto. Chamaram seu parceiro e todos comeram e festejaram o Natal em paz. Sem tensão... sem morte. Feliz Natal à todos
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